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Não é ruim, mas está longe do nível da primeira temporada. O elenco todo está ótimo, mas Caillee e Carey roubam a cena, entregando atuações excelentes. O problema maior é roteito, com personagens demais, que acabam sendo mal desenvolvidos (como a súbita mudança de atitude do Doutor Kim, por exemplo, que não convence) e deixando muitas pontas soltas (sendo o desfecho da Eunice o maior deles).
Um filme de muitas camadas, que não é tão simples quanto parece - ou quanto alguns dizem que ele é. O fato de tanta gente precisar de ajuda para entender o final - e existem inúmeros videos de influenciadores no Instagram, Youtube e Tiktok explicando esse final para o público - é indicativo tanto dessa complexidade, quanto da dificuldade de interpretação e de atenção do público atual.
Já foi dito aqui, por outros usuários do Filmow, qua a premissa inicial ou mais óbvia do filme é a "cuidado com o que você deseja". Porém, essa premissa, aparentemente banal, abre a possibilidde de uma interpretação psicanalítica do filme, tendo como base principalmente as contribuições de Freud e Lacan. Isto porque, a psicanálise freudiana faz uma distinção importante entre "desejo" e "querer". O desejo tem seu conteúdo oculto, dissimulado, sob a aparência do querer. No caso deste filme, quando o personagem faz o pedido para que Nikki o ame mais do que tudo no mundo, isso, na verdade, corresponde ao seu querer, não ao seu desejo. O seu desejo é outra coisa. Uma coisa que ele, inconscientemente, acredita que poderá obter por meio da realização desse querer. No caso de Bear, um homem claramente inseguro, mas que também se mostra, ao longo do filme, indiferente (ou, no mínimo, irresponsável em relação) ao sentimento do outro, o que se esconde por trás do querer, pode ser o desejo de ser amado, de se sentir valorizado, ou até mesmo de posse, controle e dominação. Nesse sentido, o filme se revela um poderosa metáfora crítica dos relacionamentos abusivos, da visão da mulher com objeto, da masculinidade tóxica, etc.
Além disso, o desejo e o querer são, do ponto de vista da psicanálise, idealizações. O objeto do desejo não existe fora do ser que deseja, sendo apenaas um constructo de sua mente, de sua psiquê. Desse modo, a realização do desejo, isto é, sua materialização, jamais corresponderá ao que foi idealizado. Consequentemente, o desejo, quando realizado e fruído, não gera satisfação, mas decepção, frustação e sofrimento. Logo, a grande questão psicanálitica, colocada por Freud e Lacan, é: "Será que nós realmente queremos que nosso desejo se realize? Será que nós estamos prontos para encarar nossos desejos quando eles se materializam e suas consequências?". Sendo assim, a concepção de amor que Bear tinha, era construída a partir de sua relação com o mundo e com os outros. Em outras palavras, o amor, para ele, era um conceito construído a partir do que ele viveu. Nesse sentido, os únicos personagens que talvez amaram Bear (u propiciaram a ele uma experiência que ele julgou ser amor) foram sua gata e sua avó. Portanto, quando ele deseja que Nikki o ame, é esse amor que ele conhecia que é projetado nela. Isso explica todas as semelhanças entre o comportamento de Nikki e de um gato - como ficar acordado à noite observando o seu "dono", ou ficar o dia inteiro em stand by esperando o "dono" voltar pra casa. Portanto, todas essas interpretações, segundo as quais Nikki estaria possuída pelo espírito da gata morta são tão rasas e simplistas, quanto equivocadas. Já quem diz que o filme é ruim e não faz sentido, mais do que raso, esse alguém é menos que raso.
Não obstante tudo disso, há outros elementos importantes na história, mas que tem passado despercebidos por muitos analistas e comentaristas. Por exemplo, logo na primeira cena, onde o personagem Bear ensaia, na frente de uma garçonete, a declaração que pretende fazer à Nikki. Nesse monólogo, ele diz que ela foi a única pessoa que o procurou e se preocupou com ele quando a avó dele morreu. Um pouco mais adiante, quando Nikki já sob o feitiço do Salgueiro do Desejo, vai até a casa de Bear, ele diz que herdou aquela casa após a morte da avó. Além disso, não há nenhuma menção aos pais dele. Disso, é possível especular que ele tenha sido criado por essa avó, resultando numa educação castradora - no sentido freudiano. O que explica sua personalidade instrospectiva, insegura e até mesmo emasculada. Sua dificuldade em dizer à Nikki o que sente, mesmo com ela dando toda a abertura para que ele o fizesse, é reveladora dessa incapacidade de elaborar seus sentimentos, uma vez que estes se encontram recalcados e/ou sublimados. Outro detalhe interessante é que gata não morreu de causas naturais, mas em consequência da ingestão de medicamentos que avó de Bear usava e que ainda estavam guardados no armário do banheiro. Será que a gata tirou a própria vida voluntariamente? Como era a relação dela com Bear? Será que ela passava os dias trancada dentro de casa? E a avó de Bear, como ela morreu?.
Enfim, como eu dfisse no início, são muitas camadas e não pretendo discuti-las todas nesse comentário. Vou encerrar por aqui.
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Alguns PDFs sobre IDEOLOGIA pra vocês começarem a entender o assunto:
https://www.scielo.br/pdf/ea/v26n75/25.pdf
https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/388158/mod_resource/content/1/Texto%2014%20-%20O%20que%20%C3%A9%20ideologia%20-%20M.%20Chau%C3%AD.pdf
"Somente uma vez antes em nossa história houve a promessa de uma civilização científica brilhante. Beneficiária do Despertar Jônico, tinha sua fortaleza na Biblioteca de Alexandria, onde há 2.0Q0 anos as maiores inteligências da antigüidade estabeleceram as fundações para um estudo sistemático da matemática, física, biologia, astronomia, literatura, geografia e medicina. Construímos ainda sobre essas fundações. A Biblioteca foi construída e mantida pelos Ptolomeus, reis gregos que herdaram a porção egípcia do império de Alexandre, o Grande. Do tempo da sua criação no século III A.C. até a sua destruição sete séculos depois, ela foi o cérebro e o coração do mundo antigo.
Alexandria era a capital das publicações do planeta. Naturalmente não havia impressoras e os livros eram caros, cada um deles copiado à mão. A Biblioteca era o repositório das cópias mais precisas do mundo. A arte da edição crítica foi inventada lá. O Antigo Testamento chegou-nos principalmente através das traduções gregas feitas na Biblioteca Alexandrina. Os Ptolomeus devotaram grande parte da sua riqueza à aquisição de cada livro grego, bem como aos trabalhos da África, Pérsia, índia, Israel e de outras partes do mundo. [...]
Os Ptolomeus não colheram meramente o conhecimento estabelecido; encorajaram e financiaram a pesquisa científica e geraram assim novos conhecimentos. Os resultados foram espantosos: Eratóstenes calculou com precisão o tamanho da Terra, mapeou-a e argumentou que a índia podia ser atingida navegando-se para o oeste partindo da Espanha. Hiparco antecipou que as estrelas se formavam, movendo-se lentamente no curso dos séculos, e eventualmente perecendo, foi ele quem primeiro catalogou as posições e magnitude das estrelas para detectar as alterações. Euclides produziu um livro-texto de geometria no qual os seres humanos aprenderam, por vinte e três séculos, um trabalho que ajudou a despertar o interesse científico de Kepler, Newton e Einstein. Galeno escreveu livros básicos sobre a arte de curar e anatomia que dominaram a medicina até o Renascimento. Houve, como já vimos, muitos outros.
Alexandria foi a maior cidade do mundo ocidental jamais vista. Pessoas de todos os países acorriam para lá para viver, comerciar e aprender. Em qualquer dia, seus portos estavam acumulados de mercadores, estudiosos e turistas. Era uma cidade onde gregos, árabes, sírios, hebreus, persas, núbios, fenícios, italianos, gauleses e iberos trocavam mercadorias e idéias. Foi provavelmente lá que a palavra cosmopolita cumpriu seu significado real — cidadão, não de uma só nação, mas do Cosmos. Ser um cidadão do Cosmos.
Sem dúvida, lá estavam as sementes do mundo moderno. O que os impediu de criarem raízes e florescerem? Por que o oeste hibernou por mil anos de trevas até Colombo, Copérnico e seus contemporâneos redescobrirem o trabalho feito em Alexandria? Não posso lhes dar uma única resposta. Só o que sei é: não há registros, na história inteira da Biblioteca, de qualquer um de seus ilustres cientistas e estudiosos jamais terem seriamente desafiado as suposições políticas, econômicas e religiosas da sua sociedade. A permanência das estrelas foi questionada, a justiça da escravidão, não. A ciência e o aprendizado em geral eram preservados para alguns privilegiados.
A vasta população da cidade não tinha a mais vaga noção das grandes descobertas que ocorriam na Biblioteca. Novas descobertas não eram explicadas ou popularizadas. A pesquisa pouco os beneficiou. As descobertas na mecânica e na máquina a vapor eram aplicadas principalmente no aperfeiçoamento de armas, encorajamento da superstição e distração dos reis. Os cientistas nunca obsequiaram o potencial das máquinas às pessoas livres. As grandes realizações intelectuais da antigüidade tiveram poucas aplicações imediatas. A ciência nunca penetrou na imaginação da massa. Não houve um contrabalanço na estagnação, no pessimismo e na renúncia mais abjeta ao misticismo. Quando, no fim, o motim incendiou a Biblioteca, não houve ninguém que os impedisse.
O último cientista a trabalhar na Biblioteca foi uma astrônoma, matemática, física e a líder da escola neoplatônica de filosofia — uma gama extraordinária de instrução para um indivíduo em qualquer idade. Seu nome era Hipácia. Nasceu em Alexandria em 370. Em uma época em que as mulheres possuíam poucas opções e eram tratadas como propriedade, Hipácia movia-se livre e desinteressadamente pelos domínios masculinos tradicionais. Segundo a opinião corrente, ela era muito bela. Teve vários pretendentes, mas rejeitou as ofertas de casamento.
A Alexandria da época de Hipácia, então sob o domínio romano, era uma cidade sob grande tensão. A escravidão tinha minado a civilização clássica na sua vitalidade. A Igreja Cristã em expansão consolidava seu poder e tentava erradicar a influência e cultura pagãs. Hipácia permaneceu no epicentro destas poderosas forças sociais. Cirilo, patriarca de Alexandria, desprezou-a pela sua amizade íntima com o governador romano e por ser ela um símbolo do saber e da ciência, que eram identificados no início da Igreja com o paganismo. Com grande perigo pessoal, ela continuou a ensinar e a publicar, até que no ano de 415 foi atacada por uma turba fanática de paroquianos de Cirilo. Tiraram-na de sua charrete, rasgaram suas roupas e, armados com conchas, esfoliaram-na até os ossos. Seus pertences foram queimados, seus trabalhos obliterados, seu nome esquecido. Cirilo foi canonizado.
A glória da Biblioteca de Alexandria é agora uma lembrança apagada. Seus últimos remanescentes foram destruídos logo após a morte de Hipácia. Foi como se uma civilização inteira tivesse sofrido uma cirurgia cerebral autoinfligida, e a maioria de suas lembranças, descobertas, idéias e sentimentos tivessem extinguido inexoravelmente. A perda foi incalculável. Em alguns casos, sabemos somente os títulos assombrados dos trabalhos que foram destruídos. Na maioria, não sabemos nem os títulos e nem os autores.
Sabemos que das 123 peças de Sófocles na Biblioteca, só sete se salvaram. Uma delas é Édipo Rei. Números semelhantes se aplicam aos trabalhos de Ésquilo e Eurípides. É como se os únicos trabalhos que tivessem sobrevivido de um homem chamado William Shakespeare fossem Coriolano e Uma História de Inverno, mas que tivéssemos ouvido ter ele escrito outras peças desconhecidas para nós, mas aparentemente apreciadas na sua época, trabalhos entitulados Hamlet, Macbeth, Júlio César, Rei Lear, Romeu e Julieta. Do conteúdo físico daquela gloriosa Biblioteca não restou um único rolo de pergaminho."
(SAGAN, Carl. Cosmos. Companhia das Letras, 1980, p.334-336)