Dirigido por
Data de lançamento
20 Nov. 1988Duração
Coração de Cão constitui um autêntico fenómeno cultural na Rússia. Escrito em 1925 mas publicado na União Soviética apenas em 1987, Coração de Cão é, segundo Alfredo Barroso, ”a extraordinária história do inefável Sharik (Bolinha), um cão vadio que é transformado – por via de vários transplantes, enxertos e manipulações genéticas – num homúnculo chamado Polygraf Polygrafovitch Sharikov: a mais arrogante, perfeita e acabada besta quadrada que qualquer burocracia, sobretudo a soviética, poderia alguma vez ter produzido”. Uma alegoria satírica sobre a utopia do novo homem soviético, portanto, atravessada por alguma ficção científica que evoca tanto Dr. Fausto como Frankenstein, combinando habilidosamente elementos realistas e fantásticos, situações grotescas e importantes preocupações éticas, aspectos que Bulgakov viria a desenvolver na sua obra-prima, Margarita e o Mestre.
Sem anúncios
Aproveite o melhor do Filmow sem interrupções
Sobachye Serdtse (1988), lançado no Brasil como Coração de Cão, é uma das sátiras mais afiadas do cinema soviético, adaptando a obra de Mikhail Bulgákov com ironia, criatividade e um humor ácido que funciona como crítica social direta. O filme, produzido em 1988, utiliza a ficção científica não como espetáculo, mas como instrumento narrativo para expor contradições humanas, políticas e morais, sempre com inteligência e desconforto.
A trama acompanha o Professor Filipp Filippovich Preobrazhensky (Evgeniy Evstigneev), um médico brilhante, culto e elitista, pertencente à velha intelligentsia russa. Sua motivação principal é científica, mas profundamente atravessada por vaidade e arrogância intelectual. Ele acredita que pode intervir na natureza e criar um “novo homem”, ignorando deliberadamente as implicações éticas desse ato. Evstigneev entrega uma atuação segura, irônica e dominante, sustentando o personagem como alguém intelectualmente superior, mas moralmente cego diante das consequências de seus próprios experimentos.
Ao seu lado está o Dr. Ivan Bormental (Boris Plotnikov), seu assistente, mais jovem, racional e menos ideológico. Bormental funciona como contraponto moral ao professor, sendo o primeiro a compreender que o experimento ultrapassou qualquer limite aceitável. Sua motivação não é o prestígio científico, mas a tentativa de conter o desastre que se forma, atuando como uma voz de alerta dentro da narrativa.
O centro do filme, porém, é Sharik, inicialmente um cachorro de rua e depois transformado em humano. Enquanto cão, Sharik se mostra observador, desconfiado e irônico, moldado pela necessidade de sobreviver em um ambiente hostil. Após a cirurgia, ele se torna Poligraf Poligrafovich Sharikov (Vladimir Tolokonnikov), e sua personalidade revela o cerne da crítica do filme.
Sharikov carrega os piores traços humanos: vulgaridade, agressividade, preguiça, oportunismo e uma completa ausência de consciência moral. A genialidade está no fato de que esses defeitos não surgem do nada; eles apenas ganham linguagem, respaldo institucional e discurso ideológico.
O enredo se desenvolve como uma progressiva perda de controle dentro do apartamento do professor, que passa a representar um microcosmo da sociedade soviética. O experimento, que deveria simbolizar avanço e progresso, se transforma em uma ameaça concreta, expondo o fracasso da ideia de moldar o ser humano pela força da ciência ou da ideologia. Os desdobramentos são cada vez mais incômodos, com Sharikov se integrando à burocracia estatal e utilizando o sistema para se legitimar, ameaçando justamente aqueles que o criaram.
O final do filme é direto, simbólico e coerente com tudo o que foi construído. A decisão de reverter o experimento reforça a ideia de que nem toda transformação é evolução, e que certos limites éticos não podem ser ignorados sem consequências. Não há alívio moral, apenas a constatação amarga de que a tentativa de “corrigir” a natureza humana pode gerar algo ainda mais monstruoso.
A fotografia é um dos aspectos mais marcantes da obra. Embora seja um filme de 1988, ele opta por um preto e branco com tonalidade amarelada, lembrando papel antigo envelhecido. Esse efeito visual remete a documentos, fotografias e livros do início do século XX, criando uma sensação constante de memória histórica e decadência. A escolha estética reforça o caráter satírico e crítico do filme, situando a narrativa como um registro quase documental de uma sociedade em colapso moral.
Ainda assim, apesar de reconhecer toda a força da proposta e a inteligência por trás da crítica, eu não consegui gostar tanto do filme quanto esperava. Entendo perfeitamente a intenção, e ela é boa, mas a experiência acaba sendo bastante cansativa. A própria fotografia amarelada, embora conceitualmente interessante, me desgasta com o tempo e faz o filme parecer mais antigo do que ele realmente é. Além disso, acredito que a narrativa poderia ser mais enxuta; com uma duração menor, talvez o impacto fosse mais forte e a experiência mais envolvente. Do jeito que é, admiro o filme muito mais pelo que ele representa do que pelo prazer que ele me proporciona ao assistir.
O humor de Coração de Cão é ácido, irônico e frequentemente desconfortável. A criatividade está em usar o absurdo para revelar verdades incômodas, expondo hipocrisias, autoritarismos e a fragilidade das estruturas sociais. No fim, o filme se consolida como uma crítica mordaz, inteligente e atemporal, que utiliza a ficção científica não para entreter, mas para provocar, incomodar e refletir sobre o que realmente define o ser humano.
Assistido em 07/01/2026
Maravilhoso!
Uma pérola da alegoria fantástica. Irônico, crítico, de humor inteligente e aguçado.
Anos depois Vladimir Bortko adaptou outro livro de Mikhail Bulgakóv para uma minissérie, O mestre e Margarida, igualmente maravilhoso!
Genial.