Após um período de terror regional, o xeque Ferit enfrenta o retorno de uma tribo rival que reivindica suas terras. Ele e seu irmão discordam sobre como lidar com o conflito.
Muito bom pra entender a construção da desumanização do outro. Sobre o fato que inspirou o filme e o sistema de armamento dos moradores de vilarejos curdos: https://www.opendemocracy.net/en/the-mardin-massacre-and-the-village-guard-system-in-turkey/
Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim de 2026 e filme de encerramento do Festival Olhar de Cinema, “Salvação” (“Kurtulus”) é um dos filmes mais poderosos do ano, uma obra de mestre que mistura drama e thriller (a gradação da violência me lembrou a estrutura de outro filme semelhante, “Dheepan – O refúgio”, ganhador da Palma de Ouro em 2015). O filme, uma coprodução de seis países (Turquia, França, Países Baixos, Grécia, Suécia e Arábia Saudita), é inspirado em uma trágica história de disputa por terras e vingança entre famílias. Em uma aldeia remota no alto das montanhas, na fronteira da Turquia com a Síria, membros de um clã exilado retornam para a região. Eles reivindicam parte do território, o que reacende uma antiga crise entre duas famílias. O irmão do líder local é assombrado por estranhos presságios, que tiram seu sono. Ele acredita que aquilo seja um aviso sagrado, o que o coloca em atrito com o irmão. Paralelamente, as duas famílias rivais se organizam para negociar a divisão das terras, gerando um mal-estar na comunidade. O filme funciona como uma parábola sobre extremismo religioso e político – na história uma população devota será instrumentalizada por um mentor fanático a cometer um massacre, usando as palavras de Deus para o ato, como costuma ocorrer em ataques terroristas. A obra faz alusão a um crime de proporções devastadoras ocorrido em 4 de maio de 2009, no vilarejo de Bilge, província de Mardin, sudeste da Turquia, quando homens armados e mascarados, membros de uma mesma família de milicianos, invadiram uma festa de noivado com granadas e fuzis, matando 44 pessoas, incluindo os noivos, mulheres e crianças. Os atiradores pertenciam ao clã curdo Çelebi, e foram motivados por uma antiga disputa de terras e contra a união das duas famílias. O caso chocou o mundo, tomou conta dos noticiários, e agora o filme procura fazer um retrato do sórdido fato. Em seu quinto longa-metragem, o diretor e roteirista turco Emin Alper faz um estudo sobre os crimes de ódio motivados por política e religião, atrelados também a outras questões (a disputa por território). Ele rodou no verdadeiro local onde ocorreu o caso do massacre, em Mardin, na Turquia, o que deixa a história ainda mais assustadora. Um grande filme, com uma fotografia de muitas tonalidades (com destaque para as cenas noturnas nas grutas, com os clarões das chamas – algo quase sobrenatural, de terror). Nos cinemas brasileiros pela Pandora Filmes. POR FELIPE BRIDA - No blog Cinema-naweb blogspotcom
O diretor atinge certa excelência em várias cenas, com ótimas tomadas e um final impactante, mas acredito que seja um pouco confuso na sua mistura de proposição onírica e estética rústica via o limites na ambientação política e geográfica. Muito embora, isso ajude toda visão sistêmica sobre a obra... também tem um roteiro que passa muito tempo procrastinando sua provável crueldade e isso pode ser um pouco cansativo. De todo jeito, sua advertência sobre os perigos da adulteração religiosa é importantíssima.
Muito bom pra entender a construção da desumanização do outro. Sobre o fato que inspirou o filme e o sistema de armamento dos moradores de vilarejos curdos: https://www.opendemocracy.net/en/the-mardin-massacre-and-the-village-guard-system-in-turkey/
Salvação
Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim de 2026 e filme de encerramento do Festival Olhar de Cinema, “Salvação” (“Kurtulus”) é um dos filmes mais poderosos do ano, uma obra de mestre que mistura drama e thriller (a gradação da violência me lembrou a estrutura de outro filme semelhante, “Dheepan – O refúgio”, ganhador da Palma de Ouro em 2015). O filme, uma coprodução de seis países (Turquia, França, Países Baixos, Grécia, Suécia e Arábia Saudita), é inspirado em uma trágica história de disputa por terras e vingança entre famílias. Em uma aldeia remota no alto das montanhas, na fronteira da Turquia com a Síria, membros de um clã exilado retornam para a região. Eles reivindicam parte do território, o que reacende uma antiga crise entre duas famílias. O irmão do líder local é assombrado por estranhos presságios, que tiram seu sono. Ele acredita que aquilo seja um aviso sagrado, o que o coloca em atrito com o irmão. Paralelamente, as duas famílias rivais se organizam para negociar a divisão das terras, gerando um mal-estar na comunidade. O filme funciona como uma parábola sobre extremismo religioso e político – na história uma população devota será instrumentalizada por um mentor fanático a cometer um massacre, usando as palavras de Deus para o ato, como costuma ocorrer em ataques terroristas. A obra faz alusão a um crime de proporções devastadoras ocorrido em 4 de maio de 2009, no vilarejo de Bilge, província de Mardin, sudeste da Turquia, quando homens armados e mascarados, membros de uma mesma família de milicianos, invadiram uma festa de noivado com granadas e fuzis, matando 44 pessoas, incluindo os noivos, mulheres e crianças. Os atiradores pertenciam ao clã curdo Çelebi, e foram motivados por uma antiga disputa de terras e contra a união das duas famílias. O caso chocou o mundo, tomou conta dos noticiários, e agora o filme procura fazer um retrato do sórdido fato. Em seu quinto longa-metragem, o diretor e roteirista turco Emin Alper faz um estudo sobre os crimes de ódio motivados por política e religião, atrelados também a outras questões (a disputa por território). Ele rodou no verdadeiro local onde ocorreu o caso do massacre, em Mardin, na Turquia, o que deixa a história ainda mais assustadora. Um grande filme, com uma fotografia de muitas tonalidades (com destaque para as cenas noturnas nas grutas, com os clarões das chamas – algo quase sobrenatural, de terror). Nos cinemas brasileiros pela Pandora Filmes.
POR FELIPE BRIDA - No blog Cinema-naweb blogspotcom
IMPRIMATUR - visto no cinema:
O diretor atinge certa excelência em várias cenas, com ótimas tomadas e um final impactante, mas acredito que seja um pouco confuso na sua mistura de proposição onírica e estética rústica via o limites na ambientação política e geográfica. Muito embora, isso ajude toda visão sistêmica sobre a obra... também tem um roteiro que passa muito tempo procrastinando sua provável crueldade e isso pode ser um pouco cansativo. De todo jeito, sua advertência sobre os perigos da adulteração religiosa é importantíssima.
Avaliação em nota: 7.9
Excelente, merecia ser mais conhecido. Ótimo desfecho.
Religião e paranóia, uma tribo isolada na Turquia, mas é uma alegoria muito boa das teorias abraamicas e o dano que elas causam.