Gostei de como o perpétuo "plano sequência" é usado: passeando por todos os lugares, seguindo alguns personagens por um tempo e depois largando para ir em outra direção, se intrometendo em todos os cantos como que procurando pistas que esclareçam a verdadeira questão – como é que foi acontecer de uma criança de 13 anos, aparentemente doce e protegida dos males do mundo, cometer um crime hediondo como o assassinato de uma colega de escola? Dessa forma, ao invés de ser um simples recurso estilístico gratuito, a forma (o plano sequência) fala: é um problema coletivo e não individual. Por isso a série não se apresenta como um estudo de personagem, mas assume um olhar mais panorâmico. E por isso, também, ela foge dos já estereotipados diagnósticos psiquiátricos (extremamente abusados atualmente), assim como não se restringe a uma discussão moralista sobre o papel da Internet. Aliás, a série aborda bem pouco a internet! Não sei se por negligência ou se por entender que o problema está fora dela, o que me parece ser o caso já que a série é extremamente bem sucedida em mostrar como a misoginia é perpassa todas as relações sociais e, por isso, estava tão fortemente marcada na visão de mundo do menino. Pela temática, em muitos momentos eu temi que a série fosse derrapar nos didatismos tão comuns às obras de ficção atuais que declaradamente abordam questões sociais, mas ela, felizmente, não recorre (muito) a isso. Enfim, um tema assustadoramente atual, mas igualmente assustador foi descobrir que, no sistema de ensino britânico, a maioria das aulas são gravadas! Como pode a escola assumir sua plena função de educadora quando o ensino é reduzido ao entendimento tecnocrático da transmissão de conteúdos e a capacitação para o mercado de trabalho? Aula gravada não é solução para a superlotação das escolas (algo que a gente aqui, do sul global, também conhece muito bem).
É muito bonita a maneira como essa temporada ressignifica tão profundamente a frase "every second counts" – de um apelo ou ordem à urgência (e grande símbolo da ansiedade e do burnout) até o sentido, lindamente atingido no episódio do Richie, de que nunca é tarde demais pra recomeçar e de que o esforço pelo trabalho bem feito sempre vale a pena. Lindo demais! Essa série é tranquilamente uma das minhas séries favoritas da vida.
"Não se pode aprender nada de uma lição que não venha acompanhada da dor, já que não se pode conseguir nada sem um sacrifício. Mas quando se aguenta essa dor e a supera, as pessoas conseguem um coração forte que não perde para nada. Sim, um coração como o aço."
Porra, eu to bem emocionado. Pela terceira ou quarta vez (e contando).
Uau, um anime sobre uma arte completamente desconhecida (de mim, é claro), com uma forma tão criativa de contar a história, com personagens TÃO cativantes e vivos!... Sem dúvida mesmo é um dos melhores animes que já vi. Aguardo ansiosamente pela próxima temporada. Recomendo entusiasticamente.
A série de Vladimir Bortko é uma ótima adaptação do livro de Dostoiévski - extremamente fiel ao romance, tanto na sua narrativa, na caracterização dos personagens e nos diálogos. Eu a recomendaria facilmente para qualquer um que se interesse pela história (embora recomende muito mais a leitura do livro). Apenas algumas poucas coisas não me agradaram, como alguns atores que não me convenceram tanto (aquela não é a Aglaia Ivanovna Iepantchina!) ou a trilha sonora um pouco repetitiva. Mas não acho que isso prejudique a alta qualidade da série. Contudo, eu queria ressaltar um detalhe importantíssimo do livro: a epilepsia do herói, o príncipe Míchkin (cuja pronúncia em russo é "Kniás Muíchkin", como tive o prazer de descobrir na série). Esse personagem encarna o tipo psicológico de Jesus Cristo ou de Dom Quixote (ou do "Cavaleiro Pobre" do poema de Púchkin, recitado por Aglaia), e possui traços de um visionário (no sentido religioso do termo). Esses aspectos são fundamentais na representação do personagem ora como um "idiota-aparente", ora como um "aparente-idiota" - uma pessoa deslocada na sociedade por uma aparente limitação psicológica que é, na verdade, o mais alto desenvolvimento moral possível. Embora isso esteja certamente presente na série (caso contrário, esta seria uma péssima adaptação do livro), fica ausente a dimensão visionário da psicologia de Míchkin, que é construída por sua condição de epiléptico. Seus ataques o levam a uma intensificação da experiência da vida no instante em que ainda está no limiar entre a sanidade e o ataque propriamente dito. Isso é descrito assim em certa passagem especialmente marcante do livro: "(...) esses instantes eram, justamente, só uma intensificação extraordinária da autoconsciência - caso fosse necessário exprimir esse estado por uma palavra -, da autoconsciência e ao mesmo tempo da autossensação do imediato no mais alto grau. Se naquele segundo, isto é, no mais derradeiro momento de consciência perante o ataque ele arranjasse tempo para dizer com clareza e consciência a si mesmo: "sim, por esse instante pode-se dar a vida toda!" - então, é claro, esse momento em si valia a vida toda." [DOSTOIÉVSKI, F. O Idiota (trad. de P. Bezerra). São Paulo: Ed. 34, 2002, p. 264]. Esses instantes de clareza visionária aproximam Míchkin da condição do condenado a morte que, segundo seu relato, nos derradeiros minutos antes da execução teve uma visão redentora da "vida infinita" (aliás, a pena do condenado teria sido comutada no ultimo minuto, o que é uma referência a uma experiência similar vivida pelo próprio Dostoiévski). É assim que Míchkin encarna o tipo psicológico do homem mais moralmente desenvolvido: ele não parece idiota apenas por ser "certinho" numa sociedade mesquinha; ele é "certinho" porque, de fato, têm experiências visionárias que ampliam sua consciência da vida e seu amor compassivo pelos próximos, mas que são engendradas pelos ataques de epilepsia que o deixam idiota. Naturalmente, esse traço psicológico do personagem é construído por Dostoiévski através de seus típicos (e geniais) monólogos internos, quase contraditórios, do personagem consigo mesmo - que seriam ridiculamente difíceis de representar visualmente sem o texto. Mas enfim... como eu disse antes: eu gostei da série e a recomendo, mas recomendo muitíssimo mais o livro do velho Dostô ;-) Boa sessão e/ou leitura!
"Mushishi" te fala sobre (e te impacta com) a beleza e a infinita diversidade da vida em todas as suas manifestações e (às vezes inusitadas) possibilidades. O faz em sentido figurado, é claro (não é que os mushis existam...). É a estética do anime que consiste nisso: afirmar a vida em toda a sua diversidade. É um anime muito bonito mesmo.
"Saraiya Gouyou" ("House of Five Leaves") tem uma arte excepcional, personagens interessantes e, principalmente, uma trilha sonora espetacular de deixar saudade. Recomendado.
Kondou Yukio & Konishi Kayou - House of Five Leaves OST: https://www.youtube.com/watch?v=MByPy4ZMnNM
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Adolescência
4.0 611 Assista AgoraGostei de como o perpétuo "plano sequência" é usado: passeando por todos os lugares, seguindo alguns personagens por um tempo e depois largando para ir em outra direção, se intrometendo em todos os cantos como que procurando pistas que esclareçam a verdadeira questão – como é que foi acontecer de uma criança de 13 anos, aparentemente doce e protegida dos males do mundo, cometer um crime hediondo como o assassinato de uma colega de escola? Dessa forma, ao invés de ser um simples recurso estilístico gratuito, a forma (o plano sequência) fala: é um problema coletivo e não individual. Por isso a série não se apresenta como um estudo de personagem, mas assume um olhar mais panorâmico. E por isso, também, ela foge dos já estereotipados diagnósticos psiquiátricos (extremamente abusados atualmente), assim como não se restringe a uma discussão moralista sobre o papel da Internet. Aliás, a série aborda bem pouco a internet! Não sei se por negligência ou se por entender que o problema está fora dela, o que me parece ser o caso já que a série é extremamente bem sucedida em mostrar como a misoginia é perpassa todas as relações sociais e, por isso, estava tão fortemente marcada na visão de mundo do menino. Pela temática, em muitos momentos eu temi que a série fosse derrapar nos didatismos tão comuns às obras de ficção atuais que declaradamente abordam questões sociais, mas ela, felizmente, não recorre (muito) a isso.
Enfim, um tema assustadoramente atual, mas igualmente assustador foi descobrir que, no sistema de ensino britânico, a maioria das aulas são gravadas! Como pode a escola assumir sua plena função de educadora quando o ensino é reduzido ao entendimento tecnocrático da transmissão de conteúdos e a capacitação para o mercado de trabalho? Aula gravada não é solução para a superlotação das escolas (algo que a gente aqui, do sul global, também conhece muito bem).
O Urso (2ª Temporada)
4.5 298É muito bonita a maneira como essa temporada ressignifica tão profundamente a frase "every second counts" – de um apelo ou ordem à urgência (e grande símbolo da ansiedade e do burnout) até o sentido, lindamente atingido no episódio do Richie, de que nunca é tarde demais pra recomeçar e de que o esforço pelo trabalho bem feito sempre vale a pena. Lindo demais! Essa série é tranquilamente uma das minhas séries favoritas da vida.
Um Lobo Como Eu (1ª Temporada)
3.6 46 Assista AgoraUm salve pra Redatora de merda! Te adoro, viu? Obrigado!
Fullmetal Alchemist: Brotherhood
4.7 403"Não se pode aprender nada de uma lição que não venha acompanhada da dor, já que não se pode conseguir nada sem um sacrifício. Mas quando se aguenta essa dor e a supera, as pessoas conseguem um coração forte que não perde para nada. Sim, um coração como o aço."
Porra, eu to bem emocionado. Pela terceira ou quarta vez (e contando).
Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu (1ª Temporada)
4.6 7Uau, um anime sobre uma arte completamente desconhecida (de mim, é claro), com uma forma tão criativa de contar a história, com personagens TÃO cativantes e vivos!... Sem dúvida mesmo é um dos melhores animes que já vi. Aguardo ansiosamente pela próxima temporada. Recomendo entusiasticamente.
O Idiota
4.5 8A série de Vladimir Bortko é uma ótima adaptação do livro de Dostoiévski - extremamente fiel ao romance, tanto na sua narrativa, na caracterização dos personagens e nos diálogos. Eu a recomendaria facilmente para qualquer um que se interesse pela história (embora recomende muito mais a leitura do livro). Apenas algumas poucas coisas não me agradaram, como alguns atores que não me convenceram tanto (aquela não é a Aglaia Ivanovna Iepantchina!) ou a trilha sonora um pouco repetitiva. Mas não acho que isso prejudique a alta qualidade da série. Contudo, eu queria ressaltar um detalhe importantíssimo do livro: a epilepsia do herói, o príncipe Míchkin (cuja pronúncia em russo é "Kniás Muíchkin", como tive o prazer de descobrir na série).
Esse personagem encarna o tipo psicológico de Jesus Cristo ou de Dom Quixote (ou do "Cavaleiro Pobre" do poema de Púchkin, recitado por Aglaia), e possui traços de um visionário (no sentido religioso do termo). Esses aspectos são fundamentais na representação do personagem ora como um "idiota-aparente", ora como um "aparente-idiota" - uma pessoa deslocada na sociedade por uma aparente limitação psicológica que é, na verdade, o mais alto desenvolvimento moral possível. Embora isso esteja certamente presente na série (caso contrário, esta seria uma péssima adaptação do livro), fica ausente a dimensão visionário da psicologia de Míchkin, que é construída por sua condição de epiléptico.
Seus ataques o levam a uma intensificação da experiência da vida no instante em que ainda está no limiar entre a sanidade e o ataque propriamente dito. Isso é descrito assim em certa passagem especialmente marcante do livro: "(...) esses instantes eram, justamente, só uma intensificação extraordinária da autoconsciência - caso fosse necessário exprimir esse estado por uma palavra -, da autoconsciência e ao mesmo tempo da autossensação do imediato no mais alto grau. Se naquele segundo, isto é, no mais derradeiro momento de consciência perante o ataque ele arranjasse tempo para dizer com clareza e consciência a si mesmo: "sim, por esse instante pode-se dar a vida toda!" - então, é claro, esse momento em si valia a vida toda." [DOSTOIÉVSKI, F. O Idiota (trad. de P. Bezerra). São Paulo: Ed. 34, 2002, p. 264]. Esses instantes de clareza visionária aproximam Míchkin da condição do condenado a morte que, segundo seu relato, nos derradeiros minutos antes da execução teve uma visão redentora da "vida infinita" (aliás, a pena do condenado teria sido comutada no ultimo minuto, o que é uma referência a uma experiência similar vivida pelo próprio Dostoiévski).
É assim que Míchkin encarna o tipo psicológico do homem mais moralmente desenvolvido: ele não parece idiota apenas por ser "certinho" numa sociedade mesquinha; ele é "certinho" porque, de fato, têm experiências visionárias que ampliam sua consciência da vida e seu amor compassivo pelos próximos, mas que são engendradas pelos ataques de epilepsia que o deixam idiota.
Naturalmente, esse traço psicológico do personagem é construído por Dostoiévski através de seus típicos (e geniais) monólogos internos, quase contraditórios, do personagem consigo mesmo - que seriam ridiculamente difíceis de representar visualmente sem o texto. Mas enfim... como eu disse antes: eu gostei da série e a recomendo, mas recomendo muitíssimo mais o livro do velho Dostô ;-)
Boa sessão e/ou leitura!
Mushishi (1ª Temporada)
4.7 61"Mushishi" te fala sobre (e te impacta com) a beleza e a infinita diversidade da vida em todas as suas manifestações e (às vezes inusitadas) possibilidades. O faz em sentido figurado, é claro (não é que os mushis existam...). É a estética do anime que consiste nisso: afirmar a vida em toda a sua diversidade. É um anime muito bonito mesmo.
Saraiya Goyou
4.4 5"Saraiya Gouyou" ("House of Five Leaves") tem uma arte excepcional, personagens interessantes e, principalmente, uma trilha sonora espetacular de deixar saudade. Recomendado.
Kondou Yukio & Konishi Kayou - House of Five Leaves OST:
https://www.youtube.com/watch?v=MByPy4ZMnNM