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Data de lançamento
31 Jan. 2020Duração
A narrativa se passa em 1888 e conta a história de Lenita, uma jovem, criada pelo pai, de formação culta, que desconsidera a existência de um homem à sua altura intelectual. O filme expõe os conflitos internos da personagem e as convenções da época.
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Sendo muito franco, demorei um tantinho para imergir por completo no romance lascivo ora pretendido. Gostei, desde o começo, dos estratagemas de narração literária, respeitados em sua literalidade, em ângulos frontais, no meio das ações dos personagens. Mariana Fausto está muito competente enquanto Lenita, mas é a entrada em cena de Rômulo Braga que aumenta a pujança erótica da obra, sendo esplêndida (e muito bem contextualizada) a cena de sua masturbação. Fiquei com muita vontade de ler a obra original, do Júlio Ribeiro: quero muito! A fotografia é deslumbrante e, claro, Helena Ignez confere um charme sardônico às suas aparições. Dá para notar a influência do imortal Luiz Rosemberg Filho na co-direção. Talvez pudesse ser um tantinho mias curto, como alguns reclamaram, mas é um filme que seduz e encanta: demora, mas, quando acontece, não tem volta! Interessante o aproveitamento anacrônico da tatuagem no braço do ator masculino e das sombras de técnicos, nalgumas das filmagens. Os fãs do estilo bressaneano deliciar-se-ão! (WPC>)
Bonito, mas poderia ser mais curto.
Basta uma pesquisa simples no google pra ver uma penca de críticos - que escrevem de forma erudita, ou quase, e um tanto quanto pedante - acusando o filme de academicista. Retrógrado. "Anti-dialético". Burocrático. Preciosista. Entendo de que lugar pode vir essa recepção ao filme, mas ouso discordar, com veemência, de pelo menos metade desses adjetivos, tratados como ruins, direcionados ao filme. Talvez não fosse o melhor lugar para exibi-lo onde ele teve sua premiere, na Mostra Aurora do Festival de Tiradentes, uma mostra conhecidíssima por exibir filmes de cineastas em início de carreira, que urgem por um cinema atual, de mudanças, às vezes até de guerrilha, mas, mesmo a escolha errática da curadoria de selecionar esse filme, parece fazer sentido como homenagem: Natureza Morta meio que caiu no colo da Clarissa Ramalho, para terminar uma trilogia concebida pelo cineasta Ricardo Miranda, morto alguns dias após a exibição do segundo filme da trilogia, Paixão e Virtude, na própria Mostra de Tiradentes.
Apesar de quase ser o destino do filme estar ali, o que considero até insensível questionar, a reação ao filme na primeira exibição não foi das melhores. O que é uma pena, pois se trata de um filme preciosista, sim, mas no melhor sentido da palavra, o literário. É uma obra rara, poética, que se preocupa muito com a forma e pouco com a história, que fala por si mesmo, tudo o que precisa dizer. A representação dos desejos de Lenita, por exemplo, são sempre narradas pelos próprios personagens, inclusive ela - ou por seres quase mitológicos que aparecem ao longo da narrativa para ocupar essa função. Um deles é uma Helena Ignez, mascarada, com sua voz inconfundível. Passeando por uma rua, por um lugar cheio de ruínas, entre outros ambientes, a atriz-narradora dá o texto de uma forma pausada, intrincada e extremamente próxima da literatura, amplificando essa sensação de que estamos diante de uma espécie de literatura filmada. Não adaptada, mas sim, filmada. Os personagens param a ação para olhar diretamente para a câmera ao contar o que sentem, uma espécie de quebra da quarta-parede intrínseca à própria existência do filme, causando uma estranheza inicial que afasta do longa, mas que, com o tempo e com o costume, se torna fascinante.
Ainda assim, os personagens são, sim, um tanto quanto apáticos. É como se o que estamos assistindo não fosse sobre eles, e sim sobre o filme em si. As escolhas estéticas, e nisso eu incluo as próprias escolhas de enquadramento, iluminação, mise-en-scene, etc, sempre levam o filme a um lugar gélido, como se insistisse em se recusar a analisar, pessoalmente, aqueles personagens, ou o que eles sentem. O clima causado por essas escolhas, no entanto, é fundamental para a confusão entre mente, amor e desejo que recheia a história de Lenita, interpretada brilhantemente por Mariana Fausto, mas que não está tão bem quanto o seu colega de cena, Rômulo Braga, que é o destaque do filme como seu primordial objeto de desejo, Barbosa. A figura, e a maneira com que Ramalho filma Barbosa, sempre com uma sombra à espreita de algo que o completasse, desse desejo destrutivo confundido com amor - intelectual? - que ele experimenta, e resiste, é, ironicamente, irresistível. Também fundamental é que o filme nunca caia no lugar-comum de representar o corpo, ou o sexo, para exemplificar tudo isso. Não seria o mesmo filme caso caísse nesse clichê. Graças a essa antítese entre filme e personagens, que nem sempre funciona, mas quando funciona é implicitamente sedutora, vejo Natureza Morta como uma obra interessantíssima. Que precisa de um certo nível de entrega pra funcionar, mas sempre interessantíssima.