Uma professora, Mademoiselle, (Jeanne Moreau)sente forte atração e desejo por um viril italiano. Sexualmente reprimida, ela encontra prazer em vê-lo realizar atos heróicos em acidentes provocados por ela mesma e também passa a maltratar o filho dele.
A aldeia, tendo escolhido o seu culpado, o executa. Manou morre sem entender, como morre o gado em que ninguém reparou. A professora, intacta, arruma a mala e parte. Ninguém suspeitou dela, porque a pureza aparente é a mais perfeita das máscaras, e o mundo prefere sempre o culpado que lhe convém ao culpado que lhe é verdadeiro. É o ponto em que Bernanos e Zola, tão distantes, se dão as mãos: o primeiro vê nisso a ausência de Deus; o segundo, o funcionamento da sociedade.
Manou, o lenhador italiano, a quem a terra nunca deu o direito de pertencer.
O boato nasce no fundo da taberna, entre o vinho e o suor, engrossa de boca em boca, e cada homem que o repete sente crescer em si a pequena dignidade do juiz. Ninguém raciocina. Todos escorrem. A multidão é uma massa de carne que se move para onde o cheiro de sangue a chama, e ela chama sempre para o mesmo lado, o do mais fraco, o do mais só, o do que não tem parentes no cemitério. Há criaturas que a solidão não purifica: apodrece.
Não sei se foi um filme que me conquistou. Confesso ter tido um pouco de desatenção talvez por não ter tido tanto interesse nas personagens ou talvez por não acreditar muito nesta premissa de repressão sexual x sociopatia e não conseguir encaixar alguma correlação que fosse minimamente plausível.
Faz tempo que assisti, quando o Telecine Classic exibiu uma seleção de filmes do Tony Richardson. Estranho mas também interessante, capaz de provocar sentimentos variados.
Uma grandíssima surpresa, "Chamas de Verão" é um estudo freudiano do comportamento humano que em momento algum soa como uma fita apelativa ou previsível, apesar de ter sido sucedido por diversas outras obras com temática similar.
Haneke bebeu muito dessa fonte. É difícil para alguém que conhece seu cinema, principalmente "A Fita Branca" e "A Professora de Piano", não fazer essa relação óbvia entre o filme de Richardson e o seu cinema.
Mademoiselle desconta nas pessoas ou se se diverte de outras formas (malvadas ou criminosas) quando não tem um homem para chamar de seu. Este é um filme com alta carga de repressão sexual e que depois se transforma em erotismo desenfreado na pele da personagem de Jeanne Moreau.
A cena com a cobra de Manou é emblemática mas o que define mesmo essa mulher frustrada é quando o pequeno Bruno é humilhado na escola e grita: "Puta suja! Eu te odeio."
Filme escrito por Jean Genet e segundo o IMDb também por Marguerite Duras. Com essa dupla e tudo mais boa coisa não podia dar mesmo. Deu ótima coisa.