Esta dramatização de um incidente real começa em uma tranquila cidade de Connecticut, onde um amável sacerdote é assassinado enquanto aguardava em uma esquina. Os cidadãos ficam horrorizados e exigem uma ação da polícia. Todas as testemunhas identificam John Waldron (Arthur Kennedy), um nervoso forasteiro, como o assassino. Embora Waldron negue veementemente o crime, ninguém vai acreditar nele. O promotor Henry Harvey (Dana Andrews) é então colocado no caso e enfrenta a oposição política em sua tentativa de provar a inocência de Waldron.
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Há filmes que convidam você para dentro da história, oferecem uma cadeira confortável e deixam a emoção servir o café. Boomerang! não é um deles. Ele prefere abrir a porta, deixá-lo no batente e dizer: “Observe de fora, sem se envolver demais.” É um drama judicial sobre um assassinato real, mas com um olhar tão institucional que, às vezes, é como ouvir um show do lado de fora do estádio: você percebe que algo intenso está acontecendo, mas a emoção não chega até você.
A trama é simples: um padre é assassinado numa pequena cidade de Connecticut; a comunidade clama por justiça; a imprensa alimenta o fogo; e a polícia se debate entre a inércia e o desespero, até encontrar o suspeito perfeito — o que, no cinema e na vida real, costuma ser um péssimo sinal. É o prato cheio para um drama sobre justiça, poder e falhas institucionais. Mas Boomerang! escolhe mirar nesse cenário com um olhar clínico, interessado mais em como as engrenagens giram do que no que acontece com quem está preso a elas. Essa escolha traz um distanciamento que esfria a narrativa. Gosto de histórias que me jogam dentro da pele de alguém, que me fazem sentir a respiração do personagem no pescoço. Aqui, a presença de um narrador externo — que comenta e pontua a trama como se redigisse um relatório — reforça a sensação de que estamos diante de um caso estudado, e não vivido. Funciona como estrutura, mas é como dançar de luvas: existe contato, mas não toque.
Ainda assim, há momentos que quase rompem essa barreira. A cena do interrogatório prolongado, por exemplo, carrega uma tensão genuína: a exaustão física e mental do acusado está ali, visível. Só que, em vez de acender o pavio emocional, a câmera observa e se afasta. É uma contenção elegante… mas que às vezes soa como autocensura.
O filme ganha musculatura quando o promotor — o único personagem com espinha dorsal de titânio — decide não acusar quem acredita ser inocente. Na audiência, ele desmonta cada prova, derruba testemunhas frágeis e deixa claro que a justiça não pode ser feita à pressa. É nesse ponto que Boomerang! encontra algo mais próximo do calor humano — ainda que mantenha o termostato baixo.
No fim, é um bom filme, e eu o respeito pelo que é: um produto de seu tempo, com um olhar limpo e quase jornalístico sobre a justiça. Um drama que prefere dissecar sistemas a explorar corações — e talvez seja aí que ele perca força. Minha bússola de espectadora aponta para histórias mais próximas, mais pulsantes. Boomerang! faz jus ao nome: parte de um ponto, dá a volta e retorna… só que, para mim, voltou um pouco frio demais.
Disponível no Internet Archive com áudio e som originais.
"Boomerang!" é um filme noir americano de 1947, baseado na história real de um vagabundo que foi acusado de assassinato por uma força policial incompetente, apenas para ser considerado inocente pelos esforços do promotor. É estrelado por Dana Andrews, Lee J. Cobb, Karl Malden, Arthur Kennedy e Jane Wyatt.
O filme foi dirigido por Elia Kazan, baseado em uma história (escrita por Fulton Oursler, creditado como "Anthony Abbot") no Reader's Digest e foi filmado em grande parte em Stamford, Connecticut, depois que Kazan teve negada a permissão para filmar em Bridgeport, Connecticut, onde os eventos reais ocorreram.
Aqui temos uma das melhores performances de Dana Andrews como o protagonista que se destaca numa trama enredada e deveras intrigante. Quem aprecia filmes de tribunais com ótima atmosfera em preto e branco com certeza vai gostar desse excelente clássico de Elia Kazan.
Promotor jantando em pleno tribunal
Um noir investigativo de Kazan.O diretor volta a impressionar com seu estilo e novamente escolhendo bem seu time no elenco.Vários e vários personagens ganham destaque ao longo com momentos marcantes.A fotografia dispensa comentários.A história baseada num caso real melhora ainda mais a situação e deixa a sessão muito mais tensa.
>Maratona Elia Kazan - Assistido em 04 de Dezembro de 2023
Me parece inegável que a narração em off e até o fato de ser um filme baseado em história real , acentue um certo nível de didatismo que atrapalhe demais o belo trabalho de texto e a bela forma como Elia Kazan segura um conto sobre o acreditar genuinamente no ideal de justiça acima de qualquer corrupção ao qual o ser humano está sujeito. Uma espécie de pré 12 homens e uma sentença que pessoalmente funcionou muito bem, obrigado.