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Data de lançamento
7 Set. 2024Duração
Uma mulher lançada à rotina de ficar em casa criando uma criança no subúrbio lentamente abraça o poder selvagem profundamente enraizado na maternidade, conforme ela se torna cada vez mais consciente dos sinais bizarros e inegáveis de que ela pode estar se transformando em um cachorro.
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eu vi esse filme achando que era um filme trash pq eu amo a Amy Adams, me enganei total, é bem profundo, mto diferente do que eu achei que seria. curti bastante
Muito lindo e cheio de significado.
Canina (2024)
Um filme que achei bem interessante, principalmente pelas questões que levanta sobre o papel da mulher na sociedade e sobre o que esperamos que aconteça com uma mulher depois que ela se torna mãe.
A protagonista abandona a carreira para se dedicar integralmente ao filho, enquanto o marido continua trabalhando e, consequentemente, mantém boa parte da vida que tinha antes da chegada da criança. E é justamente aí que o filme acerta: mesmo sem ter um emprego remunerado, a jornada dela dentro de casa não diminui. Pelo contrário. Ela continua trabalhando o tempo inteiro, só que esse trabalho passa a ser invisível, não remunerado e, muitas vezes, tratado como se fosse uma consequência natural de ser mãe.
A dinâmica entre ela e o marido deixa isso muito evidente. Ele até participa dos cuidados, mas ela continua sendo a pessoa que sabe onde estão as coisas, o que o filho precisa, quando precisa dormir, comer, tomar banho etc. Ou seja, ela não apenas cuida: ela administra toda a estrutura do cuidado.
E acho interessante pensar nisso junto com Manifesto Antimaternalista, da Vera Iaconelli. O livro questiona justamente essa ideia de que o cuidado das próximas gerações deve ser colocado quase automaticamente sobre as mulheres. Iaconelli também discute como a maternidade foi historicamente associada ao espaço doméstico, enquanto aos homens ficou reservado o trabalho remunerado e a vida pública.
Por isso, a fala da protagonista sobre como as mulheres mudam depois do parto me chamou bastante atenção. Existe uma transformação real — física, emocional, psicológica e também social — mas o problema está em tratarmos essa transformação como se ela significasse necessariamente o desaparecimento da mulher que existia antes da maternidade. Como se, depois de ser mãe, ela precisasse abrir mão da carreira, dos desejos, da sexualidade, da individualidade e até de uma parte da própria identidade.
E é aí que entra a escolha do cachorro como metáfora. Para mim, a transformação em "cachorro" conversa muito com essa ideia de instinto materno: aquilo que esperamos que a mulher sinta e faça "naturalmente" quando se torna mãe. Ela passa a ser vista quase como um animal guiado pelo instinto, pelo cuidado e pela proteção da cria. Ao mesmo tempo, o lado selvagem da personagem também representa aquilo que ela precisou reprimir para caber no modelo de mãe, esposa e dona de casa que esperavam dela.
O mais interessante é que Canina não termina como uma história trágica ou perturbadora. E acho que isso é importante. No fim, a questão não parece ser "maternidade é ruim", mas sim: por que a maternidade precisa significar o abandono de tantas outras partes da identidade de uma mulher?
É um filme legal, talvez até mais simples do que a proposta inicial faz parecer, mas que deixa uma reflexão muito boa: será que o problema está na maternidade em si ou na maneira como a sociedade construiu o papel da mãe?
No fim, talvez a grande questão seja justamente essa: a mulher precisa deixar de ser mulher para conseguir ser mãe?
E termino o filme sem entender a nota baixa aqui… Achei absolutamente cinema. São tantas camadas e críticas… Adorei acompanhar a complexidade de cada personagem. Que metáfora bem feita! E os monólogos foram um tapa na cara. É um ato de coragem ser mãe!
Meus pontos favoritos:
1- Embora eu não tenha gostado da cena da morte do gato, entendo que tudo ali é simbólico. Por ela ser “canina”, a convivência com o gato era, “instintivamente”, desconfortável. E ela se sentia na obrigação de conviver com esse desconforto. A morte dele, para mim, foi uma libertação desse sentimento. Tanto que logo após isso, o casal finalmente tem a DR que precisavam.
2- O momento do “bebês literários ” ter sido inicialmente uma obrigação tediosa e um tanto infeliz, mas, durante a “metamorfose” da mãe, ela se permitiu se conectar com o aqui e agora, curtindo o momento com o filho. E talvez tenha percebido que, muitas vezes, os nossos sentimentos frente a uma experiência são impactados pela forma como nos enxergamos e encaramos o mundo. A partir daí, ela conseguiu curtir o momento, se relacionar consigo mesma e criar vínculos verdadeiros.
3- Durante o jantar com os amigos da faculdade, achei uma bela afronta a outra mãe responder que ser mãe e conciliar tudo não foi difícil para ela. De um lado, uma mãe que decidiu largar tudo para criar o filho “full time”. Do outro, uma mãe que decidiu manter seu trabalho e, ainda assim, cuidar da filha. Após a resposta da amiga falhar com a expectativa, é quase instintivo não julgá-la. Mas acredito que essa cena foi feita exatamente para evidenciar o julgamento que temos sobre qualquer mulher. Ali não vemos uma mãe ruim/errada e outra boa/certa. Vemos apenas o nosso próprio julgamento.
4- Embora fosse muito mais “empoderado” a personagem terminar o filme sozinha, achei muito mais interessante ela reatar o casamento. Visto que o que eles tiveram antes realmente tinha terminado, e ali existia um novo começo. O amor nunca deve ser só o suficiente, mas pode ser o começo de uma transformação.
Tenho 0 empatia por homens, mas consegui enxergar que ele também tinha seus medos e frustrações. O momento em que eles brigam e ele consegue se expressar sobre como está se sentindo estava caminhando bem, mas, quando ele projeta nela toda a sua frustração, foi o momento certo para terminarem e cada um tentar se encontrar sozinho. Porque fica muito mais difícil quando são duas pessoas machucadas… No final, ele consegue enxergar um pouco da sensibilidade e da dificuldade que é ser mãe.
5- Depois que ele diz que se sentiu como um estranho quando ficou o final de semana com o filho, pensei que agora era ele quem tinha que passar por isso e se resolver. Quem sabe tentar ser um animal também, talvez um urso, como o filho diz no final do filme.
Enfim, eu amei e continuo sem filhos (apenas caninos e felinos) e não querendo ter Kkkkk
Tem ótimos monólogos sobre maternidade. A cena do restaurante mostrando a invisibilidade da mãe junto ao silêncio, refletindo a dor do estado atual dela, foi de partir o coração.
Amy Adams é uma força da natureza