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O Agente Secreto é um filme que não deixa o espectador indiferente. Em sua energia caótica, há quem o adore e quem o ache decepcionante.
Voltamos ao Recife de Kleber Mendonça Filho, desta vez em 1977, num período de endurecimento da ditadura, após o fracasso do “milagre econômico”. E logo salta aos olhos a reconstituição de época, em escala e minúcia. A verossimilhança se estabelece para que possamos acompanhar a intensidade do drama e a picardia do humor. O próprio diretor declarou que a ideia do filme surgiu pela vontade de fazer um thriller com Wagner Moura, trazendo o ator para o seu universo cinematográfico.
O prêmio de melhor direção no último festival de Cannes consagra um cineasta esteticamente arrojado, um cidadão do mundo, mas que nunca esquece suas raízes brasileiras, nordestinas. É neste O Agente Secreto que melhor percebemos a ambição de Kleber Mendonça Filho em querer criar uma obra que mistura rigor e irreverência. Porque o Brasil é essa contradição, entre a violência e a alegria. O diretor abraça o bizarro e o surreal, como um apaixonado pelo cinema de gênero, e também ciente de que essa é mais uma camada simbólica que representa referências culturais multifacetadas e um passado histórico brutal.
Infelizmente, nem tudo funciona no filme. Sua estrutura, por meio da montagem e do roteiro, tem momentos que não convencem na alternância de linha temporais, perdendo força ao quebrar a imersão com cenas mal desenvolvidas e conduzidas por atuações desinteressantes. A falta de coesão oscila entre a liberdade da imaginação sem amarras e a inabilidade de lidar com todas as peças colocadas em jogo. E, por fim, há algo mais problemático. Como uma produção explicitamente política, O Agente Secreto é limitado em suas intenções. O foco é a angústia da classe média, do indivíduo, diante de forças que buscam aviltar seu modo de vida, de eliminar sua própria existência. O povo, o coletivo, mesmo presente, é algo secundário na urgência da trama. (Há uma análise mais aprofundada desta questão no Youtube, no vídeo “O Agente Secreto e Kleber Mendonça Filho: a consciência crítica da esquerda progressista”, do canal Farol Brasil, por Heribaldo Maia.)
O maior mérito de O Agente Secreto é a ousadia de ser um cinemão pelo avesso. Oferece aos espectadores o que desejam e o que menos esperam. Quebra expectativas ao mesmo tempo em que mexe com nossas emoções.
Últimos recados
O Oscar 2017 está logo aí e teremos o nosso tradicional BOLÃO DO OSCAR FILMOW!
Serão 3 vencedores no Bolão com prêmios da loja Chico Rei para os três participantes que mais acertarem nas categorias da premiação. (O 1º lugar vai ganhar um kit da Chico Rei com 01 camiseta + 01 caneca + 01 almofada; o 2º lugar 01 camiseta da Chico Rei; e o 3º lugar 01 almofada da Chico Rei.)
Vem participar da brincadeira com a gente, acesse https://filmow.com/bolao-do-oscar/ para votar.
Boa sorte! :)
* Lembrando que faremos uma transmissão ao vivo via Facebook e Youtube da Casa Filmow na noite da cerimônia, dia 26 de fevereiro. Confirme presença no evento https://www.facebook.com/events/250416102068445/
Extermínio: O Templo dos Ossos, de Nia DaCosta, é o melhor capítulo da franquia, superando até mesmo o icônico primeiro filme. Nessa nova trilogia, eu já tinha gostado bastante do anterior, Extermínio: A Evolução, por levar esse universo a outro patamar estético e filosófico, na perspectiva do exaurido subgênero do filme de zumbi. Inicialmente, A Evolução faz uma crítica mordaz sobre os escombros da sociedade britânica nesse pós-apocalipse, onde os sobreviventes, gente branca, monárquica e protestante, perpetuam comportamentos e rituais nostálgicos conservadores. Ou seja, uma crítica ao isolacionismo do Brexit. O Templo dos Ossos vai ainda mais longe em sua ambição narrativa e estética.
Numa trama, aparentemente simples, autocontida, vemos um embate entre a barbárie e a gentileza num mundo colapsado. Nos deparamos com os Jimmies, misto de delinquentes e fanáticos religiosos, que tocam o terror de maneira brutal. Existe uma sacada brilhante na caracterização desses personagens. Todos são representados como uma paródia do carismático apresentador de televisão Jimmy Savile. Muito famoso na Inglaterra desde os anos 1960, depois de sua morte, descobriu-se que ele era um predador sexual com centenas de vítimas.
Por outro lado, a figura do zumbi é reinventada mais uma vez. No primeiro filme da franquia, o diretor Danny Boyle e o roteirista Alex Garland criaram o zumbi que corre, potencializando a ameaça. Em Templo dos Ossos, Garland retorna, e junto com a diretora DaCosta, trazem mais um novo e intrigante elemento ligado aos zumbis. A todo momento, os dois perguntam: é possível recuperarmos nossa humanidade? É possível transformá-la em algo melhor?
Ambas as produções são obras de terror assustadoras e belissimamente filmadas. Corajosas por propor um outro ritmo de narrativa, entre o contemplativo e o visceral, dando tempo e espaço para respirarmos e nos angustiar junto com os personagens.
Existe uma grande expectativa para o terceiro filme, mas seu lançamento é incerto. Apesar da aclamação da crítica e da aprovação de muitos fãs, A Evolução e O Templo dos Ossos foram filmes caros que arrecadaram abaixo do esperado nas bilheterias.