De uma só vez, David Van de Steen, de 9 anos, perdeu sua mãe, seu pai e sua irmã em um ataque dos Brabant Killers em Aalst. Seu avô, Albert, tem a tarefa quase impossível de dar a David uma nova perspectiva sobre a vida, um futuro.
Não Atire (Niet Schieten, 2018), de Stijn Coninx, é um filme belga que começa com o estampido seco da violência e depois se alonga, quase dolorosamente, no silêncio que a sucede. Em novembro de 1985, na cidade de Aalst, um menino de nove anos chamado David Van de Steen vê seus pais e a irmã serem assassinados num ataque da gangue conhecida como os Assassinos de Brabant (ou Bende van Nijvel). Ele próprio sobrevive, gravemente ferido. O avô Albert (Jan Decleir) e a avó Metje (Viviane De Muynck) assumem a tarefa impossível de dar a esse menino um futuro quando o presente foi reduzido a ruínas.
O filme não é um thriller de investigação, embora a busca por justiça ocupe boa parte de seu tempo. É, antes, um estudo paciente e quase documental sobre o que resta depois que a tragédia termina de acontecer. Coninx filma a dor sem espetáculo: os corredores de hospital, as reuniões familiares tensas, as idas e vindas burocráticas, a frustração silenciosa de um homem comum diante de um Estado que parece incapaz (ou relutante) de responder. Jan Decleir carrega o filme com uma atuação de grande contenção. Seu Albert não é um herói de discurso; é um avô que improvisa afeto, disciplina e teimosia enquanto tenta proteger o neto das próprias perguntas que não têm resposta. O menino (Mo Bakker) e, mais tarde, o jovem adulto (Jonas Van Geel) carregam o trauma de forma física e emocional, sem exageros de melodrama. A relação entre os dois é o coração da obra: um afeto que se constrói no dia a dia, na teimosia de continuar vivendo.
O que impede Não Atire de alcançar a excelência é exatamente a sua fidelidade excessiva ao material real. Com quase duas horas e vinte minutos, o filme se estende demais nas investigações, nas teorias de conspiração e nas acusações de incompetência e possível conivência das autoridades belgas. Essas sequências têm valor histórico e moral — o caso dos Assassinos de Brabant permanece, até hoje, um dos grandes enigmas criminais da Europa —, mas o ritmo sofre. O espectador sente o peso do tempo da mesma forma que os personagens: a espera se torna quase insuportável. Ainda assim, há uma honestidade rara nisso. O filme não oferece catarse fácil nem revelação final. Ele simplesmente permanece ao lado daqueles que sobreviveram, registrando a teimosia de continuar. Em tempos de narrativas que resolvem tudo em dois atos e um final espetacular, essa recusa tem valor.
Corrupção maldita, destrói famílias em qualquer lugar do mundo. Albert e Marie. Estrutura familiar, salvou a vida de David. Esses miseráveis corruptos não entendem a força de uma família.
Depois de muita procura consegui ver esse filme! Que história triste ....impunidade...mesmo num país considerado de alto nível que a gente espera mais justiça, indignada. 04/02/24.
Não Atire (Niet Schieten, 2018), de Stijn Coninx, é um filme belga que começa com o estampido seco da violência e depois se alonga, quase dolorosamente, no silêncio que a sucede. Em novembro de 1985, na cidade de Aalst, um menino de nove anos chamado David Van de Steen vê seus pais e a irmã serem assassinados num ataque da gangue conhecida como os Assassinos de Brabant (ou Bende van Nijvel). Ele próprio sobrevive, gravemente ferido. O avô Albert (Jan Decleir) e a avó Metje (Viviane De Muynck) assumem a tarefa impossível de dar a esse menino um futuro quando o presente foi reduzido a ruínas.
O filme não é um thriller de investigação, embora a busca por justiça ocupe boa parte de seu tempo. É, antes, um estudo paciente e quase documental sobre o que resta depois que a tragédia termina de acontecer. Coninx filma a dor sem espetáculo: os corredores de hospital, as reuniões familiares tensas, as idas e vindas burocráticas, a frustração silenciosa de um homem comum diante de um Estado que parece incapaz (ou relutante) de responder. Jan Decleir carrega o filme com uma atuação de grande contenção. Seu Albert não é um herói de discurso; é um avô que improvisa afeto, disciplina e teimosia enquanto tenta proteger o neto das próprias perguntas que não têm resposta. O menino (Mo Bakker) e, mais tarde, o jovem adulto (Jonas Van Geel) carregam o trauma de forma física e emocional, sem exageros de melodrama. A relação entre os dois é o coração da obra: um afeto que se constrói no dia a dia, na teimosia de continuar vivendo.
O que impede Não Atire de alcançar a excelência é exatamente a sua fidelidade excessiva ao material real. Com quase duas horas e vinte minutos, o filme se estende demais nas investigações, nas teorias de conspiração e nas acusações de incompetência e possível conivência das autoridades belgas. Essas sequências têm valor histórico e moral — o caso dos Assassinos de Brabant permanece, até hoje, um dos grandes enigmas criminais da Europa —, mas o ritmo sofre. O espectador sente o peso do tempo da mesma forma que os personagens: a espera se torna quase insuportável. Ainda assim, há uma honestidade rara nisso. O filme não oferece catarse fácil nem revelação final. Ele simplesmente permanece ao lado daqueles que sobreviveram, registrando a teimosia de continuar. Em tempos de narrativas que resolvem tudo em dois atos e um final espetacular, essa recusa tem valor.
Que loucura e que bom filme de drama.
Corrupção maldita, destrói famílias em qualquer lugar do mundo. Albert e Marie. Estrutura familiar, salvou a vida de David. Esses miseráveis corruptos não entendem a força de uma família.
Filmaço,me emocionei bastante com a história.
Depois de muita procura consegui ver esse filme! Que história triste ....impunidade...mesmo num país considerado de alto nível que a gente espera mais justiça, indignada. 04/02/24.