Luz nos trópicos, Paula Gaitán tece uma densa trama de histórias, linhas de tempo e cenários, mesclados com cosmologias indígenas, relatos de viagens e literatura antropológica. Inicialmente, a diretora acompanha um jovem de origem indígena. No início, ele está às margens do East River no inverno. Logo ele está viajando rio acima pela floresta brasileira até uma aldeia, onde é saudado como um velho amigo. Em um segundo enredo, a diretora acompanha um grupo de colonos europeus. Eles também estão viajando rio acima, coletando, possuindo e procurando uma posição de onde possam inspecionar a floresta e o rio. Cerca de 150 anos separam as duas camadas; às vezes, um mergulho na água dissolve essa separação no espaço de um segundo. Mais adiante, o filme vagueia para o norte novamente e as camadas colapsam umas nas outras. Entre o Lago Walden e a Amazônia fica apenas um corte. Luz nos Trópicos é uma homenagem à abundante vegetação da região amazônica, às matas da Nova Inglaterra no inverno e às populações indígenas das duas Américas. Um filme que flui tão livremente como um rio sinuoso.
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"O mundo começou sem o homem. E terminará sem ele. Luz nos trópicos. O que impede o homem de acessar a felicidade não é a sua natureza, mas os artifícios da civilização."
"O mundo começou sem o homem e terminará sem ele..." Após mais de 4 horas de exibição, fica claro que o personagem principal do filme é a própria natureza; silenciosa testemunha da suave passagem do tempo. Esta obra de Paula Gaitán é uma poesia audiovisual que se declara tanto ao ventre materno das matas, rios e igarapés, quanto à selva de pedra do mundo ao redor. Fico imaginando as possíveis dificuldades que a equipe alocada na região amazônica enfrentou para nos entregar este belo tesouro. Nele não somos meros espectadores, é como se estivéssemos presentes a bordo de uma das canoas, sendo conduzidos pelos braços de rios que fluem em meio às veias da floresta, revelando-nos paisagens de tirar o fôlego e sons desconhecidos que ora fascinam, ora amedrontam. Mas não se trata apenas de um 'river movie', a obra amplia seus horizontes e nos leva para mais longe, nos fala de crenças religiosas enquanto nos convida a filosofar: "Será que Deus mudou ou será que mudamos de Deus?", "Como será o dedo da mão de quem vai apertar o botão?" instiga-nos, em percussão, o personagem de Arrigo Barnabé. Vários outros atores também abrilhantam a obra, como o português Carloto Cotta, o manauara Begê Muniz e a franco-brasileira Clara Choveaux . Por fim, Paula nos mostra que, em quaisquer daqueles lugares o tempo e a distância inexistem, pois tudo esteve sempre ali... todas as estórias e vidas apenas vêm e vão, contínuas e conectadas por uma delicada trama, como as águas dos rios e o pôr-do-sol.
Algo incomoda-me em relação a esta diretora: nunca tinha visto nenhum de seus filmes na íntegra, por geralmente irritar-me com seu pendor para o elitismo classista, manifesto num hermetismo artístico que, a despeito de sua beleza inegável, resvala num aparente distanciamento político [e, quando digo "aparente", assumo o julgamento errôneo porque preconceituoso]. Entretanto, tantos amigos confiáveis amaram este looooonga-metragem, que precisei aventurar-se por suas quase quatro horas e meia - e estava adorando, achando uma obra-prima até a terceira hora. De repente, ela volta a fazer aquilo em que especializou-se (meu preconceito era também um pré-conceito acertado) e insere a si mesmo, via alter-ego, como artista plástica e "cidadã do mundo". Por mais que os 'travellings' da noite urbana em Nova York façam sentido, achei que isso desvia o interesse que tanto fascinou-me anteriormente; por mais que Maíra Senise prove ser muito talentosa, ela chama muito mais atenção para si mesma que para o filme em si, criando bolhas de vazio "justificado" num filme em que todo o esplendor natural convertia-se num magnífico discurso de desbravamento, entre o romantismo indianista brasileiro e o xamanismo internacional de resistência. Begê Muniz e Carloto Cotta são belíssimos e sou apaixonado por eles faz tempo, de modo que foi magistral vê-los em cena. Idem para o Arrigo Barnabé e para a Clara Choveaux, mas acho que o filme perde o seu rumo no quartel final. Exagera na deambulação, talvez, divaga de uma maneira não tão roteirizada quanto a jornada roteirística prévia. A fotografia de Pedro Urano é quase um personagem à parte e o filme é muito bem-sucedido em suas aplicações sinestésicas (vê-lo em tela grande deve ser um presente!), mas a diretora confirmou aquilo que mais irrita-me nela, infelizmente: seus interesses são de classe alta, seu pendor é elitizado, sua arte é intencionalmente "para poucos" - e isso nem tem a ver com a enorme duração do filme, que transcorre muito bem: estava deslumbrado, até que a narrativa sai do Brasil, deslumbra-se pelo estrangeirismo recorrente da cineasta/artista plástica... Inclusive, admito: fiquei com vontade de rever. O farei, de coração ainda mais aberto, em breve! (WPC>)
Eu seria desonesto com vocês se não admitisse meu susto ante a duração de 4 horas e 20 minutos deste retrato histórico e antropológico contado no pantanal mato-grossense. De minha parte, existe um preparo mental em narrativas iguais a esta para fazer frente à intimidante metragem, mas se há algo que aprendi em dez anos na crítica cinematográfica é a respeitar o tempo cinematográfico e o significado em deixar a câmera registrar segundos e minutos a mais do que, em nossa ignorância cinéfila, acreditaríamos ser necessário. Ou melhor, qual o momento certo em gritar corte e, mais ainda, qual o ponto em que o montador, na pós-produção, deve executar o corte para a versão final.
Ao permitir que a câmera namore o cenário esplendoroso ao seu redor, como p. ex. manter-se fixa no canoeiro enquanto sobe o rio Xingu ou no extenso tempo que a expedicionária portuguesa toma para despir-se, Paula Gaitán tenta alcançar um estágio de equilíbrio e comunhão com o meio onde está inserida. Torna-se parte dele, não apenas uma espectadora. Busca honrar o estilo de vida do povo Kuikuro na narrativa pacata e que não tem pressa em apresentar-se, e ainda o encantamento dos colonizadores quando conheceram o interior deste paraíso intocado na terra.
Paula Gaitán, então, apresenta o retorno de um jovem da terra fria onde habitava às raízes nativas e calorosas, enquanto reencena uma expedição franco-portuguesa ao Pantanal, em uma montagem audaciosa que ignora a chancela do tempo e do conceito de início, meio ou fim. É o meio de atribuir a atmosfera alucinatória e reflexiva ao fascínio proporcionado por uma experiência manifestada no encontro de ideias e abstrações, não de personagens. O que é concreto não existe no plano do texto, que ainda namora a ideia de interconectividade entre passado e presente a todo instante, mas na forma utilizada com liberdade, mas não libertinagem.
Ao largo da aventura, até refletimos sobre aspectos fílmicos, como p. ex., o filtro rubro em alusão ao mesmo urucum com que os Kuikuro tingem os cabelos e que servem como demarcação da presença nativa mesmo em outro continente, entretanto, com o passar das horas, é notório que a experiência abdica do superficialmente racional em troca do sublimemente artístico. O tempo, ferramenta base da história, não sobrevive intacto a este paralelo entre os Brasis e sua relação com o passado nativo em uma obra intimidadora, sim, mas em tudo gratificante.