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Duração
A chegada de um novo padre numa pequena cidade do interior de Minas Gerais causa verdadeira comoção na conservadora atmosfera local. A situação se agrava quando se descobre que o padre fica completamente atraído por uma jovem moça. Uma história de amor proibido que logo se transforma em paixão desenfreda. Baseado no poema de Carlos Drummond de Andrade.
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Marília Mendonça: Sentimento Louco
“(...)
Ao relento, no sílex da noite,
os corpos entrançados transfundidos
sorvem o mesmo sono de raízes
e é como se de sempre se soubessem
uma unidade errante a convocar-se
e a diluir-se mudamente.
Espaço sombra espaço infância espaço
e difusa nos dois a prima virgindade,
oclusa graça.
Mas de rompante a mão do padre sente
o vazio do ar onde boiava
a confiada morna ondulação.
A moça, madrugada, não existe.
O padre agarra a ausência e eis que um soluço
humano desumano e longiperto
trespassa a noitidão a céu aberto.
A chama galopante vai cobrindo
um tinido de freios mastigados
e de patas ferradas,
e em sete freguesias
passa e repassa a grande mula aflita.
Urro
de fera
fúria
de burrinha
grito
de remorso
choro de criança?
Por que Deus se diverte castigando?
Por que degrada o amor sem destruí-lo?
e a cabeça da mula sem cabeça
ainda é rosto de amor, onde em sigilo
a ternura defesa vai flutuando?
Um rosto de besta
e entre as ciências do padre
entre as poderosas rezas do padre
nenhuma para resgatá-lo.
Resta deitar a febre na pedra
e aguardar
o terceiro canto do galo.
No barro vermelho da alva
a mão descobre
o dormir de moça misturado
ao dormir de padre.
(...)
Que coros tão ardentes se desatam
em feixes de inefável claridade?
Que perdão mais solene se humaniza
e chega à aprovação e paira em bênção?
Que festiva paixão lança seu carro
de ouro e glória imperial para levá-los
à presença de Deus feita sorriso?
Que fumo de suave sacrifício
lhes afaga as narinas?
Que santidade súbita lhes corta
a respiração, com visitá-los?
Que esvair-se de males, que desfal
ecimentos teresinos?
Que sensação de vida triunfante
no empalidecer de humano sopro contingente?
Fora
ao crepitar da lenha pura
e medindo das chamas o declínio,
eis que perseguidores se persignam.”
(“O padre, a moça”, de Carlos Drummond de Andrade, em Lição de Coisas)
25/04/2026
assistivel
Irregular na composição e confuso em seu final. Esta obra de JPA tem exemplar fotografia em P & B, Paulo, contundente, Mas a indefinição entre a crítica social e o delírio da culpa joga a obra pra baixo.
Filmaço!
Vejo que faltou um certo desenvolvimento maior da Mariana com o padre. No primeiro momento de encontro deles, ela já estava entregue. E tudo bem que é mais sobre o que o padre simboliza do que sobre a relação deles em si, mas essa vontade avassaladora de fugir acaba não convencendo quando vemos dois personagens dispostos a morrerem queimados um pelo outro sendo que mal se conhecem, mal se falaram, mal falaram conosco. O final até tem uma ideia interessante, sobre como o moralismo daquelas pessoas simboliza um repúdio a tudo que há de diferente, mesmo que o diferente vá contra abusos de quem detém o poder, mas além da falta de envolvimento com os protagonistas, há um tratamento de todo o restante da cidade como uma massa uniforme, sem vida, apática, que é até esquecida quando no final somos lembrados da existência dela. Não há nada de marcante neles, ou seja, não há quebra de expectativas pelas suas ações - basicamente porque nenhuma expectativa pôde ser construída.
A representação do povo também cai num velhíssimo problema: O cinema novo tem uma coisa de focar na cara das pessoas ou olhando pra cima, como se fosse uma súplica, ou olhando pra baixo, como se fosse um arrependimento. Todo mundo vira uma Joana D'arc.
É quase como se houvesse uma literal sombra no rosto de quem é filmado. Não sei se é para sentirmos pena, indulgência, condescendência, ou sei lá mais o que. De todo modo: não compro. Há uma personagem, em específico, que tem bócio (ou alguma outra condição) e é mostrada várias vezes, mas sem nenhuma fala, sem nome. Por que? Qual é a intenção? Exotismo? Não, obrigado. Se é assim, melhor nem mostrar. Nem filme fazer. É melhor ter alguém que olhe pra frente.
Em contraponto aos dois problemas que citei, acho que é interessante assistir Drácula, do Coppola, que fala muito melhor sobre fugas e fogo; e também Copacabana Mon Amour, que tem uma Helena Ignez solta, que nos encara sem medo.