Ótimo filme! Grandes atuações de Chalamet, Babaro e Norton. Todos tocando e cantando de verdade é algo digno de nota. Até James Mangold se emocionou no set.
No final, Joan diz, antes de Dylan partir: “Você venceu e agora está livre de todos nós”. Mas é a liberdade criativa que motiva Dylan a compor, enfurnado em quartos de hotel à base de café e cigarro, como num rito sagrado. Uma vez parida a ideia, o gênio perde o interesse pela criação e passa a compor mais e mais. Para Dylan, a música sempre esteve em primeiro lugar, mas, acima de tudo, como movimento temporal que se renova sem parar.
“Wicked” não integra um gênero que me agrada muito (fantasia), mas dentro do que se propôs a fazer - entretenimento para as massas - sem dúvida foi muito competente e divertido, conseguindo emocionar algumas vezes. Por ser muito longo, cansou um pouco na metade mas depois evoluiu satisfatoriamente no final. É preciso reconhecer o valor das composições da rica trilha sonora, as atuações de Ariana Grande (como Glinda) e Cynthia Erivo (Elphaba), que cantaram a todo vapor e o desenho de produção magnífico de Nathan Crowley, que contribuiu decisivamente para a direção de Jon M. Chu. Num período em que o uso de computação gráfica em blockbusters é uma constante, não deixa de ser um grande mérito de “Wicked” a redução drástica de seu uso.
O longa é baseado no livro de Gregory Maguire, lançado em 1995 e que, por sua vez, inspirou o musical da Broadway de 2003. Trata-se de um prequel do “Mágico de Oz” original. Nele, sabemos as razões pelas quais os personagens icônicos se tornaram o Espantalho, o Leão Covarde e o Homem de Lata; conhecemos a difícil história de vida das irmãs "Bruxas Más"; e somos apresentados à verdadeira identidade do Mágico de Oz (interpretado por Jeff Goldblum).
Vai de cada um gostar ou não das novas escolhas narrativas. Aqui, os fãs tendem a se dividir mais. É fato que tanto o musical como o filme acabam questionando a perspectiva maniqueísta da história, mostrando uma Terra de Oz mais complexa e matizada. Podemos ver isso na abordagem, ainda que superficial, de questões que estão na ordem do dia, como racismo, riqueza material como privilégio de classe e especismo. O cinema sempre será uma arte que reflete os problemas de seu tempo.
É inegável que Pablo Larraín tem desenvolvido um estilo de direção muito peculiar, a ponto de podermos arriscar a dizer que ele é um cineasta autoral. Eu penso em começar a chamar seu estilo de "ciinema espectral". Uma característica muito marcante em Spencer, que retornou com Maria Callas, é a atmosfera onírica que intoxica e enclausura o protagonista na casa, em seus próprios medos e devaneios. A forma como a cinebiografia da Princesa de Gales recorre a esse artifício, a partir de um viés naturalista, em que a protagonista (interpretada por Kristen Stewart) se vê rodeada de sons ameaçadores e tipos fantasmagóricos que a desnorteiam, parece justiticável. Porém, em Maria Callas, ao me deparar com esse artifício, algo soou deslocado e superficial. No ambiente doméstico, calor humano (o cuidado permanente dos mordomos), enquanto no exterior, o dispositivo mental da protagonista faz fluir um emaranhado de lembranças fragmentadas e performances musicais estilizadas tipo videoclipes.
Não conheço a vida da aclamada soprano greco-estadunidense, mas, se levarmos a sério a identidade psíquica que o filme confere a ela, estamos diante de uma das personalidades mais egocêntricas e arrogantes dos últimos tempos. Confesso que foi um pouco difícil lidar com essa caracterização, ainda mais sustentada pela atuação austera e rígida de Angelina Jolie (claramente definida pelo diretor). É claro que Jolie se entregou ao papel, chegando até a aprender a cantar ópera, o que é louvável. Então, tecnicamente falando, ela teve seus méritos, mas penso que a mão de Larraín pesou mais. Quem sabe a relação dela com a mãe ou a irmã poderiam ter sido mais bem desenvolvidas na linha narrativa que apresenta fatos do passado em p&b. Poderíamos entender melhor a raiz de suas angústias. Quem sabe Maria não foi uma pessoa mais tridimensional.
A prioridade certamente foi examinar o declínio fnal da artista, entre pílulas e insultos, caminhadas e amarguras, e isso tornou o filme bastante deprimente. Destaque para direção de arte e fotografia.
Após assisti-lo ontem, me peguei torcendo o nariz. Três elementos me desagradaram instantaneamente: os estereótipos do pessoal do leste europeu, que me pareceram demasiadamente forçados; a interpretação de Mark Eydelshteyn como Ivan e uma dificuldade de entender qual sentido o diretor quis passar. Então, passei a ler outras opiniões (o que sempre considero proveitoso), a lembrar de algumas cenas e a buscar entender melhor o porque desse filme ter um hype tão grande.
Consegui contornar a primeira questão abraçando o estilo cômico que o filme, honestamente, professa. E aqui é preciso reconhecer que "Anora" é um filme engraçado. Sua virtude está justamente nas situações cômicas, muitas vezes absurdas, mas que vão se avolumando até o clímax de modo brilhante. Achei que, talvez, poderia ter sido um pouco mais curto. Muita gente reclamou do excesso de barulho na banda sonora, mas aquele mundo diegético exigia isso, oras. Pensei, ok então, vamos focar em outros aspectos.
A respeito do significado, me lembrei do outro filme de Baker que vi, "Uma estranha amizade" (2012), e notei novamente a temática da falência do "sonho americano". Baker é fascinado por personagens jovens e desajustados, sobrevivendo numa realidade caótica marcada pelo trabalho precarizado e pela falta de perspectiva de vida. Ani é a trabalhadora do sexo superexplorada; Ivan, embora herdeiro milionário, é um completo desmiolado. Ani é perseverante porque sabe que a oportunidade de ascensão social que seu casamento farsesco proporciona é única. Se Ivan apenas quer se aproveitar momentaneamente de seus serviços privados, Ani quer dar uma guinada na vida e escapar de sua rotina massacrante no clube noturno. Mas, claro, sua teimosia não será capaz de mudar o destino que se anunciou desde o início daquele relacionamento insustentável. O desfecho me surpreeendeu especialmente e me fez entender o quão Anora, embora determinada, também era frágil. Mas sua fragilidade não é exposta de modo gratuito e superficial; ela se manifesta como resistência a pequenos gestos de cuidado e atenção vindos de alguém que ela despreza o filme todo: o capanga Igor. No final, Ani quer retribuir a devolução do anel com sexo (é a forma como ela sinceramente desenvolveu em sua vida), mas Igor quer beijá-la, e isso a desarma completamente e ela desaba. Achei muito foda. Um filme engraçado mas que termina de forma triste. Para mim, surpresa postiiva. Mikey Madison entregou demais!
Agora, sobre Ivan, difícil não admitir que a estupidez permanente daquele garoto me irritou profundamente, rsrs.
Enfim, Anora é um filme que divide, mas, de fato, é inquietante e criativo.
Fiquei surpreendido positivamente com esse filme. Primeiramente porque há uma curva psicológica que se desenvolve aos poucos: a construção do personagem de Trump, iniciamente inexperiente e dotado de alguma humanidade, finalmente se transforma no monstro fascista que conhecemos hoje (palmas para Sebastian Stan). Parte da figura acabada, como o filme bem explicita, é fruto do investimento de Roy Cohn (Jeremy Strong brilhante), um infame e corrupto advogado que ensina as únicas 3 regras que o jovem Trump deve aprender: atacar, negar tudo sempre e nunca admitir derrota. Mas também fica claro que Trump é o restolho do que há de mais podre e decadente no capitalismo estadunidense: a ideologia ultraindividualista e traiçoeira que corroi o tecido social por dentro. Interessante ver esse filme como um exame da articulação entre uma certa eugenia (a ideia de que riqueza material é genética) e o ressentimento cínico (Roy é um gay homofóbico enrustido).
É duro assistir a esse filme, mas acho que vale a pena ver uma versão contemporânea de um Frankenstein lipoaspirado e de cabelo transplantado, certamente mais aterrorizante do que o original idealizado por Mary Shelley, porque é real.
Lee Miller é uma daquelas mulheres cuja identidade marcante rompe com os grilhões da sociedade. De modelo do lendário Man Ray a fotógrafa de guerra, seu destino não poderia ser outro que não a telona. Não conheço bem a vida e obra dela, mas, assistindo ao filme, e reunindo algumas informações, acho que posso afirmar que a produção foi muito feliz em retratá-la.
Kate Winslet, que lutou durante 8 anos para realizá-lo, carrega o filme com maestria e segurança, conduzida pela ótima direção de Ellen Kuras. São muitas as cenas em que a força da personalidade de Lee, rude e implacável, mas também sincera e compassiva, se impõe sobre tudo e todos: coragem, audácia, teimosia, amizade, amor, proteção das mulheres vulneráveis... Lee é um caminhão de emoções. A cena em que ela entra numa casa e fotografa uma menina traumatizada, em meio a um grupo de mulheres desamparadas e famintas que dividem pedaços de pão, é de cortar o coração. Em seu trabalho incansável, Lee não passa por cima da realidade cruel da guerra apenas para obter registros impactantes, como vemos nos protagonistas do recente "Guerra Civil", de Alex Garland, em que o verdadeiro protagonismo está no sensacionalismo midático. Lee está ali naqueles cenários desoladores, com sua câmera, mas cada passo dado é lento e pesaroso e toda a brutalidade que se descortina diante dela a deixa profundamente chocada.
Os créditos finais nos informam que Lee não chegou a mostrar as fotos da guerra para seu filho Tony, como a narrativa do tempo presente conta no filme. Então, concluímos que aquela conversa é produto da imaginação de um Tony carente que acabou de se deparar com o material sensível que sua falecida mãe havia escondido.
De modo algum "Lee" é um filme inovador; pelo contrário, segue a fórmula ideal para um filme "premiável": cinematografia deslumbrante, atuações excelentes e emoções de sobra. Será que Kate vai levar seu segundo Óscar para casa?
Sou suspeito pra falar, porque Cronenberg é um dos meus diretores prediletos. Um filme que me impactou muito na adolescência. Convenhamos que os efeitos visuais foram muito bons para a época e, no meu entender, ainda são capazes de impressionar. A lenta e gradual mutação de Seth não provoca apenas um misto de angústia com repulsa. mas invoca um pofundo sentimento de tristeza. Um dos comentários que li em algum lugar sobre este filme afirmava justamente isso: "A Mosca" é um dos filmes mais tristes já feitos. E eu concordo plenamente.
Embora não esteja entre os melhores de Kazan, é um bom filme. Provavelmente o primeiro realmente sério sobre o Vietnã. A cinematografia precária e a edição irregular contribuem de alguma forma para a atmosfera tensa que vai pesando sobre aquela casa e, aos poucos, enredando o casal vacilante. Em sua estreia, James Woods encarna muito bem a ingenuidade inflexível que coloca vidas em risco. Um bom estudo sobre os limites da moralidade e a condição de fragilidade diante de uma ameaça crescente.
A obsessão de um caçador por uma fera de beleza inescrutável. A semelhança com Moby Dick (Herman Melville, 1851) foi reconhecida até mesmo por Julia Leigh, autora do romance original. O ritmo lento e a atmosfera austera combinam com a excelente performance de Dafoe.
No final da Segunda Guerra Mundial, os censores japoneses trabalhavam a todo vapor pra tentar manter um rígido controle sobre a produção cultural nacional. Um jovem Akira Kurosawa começava a dar seus primeiros passos e também teve que ceder às pressões do governo. Após ter estreado na direção com o ótimo “A Saga do Judô” (1943), inspirado num tradicional conto de artes marciais, ele realizou, no ano seguinte, “The Most Beautiful”, que exaltava o sacrifício dos operários para a glória do Império. Mesmo não concordando ideologicamente com o programa fascista, Kurosawa foi hábil em revelar, para além da propaganda, as contradições entre o sentimento do indivíduo e o dever de servir à nação. Essa inconformidade acabaria sendo um dos temas recorrentes em sua filmografia.
Kurosawa se pôs a trabalhar em um novo filme sobre a Batalha de Nagashino (1575), mas a escassez de recursos, decorrente da crise generalizada, bateu à porta e ele teve que abandonar o projeto. Mas escreveu outro roteiro em uma única noite e prometeu à produtora, Toho, que só precisaria de um set de filmagem para fazê-lo. E ele fez.
As filmagens de “Os Homens que Pisaram na Cauda do Tigre”, seu terceiro longa, tiveram que ser interrompidas. Como Tóquio estava sendo bombardeada impiedosamente pelas potências aliadas, a maioria das mulheres foram evacuadas da cidade, por isso elas estão praticamente ausentes do filme. Kurosawa afirmou ter parado para ouvir o discurso de rendição do Imperador Hirohito em 15 de agosto de 1945. Nesse período turbulento, o set foi visitado por muitos soldados americanos, incluindo o diretor John Ford, então tenente-comandante da Marinha estadunidense. A maioria ficou admirada com o trabalho que o gênio nascente desenvolvia.
Inspirado em duas peças folclóricas, Noh e Kabuki, o longa narra uma história que remonta ao séc. XII, quando um senhor chamado Yoshitsune e seu grupo de samurais atravessaram um território inimigo disfarçados de monges. O mais destacado, Benkei (Denjiro Ookouchi), exímio orador, saca um pergaminho em branco da caixa que o grupo transportava e, astutamente, começa a pronunciar formalizações pomposas em tom austero, como faz um prestidigitador tirando um coelho da cartola. Apesar da desconfiança do chefe da guarda, o senhor local acredita nele e libera a passagem. O estilo de Kurosawa conseguiu articular reverência e subversão de uma forma original. Cenas como as que valorizam a tradição da música de flauta e do tambor da arte Noh são constantemente perturbadas pela tagarelice e comicidade, propositalmente forçadas, do personagem do carregador fraco e covarde, vivido por Kenichi Enomoto (famoso ator da Toho). Kurosawa viria a utilizar o mesmo expediente em obras posteriores.
O resultado não poderia ser outro. Os censores baniram o filme, que só seria exibido em 1952, após a assinatura do Tratado de São Francisco. Como lidar com uma representação tão ousada de uma sociedade que consagrou no imaginário popular valores sagrados como aqueles de um Japão feudal mítico? Os burocratas frequentemente esbarram em sua própria incompreensão da liberdade dos espíritos criativos. O que importa realmente é que, mesmo não sendo uma obra-prima, “Os Homens que Pisaram na Cauda do Tigre” prepara o terreno para o melhor que viria nas décadas seguintes. Ou, quem sabe, estamos menosprezando a sensibilidade do grande diretor Michael Powell, para quem Kurosawa apresentou o filme logo após sua conclusão, e ouviu de sua própria boca repetidamente: “É maravilhoso".
Do ponto de vista técnico, grande cinematografia . Mas não tiro a razão daqueles que acharam maneirista demais. Do ponto de vista ideológico, há certo maniqueísmo que me incomodou um pouco, algo que não vi, por ex, em "Nada de novo no front" (pra citar um filme recente do mesmo gênero).
Obviamente que é extremamente desagradável, e o final, bastante perturbador. O problema não é o excesso de brutalidade, pois isso é a convenção do filme (embora não me apeteça muito). Os problemas fundamentais foram os grandes furos no roteiro e a vontade de ser realista cometendo sérios deslizes que levam à inverossimilhança.
Um Completo Desconhecido
3.5 234 Assista AgoraÓtimo filme! Grandes atuações de Chalamet, Babaro e Norton. Todos tocando e cantando de verdade é algo digno de nota. Até James Mangold se emocionou no set.
No final, Joan diz, antes de Dylan partir: “Você venceu e agora está livre de todos nós”. Mas é a liberdade criativa que motiva Dylan a compor, enfurnado em quartos de hotel à base de café e cigarro, como num rito sagrado. Uma vez parida a ideia, o gênio perde o interesse pela criação e passa a compor mais e mais. Para Dylan, a música sempre esteve em primeiro lugar, mas, acima de tudo, como movimento temporal que se renova sem parar.
Emmanuelle
1.9 36 Assista AgoraChato, entediante e deserotizado.Esse nicho não é seu, Noémie.
Wicked
3.9 524 Assista Agora“Wicked” não integra um gênero que me agrada muito (fantasia), mas dentro do que se propôs a fazer - entretenimento para as massas - sem dúvida foi muito competente e divertido, conseguindo emocionar algumas vezes. Por ser muito longo, cansou um pouco na metade mas depois evoluiu satisfatoriamente no final. É preciso reconhecer o valor das composições da rica trilha sonora, as atuações de Ariana Grande (como Glinda) e Cynthia Erivo (Elphaba), que cantaram a todo vapor e o desenho de produção magnífico de Nathan Crowley, que contribuiu decisivamente para a direção de Jon M. Chu. Num período em que o uso de computação gráfica em blockbusters é uma constante, não deixa de ser um grande mérito de “Wicked” a redução drástica de seu uso.
O longa é baseado no livro de Gregory Maguire, lançado em 1995 e que, por sua vez, inspirou o musical da Broadway de 2003. Trata-se de um prequel do “Mágico de Oz” original. Nele, sabemos as razões pelas quais os personagens icônicos se tornaram o Espantalho, o Leão Covarde e o Homem de Lata; conhecemos a difícil história de vida das irmãs "Bruxas Más"; e somos apresentados à verdadeira identidade do Mágico de Oz (interpretado por Jeff Goldblum).
Vai de cada um gostar ou não das novas escolhas narrativas. Aqui, os fãs tendem a se dividir mais. É fato que tanto o musical como o filme acabam questionando a perspectiva maniqueísta da história, mostrando uma Terra de Oz mais complexa e matizada. Podemos ver isso na abordagem, ainda que superficial, de questões que estão na ordem do dia, como racismo, riqueza material como privilégio de classe e especismo. O cinema sempre será uma arte que reflete os problemas de seu tempo.
Maria Callas
3.1 128 Assista AgoraÉ inegável que Pablo Larraín tem desenvolvido um estilo de direção muito peculiar, a ponto de podermos arriscar a dizer que ele é um cineasta autoral. Eu penso em começar a chamar seu estilo de "ciinema espectral". Uma característica muito marcante em Spencer, que retornou com Maria Callas, é a atmosfera onírica que intoxica e enclausura o protagonista na casa, em seus próprios medos e devaneios. A forma como a cinebiografia da Princesa de Gales recorre a esse artifício, a partir de um viés naturalista, em que a protagonista (interpretada por Kristen Stewart) se vê rodeada de sons ameaçadores e tipos fantasmagóricos que a desnorteiam, parece justiticável. Porém, em Maria Callas, ao me deparar com esse artifício, algo soou deslocado e superficial. No ambiente doméstico, calor humano (o cuidado permanente dos mordomos), enquanto no exterior, o dispositivo mental da protagonista faz fluir um emaranhado de lembranças fragmentadas e performances musicais estilizadas tipo videoclipes.
Não conheço a vida da aclamada soprano greco-estadunidense, mas, se levarmos a sério a identidade psíquica que o filme confere a ela, estamos diante de uma das personalidades mais egocêntricas e arrogantes dos últimos tempos. Confesso que foi um pouco difícil lidar com essa caracterização, ainda mais sustentada pela atuação austera e rígida de Angelina Jolie (claramente definida pelo diretor). É claro que Jolie se entregou ao papel, chegando até a aprender a cantar ópera, o que é louvável. Então, tecnicamente falando, ela teve seus méritos, mas penso que a mão de Larraín pesou mais. Quem sabe a relação dela com a mãe ou a irmã poderiam ter sido mais bem desenvolvidas na linha narrativa que apresenta fatos do passado em p&b. Poderíamos entender melhor a raiz de suas angústias. Quem sabe Maria não foi uma pessoa mais tridimensional.
A prioridade certamente foi examinar o declínio fnal da artista, entre pílulas e insultos, caminhadas e amarguras, e isso tornou o filme bastante deprimente. Destaque para direção de arte e fotografia.
[spoiler][/spoiler]
A Grande Jogada
3.7 349 Assista AgoraNão sou fã do gênero "jogos", mas reconheço a sofisticação dos roteiros de Sorkin. Grande atuação de Jessica
Anora
3.4 1,1K Assista AgoraApós assisti-lo ontem, me peguei torcendo o nariz. Três elementos me desagradaram instantaneamente: os estereótipos do pessoal do leste europeu, que me pareceram demasiadamente forçados; a interpretação de Mark Eydelshteyn como Ivan e uma dificuldade de entender qual sentido o diretor quis passar. Então, passei a ler outras opiniões (o que sempre considero proveitoso), a lembrar de algumas cenas e a buscar entender melhor o porque desse filme ter um hype tão grande.
Consegui contornar a primeira questão abraçando o estilo cômico que o filme, honestamente, professa. E aqui é preciso reconhecer que "Anora" é um filme engraçado. Sua virtude está justamente nas situações cômicas, muitas vezes absurdas, mas que vão se avolumando até o clímax de modo brilhante. Achei que, talvez, poderia ter sido um pouco mais curto. Muita gente reclamou do excesso de barulho na banda sonora, mas aquele mundo diegético exigia isso, oras. Pensei, ok então, vamos focar em outros aspectos.
A respeito do significado, me lembrei do outro filme de Baker que vi, "Uma estranha amizade" (2012), e notei novamente a temática da falência do "sonho americano". Baker é fascinado por personagens jovens e desajustados, sobrevivendo numa realidade caótica marcada pelo trabalho precarizado e pela falta de perspectiva de vida. Ani é a trabalhadora do sexo superexplorada; Ivan, embora herdeiro milionário, é um completo desmiolado. Ani é perseverante porque sabe que a oportunidade de ascensão social que seu casamento farsesco proporciona é única. Se Ivan apenas quer se aproveitar momentaneamente de seus serviços privados, Ani quer dar uma guinada na vida e escapar de sua rotina massacrante no clube noturno. Mas, claro, sua teimosia não será capaz de mudar o destino que se anunciou desde o início daquele relacionamento insustentável. O desfecho me surpreeendeu especialmente e me fez entender o quão Anora, embora determinada, também era frágil. Mas sua fragilidade não é exposta de modo gratuito e superficial; ela se manifesta como resistência a pequenos gestos de cuidado e atenção vindos de alguém que ela despreza o filme todo: o capanga Igor. No final, Ani quer retribuir a devolução do anel com sexo (é a forma como ela sinceramente desenvolveu em sua vida), mas Igor quer beijá-la, e isso a desarma completamente e ela desaba. Achei muito foda. Um filme engraçado mas que termina de forma triste. Para mim, surpresa postiiva. Mikey Madison entregou demais!
Agora, sobre Ivan, difícil não admitir que a estupidez permanente daquele garoto me irritou profundamente, rsrs.
Enfim, Anora é um filme que divide, mas, de fato, é inquietante e criativo.
O Aprendiz
3.5 202 Assista AgoraFiquei surpreendido positivamente com esse filme. Primeiramente porque há uma curva psicológica que se desenvolve aos poucos: a construção do personagem de Trump, iniciamente inexperiente e dotado de alguma humanidade, finalmente se transforma no monstro fascista que conhecemos hoje (palmas para Sebastian Stan). Parte da figura acabada, como o filme bem explicita, é fruto do investimento de Roy Cohn (Jeremy Strong brilhante), um infame e corrupto advogado que ensina as únicas 3 regras que o jovem Trump deve aprender: atacar, negar tudo sempre e nunca admitir derrota. Mas também fica claro que Trump é o restolho do que há de mais podre e decadente no capitalismo estadunidense: a ideologia ultraindividualista e traiçoeira que corroi o tecido social por dentro. Interessante ver esse filme como um exame da articulação entre uma certa eugenia (a ideia de que riqueza material é genética) e o ressentimento cínico (Roy é um gay homofóbico enrustido).
É duro assistir a esse filme, mas acho que vale a pena ver uma versão contemporânea de um Frankenstein lipoaspirado e de cabelo transplantado, certamente mais aterrorizante do que o original idealizado por Mary Shelley, porque é real.
Lee
3.5 71 Assista AgoraLee Miller é uma daquelas mulheres cuja identidade marcante rompe com os grilhões da sociedade. De modelo do lendário Man Ray a fotógrafa de guerra, seu destino não poderia ser outro que não a telona. Não conheço bem a vida e obra dela, mas, assistindo ao filme, e reunindo algumas informações, acho que posso afirmar que a produção foi muito feliz em retratá-la.
Kate Winslet, que lutou durante 8 anos para realizá-lo, carrega o filme com maestria e segurança, conduzida pela ótima direção de Ellen Kuras. São muitas as cenas em que a força da personalidade de Lee, rude e implacável, mas também sincera e compassiva, se impõe sobre tudo e todos: coragem, audácia, teimosia, amizade, amor, proteção das mulheres vulneráveis... Lee é um caminhão de emoções. A cena em que ela entra numa casa e fotografa uma menina traumatizada, em meio a um grupo de mulheres desamparadas e famintas que dividem pedaços de pão, é de cortar o coração. Em seu trabalho incansável, Lee não passa por cima da realidade cruel da guerra apenas para obter registros impactantes, como vemos nos protagonistas do recente "Guerra Civil", de Alex Garland, em que o verdadeiro protagonismo está no sensacionalismo midático. Lee está ali naqueles cenários desoladores, com sua câmera, mas cada passo dado é lento e pesaroso e toda a brutalidade que se descortina diante dela a deixa profundamente chocada.
Os créditos finais nos informam que Lee não chegou a mostrar as fotos da guerra para seu filho Tony, como a narrativa do tempo presente conta no filme. Então, concluímos que aquela conversa é produto da imaginação de um Tony carente que acabou de se deparar com o material sensível que sua falecida mãe havia escondido.
De modo algum "Lee" é um filme inovador; pelo contrário, segue a fórmula ideal para um filme "premiável": cinematografia deslumbrante, atuações excelentes e emoções de sobra. Será que Kate vai levar seu segundo Óscar para casa?
[spoiler][/spoiler]
A Mosca
3.7 1,1KSou suspeito pra falar, porque Cronenberg é um dos meus diretores prediletos. Um filme que me impactou muito na adolescência. Convenhamos que os efeitos visuais foram muito bons para a época e, no meu entender, ainda são capazes de impressionar. A lenta e gradual mutação de Seth não provoca apenas um misto de angústia com repulsa. mas invoca um pofundo sentimento de tristeza. Um dos comentários que li em algum lugar sobre este filme afirmava justamente isso: "A Mosca" é um dos filmes mais tristes já feitos. E eu concordo plenamente.
O Jogo de Emoções
3.8 23 Assista AgoraQue atuação de Lindsay Crouse! Margaret Ford é uma das minhas heroínas preferidas.
O Hospedeiro
3.6 560"O vírus não foi encontrado e concluímos que o motivo da crise foi a total falta de informação."
A frase final resume tudo. O monstro mutante, no fundo, é a representação estética do poder vil e manipulador da interferência política externa.
Os Visitantes
3.4 5Embora não esteja entre os melhores de Kazan, é um bom filme. Provavelmente o primeiro realmente sério sobre o Vietnã. A cinematografia precária e a edição irregular contribuem de alguma forma para a atmosfera tensa que vai pesando sobre aquela casa e, aos poucos, enredando o casal vacilante. Em sua estreia, James Woods encarna muito bem a ingenuidade inflexível que coloca vidas em risco. Um bom estudo sobre os limites da moralidade e a condição de fragilidade diante de uma ameaça crescente.
O Corpo
4.1 1,0KRoteiro criativo, montagem excelente.
Filmaço!
Almas Gêmeas
3.8 438Um dos filmes mais chocantes que já vi.
Os Chefões
3.7 39 Assista AgoraChristopher Walken e Chris Penn entregaram muito!
O Último dos Moicanos
3.8 397 Assista Agora"A morte e a honra são consideradas a mesma coisa, mas hoje aprendi que às vezes não são".
Essa frase do Coronel Munro resume bem o filme.
O Caçador
3.2 194 Assista AgoraA obsessão de um caçador por uma fera de beleza inescrutável. A semelhança com Moby Dick (Herman Melville, 1851) foi reconhecida até mesmo por Julia Leigh, autora do romance original. O ritmo lento e a atmosfera austera combinam com a excelente performance de Dafoe.
Não é espetacular, mas está ok.
Faça a Coisa Certa
4.2 406Amor e ódio. Porque amor sem ódio é idealismo e ódio sem amor é torpeza.
Spike Lee e sua rara habilidade de radiografar as contradições entranhadas na sociedade estadunidense.
Você Deveria Ter Partido
2.6 221 Assista AgoraPrevisível e cheio de clichês, mas Koepp seguiu fiel ao seu estilo.
Os Homens Que Pisaram na Cauda do Tigre
3.5 22 Assista AgoraNo final da Segunda Guerra Mundial, os censores japoneses trabalhavam a todo vapor pra tentar manter um rígido controle sobre a produção cultural nacional. Um jovem Akira Kurosawa começava a dar seus primeiros passos e também teve que ceder às pressões do governo. Após ter estreado na direção com o ótimo “A Saga do Judô” (1943), inspirado num tradicional conto de artes marciais, ele realizou, no ano seguinte, “The Most Beautiful”, que exaltava o sacrifício dos operários para a glória do Império. Mesmo não concordando ideologicamente com o programa fascista, Kurosawa foi hábil em revelar, para além da propaganda, as contradições entre o sentimento do indivíduo e o dever de servir à nação. Essa inconformidade acabaria sendo um dos temas recorrentes em sua filmografia.
Kurosawa se pôs a trabalhar em um novo filme sobre a Batalha de Nagashino (1575), mas a escassez de recursos, decorrente da crise generalizada, bateu à porta e ele teve que abandonar o projeto. Mas escreveu outro roteiro em uma única noite e prometeu à produtora, Toho, que só precisaria de um set de filmagem para fazê-lo. E ele fez.
As filmagens de “Os Homens que Pisaram na Cauda do Tigre”, seu terceiro longa, tiveram que ser interrompidas. Como Tóquio estava sendo bombardeada impiedosamente pelas potências aliadas, a maioria das mulheres foram evacuadas da cidade, por isso elas estão praticamente ausentes do filme. Kurosawa afirmou ter parado para ouvir o discurso de rendição do Imperador Hirohito em 15 de agosto de 1945. Nesse período turbulento, o set foi visitado por muitos soldados americanos, incluindo o diretor John Ford, então tenente-comandante da Marinha estadunidense. A maioria ficou admirada com o trabalho que o gênio nascente desenvolvia.
Inspirado em duas peças folclóricas, Noh e Kabuki, o longa narra uma história que remonta ao séc. XII, quando um senhor chamado Yoshitsune e seu grupo de samurais atravessaram um território inimigo disfarçados de monges. O mais destacado, Benkei (Denjiro Ookouchi), exímio orador, saca um pergaminho em branco da caixa que o grupo transportava e, astutamente, começa a pronunciar formalizações pomposas em tom austero, como faz um prestidigitador tirando um coelho da cartola. Apesar da desconfiança do chefe da guarda, o senhor local acredita nele e libera a passagem. O estilo de Kurosawa conseguiu articular reverência e subversão de uma forma original. Cenas como as que valorizam a tradição da música de flauta e do tambor da arte Noh são constantemente perturbadas pela tagarelice e comicidade, propositalmente forçadas, do personagem do carregador fraco e covarde, vivido por Kenichi Enomoto (famoso ator da Toho). Kurosawa viria a utilizar o mesmo expediente em obras posteriores.
O resultado não poderia ser outro. Os censores baniram o filme, que só seria exibido em 1952, após a assinatura do Tratado de São Francisco. Como lidar com uma representação tão ousada de uma sociedade que consagrou no imaginário popular valores sagrados como aqueles de um Japão feudal mítico? Os burocratas frequentemente esbarram em sua própria incompreensão da liberdade dos espíritos criativos. O que importa realmente é que, mesmo não sendo uma obra-prima, “Os Homens que Pisaram na Cauda do Tigre” prepara o terreno para o melhor que viria nas décadas seguintes. Ou, quem sabe, estamos menosprezando a sensibilidade do grande diretor Michael Powell, para quem Kurosawa apresentou o filme logo após sua conclusão, e ouviu de sua própria boca repetidamente: “É maravilhoso".
Publicado em: https://www.facebook.com/photo/?fbid=898819815576362&set=a.237598721698478
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1917
4.2 1,8K Assista AgoraDo ponto de vista técnico, grande cinematografia . Mas não tiro a razão daqueles que acharam maneirista demais. Do ponto de vista ideológico, há certo maniqueísmo que me incomodou um pouco, algo que não vi, por ex, em "Nada de novo no front" (pra citar um filme recente do mesmo gênero).
Twisters
3.1 449 Assista AgoraO original é melhor, sem dúvida, mas ainda é cinema-catástrofe que funciona razoavelmente, com todos os exageros costumeiros.
Sem Saída
3.3 779Obviamente que é extremamente desagradável, e o final, bastante perturbador. O problema não é o excesso de brutalidade, pois isso é a convenção do filme (embora não me apeteça muito). Os problemas fundamentais foram os grandes furos no roteiro e a vontade de ser realista cometendo sérios deslizes que levam à inverossimilhança.
Whiplash: Em Busca da Perfeição
4.4 4,2K Assista AgoraObra-prima que dispensa comentários