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Data de lançamento
20 Março 2018"Orgulho e Paixão", de Marcos Bernstein, é baseada no clássico romance da britânica Jane Austen, “Orgulho e Preconceito”.
Ambientada em 1910, início do século XX, a trama se passa no fictício Vale do Café e conta a história de Elisabeta (Nathalia Dill), mulher à frente do seu tempo, com sonhos e ambições completamente diferentes para uma jovem do período. Ela é incentivada pelo pai Felisberto (Tato Gabus Mendes) a realizar seus sonhos, diferente da mãe Ofélia (Vera Holtz), com quem vive as turras sobre a criação das filhas. Elisabeta vive com outras quatro irmãs, cada uma com uma personalidade diferente. Elisabeta terá uma reviravolta em sua vida quando conhecer Darcy (Thiago Lacerda), com quem terá um conflito que se transformará numa grande paixão.
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No começo a história me empolgou bastante, ano passado li todas as obras da Jane Austen e me encantou ver uma versão brasileira dos personagens que eu tanto amo. Gostei da ideia de ter heroínas de outros livros da Jane como irmãs da Elizabeth (Elisabeta, no caso). Mariana (Marianne) e Cecília (Catherine) tomaram o lugar de Mary e Kitty, irmãs mais "descartáveis" da obra de 'Orgulho e Preconceito', trazendo aspectos de 'Razão e Sensibilidade' e de 'A Abadia de Northanger' e deixando a história mais interessante. Também tivemos a casamenteira Ema (Emma), que fugiu de seu par destinado no livro 'Emma' (George/Jorge) para ter a história de amor mais interessante da novela, na minha opinião, com Ernesto, e a história deles também teve um toque de 'Persuasão', com ela perdendo a fortuna por causa da vaidade do avô. Apesar do pouco destaque, tivemos também Fani (Fanny) e Edmundo (Edmund), representando a obra 'Mansfield Park'. E não podemos nos esquecer de Susana, representando a odiosa 'Lady Susan' brasileira. Amei esse multiverso de Austen em forma de novela. Além disso, tivemos toda a brasilidade que jamais caberia nas obras de Jane Austen, que deu todo um charme para a história.
De bônus, ainda tivemos personagens originais que acrescentaram muito à trama, como Julieta, Ludmila, Luccino, Tenória, Josephine, Petúlia, Olegário, entre outros...
A novela teve uma barriga lá pela metade que me desanimou um pouco, mas a chegada da vilã Margareth deu o gás que a novela tanto precisava após a revelação do verdadeiro caráter da Susana.
Confesso que o casal principal foi o mais sem graça de todos pra mim... a graça de Darcy e Elizabeth nos livros é o slow burn, os conflitos que são mais flerte do que qualquer outra coisa, a admiração que vai crescendo aos poucos e se transformando em amor, o tormento dos dois ao perceberem que estão se apaixonando por uma pessoa que parece tão errrada pra eles... na novela tudo aconteceu tão rápido, antes do capítulo 20 eles já estavam namorando e se pegando o tempo todo, acabou com toda a magia pra mim. Poderiam ter criado tantas outras situações para retardar esse início, mas escolheram atropelar tudo. Por isso preferi o casal Ema e Ernesto, este sim foi um casal que se bicava, mas que foi se entendendo e construindo aquela química absurda até, enfim, ficarem juntos quando a gente já estava morrendo de vontade que isso acontecesse. Darcy e Elisabeta entregaram o "ouro" cedo demais, perdeu a graça.
Outro casal sensacional foi Julieta e Aurélio. Ver tudo o que essa mulher superou foi inspirador, mas também muito triste. É horrível pensar que, apenas algumas décadas atrás, uma mulher estuprada era considerada "desonrada", e não uma vítima, e muitas vezes era obrigada a se casar com seu algoz para "recuperar a honra"... Me sinto muito grata por todas as mulheres que vieram antes de mim e lutaram para que absurdos como esse não sejam mais normalizados, apesar de saber que em muitos lugares esse estigma ainda permanece e muitas meninas e mulheres ainda sofrem com isso. Claro que a Julieta não precisava de um homem para superar isso, mas de qualquer modo foi linda a história de amor entre ela e Aurélio, um homem tão respeitoso e doce, o completo oposto do criminoso que era o falecido marido dela.
Enfim, vou sentir falta de tantos detalhezinhos dessa novela, a Dona Ofélia falando nomes aleatórios de santos, o Uirapuru levando uns tabefes regularmente, a dupla Susana e Petúlia bolando planos, os encontros de Luccino e Otávio na oficina, Ernesto chamando Ema de "baronezinha", a falta de tato do Barão de Ouro Verde, as paisagens lindíssimas do Vale do Café... Todo fã de Austen brasileiro deveria assistir essa novela, ela parece até um delírio da minha cabeça, porque parece bom demais pra ser verdade ter as versões brasileiras de todos os personagens que amo.
Assisti a novela Orgulho e Paixão de Marcos Bersntein na TV Globo. Dirigida por Fred Mayrink. A novela foi baseada em obras da Jane Austen. No começo me incomodou e parei de ver. Não me identificava com essas personagens saltitantes, alegres demasiadamente, tão diferente das obras da escritora. E me incomodei profundamente no que chamei de novela branca. No início inclusive não havia um único personagem negro no site da emissora. Pode ser que os autores quiseram ambientar na Inglaterra, então realmente seria estranho muitos negros na época, mas quando ambientaram no Brasil, ficou deveras estranho. A novela não tinha um tempo definido, mas tinham barões de café e dava a entender que seria após a abolição da escravatura, então porque não haviam inúmeros negros nas ruas em pequenos serviços? Os negros foram libertos, mas sem nenhum projeto, as fazendas trocaram a mão de obra escrava pela imigrante e milhares de negros ganharam as ruas sem saber outras funções, sem suporte, fazendo pequenos serviços, comércio nas ruas. Muito estranho a novela desaparecer com eles. Mas Orgulho e Paixão foi uma novela solar e fundamental para os dias de hoje por dizer que as mulheres podem ser o que elas quiserem. Mesmo sendo uma novela de época, as personagens tinham comportamentos atuais e isso facilitou muito o discurso de que a mulher pode ser livre para fazer o que quiser. Parece surreal que atualmente uma novela precise dizer as mulheres dos dias de hoje que elas possam ser o que quiserem ser, mas os altos índices de feminicídio no Brasil mostram que muitas mulheres não só são privadas desse direito como ainda são ceifadas e mortas porque não atenderam ou não obedeceram ordens, muitas só porque quiseram se separar e seguir suas vidas, refazendo suas histórias. O pilar desse discurso foi Elisabeta (Nathália Dill). Ela queria ganhar o mundo, fazer algo que a inspirasse, tinha muitos planos e desejos. Foi lindo ela encontrar no amor por Darcy (Thiago Lacerda) a compreensão para realizar os seus sonhos. Eles se amaram, mas ela demorou para aceitar com receio que o casamento pudesse limitar os seus sonhos, na verdade o amor dos dois só ampliou as possibilidades. E não enrolaram no amor dos dois, logo já se relacionavam, viviam juntos. Era uma novela moderna em comportamento, não como era na época. Tanto que as mulheres eram sexualmente ativas, mas podiam escolher se queriam ou não ser mães, o que antes da pílula na década de 70 não era possível. O casal mais amado era Ema (Agatha Moreira) e Ernesto (Rodrigo Simas). Ela sempre quis casar e fazia tudo para que todos encontrassem o seu amor. Filha do barão do café, viu a sua vida arruinada com a decadência financeira da sua família. Ernesto surgiria somente para fazer triângulo amoroso com Ema que estava destinada a triste história de Jorge (Murilo Rosa) e Amélia (Letícia Persiles). Mas a química do casal ganhou o mundo exterior e contagiou tanto, que eles se tornaram um dos grandes casais da teledramaturgia. Pobre, ela foi viver com amigas no cortiço. A novela foi muito inteligente em criar vários núcleos que se misturavam. Amo cortiços por permitirem muitas interações de personagens.
E que trágica a história de Julieta. Um dos melhores personagens da carreira da Gabriela Duarte que pode debater o estupro, e principalmente o estupro do cônjuge, um tema tão delicado e que infelizmente é tão presente entre os brasileiros. A transformação da personagem foi linda demais. Muito bem feita a escolha de como Camillo conheceria a história da sua mãe. Seria mesmo muito difícil que alguém, até mesmo a mãe, contasse ao filho os horrores do seu pai e as condições da sua concepção. Delicado fazerem no confessionário, meio que por acidente. Até mesmo um pouco improvável, mas foi uma solução muito delicada. E lindo o desabrochar de um amor saudável com Aurélio (Marcelo Faria), que teve paciência em respeitar o tempo de sua amada tão machucada pelas violências que sofreu. Outra história que causou comoção foi de Luccino (Juliano Laham) e Otávio (Pedro Henrique Müller), que belos personagens e interpretações. Que lindo e delicado texto, que trama tão bem abordada. Luccino começa a perceber que gosta de Mário, não de Mariana (Chandelly Braz). Essa irmã Benedito se vestia de Mário para poder participar de corridas de motos e Luccino percebe que é de Mário que gosta, não de Mariana, até que aparece Otávio. Eles mesmos demoram a perceber e entender os seus sentimentos e a aceitar. Pela primeira vez teve um beijo entre pessoas do mesmo sexo na novela das seis. E vários outros depois. Em uma entrevista o diretor disse que desde o começo estava previsto porque a novela queria mostrar as várias formas de amar.
Então não entendi porque Tenória (Polly Marinho) ficou sozinha e não teve direito a um amor. Sua história foi linda. Ema descobre que Tenória era filha do barão, portanto sua tia. Os dois Tenória e Estilingue (JP Rufino) ganham uma casa, mas fica só nisso, parece que basta. Estilingue não ganhou a oportunidade de estudar, não ensinaram sobre o café, expertise da família, não incluíram nos mosqueteiros, inclusive no final disseram que o café dos mosqueteiros deu certo apesar de Camilo (Maurício Destri) fazer tudo praticamente sozinho, então porque Estilingue não se uniu a ele? As tramas dos negros da novela ficaram demasiadamente de pano de fundo. Como a do médico da cidade (Thiago Justino) que mal aparecia e do jornalista da cidade. Inclusive esses dois ainda não aparecem nos personagens no site. Foi linda a história do barão (Ary Fontoura). Ele ia ficar alguns capítulos e morrer no começo, mas o personagem agradou muito e ficou praticamente até o final. Depois de a família perder tudo era divertido ver ele de casa em casa, pedindo abrigo, logo após a hospedagem ele passava a mandar em tudo e todos e a reclamar de tudo. Foi uma bela oportunidade de falar sobre o envelhecimento e a inclusão na sociedade. Lindo quando o neto diz que é feliz porque tem uma família normal, uma mãe que pega no pé e um avô ranzinza. Depois o barão ainda teve oportunidade de ser um mosqueteiro e com sua experiência ajudar os jovens no negócio. Linda a história de Cecília (Anaju Doringon), a sonhadora que amava Rômulo (Marcos Pitombo). Pena que sua história estava ligada a muitos vilões que eram muito chatos e caricatos. Encantadora a de Mariana e que lindo casal com o coronel Brandão (Malvino Salvador). A da bela Jane (Pâmela Tomé) e do Camilo. Lindo também o amor maduro de Ofélia (Vera Holtz) e Felisberto (Tatu Gabus Mendes), amor quente, caliente, mas compreensivo. Como nos livros da Jane Austen, Felisberto é compreensivo, amoroso. Apesar de amalucada, Ofélia era uma mãe e tanto. Muito engraçada a fileirinha de Santos Antonios de ponta cabeça nos copos para cada filha. O final de Josephine (Christine Fernandes) foi muito over, mas achei importante abordar a história dessa mulher, presa a um casamento que não desejava com Almirante Tibúrcio (Oscar Magrini). As formas como ela escolhe para se libertar do fardo são inadequadas pra dizer o mínimo, mas ela desejava ser livre, ter amantes, dinheiro, poder escolher o seu destino, viajar. Bela personagem. Fani (Tammy Di Calafioiri) também, oprimida por essa falsa mãe, acaba sendo usada, ficando amargurada boa parte da trama. E que encanto a história da fogosa Lídia (Bruna Griphão). Ela acaba caindo na lábia do sedutor Uirapuru (Bruno Gissoni) e engravida. Resolve criar o filho sozinha e é apoiada por toda a família. Até que se apaixona pelo encantador Randolfo (Miguel Rômulo) que não só quer se casar com ela como assumir o seu filho. Lídia ganha vários números musicais em sonho que são verdadeiras preciosidades na novela. Natália do Valle surgiu quando Tarcísio Meira precisou se ausentar por problemas de saúde. Eu não gostava das inúmeras armações da novela, eram cansativas e repetitivas, mas tinham grandes atores. Alessandra Negrini e Grace Gianoukas estavam no núcleo cômico que agradou muito o público. Eu já achei repetitivo também. Outros vilões ainda foram interpretados por Jairo Mattos, Ricardo Tozzi e Giordano Bechenelli. Que linda história de Ludmila e Januário. Adoro esses atores Laila Zaid e Silvio Guindane. Ela uma mulher a frente do seu tempo diretora de uma fábrica de tecidos e de uma loja de moda feminina e ele um artista plástico. Também adorava o casal Charlotte (Isabella Santoni) e Olegário (Joaquim Lopes). Foram muitos personagens com ótimos atores: Rosane Goffman, Jacqueline Sato, Vânia de Brito, Nando Rodrigues e Emmilio Moreira. Os figurinos de Beth Filipeck eram de uma delicadeza impressionante, com uma riqueza de detalhes, bordados, lindos.
O início teve como o foco, jovens e o casamento e aos poucos foi se construindo novas histórias, histórias essas que discutiram de forma leve alguns temas relevantes para a época em que vivemos. Os vilões parecem extraídos de algum clássico da Disney, os mocinhos também, a ambientação e a fotografia colaboraram para o clima leve que persistiu durante toda a novela. Aliás, nunca assisti uma novela com uma fotografia tão bela.
Meu núcleo favorito foi Mariana, Brandão e Luchino, Mariana era um doce de mulher. Vale destacar o desempenho de Alessandra Negrini, Natália do Vale, Juliano Lahan, Gabriela Duarte, entre outros.
Fazia anos que eu não assistia uma novela atual, valeu a pena.
Repleta de referencias e inspirações essa novela foi perfeita e linear até o fim, todo o elenco fazia sincronia. Ótima novela.
Encantadora do início ao fim, "Orgulho e Paixão" foi a melhor novela de 2018
A primeira novela de Marcos Berstein como autor apresentou diversos problemas. "Além do Horizonte", exibida em 2013 na faixa das sete, foi um folhetim ousado e sofreu várias mudanças em virtude da baixa audiência ---- conseguindo ficar atrativa da metade para o final. O escritor desenvolvia a trama em parceria com Carlos Gregório e já havia trabalhado com João Emanuel Carneiro no roteiro do aclamado filme "Central do Brasil" (1998) e na ótima série "A Cura" (2010). Chegou a ser também colaborador de Lícia Manzo na primorosa "A Vida da Gente" (2011). Após as experiências citadas, Marcos recebeu a missão de escrever um enredo como autor principal na Globo. Assim nasceu a deliciosa "Orgulho e Paixão", que, depois de 161 capítulos, chegou ao fim no dia 24/09/18, fechando seu ciclo com um capítulo belíssimo.
A estreia do autor em um trabalho solo não poderia ter sido melhor. Berstein foi muito inteligente em adaptar vários romances de sucesso da escritora inglesa Jane Austen em uma só novela, aproveitando todo o potencial que livros como "Razão e Sensibilidade (1811), "Orgulho e Preconceito" (1813), "Mansfield Park" (1814), "Emma (1815), "A Abadia de Northanger (1818) e "Lady Susan" (1871) poderiam render. E como renderam bem. Ele inseriu vários personagens marcantes da autora em sua criação e conseguiu mesclá-los com outros novos perfis através um enredo bem construído e desenvolvido com habilidade, cuja maior qualidade foi o ritmo ágil. O telespectador não podia se dar ao luxo de perder um ou dois capítulos na semana.
A trama esteve recheada de personagens carismáticos e casais apaixonantes. Aliás, nunca antes um folhetim conseguiu apresentar tantos romances encantadores juntos. Não faltou par para "shippar" e Berstein fez questão de destacar cada um através ciclos que se abriam e fechavam dentro do enredo. Tanto que foram vários casamentos realizados bem antes das últimas semanas de novela. E, quase sempre, quando há casório na ficção antes do final é porque haverá alguma desgraça ao longo dos meses. Não foi o caso da trama das seis.
As cerimônias muitas vezes serviam como um elemento vital para o prosseguimento do conflito dos pares, vide o caso de Cecília (Anaju Dorigon) e Rômulo (Marcos Pitombo), que precisaram enfrentar as maldades de Tibúrcio (Oscar Magrini) e Josephine (Christine Fernandes) na Mansão do Parque. Jane (Pâmela Tomé) e Camilo (Maurício Destri) são outros bons exemplos, pois o casal encarou as dificuldades financeiras em virtude da retaliação da então amarga Julieta (Gabriela Duarte).
A história teve leveza, comédia e dramaticidade bem equilibradas, explorando com astúcia todas essas características e proporcionando para o telespectador uma sucessão de atrativos acontecimentos ao longo de seis meses. Os mocinhos Darcy Williamson (Thiago Lacerda) e Elisabeta Benedito (Nathalia Dill) tiveram uma boa química e passaram por várias provações, fazendo jus ao bom dramalhão. Mas eram perfis inteligentes e ativos. Nunca recuaram diante dos vilões e as separações do casal não duravam muito tempo justamente por causa da rápida descoberta das armações de seus algozes. A constante movimentação do enredo, inclusive, proporcionou um rodízio de vilanias. Inicialmente, Susana (Alessandra Negrini) e sua fiel escudeira Petúlia (Grace Gianoukas) eram as responsáveis pelas maldades (várias delas cômicas) e depois cederam lugar para o intransigente Lorde Williamson (Tarcísio Meira em uma luxuosa participação, que infelizmente precisou ser interrompida por uma infecção pulmonar do ator).
A chegada da poderosa Lady Margareth (Natália do Vale em um de seus melhores momentos) resultou em uma das maiores viradas da novela e a perua inglesa que odiava o Brasil logo virou a grande vilã da história, praticando maldades em quase todos os núcleos. Era uma víbora bem maniqueísta daquelas que o público ama odiar. Movimentou o roteiro até o fim, destacando o talento da veterana que não era valorizada assim há muito tempo. A tia de Darcy ainda virou uma espécie de 'capitã' dos vilões, o que acabou beneficiando outros perfis sem escrúpulos como Xavier (Ricardo Tozzi), Uirapuru (Bruno Gissoni) e a já citada Josephine. A sogra de Cecília, por sinal, fez da vida da nora um inferno e ainda tentou prejudicar o romance de Brandão (Malvino Salvador) e Mariana (Chandelly Braz). Christine também recebeu o devido valor do escritor e pela primeira vez viveu um perfil de importância nas novelas da Globo. Os maus eram tão bem construídos quanto os bons, embora maniqueístas (o que não é demérito algum).
Todavia, houve espaço também para personagens complexos. Julieta Bittencourt foi o melhor papel da carreira de Gabriela Duarte, conseguindo "empatar" com a mimada Maria Eduarda, de "Por Amor" (1997). A Rainha do Café parecia uma víbora no início do enredo, mas aos poucos o público foi conhecendo o lado humano e o passado sofrido da poderosa mulher que se defendia com um tom arrogante e autoritário. Seus conflitos com Camilo resultavam sempre em grandes cenas e a descoberta do amor --- através da relação com Aurélio --- serviu como um desarme, após longos anos vivendo um luto pela sua própria dor, física e emocional. A química da atriz com Marcelo Faria foi imediata e o casal fez um merecido sucesso. O romance marcou a virada da personagem, que resolveu reconstruir sua vida e suas relações. Gabriela se entregou por completo e merece indicações como Melhor Atriz Coadjuvante nas futuras premiações. Vale citar, ainda, Fani (Thammy Di Calafiori), cujas atitudes frias eram justificadas pelo passado doloroso em virtude de uma traumática separação familiar e amorosa ---- foi ''doada" pela mãe e separada de Edmundo (Nando Rodrigues) pelo preconceituoso patrão Tibúrcio, além de ter sido manipulada por Josephine.
Os romances açucarados rechearam a história com cenas sensíveis e até lúdicas. Como já mencionado, foram muitos pares apaixonantes e todos com bom destaque. O par Ema (Agatha Moreira) e Ernesto (Rodrigo Simas) foi um dos melhores e o relacionamento improvável deu tão certo que o autor aumentou significativamente a importância dos personagens, que passaram a dividir o protagonismo com a família Benedito. A química entre os atores foi imensa e o jogo de gato e rato entre a Baronesinha e o Carcamano divertiu. Berstein ainda tinha uma carta na manga que só usaria depois da metade de seu folhetim: o amor de Luccino (Juliano Laham) e Otávio (Pedro Henrique Muller). A homossexualidade foi tratada com toda delicadeza possível e a construção daquele envolvimento se mostrou um dos muitos êxitos da produção. A sintonia ficou evidente, os atores emocionaram e ainda houve a quebra de um tabu da faixa das seis, que nunca havia exibido um beijo entre iguais em 47 anos. O par se juntou aos vários bem conduzidos pelo escritor.
Vale mencionar, inclusive, a habilidade que o criador do enredo teve para abordar questões atuais em uma novela de época. Mesmo ambientada em 1910, "Orgulho e Paixão" conseguiu explorar o empoderamento feminino, o machismo, a homossexualidade, a violência contra a mulher e outros assuntos importantes de forma muito mais competente que vários folhetins atuais, como "Segundo Sol", por exemplo. Vide a impactante cena em que Mariana teve seus cabelos cortados à força por Xavier, o forte momento da intolerância de Gaetano (Jairo Mattos) diante da condição sexual de Luccino e a dilacerante sequência da revelação dos constantes estupros sofridos por Julieta. Cenas de forte apelo dramático e reflexivo. A licença poética em torno dos vários casais que transaram antes de casar ou em cima da aceitação aparentemente rápida a respeito de Luccino acabou sendo bastante válida e não atrapalhou em nada a condução do enredo. Pelo contrário, se mostrou útil para a abordagem de temas pertinentes.
A valorização do bem escalado elenco foi outro ponto alto, assim como a trilha sonora de qualidade com músicas escolhidas para cada casal ou personagem, fugindo da falta de personalidade que vem acometendo vários outros folhetins. Fred Mayrink fez uma ótima direção e foi muito feliz nessa preocupação em torno da escolha de uma canção para cada romance. Nathalia Dill, Thiago Lacerda, Anaju Dorigon, Vera Holtz ( hilária na pele da espalhafatosa Ofélia), Tatu Gabus Mendes (Felisberto), Gabriela Duarte, Christine Fernandes, Natália do Vale, Marcos Pitombo, Maurício Destri, Pâmela Tomé, Chandelly Braz (em seu melhor momento), Agatha Moreira, Rodrigo Simas, Marcelo Faria, Grace Gianoukas e Alessandra Negrini formando uma dupla perfeita, Rosane Gofman (Nicoleta), Thammy Di Calafiori, Vânia de Brito (Dona Agatha), Bruna Griphao (Lidia), Isabella Santoni (Charlotte), Joaquim Lopes (Olegário), Laila Zaid (Ludmila), Silvio Guindane (Januário) e Ary Fontoura ---- impagável vivendo o rabugento Barão de Ouro Verde (que em virtude do sucesso acabou tendo sua morte, prevista para o segundo mês de novela, adiada para a última semana) ----- foram alguns dos muitos destaques da produção.
Outra qualidade foi a coragem da exibição de vários pequenos musicais dentro do enredo, sem prejudicar a narrativa. A ideia do autor começou timidamente através de Lídia e Randolfo (que só conseguia se livrar da gagueira cantando), mas acabou estendida a todos os núcleos, aproveitando a maioria dos personagens, sempre em função do casal atrapalhado. Os números remeteram aos clássicos da Disney e o clima de conto de fadas que sempre predominou no folhetim ficava ainda mais evidente durante esses momentos. Deu gosto de ver as performances dos atores e as coreografias, tão bem ensaiadas, em cenas que homenageavam a infância do telespectador. A própria abertura da novela, com belíssimas animações ao som de "Doce Companhia", cantada pela talentosa Lucy Alves, já caracterizava bem a trama ---- assim como os caprichados congelamentos no fim de cada capítulo.
Porém, nem tudo deu certo, como é normal em qualquer folhetim. O núcleo protagonizado por Jorge (Murilo Rosa) e Amélia (Letícia Persiles) ficou avulso em virtude do sucesso do casal "Erma". O intuito era colocar Jorge como par de Ema, assim como no livro de Jane Austen, mas o improvável funcionou infinitamente melhor e o advogado perdeu a função. Tanto que Amélia morreria logo no início para o romance do personagem seguir com a filha de Aurélio. O autor decidiu deixá-la viva para fazer companhia a Jorge, mas eles não tiveram enredo. A apreensão por causa da doença dela não era o bastante para despertar interesse. Junto com eles, inclusive, Mariko (Jaqueline Sato) também acabou deslocada, assim como Tenória (Priscila Marinho) e Estilingue (JP Rufino vivendo mais um tipo igual aos últimos que interpretou) ---- ao menos o enredo da empregada ser filha do Barão de Ouro Verde acabou deslanchando na reta final. Outro erro foi a escalação de Ricardo Tozzi para viver Xavier. O ator é fraco e não convenceu na pele do vilão, embora o perfil tenha sido interessante e movimentado o roteiro. Mas foram erros muito pequenos e não atrapalharam em nada o conjunto harmonioso da produção.
A reta final da história foi empolgante e emocionante, honrando a qualidade da novela. O lindo musical do casamento de Lidia e Randolfo se mostrou um primor, enquanto a morte do Barão resultou na sequência mais delicada e linda de "Orgulho e Paixão" , fechando a participação de Ary Fontoura com brilhantismo. Impossível não ter chorado. O penúltimo capítulo se mostrou eletrizante, sendo necessário destacar a queda de Josephine no penhasco, após ter sido vítima de sua própria armadilha e a sequência de tirar o fôlego em torno da bomba colocada no trem por Xavier, resultando em um desespero geral dos personagens que viajavam para a inauguração da ferrovia construída por Darcy. Parecia um filme do "007", sem exagero. A briga entre Brandão e Xavier em cima do vagão e as atitudes dignas de uma super heroína de Elisabeta (que jogou a bomba para fora do trem e ainda ajudou a freá-lo com Ernesto e Darcy) foram de tirar o fôlego. Aquela típica ação que faz parte dos momentos decisivos de qualquer bom roteiro.
O último capítulo foi um verdadeiro espetáculo de poesia, fantasia e muito amor.
Após seus planos fracassarem, Lady Margareth se matou e Natália do Vale fechou sua participação brilhantemente. Petúlia ter virado a "madama" e Susana a sua empregada foi uma sacada de mestre, assim como Uirapuru ter ficado impotente e Tibúrcio enlouquecido em sua mansão. A passagem de tempo de cinco anos serviu para apresentar as novas famílias formadas e a ironia de todas as irmãs Benedito terem apenas filhos homens foi genial, assim como Luccino e Otávio morarem em casas vizinhas que se ligam com uma porta no corredor. O livro de Elisabeta recebeu o título da novela e a narração final da mocinha emocionou com um texto belíssimo de Berstein. A chuva de tinta que caiu sobre o Vale do Café, em mais uma armação fracassada de Susana e Petúlia, coroou o desfecho com o toque lúdico que o enredo sempre carregou. Todos felizes e coloridos.
"No Vale do Café, as coisas não são exatamente como as pessoas acham que seja. Temos homens e mulheres de hábitos retrógrados e imutáveis que apenas pensam em manter as coisas que aprenderam dos seus pais. Mas aqui também temos homens maravilhosos que tratam mulheres como iguais. Também temos jornalistas, médicas, enfermeiras, lavadeiras. Até uma Rainha do Café. Talvez seja apenas um mundo de sonhos, de cores fortes como essas que caíram do céu naquele dia. Talvez só exista na cabeça dos desejosos de amor pleno e generoso. Mas se um dia uma pessoa não tivessem sonhado com aquilo que hoje chamamos de casa, um lar para viver, talvez ainda estivéssemos todos nas cavernas e não teríamos um lugar para chamar de lar. E hoje temos, eu tenho. O meu lar se chama Vale do Café. O nosso lar dos sonhos."
"Orgulho e Paixão" foi uma trama despretensiosa, leve, inteligente e desenvolvida com maestria por uma equipe que transpareceu o amor que sentiu pela produção. Um sucesso de público e crítica. Marcos Berstein escreveu simplesmente a melhor novela de 2018 e soube apresentar uma história perfeita para a faixa das 18h. A média geral foi de 22 pontos --- um ótimo índice, levando ainda em consideração o Horário Eleitoral na reta final --- e merecia muito mais. Tudo o que se espera de um folhetim desse horário foi apresentado com extremo capricho pelo autor, que criou vários personagens encantadores e romances açucarados cativantes. A saudade já se faz presente e essa deliciosa história ficará na memória do público. Jane Austen com certeza estaria feliz.