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O filme acompanha as peregrinações do sexagenário Louis Trebor que anda à procura do filho com o qual há muito perdeu o contato, e também de um novo coração para substituir o seu, já bastante fraco. Das montanhas do Jura na França, a Pusan na Coréia, vai-se desvanecendo lentamente a aura de mistério em torno de Trebor.
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Gosto sempre da forma como A Claire Denis conduz sua câmera mas confesso que estou buscando um sentido em tudo isto que vi e ainda não cheguei à lugar algum. Denis cria um clima de mistério em uma narrativa não linear porém nada cria interesse, tanto faz tanto fez para onde caminha o personagem principal, sua jornada letárgica chega em lugar algum. Nem mesmo a simbologia do coração parece funcionar.
Há um tempo, escrevi um textinho que dizia que a atmosfera de um filme "é tão história" quanto a descrição de um filme. Claro, a afirmação que fiz depois é um pouco hiperbólica: disse que posso "optar contar a história só com a atmosfera, já que ela tem a essência da narrativa tanto quanto a descrição". Na verdade, todo filme (que de algum modo tenha uma narrativa, excluindo aqui os filmes ensaios de Brakhage a Godard, que sincretizam narrativa com criação sensível de modos diferentes) possui os dois, numa balança diferente em que o outro lado nunca some. Entretanto, acredito que O Intruso, de Claire Denis, chega bem próximo de sumir com a parte descritiva.
"Podemos dizer que, desde os primórdios, o cinema se divide entre duas 'vocações': 1) tirar proveito de sua fidelidade figurativa, de seu poder mimético, de sua ilusão de realidade (...) 2) promover um alargamento da percepção, permitir que o homem descubra um novo acesso aos fenômenos e que potencialize, por meio da imagem, seu investimento afetivo na realidade".
As palavras de Luiz Carlos Oliveira Jr. (escritas no A mise en scène no cinema, de 2013) exemplificam mais detalhadamente a dicotomia que criei, de ATMOSFERA - DESCRIÇÃO, sendo "atmosfera" apenas uma das características do âmbito fenomenológico de um filme. E sem delongas: O Intruso tá mais preocupado com esse lado fenomenológico.
O filme da Denis me soou muito difícil e ao mesmo tempo desafiador. Ele nega muito incisivamente os "porquês" da história, não existe preocupação alguma em contar detalhes, informações ou qualquer didatismo sobre a trama. A história só acontece e a câmera e todo o resto (destacando a trilha) vão dando vida aos sentimentos presentes ali, vão estabelecendo o tom, emantando as imagens com o psicológico do personagem. Não me espanta a tristeza do Aumont, sugerindo a morte da mise en scène clássica, usando justamente este filme como exemplo.
Essa não solidificação, da realidade da narrativa, me parece bem relacionada com essa recusa de informar, narrar, descrever, da obra da realizadora. O Intruso é um exemplo radical disso, o que me parece mais óbvio ainda comparando-o com outro filme desta mesma tendência, da mesma realizadora, como Bom Trabalho.
Michel Subor, aqui, é uma espécie de Homem de Lata de Oz misturado com alguma mente perturbada e pecadora de Edgar Allan Poe. É um ser que poderia ser descrito como amargo ou antipático, mas saber que ele é, literalmente, um assassino já deixa sua aparente patologia mais explícita. Ao mesmo tempo, ele ruma o tempo inteiro em busca de... melhora? Nesse caso, a coisa mais precisa que se pode dizer é que ele busca um novo coração, uma metáfora para redenção ou algo similar, que ele parece nunca conseguir.
Existe um obscurantismo grande, como mencionei, sobre qualquer profundidade objetiva da trama. No início do filme, o filho do personagem principal, num plano rápido, olha para uma cruz. Ele (talvez) segure o bebê com o mesmo nome do pai, o que pode ser alguma preocupação com o próprio. E juntando isto a um momento futuro da narrativa (novamente: talvez) ele tenha entendido erroneamente a morte de Michel Subor. Só que tudo fica na área do possivelmente, eu mesmo só fiz toda essa associação horas depois de assisti-lo.
Acontece que toda essa negação de informação é o que torna a experiência tão especial. Ele recusa que o espectador sinta algo por seus personagens através de alguma argumentação lógica. Denis joga apenas com energias, atmosferas, nesse caso a da marginalização e desolamento. É um exemplo incrível do cinema de fluxo, por essa negação informativa tão radical que consegue angariar o sentimento de quem assiste suas imagens através duma confecção visual puramente sentimental. Diminuindo ao máximo a inteligibilidade das causas e maximizando a sensorialidade de seus efeitos (seria um cinema rimbaudiano?).
Seja a trilha sonora, os planos desconfortavelmente fragmentários, o flashback advindo de outro filme, a apresentação abrupta do protagonista ou todos cenários naturais, cheios de água, neve e lobos. Tudo do filme nos leva a sentimentos indeterminantes, mas muito intensos, que rondam o sicário de Subor.
E olhando para O Intruso me parece no mínimo sensato ver Claire Denis como uma matriarca do cinema de fluxo, não pelo pioneirismo, mas pela maestria.
"Seus piores inimigos...
... estão escondidos no seu interior.
Escondidos nas sombras.
Escondidos em seu coração".
[spoiler][/spoiler]
Pouco inspirado e não envolvente.
"O Intruso" é um filme de ritmo calculado, de poucos diálogos.
Personagens misteriosos ocultam sentimentos de mágoa e grandes lamentações
com relações falhas de suas vidas.
A atmosfera é dominada por essa sensação permanente de frieza e melancolia.
Tentativas variadas e pouco usuais movem seus personagens com o objetivo de trazer
sentido as suas existências.
Infelizmente, o filme jamais nos mantém realmente interessados, e menos ainda nos impressiona em seu andamento. A narrativa muito distante é pouco capaz de fazer com que compremos as motivações dos personagens.
Trabalho menor de Denis.
.
Regular.
Apesar da história não ser complexa (ver sinopse acima), o filme tem uma narrativa que beira o incompreensível. Como não é um filme com abordagem surrealista, fantástica ou onírica, a opção narrativa da diretora torna o filme cansativo de assistir. Como mérito, tem algumas cenas realmente belas, com ótima fotografia.