Uma jovem atriz esforçada consegue o papel dos seus sonhos em um filme de um diretor italiano emergente, estrelando ao lado de um superstar americano. O que começa como sua grande descoberta rapidamente se transforma em um inferno.
Exibido no festival de Cannes de 2024, é um sólido drama biográfico dedicado à atriz retratada no filme, Maria Schneider (1952-2011). O longa não exatamente conta a vida toda de Maria e sim reconstitui um período crítico de sua carreira, as gravações do polêmico ‘Último tango em Paris’ (1972). Toca em momentos cruciais e públicos dela, como não ter sido reconhecida como filha do famoso ator francês Daniel Gélin (1921-2002), que a teve fora do casamento; a incursão nas artes aos 15 anos como atriz de teatro e modelo; a relação de altos e baixos com a mãe, com quem morava; e o pontapé na carreira, quando aos 19 anos conseguiu a chance de sua vida ao contracenar com Marlon Brando em ‘Último tango’ (Matt Dillon faz Brando, numa caracterização interessante, apesar de a maquiagem ficar por vezes over). O tratamento da obra segue a tumultuada produção que culminou numa grave crise entre Maria, Brando e o diretor italiano Bernardo Bertolucci. Na famosa cena de estupro, sugerida de última hora por Brando a Bernardo, a atriz não foi avisada; ela foi forçada em cena, com constrangimento, já que suas roupas eram arrancadas em frente à câmera. Maria, em entrevistas, diz que tal fato foi um abuso que causou para sempre trauma psicológico, e que Bernardo fazia qualquer coisa para obter fortes reações da atriz nas cenas – o que muito tempo depois o diretor confessou. O filme traz o relacionamento afetivo de Maria com a jornalista Noor – ela era bissexual, e registra um pouco do temperamento agressivo que a isolou do mundo. Maria entrou e saiu das drogas várias vezes, teve overdose, tentou suicídio, abandonou gravações de filmes no meio e morreu deprimida, em 2011, durante tratamento de um câncer de mama. Apesar de não ser nada parecida com a atriz, a romena radicada na França Anamaria Vartolomei, de ‘O acontecimento’ (2021), está muito bem no papel central. Após passar nos cinemas brasileiros esse ano, chega ao streaming da Reserva Imovision. POR FELIPE BRIDA - BLOG Cinema-naweb blogspot
O filme mostra a exploração desumana de como as mulheres têm sido historicamente tratadas como objetos na indústria do entretenimento. Anamaria Vartolomei como Maria eleva o roteiro nos detalhes!!
Uma história poderosa sobre aquela que ficou conhecida como a cena mais tórrida do cinema, contada de maneira bastante protocolar. Com cortes que fazem a história avançar num piscar de olhos, o filme acerta quando sai um pouco da protagonista para acompanhar o espírito da época, mas parece que o roteiro quis focar nela, e acabou perdendo a oportunidade de discutir questões éticas mais universais, para além do aspecto do trauma individual. Ainda assim, um bom filme.
Um filme sobre como um diretor e um ator decidem que é uma boa ideia violar uma atriz
Exibido no festival de Cannes de 2024, é um sólido drama biográfico dedicado à atriz retratada no filme, Maria Schneider (1952-2011). O longa não exatamente conta a vida toda de Maria e sim reconstitui um período crítico de sua carreira, as gravações do polêmico ‘Último tango em Paris’ (1972). Toca em momentos cruciais e públicos dela, como não ter sido reconhecida como filha do famoso ator francês Daniel Gélin (1921-2002), que a teve fora do casamento; a incursão nas artes aos 15 anos como atriz de teatro e modelo; a relação de altos e baixos com a mãe, com quem morava; e o pontapé na carreira, quando aos 19 anos conseguiu a chance de sua vida ao contracenar com Marlon Brando em ‘Último tango’ (Matt Dillon faz Brando, numa caracterização interessante, apesar de a maquiagem ficar por vezes over). O tratamento da obra segue a tumultuada produção que culminou numa grave crise entre Maria, Brando e o diretor italiano Bernardo Bertolucci. Na famosa cena de estupro, sugerida de última hora por Brando a Bernardo, a atriz não foi avisada; ela foi forçada em cena, com constrangimento, já que suas roupas eram arrancadas em frente à câmera. Maria, em entrevistas, diz que tal fato foi um abuso que causou para sempre trauma psicológico, e que Bernardo fazia qualquer coisa para obter fortes reações da atriz nas cenas – o que muito tempo depois o diretor confessou. O filme traz o relacionamento afetivo de Maria com a jornalista Noor – ela era bissexual, e registra um pouco do temperamento agressivo que a isolou do mundo. Maria entrou e saiu das drogas várias vezes, teve overdose, tentou suicídio, abandonou gravações de filmes no meio e morreu deprimida, em 2011, durante tratamento de um câncer de mama. Apesar de não ser nada parecida com a atriz, a romena radicada na França Anamaria Vartolomei, de ‘O acontecimento’ (2021), está muito bem no papel central. Após passar nos cinemas brasileiros esse ano, chega ao streaming da Reserva Imovision. POR FELIPE BRIDA - BLOG Cinema-naweb blogspot
O filme mostra a exploração desumana de como as mulheres têm sido historicamente tratadas como objetos na indústria do entretenimento. Anamaria Vartolomei como Maria eleva o roteiro nos detalhes!!
Uma história poderosa sobre aquela que ficou conhecida como a cena mais tórrida do cinema, contada de maneira bastante protocolar. Com cortes que fazem a história avançar num piscar de olhos, o filme acerta quando sai um pouco da protagonista para acompanhar o espírito da época, mas parece que o roteiro quis focar nela, e acabou perdendo a oportunidade de discutir questões éticas mais universais, para além do aspecto do trauma individual. Ainda assim, um bom filme.