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9 Out. 2009Duração
Em Alexandria, no ano de 391, Hipátia é professora de astronomia e matemática, além de filósofa. Um dos seus alunos, Orestes, está apaixonado por ela, assim como o seu escravo Davus. Juntos, eles deverão lutar contra extinção da biblioteca local e outras grandes instituições, que não devem sobreviver quando o Cristianismo ganha poder político na cidade.
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Domingo de folga pede cinema em casa, e hoje aproveitei a companhia do meu filho para assistir ao filme que conta a história de Hipátia de Alexandria. Ela foi uma matemática, astrônoma e filósofa impressionante, e o longa mostra toda a sua trajetória, a busca incansável pelo conhecimento e os conflitos com o crescimento do cristianismo na época, até o seu trágico fim.
Foi uma experiência marcante e enriquecedora, pois retrata um capítulo fundamental da história da humanidade e nos faz refletir sobre o valor da ciência e do livre pensamento. Valeu super a pena cada minuto! Assistimos na Pluto TV.
"Somente uma vez antes em nossa história houve a promessa de uma civilização científica brilhante. Beneficiária do Despertar Jônico, tinha sua fortaleza na Biblioteca de Alexandria, onde há 2.0Q0 anos as maiores inteligências da antigüidade estabeleceram as fundações para um estudo sistemático da matemática, física, biologia, astronomia, literatura, geografia e medicina. Construímos ainda sobre essas fundações. A Biblioteca foi construída e mantida pelos Ptolomeus, reis gregos que herdaram a porção egípcia do império de Alexandre, o Grande. Do tempo da sua criação no século III A.C. até a sua destruição sete séculos depois, ela foi o cérebro e o coração do mundo antigo.
Alexandria era a capital das publicações do planeta. Naturalmente não havia impressoras e os livros eram caros, cada um deles copiado à mão. A Biblioteca era o repositório das cópias mais precisas do mundo. A arte da edição crítica foi inventada lá. O Antigo Testamento chegou-nos principalmente através das traduções gregas feitas na Biblioteca Alexandrina. Os Ptolomeus devotaram grande parte da sua riqueza à aquisição de cada livro grego, bem como aos trabalhos da África, Pérsia, índia, Israel e de outras partes do mundo. [...]
Os Ptolomeus não colheram meramente o conhecimento estabelecido; encorajaram e financiaram a pesquisa científica e geraram assim novos conhecimentos. Os resultados foram espantosos: Eratóstenes calculou com precisão o tamanho da Terra, mapeou-a e argumentou que a índia podia ser atingida navegando-se para o oeste partindo da Espanha. Hiparco antecipou que as estrelas se formavam, movendo-se lentamente no curso dos séculos, e eventualmente perecendo, foi ele quem primeiro catalogou as posições e magnitude das estrelas para detectar as alterações. Euclides produziu um livro-texto de geometria no qual os seres humanos aprenderam, por vinte e três séculos, um trabalho que ajudou a despertar o interesse científico de Kepler, Newton e Einstein. Galeno escreveu livros básicos sobre a arte de curar e anatomia que dominaram a medicina até o Renascimento. Houve, como já vimos, muitos outros.
Alexandria foi a maior cidade do mundo ocidental jamais vista. Pessoas de todos os países acorriam para lá para viver, comerciar e aprender. Em qualquer dia, seus portos estavam acumulados de mercadores, estudiosos e turistas. Era uma cidade onde gregos, árabes, sírios, hebreus, persas, núbios, fenícios, italianos, gauleses e iberos trocavam mercadorias e idéias. Foi provavelmente lá que a palavra cosmopolita cumpriu seu significado real — cidadão, não de uma só nação, mas do Cosmos. Ser um cidadão do Cosmos.
Sem dúvida, lá estavam as sementes do mundo moderno. O que os impediu de criarem raízes e florescerem? Por que o oeste hibernou por mil anos de trevas até Colombo, Copérnico e seus contemporâneos redescobrirem o trabalho feito em Alexandria? Não posso lhes dar uma única resposta. Só o que sei é: não há registros, na história inteira da Biblioteca, de qualquer um de seus ilustres cientistas e estudiosos jamais terem seriamente desafiado as suposições políticas, econômicas e religiosas da sua sociedade. A permanência das estrelas foi questionada, a justiça da escravidão, não. A ciência e o aprendizado em geral eram preservados para alguns privilegiados.
A vasta população da cidade não tinha a mais vaga noção das grandes descobertas que ocorriam na Biblioteca. Novas descobertas não eram explicadas ou popularizadas. A pesquisa pouco os beneficiou. As descobertas na mecânica e na máquina a vapor eram aplicadas principalmente no aperfeiçoamento de armas, encorajamento da superstição e distração dos reis. Os cientistas nunca obsequiaram o potencial das máquinas às pessoas livres. As grandes realizações intelectuais da antigüidade tiveram poucas aplicações imediatas. A ciência nunca penetrou na imaginação da massa. Não houve um contrabalanço na estagnação, no pessimismo e na renúncia mais abjeta ao misticismo. Quando, no fim, o motim incendiou a Biblioteca, não houve ninguém que os impedisse.
O último cientista a trabalhar na Biblioteca foi uma astrônoma, matemática, física e a líder da escola neoplatônica de filosofia — uma gama extraordinária de instrução para um indivíduo em qualquer idade. Seu nome era Hipácia. Nasceu em Alexandria em 370. Em uma época em que as mulheres possuíam poucas opções e eram tratadas como propriedade, Hipácia movia-se livre e desinteressadamente pelos domínios masculinos tradicionais. Segundo a opinião corrente, ela era muito bela. Teve vários pretendentes, mas rejeitou as ofertas de casamento.
A Alexandria da época de Hipácia, então sob o domínio romano, era uma cidade sob grande tensão. A escravidão tinha minado a civilização clássica na sua vitalidade. A Igreja Cristã em expansão consolidava seu poder e tentava erradicar a influência e cultura pagãs. Hipácia permaneceu no epicentro destas poderosas forças sociais. Cirilo, patriarca de Alexandria, desprezou-a pela sua amizade íntima com o governador romano e por ser ela um símbolo do saber e da ciência, que eram identificados no início da Igreja com o paganismo. Com grande perigo pessoal, ela continuou a ensinar e a publicar, até que no ano de 415 foi atacada por uma turba fanática de paroquianos de Cirilo. Tiraram-na de sua charrete, rasgaram suas roupas e, armados com conchas, esfoliaram-na até os ossos. Seus pertences foram queimados, seus trabalhos obliterados, seu nome esquecido. Cirilo foi canonizado.
A glória da Biblioteca de Alexandria é agora uma lembrança apagada. Seus últimos remanescentes foram destruídos logo após a morte de Hipácia. Foi como se uma civilização inteira tivesse sofrido uma cirurgia cerebral autoinfligida, e a maioria de suas lembranças, descobertas, idéias e sentimentos tivessem extinguido inexoravelmente. A perda foi incalculável. Em alguns casos, sabemos somente os títulos assombrados dos trabalhos que foram destruídos. Na maioria, não sabemos nem os títulos e nem os autores.
Sabemos que das 123 peças de Sófocles na Biblioteca, só sete se salvaram. Uma delas é Édipo Rei. Números semelhantes se aplicam aos trabalhos de Ésquilo e Eurípides. É como se os únicos trabalhos que tivessem sobrevivido de um homem chamado William Shakespeare fossem Coriolano e Uma História de Inverno, mas que tivéssemos ouvido ter ele escrito outras peças desconhecidas para nós, mas aparentemente apreciadas na sua época, trabalhos entitulados Hamlet, Macbeth, Júlio César, Rei Lear, Romeu e Julieta. Do conteúdo físico daquela gloriosa Biblioteca não restou um único rolo de pergaminho."
(SAGAN, Carl. Cosmos. Companhia das Letras, 1980, p.334-336)
Os detalhes da produção são bem realizados, boa ambientação histórica , fotografias, figurinos, etc e claro possui um enredo interessante ao propor um olhar contra o fanatismo religioso ao mesmo passo que é embutido de um espírito maniqueísta bastante óbvio. Mas me incomoda um pouco a construção de personagens e ritmo da história, na minha visão falta de habilidade de Amenábar como diretor em instigar o espectador por aquilo que está em tela. Oscar Isaac é a antipatia em pessoa. Frágil.
Fiquei fascinado pela recriação da Alexandria do século V, representando - sobretudo através da arquitetura - a mescla entre Egito, Grécia e Roma. Ainda que cometa alguns anacronismos, é louvável a intenção de Alejandro Amenábar ao construir um filme histórico com ideias, muito mais do que batalhas e romances, contemplando, do início ao fim, diversos pensamentos filosóficos e religiosos. Muito bem vinda a referência à obra “Cosmos”, de Carl Sagan, como nas transições aéreas que situam Alexandria no globo e revelam quão pequeno é aquele mundo turbulento disputado com unhas e dentes por cristãos e pagãos.
Uma pequena joia do cinema histórico que reflete a grandiosidade, a complexidade e as controvérsias da outrora cidade mais importante da Antiguidade Tardia.
7☄️
Une uma injustiça histórica bem complexa com um ótimo desenvolvimento dos personagens nesse cenário conflituoso, extremamente carregado de amargura e sentimento. Trama muito interessante em todas as suas diferentes óticas, se projetando na história das suas próprias formas. Com um ótimo final para o clímax dramático do arco da protagonista muito boa.