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Data de lançamento
20 Fev. 2023Duração
Em um território indígena funciona o Aeroporto Internacional de Guarulhos. Centenas de milhares de passageiros o atravessam diariamente e 35 mil trabalhadores apoiam toda a operação. Seguimos personagens que se cruzam no dia a dia do trabalho nesse chão. Alê, uma funcionária de pista cuja história familiar foi sobreposta pela construção do aeroporto, nos conduz por encontros através dos tempos. As memórias e o futuro dela e de seus companheiros estão permeados por uma questão comum: rastros de um passado em um território em constante transformação. Projeto participante do BrLab 2019. Selecionado para o Festival de Berlim 2023 (Forum).
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Nossa senhora! Para ficar péssimo ainda que tem melhorar muito! Amadorismo e total desconhecimento da linguagem cinematográfica. E o problema aqui nem é a temática miserável e vitimista de 99% do cinema nacional, mas o despreparo numa condução narrativa mesmo. Vão estudar, queridas diretoras! 🙃
É um filme que apresenta um material mui interessante, focado na experiência de mulheres (lésbicas e indígenas) que tacitamente condena uma visão 'nacional-desenvolvimentista' masculinista refletida nas grandes obras da ditadura militar que deslocaram frações populacionais, além da sempre atingida população originária, pelos projetos econômicos nacionais. Se nas entrelinhas tem um clichê da 'mulher gaia sensível ecologicamente correta' , o filme transcende a questão, buscando revelar outros personagens não-humanos (rios, conchas, sambaquis, biomas), com uma arqueologia espacial da história colonial ou do capitalismo/capitaloceno, para além de uma 'memória-afeto-sofrimento-trauma' dos sujeitos e tocando em outros pontos atuais como a precarização da classe operária no aeroporto (terceirização e como isso afeta as relações de trabalho). Parece ser uma direção com um enredo que teve influência da feminista marxista Donna Haraway.
Tinha tudo para ser apenas um filme puramente exemplar da abordagem ecosocialista de ONG, com a típica lamentação 'brazil é meu abysmo' - Eliane Brum/Petra Costa que infesta a desinspirada narrativa da classe média cineasta pós-xornadas de junho e com um certo experimentalismo performático chinfrim à la Caetano Gontardo. Porém apresenta um apelo memorial do espaço urbano e suas bordas naturais de paisagens invisíveis e de atores negligenciados pelos grandes projetos nacionais que ganharam voz (populações afro-indígenas) a despeito do foco ongueiro-identitário ou do 'racismo ambiental'. O ''estranho'' tanto pode ser um aeroporto internacional para quem residia no local até 1985, quanto o rio Baquirivu-Guaçu para quem transita pela região atualmente.
A melhor estreia brasileira do mês é esse incrível drama com ar misterioso ‘O estranho’, escrito e dirigido por Flora Dias e Juruna Mallon. Indicado ao Teddy Bear no Festival de Berlim de 2023, o filme se passa no Aeroporto Internacional de Guarulhos, construído sob o território indígena, onde três milhões de pessoas cruzam todos os meses. Uma funcionária que trabalha na pista de pouso investiga o passado daquela área que abrigava indígenas, que contrapõe as ideias de civilização com a desapropriação forçada e genocídio do povo indígena.
Com tom memorialista, recorrendo a imagens de um passado perdido, o filme traz sempre o paradoxo do progresso do aeroporto e da colonização do território. Gravado no aeroporto de Guarulhos e nos arredores, tem participação dos atores Romulo Braga, Helena Albergaria e Larissa Siqueira. Produção da Lira Cinematográfica e Enquadramento Produções em coprodução com a francesa Pomme Hurlante Films e as brasileiras Filmes de Abril e Ipê Branco Filmes, com distribuição nos cinemas pela Embaúba Filmes.
POR FELIPE BRIDA - BLOG CINEMA NA WEB
Poderia iniciar este comentário indagando o porquê de este filme ser chamado de O ESTRANHO, mas isto equivaleria a cair numa armadilha identitária de mau gosto: a despeito das boas intenções políticas, achei tudo negativamente desengonçado nesta obra, que soterra os seus personagens da mesma maneira que os responsáveis pela construção do aeroporto fizeram em relação aos ambientes continuamente rememorados pela protagonista. Se o roteiro mantivesse a estrutura de filme-painel prometida na abertura, poderia ser ótimo, emulando a mesma verve sociológica de VIDA DE CIDADE, do John Sayles, por exemplo. Ao invés disso, o que temos é um emaranhado de ações e diálogos esparsos, personagens que raramente se demonstram como tal, flertes documentais subexplorados (a seqüência da entrevista é constrangedora) e uma montagem que deixa a impressão de que estamos assistindo ao copião da obra ou ao registro dos ensaios com os atores. Lamentei que os personagens de Rômulo Braga e Jorge Neto não aparecessem mais. Idem quanto à breve aparição da maravilhosa Helena Albergaria. Os aspectos fotográficos e sonoros até que fascinam, eventualmente, mas é tudo (des)organizado de maneira inemotiva, de maneira que não consegui me conectar com quase nada no filme. A ótima exceção: a cena em que dança-se "Azo Toke", do coletivo KOKOKO!, em pleno aeroporto. Por isso, ao menos, o filme vale! (WPC>)