Uma família negra tenta reconstruir sua rotina após uma perda recente. Enquanto cada um foge do luto à sua maneira, o filho caçula guarda um segredo capaz de encarar as raízes de suas dores e, juntos, descobrirem um novo caminho.
Dá pra começar pensando em como os segredos de uma criança parecem ser muito pequenos, mas que podem sim ser muito grandes. O luto, a infância, a vida em família e tudo no mundo pode ser muito custoso a uma criança. É necessário buscar refúgio em algum lugar. Não que seja muito mais fácil para os adultos que ali estão, muito pelo contrário.
Aliás, os adultos e a família como um todo me lembrou, a princípio, Marte Um. Não que as famílias tenham alguma semelhança tão notável, além de serem famílias negras e mineiras. Mas me soou como um drama que acompanharia os dilemas familiares existentes de modo lento, sem muitas reviravoltas, algo que me agrada muito em Marte Um. Porém gosto como aqui todo o desenrolar da vida familiar resulta no grande segredo que todos possuem. Somos apresentados a uma família que não é disfuncional, longe disso, mas que está meio atrapalhada, meio confusa após a morte de uma pessoa muito querida. A forma como cada um lida com essa dor é até um pouco escondida. A gente se esquece do luto, depois nos lembramos, depois ele é deixado de lado novamente. Parece até a vida real
Ao final, é legal como o único legado deixado pelo pai é o que ele poderia contribuir mesmo: uma lista de compras pra uma obra, que é justamente o que soluciona todo o problema que surgiu. Acho que é o que a gente deixa mesmo.
Vale destacar dois aspectos muito ricos aqui também. O primeiro é como é construído o momento em que todos descobrem o que está se passando ali. Cada um volta mais desolado que o outro. Até que chega o momento em que o irmão mais velho praticamente protagoniza um filme de terror abrindo as portas e pisando no barro até quase morrer do coração.
O segundo é a construção da casa. O cinema brasileiro é muito bom em construir lares, historicamente. A gente pode falar do Khouri em suas casas de campo sinistras em Amor Voraz, As filhas do fogo, O anjo da noite, Estranho encontro, O desejo. Da Anna Muylaert em suas casas de família disfuncionais em Que horas ela volta, Além de tudo me deixou mudo o violão, Durval discos, Mãe só há uma. Dos filmes baseados em textos do Nelson Rodrigues em seus lares ruídos por patriarcas em Os sete gatinhos, Toda nudez será castigada, As gêmeas, Beijo no asfalto. E de tantos outros: Edifício Master, Aquarius, Ainda estou aqui, O som ao redor, O Novelo, Carvão, Ela e Eu, Marte Um, Dois Córregos, Cidade Campo, Excitação, Os enforcados, São Bernardo, Dona Flor e seus dois maridos, Malu, Gravidade, A praia do fim do mundo, etc.
Nosso Segredo entra nesta longa lista. Dá pra falar sobre vários aspectos do funcionamento da casa aqui e de como ela é construída, mas acho que dá pra ficar num ponto específico: a luz branca da cozinha. É difícil falar sobre algo que é essencialmente brasileiro porque isso não existe realmente. Mas em um momento em que existe quase que um lobby anti luz fria a gente olha pra essa casa com as lâmpadas acesas e se lembra de tantas casas em que vivemos e frequentamos.
Coisa linda meu deus. Pra quem gostou, recomendo Gravidade, do Leo Tabosa, que também fala de uma casa meio atrapalhada.
Dotado de uma beleza plástica impressionante, este longa-metragem desafia uma avaliação definitiva em única sessão. Trata-se de uma obra poderosa, onde cada plano e linha de diálogo possui um propósito cirúrgico, para traduzir cicatrizes do racismo por meio de uma sofisticada construção alegórica. A abordagem do luto e da saudade como excepcionalidade da reestruturação pontual e histórica do negro é justa e audaciosa. A disposição da diretora também me deixou "enfeitiçado". Saber que é adaptação de uma peça sua, me fez absorver melhor o ritmo monótono (necessário) que existe em algumas cenas, além de contextualizar o uso absurdo de ferramentas visuais de linguagem que, de fato, devem funcionar em um palco, mas podem distrair e arruinar a experiência no formato cinematográfico: elementos como o hipopótamo e a mulher branca vestindo o blusão da St. Francis Soccer, são bons exemplos disso. Naturalmente, fui atrás de explicações para esses detalhes e achei seus significados geniais e imprescindíveis, assim como quase tudo na obra. No fim, o filme é um exercício de paciência extenuante, que destrói emocionalmente, mas também purifica.
Rapaz que pedrada. Fui hoje no começo da tarde no Espaço de Cinema da Petrobrás aqui em São Paulo. Simplesmente encantado com "Nosso Segredo", filme muito bem dirigido, sensível, com uma pegada sobre luto que poucas vezes eu vi no cinema. A direção de desse filme, a trilha sonora, a direção de arte e fotografia são magistrais em muitos sentidos inclusive servindo para potencializar toda a temática do luto que além do drama, flerta com suspense trazendo uma pegada meio sobrenatural que não esperava. O elenco preto é ótimo. O final é uma pancada emocional muito forte. Prá mim um dos melhores do ano disparado. Que filme lindo, sensível e emocionante. Recomendação máxima.
O filme nos transporta para a temática da escravidão e suas consequências, as personagens da casa formam uma alegoria ou um tipo histórico: temos o motorista que tem o trabalho de conduzir como os antigos capitães do mato, a escravizada resignada que cansa de trabalhar e carrega os problemas, a que se refugia em seu interior, mas permanece, o que se revolta e foge constantemente e recusa o trabalho dentro da casa, a criança que tentam proteger com cobertores e névoas, o que interioriza as críticas externas e se acha feio e a que procura trazer esperanças. Então temos a casa, que tem o portão difícil de abrir, que está incompleta, que pode ser um local de confinamento, ou um local de refúgio e onde os brancos de fora não podem entrar. Por fim temos o segredo grande e pesado, violento e que mata os brancos, aquele que representa as origens, o que destrói a casa que já sangra para que depois seja reconstruída com novas histórias
Há algumas maneiras de se ver a principal revelação do filme, e eu entendo que a mais interessante é vê-la de modo literal.
O que é esse hipopótamo? Um hipopótamo, oras. E dessa visão, é possível desdobrarmos outras reflexões.
Dá pra começar pensando em como os segredos de uma criança parecem ser muito pequenos, mas que podem sim ser muito grandes. O luto, a infância, a vida em família e tudo no mundo pode ser muito custoso a uma criança. É necessário buscar refúgio em algum lugar.
Não que seja muito mais fácil para os adultos que ali estão, muito pelo contrário.
Aliás, os adultos e a família como um todo me lembrou, a princípio, Marte Um. Não que as famílias tenham alguma semelhança tão notável, além de serem famílias negras e mineiras. Mas me soou como um drama que acompanharia os dilemas familiares existentes de modo lento, sem muitas reviravoltas, algo que me agrada muito em Marte Um. Porém gosto como aqui todo o desenrolar da vida familiar resulta no grande segredo que todos possuem. Somos apresentados a uma família que não é disfuncional, longe disso, mas que está meio atrapalhada, meio confusa após a morte de uma pessoa muito querida. A forma como cada um lida com essa dor é até um pouco escondida. A gente se esquece do luto, depois nos lembramos, depois ele é deixado de lado novamente. Parece até a vida real
Ao final, é legal como o único legado deixado pelo pai é o que ele poderia contribuir mesmo: uma lista de compras pra uma obra, que é justamente o que soluciona todo o problema que surgiu. Acho que é o que a gente deixa mesmo.
Vale destacar dois aspectos muito ricos aqui também. O primeiro é como é construído o momento em que todos descobrem o que está se passando ali. Cada um volta mais desolado que o outro. Até que chega o momento em que o irmão mais velho praticamente protagoniza um filme de terror abrindo as portas e pisando no barro até quase morrer do coração.
O segundo é a construção da casa. O cinema brasileiro é muito bom em construir lares, historicamente. A gente pode falar do Khouri em suas casas de campo sinistras em Amor Voraz, As filhas do fogo, O anjo da noite, Estranho encontro, O desejo. Da Anna Muylaert em suas casas de família disfuncionais em Que horas ela volta, Além de tudo me deixou mudo o violão, Durval discos, Mãe só há uma. Dos filmes baseados em textos do Nelson Rodrigues em seus lares ruídos por patriarcas em Os sete gatinhos, Toda nudez será castigada, As gêmeas, Beijo no asfalto. E de tantos outros: Edifício Master, Aquarius, Ainda estou aqui, O som ao redor, O Novelo, Carvão, Ela e Eu, Marte Um, Dois Córregos, Cidade Campo, Excitação, Os enforcados, São Bernardo, Dona Flor e seus dois maridos, Malu, Gravidade, A praia do fim do mundo, etc.
Nosso Segredo entra nesta longa lista. Dá pra falar sobre vários aspectos do funcionamento da casa aqui e de como ela é construída, mas acho que dá pra ficar num ponto específico: a luz branca da cozinha. É difícil falar sobre algo que é essencialmente brasileiro porque isso não existe realmente. Mas em um momento em que existe quase que um lobby anti luz fria a gente olha pra essa casa com as lâmpadas acesas e se lembra de tantas casas em que vivemos e frequentamos.
Coisa linda meu deus. Pra quem gostou, recomendo Gravidade, do Leo Tabosa, que também fala de uma casa meio atrapalhada.
IMPRIMATUR - visto no cinema em 2026:
Dotado de uma beleza plástica impressionante, este longa-metragem desafia uma avaliação definitiva em única sessão. Trata-se de uma obra poderosa, onde cada plano e linha de diálogo possui um propósito cirúrgico, para traduzir cicatrizes do racismo por meio de uma sofisticada construção alegórica. A abordagem do luto e da saudade como excepcionalidade da reestruturação pontual e histórica do negro é justa e audaciosa. A disposição da diretora também me deixou "enfeitiçado". Saber que é adaptação de uma peça sua, me fez absorver melhor o ritmo monótono (necessário) que existe em algumas cenas, além de contextualizar o uso absurdo de ferramentas visuais de linguagem que, de fato, devem funcionar em um palco, mas podem distrair e arruinar a experiência no formato cinematográfico: elementos como o hipopótamo e a mulher branca vestindo o blusão da St. Francis Soccer, são bons exemplos disso. Naturalmente, fui atrás de explicações para esses detalhes e achei seus significados geniais e imprescindíveis, assim como quase tudo na obra. No fim, o filme é um exercício de paciência extenuante, que destrói emocionalmente, mas também purifica.
Avaliação em nota: 8.0
Rapaz que pedrada. Fui hoje no começo da tarde no Espaço de Cinema da Petrobrás aqui em São Paulo. Simplesmente encantado com "Nosso Segredo", filme muito bem dirigido, sensível, com uma pegada sobre luto que poucas vezes eu vi no cinema. A direção de desse filme, a trilha sonora, a direção de arte e fotografia são magistrais em muitos sentidos inclusive servindo para potencializar toda a temática do luto que além do drama, flerta com suspense trazendo uma pegada meio sobrenatural que não esperava. O elenco preto é ótimo. O final é uma pancada emocional muito forte. Prá mim um dos melhores do ano disparado. Que filme lindo, sensível e emocionante. Recomendação máxima.
Um texto excelente cheio de simbologias que parte da ideia do luto de um familiar para adentrar em um tema muito maior.
O filme nos transporta para a temática da escravidão e suas consequências, as personagens da casa formam uma alegoria ou um tipo histórico: temos o motorista que tem o trabalho de conduzir como os antigos capitães do mato, a escravizada resignada que cansa de trabalhar e carrega os problemas, a que se refugia em seu interior, mas permanece, o que se revolta e foge constantemente e recusa o trabalho dentro da casa, a criança que tentam proteger com cobertores e névoas, o que interioriza as críticas externas e se acha feio e a que procura trazer esperanças. Então temos a casa, que tem o portão difícil de abrir, que está incompleta, que pode ser um local de confinamento, ou um local de refúgio e onde os brancos de fora não podem entrar. Por fim temos o segredo grande e pesado, violento e que mata os brancos, aquele que representa as origens, o que destrói a casa que já sangra para que depois seja reconstruída com novas histórias
As vivências negras, no centro de um ecossistema de luto, como raramente se vê