Vanda Duarte é uma jovem tóxico-dependente. Isolada do mundo exterior, fechada em seu quarto pobre, vive com mágoa e desencanto, sentimentos que partilha com alguns familiares e amigos.
Paralelamente, o bairro das Fontainhas, no norte de Lisboa, onde ela mora, começa a ser destruído pelos buldozeres.
"A vida só me tem dado desprezos. Morar em casas-fantasma que outras pessoas deixaram. Estive em casas que nem uma bruxa queria lá morar. Mas também estive em casas que valiam a pena. Todas as casas que ocupei eram casas clandestinas. Foram casas que as pessoas abandonaram mas se estivesse lá uma pessoa de bem... eles até não mandavam abaixo. E olha foi assim casa atrás de casa. Já paguei mais pelas coisas que não fiz que pelas coisas que fiz."
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Marília Mendonça: Sentimento Louco
Gosto demais da concepção do cinema do Pedro Costa especialmente quando ele dimensiona o mundo do seus personagens em uma esfera fantasmagórica e vazia , representação nítida do estado de espírito de seus observados. Mas a execução não precisa ser tão letárgica ainda que a faça sentido este era um filme para ser contado em 1:30 hrs. Que raiva e nojo me deu destes drogados, bando de inútil que passeiam pela vida enquanto eu me esborracho de trabalhar, um bando de peso morto para a nossa sociedade. Aqui no Brasil ainda levam de bônus, comida grátis e R$ 600 de auxilio + bolsa família,
Encontrei o meu filme de Carnaval: o bálsamo/soco de que eu tanto precisava....
Ansiei por ver este filme desde que soube de seu lançamento e, claro, presumi que identificar-me-ia intensamente com o que é mostrado em tela. De fato, mas não apenas: aqui, o consumo de substâncias entorpecentes surge menos como um vício que enquanto extensão fisiológica da sobrevivência. Não consigo gostar do anterior OSSOS, que surge como referência contígua nas falas dos personagens reais, mas saí desta sessão absolutamente encantado, querendo passar mais tempo com aquelas pessoas. Temia que fosse um filme "desconfortável", mas é o contrário: senti-me até privilegiado, enquanto o via. A dinâmica relacional entre Vanda e as suas familiares é ótima. Idem quanto ao que acontece nas casas ao lado... Maravilhoso ouvir as conexões possíveis através das falas ("queres comprar couve e alface?") e das canções executadas diegeticamente (de Snap! a Roberta Miranda). Presumir se estamos diante de uma ficção ou de um documentário é algo que cai por terra: precisa? Na vida cotidiana, também não borramos estes limites? Esperei muito tempo para conferir esta preciosidade insigne, definidora do século então iniciante. Conforme esperado: amei. Amo ainda! Conferirei os capítulos que ainda não vi da filmografia do Pedro Costa. Genial em cada detalhe frontal! (WPC>)
A melancolia toma de conta da sessão.Os diálogos derruba numa facilidade danada.Não tem como sair feliz ou com esperança de alguma coisa mostrada aqui.
>Assistido em 10 de Abril de 2022
-Dou nota 8/10
De Ossos a Vanda, como muito se diz, tanto se mudou na concepção de cinema de Costa ao ponto de o próprio considerar o filme de 2000, de certa forma, como seu primeiro filme. É um inacabamento que ele já exercia anteriormente, mas que, aqui, numa mudança radical de produção, eclode de maneira mais visceral e materialista, sem deixar de ser íntimo por nem um segundo.
Na obra de 1997 se construía uma narrativa minimamente gravitacional, impulsionadora de progressões, todavia, com uma cobertura agressivamente fragmentária, fazendo com o que o trunfo do filme (o inacabamento) se enunciasse pelos retratos simbólicos de suas personas, momentos que a câmera captava uma fulguração natural dos rostos entrelaçados nos seus ambientes exíguos e que valiam mais do que o todo da narrativa (como um simples caminhar depressa pela calçada). De outra forma, o processo com Vanda parece ter subido um degrau bem distante do seu predecessor, como se a base do filme já começasse por estes tais retratos simbólicos e se finalizasse neles mesmo. Algo que só pode ocorrer numa proeminência formal massiva, curiosamente paradoxal ao intuito modesto de simplesmente pousar a câmera dentro de um quarto.
Daí temos um processo de recomposição da visão muito único. Soa-me como se Costa nos entregasse a vista de uma vivência em apenas 170 minutos. Decanta os materiais fundamentais que compõe a visão de Fontainhas e os torna proeminentes em todo o espaço da tela. Cada plano que preside o desnível do território, as casas em contínuo esfacelamento visual (e sonoro), a escuridão que engole os rostos, a ausência de perspectiva em cada cômodo... Disso, acaba sendo uma decisão bem edificante à obra a montagem que não se prende tanto assim ao rosto da protagonista, sempre realizando uma ronda pela vizinhança antes de retomar ao quarto título. Isso é, uma oportunidade de criar um crescendo desse materialismo formal, decantando cada vez mais o que há de mais gráfico na matéria que constitui os muros e luzes de Fontainhas, ao passo que se engloba o espectador nesse mundo sem profundidade — o que ainda se metamorfosearia mais uma vez no filme seguinte do autor, o que é curioso, pois No Quarto da Vanda costuma ser aclamado justamente por esse aspecto robustamente material e imediato que funda a experiência, bem contrário do filme seguinte que cria uma complexidade de elos entre passado, presente e futuro.
Uma experiência extremamente direta afinal, mas que origina corolários assombrosos pela sua simples capacidade de não precisar dizer nada, ou melhor, dizer tudo através de puro retrato simbólico, do puro registro da câmera digital dentro de um quarto. O que revela um imenso desacorçoamento social que não conseguiria ser exprimido de outra maneira. Imagens cinéticas que valem muito mais do que um grito.
Acho válido, mas não curto o cinema do nobre Pedro Costa. Nem quando a câmera é movimentada (Casa de Lava, Ossos) ou quieta (Juventude em Marcha, Vitalina Varela), ou quando é no preto e branco (Blood) ou colorido (no quarto de Vanda).
Acho tudo minimalista demais, descritivo demais, sem nuances ou conflitos (clímax).
O cineasta leva a sério mesmo o dogma 95 do lars
Nota 5.8 / 10 para cinema dele como um todo.