Após concluir um filme, diretor de cinema viaja pela Europa tentando relembrar da história de amor que amigo lhe contara, já pensando no roteiro de sua próxima produção. No caminho que percorre, acaba presenciando outras histórias que se somam à primeira.
O Trailer não é desse filme. Precisam acertar isso.
Colaboração entre Michelangelo Antonioni e Wim Wenders, na qual este último exerceu somente o trabalho físico necessário à cadeira de diretor, enquanto aquele - debilitado pelo AVC sofrido - foi o mentor intelectual de todas as histórias. De certa forma, essa relação é traduzida no rápido segmento em que traz um Marcello Mastroianni envelhecido e quase irreconhecível, feliz e realizado por poder 'apenas copiar' o quadro de um outro artista mais conceituado. "Além das Nuvens" segue a cartilha do cineasta de tratar dos relacionamentos complicados e da dificuldade em expressar os sentimentos humanos de uma forma, acima de tudo, poética, sem se importar com a verossimilhança das situações. Mas como todo longa de segmentos apresenta seus altos e baixos. Por exemplo, o episódio em que nos é apresentado um infiel Peter Weller começa de forma promissora, mas logo é jogado no lixo em um desfecho esquemático, simplista e decepcionante. Já as histórias que abrem e fecham o longa (a do casal em Ferrara, e a da moça religiosa), soam um pouco melhor resolvidas na forma como ilustram o platonismo de paixões repentinas e absurdas, ainda que também falhem em criar uma conexão com o público. Já a trama protagonizada por John Malkovich é a mais fraca de todas e a única que parece não levar a lugar algum (curiosamente, é ela que dá liga a todo o resto do filme). A impressão que dá, é que os quatro segmentos eram 'sementes de ideias' para futuros longas que, por ocasião do derrame sofrido por Antonioni, nunca puderam ser devidamente amadurecidas. Fico feliz, ao menos, que o cineasta tenha podido tirá-las do papel. E, por si só, 'Além das Nuvens' consegue ser um filme melhor que os dois anteriores do cineasta ("O Mistério de Oberwald" e "Identificação de uma Mulher"), o que, considerando o legado do artista, é importante.
O mestre Antonioni teve que enfrentar muitos obstáculos para realizar seu último longa: um elenco internacional que deveria tocar todos os estilos de público em todo o mundo (John Malkovich, Paul Weller, Ines Sastre, Fanny Ardant, Sophie Marceau e 'en passe ...), a supervisão de um cineasta Wim Wenders, Então, vamos esquecer as sequências que "dão sentido" filmadas por Wenders (prólogo, epílogo e intervalos), o "jogo profundo" dos atores, a pretensão de máximas, provérbios e reflexões semeadas aqui e ali ... Esqueça o segundo esboço (ridículo) ) e o terceiro (acordado).
Por outro lado, para quem conhece o trabalho de um dos maiores gênios do cinema, que satisfação se deixa embarcar no primeiro e no quarto esboços, de longe o mais romântico, o mais sóbrio ... os únicos que se aproximam, através de belezas dispersas, o tema essencial deste trabalho doentio: a incapacidade da maioria de nossos semelhantes de dizer "eu te amo", sem uma palavra, pelo único poder carnal. Não é uma obra prima, mas vale pelo gênio de Michelangelo Antonioni.
"Quando estou cansado após terminar um filme, começo a pensar no próximo. É só o que me resta fazer e o que eu sei fazer; começo a tentar definir o filme que farei a seguir. A coisa mais difícil é não poder se interessar por nada - não ler, não ter nenhuma distração -, alcançar o silêncio e a escuridão. É na escuridão que a realidade se acende; é no silêncio que as vozes chegam de fora", divaga, para si, um diretor cinematográfico em meio ao pouso de sua aeronave e já em terra, a bordo da direção de um automóvel numa Ferrara tomada pela chuva e neblina e envolta num fog tão londrino quanto àqueles tempos fechados proporcionados pelas temporadas chuvosas das cidades próximas ao delta do rio Pó italiano.
O desabafo do personagem principal de "Além das Nuvens", logo na primeira cena, já dá a tônica do que é pretendido pelo Michelangelo Antonioni aqui: é, antes de tudo, uma reflexão sobre seu métier, seu ofício, o que é ser um diretor de cinema; mais que isso, é também uma reflexão sobre a sua matéria prima primordial, a inspiração, aquele desejo que move alguém a passar boa parte de seu dia - e o resto de sua vida - pensando no que filmar, no por quê de escolher tal história ou temática e o como se produzir tal empresa.
Aqui, as reflexões do diretor fictício - um alter ego do italiano? - perpassam sua profissão: de câmera na mão, percorre cidades, pequenas pousadas, mesmo igrejas ou apartamentos de luxo, atento ao seu redor, ao que lhe cerca, ao cotidiano que, se seria um "comum" a qualquer outro naquele cenário pode, ali nas suas mãos postas numa câmera de filme ou fotográfica, virar um "diamante", uma obra de valor do cinema, uma história a ser exibida; para tanto, (anônimo!) age
quase como que um voyeur, atento às menores ações de outros, a qualquer passada e movimento ao seu redor: não poupa de sua vista a tentativa frustrada de um rapaz com uma jovem, que se prepara para partir ao convento, ou, como no belíssimo take final, às janelas da pousada em que se encontra: à moça, de cabelo chanel, fumando na sacada, ao casal que se prepara, na chuvosa noite, para transar. Percorre, também, uma traição de um estadunidense com uma italiana em Paris, e mesmo de um amor nunca correspondido de um técnico em bombas hidráulicas com uma professora, em férias, em Ferrara.
Pequenas passagens de "Além", tão breves num filme que tinha um potencial para ser memorável, refletem o próprio modo de pensar e fazer do Antonioni: a prática de quase uma mimesis, de buscar, ao copiar métodos daqueles que nos servem de referência, se aperfeiçoar no ofício, como no caso de
um pintor, interpretado por um já velhinho Marcello Mastroianni, que tenta incessantemente, mesmo às risadas de sua companheira, se aprofundar em seu estilo a partir da técnica de um Paul Cézanne
Tem, também, as marcas que o fizeram - mesmo que num viés polêmico, por vezes canalha mesmo - ser quem foi no campo do cinema: a presença constante do erótico, do flerte que beira quase que ao incômodo, das traições, mentiras matrimoniais e enganos - seja à amante ou à esposa.
Infelizmente, "Além" desperdiça um potencial inacreditável; uma hora e quarenta de duração simplesmente não consegue dar conta da expectativa daquilo que poderia ter saído nessa parceria do italiano com Wim Wenders - que, por sua vez, já havia explorado temática semelhante no seu excelente "O estado das coisas", de treze anos antes.
A sensação que fica, ao menos pra mim, é a da entrega de um produto incompleto, ou feito as pressas, que por vezes sub-aproveitou mesmo o elenco, de peso aqui, na construção da narrativa; esta é atropelada, e aquelas boas histórias apresentadas, quase com o sabor de contos literários, se perdem numa afobação ou mesmo surgem com impacto para, em seguida, desaparecer tão rapidamente do modo como apareceram.
De todo modo ficam as ressalvas mas, também, os aspectos positivos; afinal, como nos diz o personagem principal, "a profissão de um diretor é singular [...];nosso esforço é voltado para a assimilação de novas emoções [...]. Somos desabrigados, expostos ao olhar, à suspeita e à ironia de todos, sem poder falar a ninguém de nossa aventura pessoal que não está registrada no filme ou no roteiro".
É, conclui - sempre para si -, "uma lembrança estranha como de um presságio, do qual o filme é só uma comprovação incompleta".
Também é, certamente, quase que uma autobiografia metódica (me sinto obrigado a criar o termo), uma despedida, do velho Antonioni que deixaria este como sendo uma de suas últimas produções de sua filmografia.
23/10/2018