Poderia e talvez devesse também ser classificado como comédia, ainda que de humor ácido. A premissa é excelente, e o roteiro constrói um personagem cheio de camadas: nem bom, nem mau, apenas humano e profundamente falho. O filme não minimiza o fato de que ele pode ser perigoso, tanto para si quanto para os outros, mas ainda assim cria uma empatia involuntária com o espectador, ao dar vazão àqueles sentimentos intrusivos que todos reprimimos algum dia.
Trilha sonora marcante do compositor John Williams, efeitos revolucionários para a época… mas não deu pra mim. E fiquei com aquela sensação de “onde é que eu já vi algo assim?”. Obsessão beirando o fanatismo, "cidadão de bem" subindo montanha, traindo a esposa e/ou abandonando a família… só faltou uma oração em volta de um pneu (mas, até teve um culto sem esse objeto iconico). Steven Spielberg quase um profeta dos delírios da família tradicional brasileira, com sua imaginação masculina messiânica e aquela vibe eterna de “eu fui escolhido, o resto que se vire”. É no mínimo criativa a versão do diretor do “pai de família que foi comprar cigarro e nunca mais voltou”. =D
Suspense bem atuado, sustentado sobretudo por Anthony Hopkins, que está impecável. O filme transforma a violência contra a mulher em mero gatilho para um jogo intelectual entre homens, enquanto a vítima permanece silenciada. Soma-se um furo jurídico grave: o marido, principal suspeito, tem poder para autorizar o desligamento dos aparelhos — eticamente e legalmente questionável. Há um esforço pontual de humanidade no promotor, mas a obra como um todo é fria, mais interessada em ser esperta do que em refletir sobre a gravidade do crime. E que final abrupto e anticlimax…
É um filme neutro, que distrai justamente por não ser longo. Não tem aquele clássico enchimento de linguiça e não tenta prolongar nada além do necessário. Se desligar um pouco o bom senso, dá para curtir e até fazer um puxadinho de crítica em relação à misoginia. Eu já estava cansada de filmes que apostam em gaslighting como motor da trama e, felizmente, este aqui não segue por esse caminho, mesmo sendo raso.
Premissa forte, com uma protagonista potente, a Halle Berry segura o filme com facilidade, pena que o resultado escorrega feio. A violência excessiva é usada como choque, e a misoginia aparece quase naturalizada em meio ao tom sobrenatural da trama. O filme flerta com a ideia de denúncia, mas nunca se compromete de verdade com ela. A relação do casal entra exatamente nesse pacote. A diferença de idade não é trabalhada, apenas existe, como se fosse neutra, assim como em Refém do Silêncio, mas aqui de modo ainda mais escancarado. Algo que só reforça um padrão recorrente do cinema, em que homens envelhecem “normalmente” enquanto mulheres precisam existir dentro de um limite aceitável de juventude. No fim, sobra um thriller pesado e irregular, que confunde brutalidade com profundidade e acaba sendo mais desleixado do que provocador.
O filme me agradou pelas atuações da Brittany Murphy e da atriz mirim, assim como pela dinâmica paternal, por parte do Michael Douglas, com as duas personagens. Entretanto me senti incomodada com a diferença de idade de 15 anos entre o casal formado por Michael Douglas e Famke Janssen, sendo só um reforço da lógica da validade feminina no cinema, em que homens envelhecem sem questionamento enquanto mulheres são descartadas. Enfim, só não é esquecível pela saudosa Brittany.
Assisti sem saber que a história entraria no gaslighting, o que me pegou de surpresa, mas nem tanto, porque o descrédito à protagonista surge com uma naturalidade desconfortável, o que faz pensar se roteiristas realmente gostam de ver mulheres sendo tratadas como loucas ou se esse recurso simplesmente passa por ser realista demais. A diferença aqui é que Laura não duvida de si mesma em nenhum momento, o que torna a experiência menos opressiva do que em outros filmes do gênero. Outro ponto alto é a ausência de rivalidade feminina, há apoio entre mulheres, especialmente no final. Ainda assim, o filme perde força na execução, com furos de roteiro e soluções convenientes que enfraquecem o suspense. Portanto, o longa funcionou mais para mim por algumas ideias do que pela qualidade do conjunto.
Knives Out 3, para mim, foi menos surpreendente que o primeiro, menos previsível que o segundo, mas ainda assim um ótimo filme. O padre é uma fofura, e eu amei a interação dele com o detetive. O primeiro respeita a falta de fé do segundo, que, por sua vez, respeita a devoção eclesiástica do primeiro. Essa troca é genuína, delicada e surpreendentemente madura. O que mais chama atenção, além da própria investigação, são o roteiro e os diálogos. O primeiro encontro entre padre e detetive é facilmente o meu favorito do filme. O desfecho é previsível, assim como o culpado, mas o roteiro é tão bem construído que isso não compromete a experiência. No fim, o filme entrega muito mais do que apenas o desvendar de um crime. É uma obra criativa, envolvente, com excelentes atores, que se sustenta menos pelo mistério em si e mais pela inteligência com que é contada.
O que mais gostei em Amores Materialistas foi da maturidade do roteiro. A personagem da Dakota é cheia de camadas, com imperfeições e conflitos internos completamente compreensíveis. Já Harry, de Pascal, em um primeiro momento parece o homem ideal, mas aos poucos se revela vazio ao longo da narrativa — provavelmente por necessidade do roteiro, que sugere implicitamente que, se ela tivesse escolhido ele, ambos terminariam presos a uma solidão compartilhada. Isso pela falta de familiaridade, segurança, confiança e compatibilidade emocional que ela já tinha com John, seu porto seguro, oriundo do historico compartilhado pelo casal ao longo do tempo. A mensagem pode ser romantizada, mas não deixa de ter doses de realismo e maturidade. Não é exatamente o meu tipo de filme, mas valeu a experiência. E, sem dúvida, é um prato cheio para os românticos incuráveis.
Começa de forma piegas, preso à fórmula ultrapassada da mulher que “se faz de difícil” para conquistar um homem — simplesmente chato. Ryle já mostra sinais de sua agressividade no primeiro contato, algo que em filmes antigos passaria despercebido, mas aqui ganha peso e cria tensão. O mais interessante está no desenrolar: a distorção da protagonista diante do que vive: cada ato de agressividade é mascarado como acidente, e o público acaba compartilhando essa percepção, o que torna a experiência mais imersiva quando finalmente temos noção real do que aconteceu. O ponto alto, porém, é o desfecho — doloroso e visceral — quando ela pede o divórcio. É nesse momento que sentimos a dimensão da complexidade de estar em uma relação abusiva e o quanto é preciso força para conseguir sair dela de fato.
Gaslight parece ser uma das premissas favoritas do terror psicológico ou de filmes de ação com protagonistas femininas, provavelmente por ser tão crível e realista. Gostei bastante da abordagem do diretor e me senti realmente envolvida na trama.
Entretanto, é triste ver oportunidades desperdiçadas, como a de dar voz à mulher diante de um marido mediano — cujo comportamento, infelizmente, reflete o de muitos homens que se consideram “grandes” apenas por cumprir o mínimo em um relacionamento.
O ápice do absurdo é quando Simón chama Paula de obsessiva, por ela assumir uma responsabilidade por completo, que também é dele. E ainda soltar um “ela não é minha filha”, como um completo babaca.
No fim, o filme não apenas entretém, mas deixa uma sensação incômoda, com um desfecho acelerado, somada à lembrança de que histórias assim são mais comuns do que deveriam.
Eu realmente espero ver mais filmes com discursos que deem voz às mulheres, como em Anatomia de uma Queda.
Atmosfera sombria, de estética melancólica, sem dúvidas. Mas ao mesmo tempo há uma ternura e uma delicadeza quase poética, sobretudo ao dar protagonismo a uma pessoa com deficiência: Elisa, interpretada de forma encantadora e envolvente por Sally Hawkins. Ela não fala de modo convencional e, justamente por isso, é uma observadora excepcional. Essa característica a torna quase invisível aos olhos da sociedade — invisibilidade que, paradoxalmente, lhe dá tudo o que precisa para libertar o homem anfíbio, com quem vive um romance bizarramente fofo.
É genial como o filme reúne em sua narrativa tantas figuras historicamente marginalizadas — mulheres, pessoas com deficiência, negros e homossexuais — e ainda costura nisso uma crítica ao sistema econômico patriarcal. Essa crítica ganha forma na figura de Strickland, representante da podridão e da ganância dos homens que comandam o mundo desde sempre.
O desfecho me remeteu imediatamente ao de Splash – Uma Sereia em Minha Vida (1984).
Embora as estéticas e narrativas sejam distintas, ambos compartilham a mesma ideia essencial: o amor que só encontra plenitude nas águas, longe da superfície que oprime.
Guillermo del Toro dificilmente erra: tirando a morte do gato e o Círculo de Fogo, gostei de todos os filmes dele que vi até o momento.
“Love Me” apresenta uma direção fluída, de ritmo envolvente e estética poética, mas peca no roteiro. A narrativa abre portas para reflexões sobre amor, solidão e existência, porém não se aprofunda, ainda que a discussão catártica entre os protagonistas, próximo ao final, demonstre o potencial do filme. Apesar da fragmentação da trama, permanece a sensação de que o amor, mesmo diante do vazio, é a última âncora da humanidade. As atuações são consistentes, mas é a personagem de Kristen Stewart que carrega no corpo a inquietude de um sentimento que nunca chega a se realizar por completo. Ela traduz o silêncio, a falta, a saudade de algo que ainda não existiu. Através da “ME”, o filme toca melhor em temas como identidade, redes sociais e insegurança, encontrando seus momentos mais poderosos.
A dívida com as mulheres é histórica. Quantas mais terão que morrer por seus direitos? Essa é a pergunta que ecoa dolorosa após assistir As Sufragistas, que é um bom e importante longa mesmo que ainda superficial.
Não consigo deixar de pensar que, se Para Sempre Cinderela fosse lançado atualmente exatamente do jeito que é, o que teria de gente, chorando nos comentários dizendo que é “lacração”. Reclamariam que ela não é igual à princesa da Disney, que a princesa deveria ser loira, que faltou a abóbora, a fada madrinha e os ratinhos. E, claro, diriam que enfraqueceram, inferiorizaram e emburreceram o príncipe só para empoderar a Danielle — principalmente naquela cena em que ele é rendido e ela sai carregando ele nas costas como um saco de batata.
E no final, então, quando ela se salva sozinha… meu Deus, seria um chororô porque não foi o príncipe quem a salvou.
Tinha potencial para ser muito melhor. O conjunto é ousado até para o contexto atual, mas as personagens soam superficiais (levemente estereotipadas) devido ao roteiro corrido, que prejudica a profundidade e a conexão com a narrativa. Há bons momentos, como quando Jane confronta o promotor dizendo que é gay de verdade e insinua que outras mulheres fingem para se livrar dele, e também quando Robin fala do amor entre amigas e afirma que a vida de uma mulher não gira em torno de conseguir um homem.
Rever Fluke é como mergulhar novamente em uma memória que sempre mexeu profundamente comigo, intensificada pelo fato de filmes com animais, especialmente cachorros, tocarem meu coração de maneira única. Este longa fez parte da minha infância, adolescência e agora também marca minha vida adulta. Ao assisti-lo novamente, me senti como aquela criança que chorava com cada cena, mas agora com a consciência adulta que enxerga suas camadas e simbolismos.
A experiência reforçou o carinho que sinto pela história e sua qualidade: em destaque, os efeitos práticos com os cães, que são excepcionais e reforçam o realismo da narrativa, nos conectando profundamente com a trama; especialmente, a forma como expressam emoções tão humanas; a direção fluida; o roteiro sensível e envolvente, que também contribui muito; e a trilha sonora nostálgica, que é simplesmente fatal para mim.
Fluke é mais do que a história de um cachorro: é uma obra que cresce com quem a assiste.
Eu já li e assisti inúmeras versões da Cinderela, e arrisco dizer que sou quase uma perita nessa princesa. Sempre admirei sua simplicidade, bondade e carinho pelos animais. Cada adaptação mantém a essência da personagem com algumas peculiaridades adicionais muito bem vindas: a da Anne Hathaway em Uma Garota Encantada, ativista; Drew Barrymore em Para Sempre Cinderela, valente e independente (minha eterna favorita); Lily James, meiga e bondosa; Hilary Duff em Uma Nova Cinderela, autêntica; Anna Kendrick em Caminhos da Floresta, sensata e esperta.
Essa versão com Camila Cabello realmente me surpreendeu, pois ela é a mais ousada e prioriza a si própria. Em relação aos demais personagens, o “Fado” é sensacional, a mudança na madrasta foi muito legal assim como a das irmãs. Também gostei da identidade que deram ao príncipe e da presença impactante da Gwen, irmã dele. Foi uma grata surpresa, eu realmente não espeva um filme tão cheio de diversidade e criatividade. A escolha das músicas, desde Queen e Madonna até Ed Sheeran, tornou tudo meio nostalgico e ainda juntou com a Minnie Driver novamente nesse universo.
Romances adolescentes parecem ser a fórmula do estúdio CoMix Wave Films, quase sempre ambientados em Tóquio, com eventos naturais, espirituais e muito romance juvenil. É lindo de ver, um verdadeiro espetáculo visual cheio de criatividade, apesar da fórmula não ser tão nova.
O primeiro ponto a destacar é que o longa sofre com sérios problemas de fluidez. Em alguns momentos, arrasta-se de forma quase sonolenta; em outros, corre de maneira atropelada.Por exemplo: ao se prolongar excessivamente na apresentação dos personagens, mas acelerar nos diálogos — que acabam se tornando verborrágicos, especialmente nas falas de Lady Susan. E aqui reside a maior frustração: Lady Susan tinha um enorme potencial. Deveria ser retratada como uma mulher debochada e perspicaz, alguém capaz de manipular e encantar com sutileza. No entanto, o filme a reduz a uma fofoqueira mequetrefe, de propósitos confusos. Só consegui compreender a verdadeira natureza dela no final, e isso é uma pena — tenho certeza de que Jane Austen criou uma personagem muito mais interessante e sagaz do que essa versão apática que vimos na tela.
A animação é lindíssima. Gosto muito dos doramas coreanos e, embora não seja adepta de K-pop, gostei muito da história — super madura e, ao mesmo tempo, colorida e inclusiva para todas as idades e gostos. Aborda a profundidade dos sentimentos que nos tornam humanos e eleva a importância de enfrentar nossa dor e compartilhá-la com aqueles em quem confiamos, para nos fortalecer. Não dá para ser positivo sem acolher o lado negativo. A história literalmente mostra o mundo acabando justamente por termos uma protagonista que esconde parte de si mesma na tentativa de se encaixar naquilo que esperam dela, mas que, no final, apenas a enfraquecia. As músicas são super envolventes e agradáveis, e o trio de cantoras é encantador e cheio de personalidade. Eu torço profundamente para que tenhamos cada vez mais animações assim, saindo da Disney, a exemplo de: A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas, Klaus, Pinóquio (de Guillermo del Toro), meu amado Studio Ghibli e a adorável Flow, que são originais, criativas e não têm medo de ousar.
Acho que foi-se o tempo em que eu poderia gostar desse tipo de filme. Não que este, em particular, seja o pior já visto, entretanto, me senti entediada em vários momentos, por parecer estar assistindo a um retalho de vários roteiros já abordados em outros longas, como A Culpa é das Estrelas, Como Eu Era Antes de Você, Um Amor para Recordar ou mesmo o chatíssimo Continência do Amor — visto que Anna me lembra muito a Cassie, ao desviar completamente o foco da própria carreira para passar a orbitar um cara, como um mero par romantico. O filme até tenta ser diferente, lançando um suposto romance casual e alguns momentos mais "descontraídos", que tentam soar inteligentes. Mas não adianta: a pieguice e a superficialidade do roteiro e dos diálogos não convencem. O casal protagonista é extremamente genérico, e Corey Mylchreest basicamente incorporou o mesmo George de Rainha Charlotte. Apesar disso, apreciei o final — foi um dos poucos momentos em que senti alguma coisa, provavelmente devido aos lindos cenários. Também gostei muito dos coadjuvantes, especialmente da própria Cecelia, que traz frescor às cenas. E amei rever Dougray Scott, que está excelente no papel e entrega uma atuação comovente.
Um Dia de Fúria
3.9 934 Assista AgoraPoderia e talvez devesse também ser classificado como comédia, ainda que de humor ácido. A premissa é excelente, e o roteiro constrói um personagem cheio de camadas: nem bom, nem mau, apenas humano e profundamente falho.
O filme não minimiza o fato de que ele pode ser perigoso, tanto para si quanto para os outros, mas ainda assim cria uma empatia involuntária com o espectador, ao dar vazão àqueles sentimentos intrusivos que todos reprimimos algum dia.
Contatos Imediatos do Terceiro Grau
3.7 604 Assista AgoraTrilha sonora marcante do compositor John Williams, efeitos revolucionários para a época… mas não deu pra mim. E fiquei com aquela sensação de “onde é que eu já vi algo assim?”.
Obsessão beirando o fanatismo, "cidadão de bem" subindo montanha, traindo a esposa e/ou abandonando a família… só faltou uma oração em volta de um pneu (mas, até teve um culto sem esse objeto iconico). Steven Spielberg quase um profeta dos delírios da família tradicional brasileira, com sua imaginação masculina messiânica e aquela vibe eterna de “eu fui escolhido, o resto que se vire”.
É no mínimo criativa a versão do diretor do “pai de família que foi comprar cigarro e nunca mais voltou”. =D
Um Crime de Mestre
3.8 745Suspense bem atuado, sustentado sobretudo por Anthony Hopkins, que está impecável. O filme transforma a violência contra a mulher em mero gatilho para um jogo intelectual entre homens, enquanto a vítima permanece silenciada. Soma-se um furo jurídico grave: o marido, principal suspeito, tem poder para autorizar o desligamento dos aparelhos — eticamente e legalmente questionável. Há um esforço pontual de humanidade no promotor, mas a obra como um todo é fria, mais interessada em ser esperta do que em refletir sobre a gravidade do crime. E que final abrupto e anticlimax…
Hypnotic
2.6 206É um filme neutro, que distrai justamente por não ser longo. Não tem aquele clássico enchimento de linguiça e não tenta prolongar nada além do necessário.
Se desligar um pouco o bom senso, dá para curtir e até fazer um puxadinho de crítica em relação à misoginia. Eu já estava cansada de filmes que apostam em gaslighting como motor da trama e, felizmente, este aqui não segue por esse caminho, mesmo sendo raso.
Na Companhia do Medo
3.2 608Premissa forte, com uma protagonista potente, a Halle Berry segura o filme com facilidade, pena que o resultado escorrega feio. A violência excessiva é usada como choque, e a misoginia aparece quase naturalizada em meio ao tom sobrenatural da trama. O filme flerta com a ideia de denúncia, mas nunca se compromete de verdade com ela.
A relação do casal entra exatamente nesse pacote. A diferença de idade não é trabalhada, apenas existe, como se fosse neutra, assim como em Refém do Silêncio, mas aqui de modo ainda mais escancarado. Algo que só reforça um padrão recorrente do cinema, em que homens envelhecem “normalmente” enquanto mulheres precisam existir dentro de um limite aceitável de juventude.
No fim, sobra um thriller pesado e irregular, que confunde brutalidade com profundidade e acaba sendo mais desleixado do que provocador.
Refém do Silêncio
3.4 194 Assista AgoraO filme me agradou pelas atuações da Brittany Murphy e da atriz mirim, assim como pela dinâmica paternal, por parte do Michael Douglas, com as duas personagens.
Entretanto me senti incomodada com a diferença de idade de 15 anos entre o casal formado por Michael Douglas e Famke Janssen, sendo só um reforço da lógica da validade feminina no cinema, em que homens envelhecem sem questionamento enquanto mulheres são descartadas.
Enfim, só não é esquecível pela saudosa Brittany.
A Mulher na Cabine 10
2.8 177 Assista AgoraAssisti sem saber que a história entraria no gaslighting, o que me pegou de surpresa, mas nem tanto, porque o descrédito à protagonista surge com uma naturalidade desconfortável, o que faz pensar se roteiristas realmente gostam de ver mulheres sendo tratadas como loucas ou se esse recurso simplesmente passa por ser realista demais. A diferença aqui é que Laura não duvida de si mesma em nenhum momento, o que torna a experiência menos opressiva do que em outros filmes do gênero. Outro ponto alto é a ausência de rivalidade feminina, há apoio entre mulheres, especialmente no final. Ainda assim, o filme perde força na execução, com furos de roteiro e soluções convenientes que enfraquecem o suspense.
Portanto, o longa funcionou mais para mim por algumas ideias do que pela qualidade do conjunto.
Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out
3.6 240 Assista AgoraKnives Out 3, para mim, foi menos surpreendente que o primeiro, menos previsível que o segundo, mas ainda assim um ótimo filme.
O padre é uma fofura, e eu amei a interação dele com o detetive. O primeiro respeita a falta de fé do segundo, que, por sua vez, respeita a devoção eclesiástica do primeiro. Essa troca é genuína, delicada e surpreendentemente madura.
O que mais chama atenção, além da própria investigação, são o roteiro e os diálogos. O primeiro encontro entre padre e detetive é facilmente o meu favorito do filme.
O desfecho é previsível, assim como o culpado, mas o roteiro é tão bem construído que isso não compromete a experiência. No fim, o filme entrega muito mais do que apenas o desvendar de um crime.
É uma obra criativa, envolvente, com excelentes atores, que se sustenta menos pelo mistério em si e mais pela inteligência com que é contada.
Os Ratos: Uma História de The Witcher
2.5 19O filme não é grande coisa de fato, mas mais rasos são esses homenzinhos mimizentos. Cruzes. Nunca decepcionam em decepcionar.
Amores Materialistas
3.1 388 Assista AgoraO que mais gostei em Amores Materialistas foi da maturidade do roteiro. A personagem da Dakota é cheia de camadas, com imperfeições e conflitos internos completamente compreensíveis. Já Harry, de Pascal, em um primeiro momento parece o homem ideal, mas aos poucos se revela vazio ao longo da narrativa — provavelmente por necessidade do roteiro, que sugere implicitamente que, se ela tivesse escolhido ele, ambos terminariam presos a uma solidão compartilhada. Isso pela falta de familiaridade, segurança, confiança e compatibilidade emocional que ela já tinha com John, seu porto seguro, oriundo do historico compartilhado pelo casal ao longo do tempo.
A mensagem pode ser romantizada, mas não deixa de ter doses de realismo e maturidade. Não é exatamente o meu tipo de filme, mas valeu a experiência. E, sem dúvida, é um prato cheio para os românticos incuráveis.
É Assim Que Acaba
3.3 394 Assista AgoraComeça de forma piegas, preso à fórmula ultrapassada da mulher que “se faz de difícil” para conquistar um homem — simplesmente chato. Ryle já mostra sinais de sua agressividade no primeiro contato, algo que em filmes antigos passaria despercebido, mas aqui ganha peso e cria tensão. O mais interessante está no desenrolar: a distorção da protagonista diante do que vive: cada ato de agressividade é mascarado como acidente, e o público acaba compartilhando essa percepção, o que torna a experiência mais imersiva quando finalmente temos noção real do que aconteceu. O ponto alto, porém, é o desfecho — doloroso e visceral — quando ela pede o divórcio. É nesse momento que sentimos a dimensão da complexidade de estar em uma relação abusiva e o quanto é preciso força para conseguir sair dela de fato.
Jaula
3.2 180 Assista AgoraGaslight parece ser uma das premissas favoritas do terror psicológico ou de filmes de ação com protagonistas femininas, provavelmente por ser tão crível e realista. Gostei bastante da abordagem do diretor e me senti realmente envolvida na trama.
Entretanto, é triste ver oportunidades desperdiçadas, como a de dar voz à mulher diante de um marido mediano — cujo comportamento, infelizmente, reflete o de muitos homens que se consideram “grandes” apenas por cumprir o mínimo em um relacionamento.
O ápice do absurdo é quando Simón chama Paula de obsessiva, por ela assumir uma responsabilidade por completo, que também é dele. E ainda soltar um “ela não é minha filha”, como um completo babaca.
No fim, o filme não apenas entretém, mas deixa uma sensação incômoda, com um desfecho acelerado, somada à lembrança de que histórias assim são mais comuns do que deveriam.
Eu realmente espero ver mais filmes com discursos que deem voz às mulheres, como em Anatomia de uma Queda.
A Forma da Água
3.9 2,7KAtmosfera sombria, de estética melancólica, sem dúvidas. Mas ao mesmo tempo há uma ternura e uma delicadeza quase poética, sobretudo ao dar protagonismo a uma pessoa com deficiência: Elisa, interpretada de forma encantadora e envolvente por Sally Hawkins. Ela não fala de modo convencional e, justamente por isso, é uma observadora excepcional. Essa característica a torna quase invisível aos olhos da sociedade — invisibilidade que, paradoxalmente, lhe dá tudo o que precisa para libertar o homem anfíbio, com quem vive um romance bizarramente fofo.
É genial como o filme reúne em sua narrativa tantas figuras historicamente marginalizadas — mulheres, pessoas com deficiência, negros e homossexuais — e ainda costura nisso uma crítica ao sistema econômico patriarcal. Essa crítica ganha forma na figura de Strickland, representante da podridão e da ganância dos homens que comandam o mundo desde sempre.
O desfecho me remeteu imediatamente ao de Splash – Uma Sereia em Minha Vida (1984).
Embora as estéticas e narrativas sejam distintas, ambos compartilham a mesma ideia essencial: o amor que só encontra plenitude nas águas, longe da superfície que oprime.
Guillermo del Toro dificilmente erra: tirando a morte do gato e o Círculo de Fogo, gostei de todos os filmes dele que vi até o momento.
Love Me
2.9 15 Assista Agora“Love Me” apresenta uma direção fluída, de ritmo envolvente e estética poética, mas peca no roteiro. A narrativa abre portas para reflexões sobre amor, solidão e existência, porém não se aprofunda, ainda que a discussão catártica entre os protagonistas, próximo ao final, demonstre o potencial do filme.
Apesar da fragmentação da trama, permanece a sensação de que o amor, mesmo diante do vazio, é a última âncora da humanidade. As atuações são consistentes, mas é a personagem de Kristen Stewart que carrega no corpo a inquietude de um sentimento que nunca chega a se realizar por completo. Ela traduz o silêncio, a falta, a saudade de algo que ainda não existiu. Através da “ME”, o filme toca melhor em temas como identidade, redes sociais e insegurança, encontrando seus momentos mais poderosos.
As Sufragistas
4.1 776 Assista AgoraA dívida com as mulheres é histórica. Quantas mais terão que morrer por seus direitos? Essa é a pergunta que ecoa dolorosa após assistir As Sufragistas, que é um bom e importante longa mesmo que ainda superficial.
O Cliente
3.6 200 Assista AgoraMais um pouco a sinopse conta o filme todo.
Para Sempre Cinderela
3.5 787 Assista AgoraNão consigo deixar de pensar que, se Para Sempre Cinderela fosse lançado atualmente exatamente do jeito que é, o que teria de gente, chorando nos comentários dizendo que é “lacração”. Reclamariam que ela não é igual à princesa da Disney, que a princesa deveria ser loira, que faltou a abóbora, a fada madrinha e os ratinhos. E, claro, diriam que enfraqueceram, inferiorizaram e emburreceram o príncipe só para empoderar a Danielle — principalmente naquela cena em que ele é rendido e ela sai carregando ele nas costas como um saco de batata.
E no final, então, quando ela se salva sozinha… meu Deus, seria um chororô porque não foi o príncipe quem a salvou.
Somente Elas
3.7 133 Assista AgoraTinha potencial para ser muito melhor. O conjunto é ousado até para o contexto atual, mas as personagens soam superficiais (levemente estereotipadas) devido ao roteiro corrido, que prejudica a profundidade e a conexão com a narrativa. Há bons momentos, como quando Jane confronta o promotor dizendo que é gay de verdade e insinua que outras mulheres fingem para se livrar dele, e também quando Robin fala do amor entre amigas e afirma que a vida de uma mulher não gira em torno de conseguir um homem.
Lembranças de Outra Vida
3.6 342 Assista AgoraRever Fluke é como mergulhar novamente em uma memória que sempre mexeu profundamente comigo, intensificada pelo fato de filmes com animais, especialmente cachorros, tocarem meu coração de maneira única. Este longa fez parte da minha infância, adolescência e agora também marca minha vida adulta. Ao assisti-lo novamente, me senti como aquela criança que chorava com cada cena, mas agora com a consciência adulta que enxerga suas camadas e simbolismos.
A experiência reforçou o carinho que sinto pela história e sua qualidade: em destaque, os efeitos práticos com os cães, que são excepcionais e reforçam o realismo da narrativa, nos conectando profundamente com a trama; especialmente, a forma como expressam emoções tão humanas; a direção fluida; o roteiro sensível e envolvente, que também contribui muito; e a trilha sonora nostálgica, que é simplesmente fatal para mim.
Fluke é mais do que a história de um cachorro: é uma obra que cresce com quem a assiste.
Cinderela
2.6 305 Assista AgoraEu já li e assisti inúmeras versões da Cinderela, e arrisco dizer que sou quase uma perita nessa princesa. Sempre admirei sua simplicidade, bondade e carinho pelos animais. Cada adaptação mantém a essência da personagem com algumas peculiaridades adicionais muito bem vindas: a da Anne Hathaway em Uma Garota Encantada, ativista; Drew Barrymore em Para Sempre Cinderela, valente e independente (minha eterna favorita); Lily James, meiga e bondosa; Hilary Duff em Uma Nova Cinderela, autêntica; Anna Kendrick em Caminhos da Floresta, sensata e esperta.
Essa versão com Camila Cabello realmente me surpreendeu, pois ela é a mais ousada e prioriza a si própria.
Em relação aos demais personagens, o “Fado” é sensacional, a mudança na madrasta foi muito legal assim como a das irmãs. Também gostei da identidade que deram ao príncipe e da presença impactante da Gwen, irmã dele.
Foi uma grata surpresa, eu realmente não espeva um filme tão cheio de diversidade e criatividade.
A escolha das músicas, desde Queen e Madonna até Ed Sheeran, tornou tudo meio nostalgico e ainda juntou com a Minnie Driver novamente nesse universo.
O Tempo com Você
3.9 150 Assista AgoraRomances adolescentes parecem ser a fórmula do estúdio CoMix Wave Films, quase sempre ambientados em Tóquio, com eventos naturais, espirituais e muito romance juvenil. É lindo de ver, um verdadeiro espetáculo visual cheio de criatividade, apesar da fórmula não ser tão nova.
Amor & Amizade
3.2 92 Assista AgoraO primeiro ponto a destacar é que o longa sofre com sérios problemas de fluidez. Em alguns momentos, arrasta-se de forma quase sonolenta; em outros, corre de maneira atropelada.Por exemplo: ao se prolongar excessivamente na apresentação dos personagens, mas acelerar nos diálogos — que acabam se tornando verborrágicos, especialmente nas falas de Lady Susan.
E aqui reside a maior frustração: Lady Susan tinha um enorme potencial. Deveria ser retratada como uma mulher debochada e perspicaz, alguém capaz de manipular e encantar com sutileza. No entanto, o filme a reduz a uma fofoqueira mequetrefe, de propósitos confusos. Só consegui compreender a verdadeira natureza dela no final, e isso é uma pena — tenho certeza de que Jane Austen criou uma personagem muito mais interessante e sagaz do que essa versão apática que vimos na tela.
Guerreiras do K-Pop
3.7 212 Assista AgoraA animação é lindíssima. Gosto muito dos doramas coreanos e, embora não seja adepta de K-pop, gostei muito da história — super madura e, ao mesmo tempo, colorida e inclusiva para todas as idades e gostos. Aborda a profundidade dos sentimentos que nos tornam humanos e eleva a importância de enfrentar nossa dor e compartilhá-la com aqueles em quem confiamos, para nos fortalecer. Não dá para ser positivo sem acolher o lado negativo. A história literalmente mostra o mundo acabando justamente por termos uma protagonista que esconde parte de si mesma na tentativa de se encaixar naquilo que esperam dela, mas que, no final, apenas a enfraquecia. As músicas são super envolventes e agradáveis, e o trio de cantoras é encantador e cheio de personalidade.
Eu torço profundamente para que tenhamos cada vez mais animações assim, saindo da Disney, a exemplo de: A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas, Klaus, Pinóquio (de Guillermo del Toro), meu amado Studio Ghibli e a adorável Flow, que são originais, criativas e não têm medo de ousar.
Meu Ano em Oxford
2.9 102Acho que foi-se o tempo em que eu poderia gostar desse tipo de filme. Não que este, em particular, seja o pior já visto, entretanto, me senti entediada em vários momentos, por parecer estar assistindo a um retalho de vários roteiros já abordados em outros longas, como A Culpa é das Estrelas, Como Eu Era Antes de Você, Um Amor para Recordar ou mesmo o chatíssimo Continência do Amor — visto que Anna me lembra muito a Cassie, ao desviar completamente o foco da própria carreira para passar a orbitar um cara, como um mero par romantico.
O filme até tenta ser diferente, lançando um suposto romance casual e alguns momentos mais "descontraídos", que tentam soar inteligentes. Mas não adianta: a pieguice e a superficialidade do roteiro e dos diálogos não convencem. O casal protagonista é extremamente genérico, e Corey Mylchreest basicamente incorporou o mesmo George de Rainha Charlotte.
Apesar disso, apreciei o final — foi um dos poucos momentos em que senti alguma coisa, provavelmente devido aos lindos cenários. Também gostei muito dos coadjuvantes, especialmente da própria Cecelia, que traz frescor às cenas. E amei rever Dougray Scott, que está excelente no papel e entrega uma atuação comovente.