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Data de lançamento
27 Nov. 1996Duração
Em Salem, Massachusetts, 1692, algumas jovens fazem "feitiços". Uma delas, Abigail Williams (Winona Ryder), tinha se envolvido com seu patrão John Proctor (Daniel Day-Lewis), mas após o fim do caso foi despedida. Assim, desejava a morte de Elizabeth Proctor (Joan Allen), a esposa deste. Elas são descobertas no seu "ritual" e, acusadas de bruxaria, provocam uma histeria coletiva que atinge várias pessoas, sendo que Abby, a jovem desprezada por John, faz várias acusações até ver Elizabeth ser atingida.
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Eu conhecia vagamente a historia das bruxas de Salem, e vi que essa era uma das adaptações mais féis.
A atuação de Daniel Day-Lewis é incrível, a maquiagem do filme e figurino também me encantou, mas a atuação é o ponto forte.
É dificil aceitar que coisas como essas realmente aconteciam e quão triste pensar no que passava pela cabeça dessas pessoas, principalmente as mulheres que eram condenadas.
THE CRUCIBLE
Direção: Nicholas Hytner
Ano: 1996
Assistido em: 28/06/2026
Religião é um negócio complicado de se discutir, por isso eu acredito que o melhor a se fazer é evitar conflitos com religiosos, principalmente aqueles de mentalidade muito fechada. Mas, sempre que tenho a oportunidade de expor os malefícios causados pelas diferentes religiões ao longo dos anos da história, eu gosto de lembrar, principalmente porque as pessoas têm o costume de esquecer os podres cometidos em nome de suas devidas santidades. A Caçada às Bruxas de Salém foi um dos episódios mais assustadores quando falamos de fanatismo religioso e, lendo e pesquisando sobre o ocorrido, eu diria que é até patético acreditar que isso de fato aconteceu.
Em Salem, no final do século XVII, o fazendeiro John Proctor tenta preservar sua família enquanto a jovem Abigail Williams inicia uma série de acusações de bruxaria que mergulha a comunidade em paranoia e histeria. À medida que os julgamentos se intensificam, Proctor precisa enfrentar seus próprios erros e decidir até onde está disposto a ir para defender sua honra e a verdade.
A Idade Média acabou no século XV, e ela era conhecida como a Idade das Trevas. Portanto, é quase inconcebível que, no final do século XVII, depois do Iluminismo, depois do chamado à razão e depois de tanta podridão da Igreja ter sido escancarada, um surto coletivo possa ter acontecido e levado tantas pessoas à morte, tudo devido à castração que a religião faz na liberdade de pensamento daqueles que a seguem com tanto fervor.
Como o roteiro desse filme foi escrito pelo mesmo autor da peça de teatro na qual ele se baseia, é impossível não sentir que a produção foi criada com ares teatrais, desde os diálogos e as interpretações até alguns posicionamentos de câmera, favorecendo certos enquadramentos e nos fazendo ter a sensação de que estávamos em uma peça de teatro. Isso ajudou muito no processo de imersão porque, eu não vou mentir, não foram poucas as vezes que tive vontade de entrar na tela e esbofetear a cara da personagem da Winona Ryder, e creio que assistir a essa história no teatro faria essa vontade ser ainda maior, principalmente devido ao quão maldita essa personagem conseguiu ser.
Aliás, esse é o ponto mais alto do filme: o elenco, que está brilhante. Além de Winona, temos também Daniel Day-Lewis. Obviamente, não é um dos seus maiores papéis, mas ainda assim é, inegavelmente, uma atuação sólida. Joan Allen e Paul Scofield também garantem grande momentos em meio a todo aquele circo.
Obviamente, por se tratar de ficção, o filme não segue ao pé da letra os acontecimentos reais da Caçada às Bruxas de Salém, e as modificações que foram feitas foram necessárias para justificar uma dramatização dessa história. Mas, ainda assim, é simplesmente pavoroso imaginar que algo próximo a isso aconteceu e que essa foi apenas uma pequena demonstração dos horrores praticados naquela época. A Inquisição na Península Ibérica foi muito mais agressiva, muito mais visceral, e ninguém fala tanto dela quanto fala da questão da caça às bruxas.
Tecnicamente falando, o filme não traz nada de muito espetacular. A trilha sonora é apagadinha, não ajuda muito no processo de imersão, a direção não cria grandes composições com a fotografia e os cenários também são bem simples, mas até acredito que isso seja para manter um preciosismo de como era naquela época.
Mesmo assim, The Crucible é um filme que mexe com você, que desperta sentimentos muito intensos. Ele demora um pouquinho para esquentar, mas, quando começa a efervescer, o negócio vai embora e você se pega gritando com a televisão, sem acreditar nos desdobramentos mais insanos que vai acompanhando.
Mas vejam só como é a vida. Para quem acha que isso é coisa do passado, que ficou lá no século XVII, basta assistir aos noticiários e ver como a direita conservadora age hoje em dia, querendo fazer com que a religião volte a determinar o que é certo ou errado no mundo. O ponto mais desconfortável desse filme foi perceber que pode ter mudado um pouquinho o discurso, mas a maldição da caça às bruxas continua acontecendo.
As Bruxas de Salém (1996) não é apenas um filme sobre histeria coletiva. É um retrato cruel do momento em que a lei se fantasia de Deus — e Deus vira álibi para a vaidade humana.
A Inquisição ali não nasce da fé, mas da aparência da fé. Um juiz que age “em nome do sagrado” não para servir à verdade, mas para sustentar o próprio status. O tribunal não busca fatos; busca confirmação. Não investiga; encena. Tudo precisa parecer divino, mesmo quando cheira a sangue.
Forma-se então uma heresia em massa:
falsos depoimentos, falsas vítimas, falsas confissões.
Um papel assinado vale mais que a verdade vivida. Confessa-se para escapar da forca. Acusa-se para não ser o próximo. A culpa vira moeda de sobrevivência.
O espetáculo é ambivalente:
de um lado, a lei — orgulhosa demais para recuar, incapaz de revisar seus próprios erros;
do outro, inocentes caminhando para a morte, enquanto o povo assiste como quem assiste a um ritual necessário.
Não se trata de justiça, mas de manutenção do poder.
O orgulho de quem governa se mistura ao sangue sujo dos falsos testemunhos. E assim se constrói um cenário cuidadosamente falso — mas suficientemente convincente para “parecer de Deus”.
Salém nos lembra de algo incômodo:
o mal raramente se apresenta como mal.
Ele se apresenta como ordem, como zelo moral, como defesa da pureza.
E quando a lei se recusa a repensar, a reanalisar, a voltar atrás, ela deixa de ser lei — torna-se dogma.
O filme não acusa apenas um tempo histórico.
Acusa todo sistema que prefere a aparência da verdade ao risco de encontrá-la.
E, no fundo, essa é a heresia mais recorrente da humanidade.
02.02.2006
02.10.2000