A mimada esposa de um corretor da bolsa de valores impulsivamente rouba 10 mil dólares da instituição de caridade que preside. Então desesperadamente ela recorre a um comerciante de marfim birmanês para repor o dinheiro roubado.
The Cheat é como abrir uma caixa de joias antigas: reluz, fascina, mas algumas pedras estão rachadas. Em menos de uma hora, um melodrama se desenrola com a intensidade de uma ópera, revelando em cada gesto exagerado, em cada olhar expressivo, as fissuras de uma América que, em 1915, ainda buscava se ver no espelho do cinema.
Edith Hardy (Fannie Ward) é uma protagonista difícil de domar — e justamente por isso tão magnética. Ela não cabe na moldura da esposa ideal: mente, engana, fantasia com investimentos milagrosos e gasta o que não tem para sustentar seu padrão de vida. É uma mulher dúbia, caprichosa, viciada em vestidos caros, capaz até de trapacear a Cruz Vermelha para manter as aparências. Mas também é vulnerável, e acaba alvo de uma violência que não marca apenas sua pele, mas a própria memória do cinema: aquele ferro em brasa estampando seu corpo como uma boneca de porcelana quebrada. Que uma personagem assim surgisse em 1915 já é, por si só, surpreendente.
Eis o paradoxo de The Cheat: sua força estética e dramática nasce justamente de suas maiores falhas. Haka Arakau (Sessue Hayakawa), o rico comerciante de marfim, é infelizmente reduzido a um estereótipo, a um vilão de manual. É a projeção de um medo racial, de um “outro” perigoso que ameaça a pureza da mulher branca. E então chega o tribunal. A câmera desliza lentamente pelos rostos do júri: homem branco após homem branco, até compor uma muralha de pureza moral. Quando Edith exibe sua cicatriz, a sala se ergue como se aquela marca fosse também a marca da sociedade. O crime íntimo se transforma em espetáculo público, e todos aplaudem. É nesse ponto que o filme encontra sua verdadeira potência: não em sua intenção, mas em suas contradições. The Cheat não quis cutucar as fissuras sociais; sua meta primária era seduzir o público pelo escândalo. Mas o cinema, mesmo quando pretende apenas entreter, não consegue deixar de registrar as tensões do mundo ao redor. E assim, contra a própria vontade, o filme cutuca. Não quis ser crítico, mas deixou exposta a ansiedade racial e de gênero de uma nação.
E como resistir ao magnetismo das imagens? Há um momento, em especial, em que Edith imagina o jornal estampando sua desgraça no dia seguinte. A sobreposição de imagens, simples efeito especial para a época, traduz o desespero melhor do que mil palavras. É a prova de que o cinema mudo sabia falar, mesmo quando os personagens não tinham voz. E, no entanto, fica a provocação: se este fosse um filme falado, se Edith e Arakau tivessem direito a diálogos que aprofundassem sua complexidade, que debates nasceriam? Talvez Edith fosse menos heroína, mais cúmplice de seus próprios caprichos. Talvez Arakau fosse mais do que um predador racializado, e aparecesse também como um homem rico, solitário, sedento por algo que o dinheiro não compra.
No fim, The Cheat é um melodrama em estado puro: exagerado, teatral, marcado por imagens que não se esquecem. É também um retrato de seus próprios limites — o racismo estampado no vilão asiático, a indulgência com a protagonista branca. Mas talvez seja exatamente isso que o torna tão interessante hoje: é um filme que nos encanta e incomoda ao mesmo tempo. Um melodrama que, como a cicatriz de Edith, arde e brilha em igual medida.
Curioso ver os primeiros exemplares do cinema de De MIlle, pendendo muito mais para o melodrama do que para o filme épico religioso que seria sua marca registrada. Uma trama um tanto ingênua bastante comum dentro dos padrões das primeiras narrativas em longa metragem.
The Cheat é como abrir uma caixa de joias antigas: reluz, fascina, mas algumas pedras estão rachadas. Em menos de uma hora, um melodrama se desenrola com a intensidade de uma ópera, revelando em cada gesto exagerado, em cada olhar expressivo, as fissuras de uma América que, em 1915, ainda buscava se ver no espelho do cinema.
Edith Hardy (Fannie Ward) é uma protagonista difícil de domar — e justamente por isso tão magnética. Ela não cabe na moldura da esposa ideal: mente, engana, fantasia com investimentos milagrosos e gasta o que não tem para sustentar seu padrão de vida. É uma mulher dúbia, caprichosa, viciada em vestidos caros, capaz até de trapacear a Cruz Vermelha para manter as aparências. Mas também é vulnerável, e acaba alvo de uma violência que não marca apenas sua pele, mas a própria memória do cinema: aquele ferro em brasa estampando seu corpo como uma boneca de porcelana quebrada. Que uma personagem assim surgisse em 1915 já é, por si só, surpreendente.
Eis o paradoxo de The Cheat: sua força estética e dramática nasce justamente de suas maiores falhas. Haka Arakau (Sessue Hayakawa), o rico comerciante de marfim, é infelizmente reduzido a um estereótipo, a um vilão de manual. É a projeção de um medo racial, de um “outro” perigoso que ameaça a pureza da mulher branca. E então chega o tribunal. A câmera desliza lentamente pelos rostos do júri: homem branco após homem branco, até compor uma muralha de pureza moral. Quando Edith exibe sua cicatriz, a sala se ergue como se aquela marca fosse também a marca da sociedade. O crime íntimo se transforma em espetáculo público, e todos aplaudem. É nesse ponto que o filme encontra sua verdadeira potência: não em sua intenção, mas em suas contradições. The Cheat não quis cutucar as fissuras sociais; sua meta primária era seduzir o público pelo escândalo. Mas o cinema, mesmo quando pretende apenas entreter, não consegue deixar de registrar as tensões do mundo ao redor. E assim, contra a própria vontade, o filme cutuca. Não quis ser crítico, mas deixou exposta a ansiedade racial e de gênero de uma nação.
E como resistir ao magnetismo das imagens? Há um momento, em especial, em que Edith imagina o jornal estampando sua desgraça no dia seguinte. A sobreposição de imagens, simples efeito especial para a época, traduz o desespero melhor do que mil palavras. É a prova de que o cinema mudo sabia falar, mesmo quando os personagens não tinham voz. E, no entanto, fica a provocação: se este fosse um filme falado, se Edith e Arakau tivessem direito a diálogos que aprofundassem sua complexidade, que debates nasceriam? Talvez Edith fosse menos heroína, mais cúmplice de seus próprios caprichos. Talvez Arakau fosse mais do que um predador racializado, e aparecesse também como um homem rico, solitário, sedento por algo que o dinheiro não compra.
No fim, The Cheat é um melodrama em estado puro: exagerado, teatral, marcado por imagens que não se esquecem. É também um retrato de seus próprios limites — o racismo estampado no vilão asiático, a indulgência com a protagonista branca. Mas talvez seja exatamente isso que o torna tão interessante hoje: é um filme que nos encanta e incomoda ao mesmo tempo. Um melodrama que, como a cicatriz de Edith, arde e brilha em igual medida.
Curioso ver os primeiros exemplares do cinema de De MIlle, pendendo muito mais para o melodrama do que para o filme épico religioso que seria sua marca registrada. Uma trama um tanto ingênua bastante comum dentro dos padrões das primeiras narrativas em longa metragem.
Sessue Hayakawa como vilão estava perfeito! O melodrama foi contado de forma interessante. Bom desenvolvimento e viradas
Muito bom!
O personagem de Sessue Hayakawa era originalmente um japones, mas por conta das relações diplomaticas EUA-Japão ele se transformou em um Birmanes