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Data de lançamento
6 Maio 1927Duração
Chico (Charles Farrell) trabalha arduamente nos esgotos de Paris. Ele encontra Diane (Janet Gaynor), uma jovem mulher que foge da polícia e lhe pede ajuda para que a esconda. Os dois acabam se apaixonando e vivem um romance até que ele é convocado para a primeira guerra mundial.
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Sempre que assisto a um filme tento levar em consideração a época em que foi lançado, o contexto cultural, econômico, etc. Faço em contraste uma comparação com a época em que vivo e entendo se faz sentido ou não os temas abordados, pois existem filmes que mesmo considerando a época, são indefensáveis. No caso de 7th Heaven, sinto um mix de sentimentos, se eu fosse de 1927 iria gostar, assistindo com a mentalidade e bagagem de 2026 fica detestável. A Primeira Guerra Mundial terminou em 1918, o filme foi lançado apenas nove anos depois, observar esse tempo é importante, para nós é um capítulo distante presente apenas nos livros de história, mas para o público alvo, era um evento de ontem, provavelmente a maioria dos homens que assistiram tinham idade para ter lutado na Guerra, ou irmãos, ou amigos, parentes, e as mulheres, muitas delas viveram uma década antes, esse momento de espera em casa, aguardando notícias. Em 1927 ainda havia resquícios, cidades ainda estavam sendo reconstruídas na Europa, isso até explica o filme não ter se dedicado tanto a explicar sobre a Guerra, isso estava muito fresco na memória de todos ali. A dor ainda era aguda, mas uma década era tempo suficiente para o povo querer transformar as marcas em algo bom. Na mesma década ainda havia segregação, principalmente em Hollywood, no filme não há personagens pretos. Naquela época os filmes estreavam primeiro para quem tinha poder aquisitivo, nos Movie Palaces, não acho que esse pessoal se identificava com a parte da pobreza no filme, mas certamente com a parte da Guerra, da espera e talvez com o romance. Gastavam com ingresso o que um pobre usava para comer por dois ou três dias. Algum tempo depois o filme ia para os cinemas de bairro, o preço caía drasticamente. Nesses cinemas mais populares havia mais identificação financeira e emocional por parte dos espectadores, galera imigrante, operária, que passava o dia todo em condições péssimas de trabalho, acredito que para esse público, ver a imagem do Chico, um limpador de esgotos, e da Diane que era uma jovem miserável e ferrada. O filme passa a mensagem de que mesmo não tendo nada, ainda dava tempo de encontrar o amor e ter uma vida simples, mas digna. É um prato cheio para o público classe média baixa. Escapismo puro. É importante entender esse contexto todo, o luto coletivo tem uma força que silencia nosso senso crítico, todo mundo ali tinha alguém que nunca voltou das trincheiras ou que voltou quebrado tanto física quanto emocionalmente. Para as mulheres que esperaram anos por uma carta que nunca chegou, ver o Chico chegando cego, mesmo após o anúncio da morte dele era um anestésico emocional. Novamente, levando em consideração a época, supondo que somos cidadãos de 1927. Quando as pessoas têm dores profundas demais, a racionalidade e as pautas políticas dão lugar a um sentimento de desejo de que o impossível aconteça. As pessoas religiosas usam a fé como sobrevivência em tempos difíceis e seus quartinhos humildes como abrigo do mundo lá fora cheio de fome, guerras e morte. Por isso acho tão complexo assistir a clássicos, meu olhar ateu e de alguém que acredita em direitos iguais enxerga correntes invisíveis que prendem a Diane a uma manipulação religiosa. Mas com o olhar de época, meu eu de 1927 se tivesse perdido o marido iria se identificar com as lágrimas da Janet. A esperança é um sentimento muito sedutor, os diretores de cinema sempre souberam explorar isso muito bem, ainda mais na época do cinema mudo. O filme acaba sendo um lembrete de como o contexto histórico pode mudar completamente a nossa régua moral, hoje o filme nos irrita pela passividade, antigamente consolava pela resiliência. Claro que isso não diminui a problemática, mas justifica, de certa forma. Li que as pessoas saíam do cinema chorando, dizendo que o filme lavava a alma, também que as mulheres imitavam o visual da Janet, que quando a irmã dela dava chicotadas vaiavam a tela e gritaram no final quando ela se vingou. Definitivamente um sucesso de bilheteria. Uma das coisas que me chamou a atenção foi o olhar da Janet ao atuar, claro que havia técnica cinematográfica para dar esse efeito vidro, um trabalho de iluminação muito bem feito, mas a atuação dela é bem dramática, dá uma pena da Diane, imediatamente ela cria vínculo de empatia com quem está assistindo. As roupas trouxeram uma textura muito linda para o filme, o vestido branco ficou impecável na atriz e contrastou bastante com o preto que ela usava no começo. A cena da escadaria é definitivamente a minha favorita, a direção de Frank Borzage ficou sensível e visualmente impecável. Achei o direcionamento de câmera super fluido, o uso de sombras e luz suave ficou tão bem aplicado. A química entre os atores Janet Gaynor e Charles Farrell é indiscutível, não é à toa que fizeram mais de dez filmes juntos, transmitiram muita vulnerabilidade equilibrando o pessimismo da vida dos personagens com o otimismo de terem encontrado alguém pra amenizar os sofrimentos. A transformação da Diane passiva para a corajosa é um ponto muito forte na atuação da Janet. O filme tem alivios cômicos estratégicos e eles funcionam muito bem, meu favorito é o "é por isso que sou ateu, deus me deve dez francos" e o momento em que ele joga água na cara do lavador de rua.
Agora falando sobre a problemática, o filme é um choque cultural e ideológico. Assistindo com o olhar de hoje, especialmente com uma perspectiva de quem é ateu e mulher, é quase como entrar em um campo de batalha de valores. De um lado levar em consideração que o filme é lindo visualmente e possui ótimas atuações, do outro, uma narrativa que para os nossos padrões modernos parece um manual de "como ser uma mulher submissa e devota Vol. 1." Esse arquétipo da Diane como pobre coitada que depende totalmente da validação e do teto de um homem, a jovem desamparada que só vai ser feliz se um homem ajudar. Inclusive vejo muito isso no cinema mudo. Essa fragilidade feminina sendo vendida no filme como virtude. Ver essa dependência emocional extrema é cansativo, a salvação da personagem nunca vem de nada dela, não vem de uma força própria, mas sim de se tornar a peça que faltava no quebra-cabeça doméstico de um homem. O Chico sempre aparecendo no roteiro como salvador mesmo fazendo nada mais que o mínimo. Ele fala que ela é esposa dele pra salvar ela de ir para a cadeia, ela não pediu. Em outro momento, chega com um vestido de casamento, como se isso já os fizesse marido e mulher. Não existe conversa antes, não existe escolha, e muito menos um pedido formal. Aí ela menciona que ele nunca falou eu te amo, sequer uma vez. De costas para ela ele informa que o vestido é sim para ela, e quando tenta falar eu te amo, fica com vergonha e não sai. Essa coisa do homem durão que não pode falar de sentimentos é algo muito típico da época, posteriormente ele até fala eu te amo no filme, mas sabemos que o homem da década de 20 e 30 era bem conservador para esse tipo de coisa e o casamento era realmente um exibicionismo de mulher do lar que só serve para cozinhar e ser empregada doméstica da própria casa. A Diane desde que chega na casa cozinha, lava, costura, corta cabelo, ajuda ele a colocar as próprias roupas e não vemos nada de demonstração da parte dele fazendo coisas por ela dentro de casa. Vale lembrar que ele fala no início que a mulher que ele queria era loira e bonita, ou seja, a Diane seria tecnicamente o resto e sobras que ninguém quis, então "é o que tem pra hoje". Quando ele dá o vestido é um sequestro emocional com figurino de luxo. Ele dita as regras e ela aceita o pacote completo porque a alternativa era a sarjeta. É uma dinâmica de poder totalmente desequilibrada. Esse clichê do cara durão que não consegue nem dizer eu te amo era muito vendido como charme, vejo isso em muitos filmes da época, na verdade não passa de uma imaturidade emocional profunda, medo de admitir vulnerabilidade para uma mulher. Quem quer estar com um cara assim? Que sente algo, mas finge que não. Isso cria uma tensão muito artificial onde no enredo o afeto vira uma concessão, quase um prêmio que ele vai entregando para ela em doses homeopáticas para mantê-la sempre nessa posição de expectativa e carência (por migalhas). A romantização da Guerra é um ponto bem distante da realidade, a gente sabe que a Primeira Guerra Mundial foi um moedor de carne humana, mas aqui parece só um teste espiritual para fortalecer a fé do casal. A esposa fofa, pura e devota esperando o herói enquanto olha para o céu é obviamente peça fundamental da propaganda patriarcal da época. Esse patriotismo místico é difícil de engolir, pois transforma toda a tragédia histórica em pano de fundo para espalhar afirmação religiosa. Outra coisa sobre a passividade da Diane que gera revolta é a falta do mínimo de instinto de sobrevivência ou de dignidade humana. Entendo que o roteiro precisava que ela fosse essa vítima, mas na maioria das vezes ela age como alguém morta-viva, que só vegeta e obedece os outros, ou reduzida a um corpo que sofre para que o homem possa ter o prazer de salvá-la. Essa mulher-criança que precisa de proteção masculina o tempo incomoda demais. A ideia de que ela deve aceitar o castigo e esperar por um milagre (ou por um marido) é uma mensagem de submissão total que o filme empurra como se fosse algo poético e lindo. É a negação dos nossos instintos básicos de autodefesa em nome de um ideal de pureza, que na prática, é só um convite ao abuso contínuo. Incomoda porque a narrativa sugere para a gente que a força dela está em aguentar o chicote, os sofrimentos, quando a verdadeira força seria reagir e sair dessa por conta própria. O filme prefere manter a personagem quebrada para que o Chico possa montá-la do jeito dele depois. Fora que depois ela usa o mesmo método que a irmã usava com ela, se rebaixando ao mesmo nível da abusadora, usando a mesma arma física que a oprimiu, aceitando que aquela era a única linguagem possível, mas ela tinha mais opções (essa parte felizmente não estraga o roteiro). Uma coisa que me incomodou é que a religião aqui é usada como solução para todos os conflitos, o que tira a autonomia dos personagens e coloca tudo nas mãos de providências divinas. Várias cenas estão ali apenas para convencer o espectador a buscar crenças. É irônico o filme tentar ser uma lição de espiritualidade elevada, mas usa recursos tão agressivos como chicote para marcar os pontos de mudança do personagem, só lembra da religião quando convém. É um filme tecnicamente bom e importante, mas o enredo é datado e não envelheceu tão bem. Possui falhas ideológicas e de roteiro que me impedem de gostar completamente da obra.
Se o amor pode surgir dos lugares mais improváveis, 7th Heaven prova que ele floresce tanto sob as estrelas quanto no subsolo de Paris. Frank Borzage constrói aqui um filme que começa na sarjeta, mas brilha no sétimo andar. A história de Chico e Diane faz o coração bater mais forte, não apenas pelo melodrama arrebatador, mas porque seus personagens vivem, mudam e se entregam a um sentimento que nasce de uma mentira e cresce na verdade da intimidade.
Diane (Janet Gaynor) é uma jovem que mal ousa existir. Criada na pobreza e chicoteada sem cerimônia pela irmã, ela aprendeu a baixar os olhos e aceitar sua sorte. Chico (Charles Farrell), por outro lado, é destemido. Passa os dias nos esgotos, mas à noite sobe ao sétimo andar de um prédio onde quase toca as estrelas. Quando finge ser marido de Diane para protegê-la da polícia, nasce uma farsa que, como manda o bom melodrama, se torna cada vez mais real.
A mágica de 7th Heaven está nesse pequeno apartamento sob as nuvens, onde um amor improvável se desenha. O filme constrói com paciência a intimidade do casal, deixando que cada gesto — de um olhar furtivo a um corte de cabelo — ganhe peso emocional. Diane, inicialmente assustada, aprende a sonhar ao lado de Chico. Ele, que zombava da esperança, encontra na presença dela um motivo para acreditar. Se o filme conquista, é porque entende que o romance não acontece num golpe de sorte, mas na repetição dos gestos, no cuidado diário — no modo como ela arruma os cabelos dele, na maneira como ele a encoraja a vencer seus medos. Dentro dessa estrutura melodramática, 7th Heaven ainda se permite brincar com elementos que dão à narrativa um sabor próprio. Há um humor sutil, como o taxista que trata seu carro como uma esposa, e há uma teatralidade irresistível, como a irmã vilã com seu chicote, que parece saída diretamente de uma novela.
Se tudo corresse bem, 7th Heaven seria um romance sólido, emocionalmente satisfatório e visualmente encantador. Mas então vem a guerra. O conflito arranca Chico de sua história de amor e lança o filme em um desfecho messiânico, onde Deus, de repente, passa a assinar o roteiro. O ateu convicto retorna cego, guiado unicamente pela voz de Diane, numa cena que reafirma a conexão divina do casal. Se antes o filme construía um romance baseado no humano, no cotidiano e no crescimento individual, agora entrega tudo ao destino.
É um final que abraça a ideia de que o amor verdadeiro está predestinado — uma visão que pode emocionar muitos, mas que também destoa do que fez o romance tão especial até ali. Mesmo assim, é impossível negar a beleza de 7th Heaven. Se o desfecho mira no divino, todo o resto do filme brilha justamente por sua humanidade. Desde o momento em que Diane supera seu medo de altura até o instante final, quando prova ser mais forte do que jamais imaginou, há algo de profundamente tocante nessa jornada. Um romance que começa como uma mentira e termina como uma verdade inquestionável — porque, no fim das contas, 7th Heaven entende que o amor não precisa de milagres, só de tempo para crescer.
Muito bom até a segunda metade do filme. Atuações muito legais da sofrida mocinha Janet Gaynor e do trabalhador Charles Farrell. A conclusão é bem abaixo do esperado e até compreensivo para aquele primeiro período do cinema e ganhou dois Oscars de melhor filme drama e roteiro adaptado.
A Janet Gaynor é ótima atriz, o Charles Farrell tem toda pinta de galã e a história é bonitinha. Gostei!
Janet Gaynor é o grande destaque deste "Sétimo Céu", clássico do silent movie, do gênero drama de época, dirigido por Frank Borzage e com roteiro baseado em peça teatral de Austin Strong.
Janet Gaynor ganhou o primeiro Oscar de Melhor Atriz por sua atuação no filme (ela também ganhou por suas atuações em Sunrise: A Song of Two Humans, de 1927, e Street Angel, de 1928). O diretor Frank Borzage também ganhou o primeiro Oscar de Melhor Diretor, enquanto o roteirista Benjamin Glazer ganhou o primeiro Oscar de Melhor Roteiro (Roteiro Adaptado). Este comovente melodrama romântico clássico se encontra disponível no Youtube.