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Últimas opiniões enviadas

  • Rodrigo Miguel

    Em algum momento de nossas vidas, sonhamos com um amor de cinema. Aquele arrebatador, que surge quando um casal se conhece e se apaixona perdidamente.

    As imagens do casal superando obstáculos para ficarem juntos tomou conta de nossas retinas desde a época das projeções em celuloide preto e branca.

    É bom quando eles encontram pela primeira vez, quando dão o primeiro beijo, quando vão para a cama. É horrível quando eles brigam, se separam e ficam longe um do outro. É reconfortante quando eles voltam e se amam novamente.

    Garoto conhece garota. Garota conhece garoto. Garoto conhece garoto. Garota conhece garota. Os roteiristas de hoje possuem muitas opções para sair do tradicional “boy meets girl”, e nós acompanhamos igualmente apaixonados todas elas.

    Essa nossa ânsia por histórias românticas vem do fato de que talvez nunca consigamos amar da forma como as pessoas se amam nos filmes. Talvez iremos navegar para sempre nas fantasias cinematográficas, como míseros mortais que somos. Ou será que o próprio cinema é culpado de nos iludir?

    Provavelmente, vivemos em um mundo tão cruel e obscuro que precisamos consumir aos prantos as maravilhas românticas projetadas na tela. Mas, o cinema é um espelho da realidade, e ultimamente ele vem contando histórias de amor um tanto quando amargas ou mesmo agridoces, como em “500 dias com Ela”, “Me Chame Pelo Seu Nome” e na trilogia formada por “Antes do Amanhecer”, “Antes do por do Sol” e “Antes da Meia Noite”. É só lembrar deles e voltar a e se emocionar.

    Essas são histórias com um pé na realidade, que tentam supostamente mostrar relacionamentos parecidos aos daqueles que assistem na sala escura. Bom, então a esse grupo podemos adicionar “Normal People”, que originalmente é uma série, mas que considero como uma peça cinematográfica de, aproximadamente, seis horas de duração. E, sem dúvida, uma das melhores do gênero da última década.

    Em “Normal People”, a garota conhece o garoto desde a infância, já que a mãe do garoto é empregada doméstica na mansão dos pais da garota. Ela é Marianne, ele é Connell, e estudam na mesma escola interiorana. Ele é tímido e retraído, ela também. Ele é popular, apesar da timidez. Ela é impopular pela forma arrogante como trata as pessoas, que a maltratam de diferentes formas. Em sua mansão, o irmão e a mãe também não gostam dela. Já ele é amado pela mãe solteira.

    Os dois passam a se amar e a namorar secretamente. São ótimos juntos. O tesão é avassalador quando fazem sexo. Estão, de fato, apaixonados, o problema é que eles não conseguem externar os sentimentos um para o outro. A falta de comunicação acaba por separá-los várias vezes durante a trama.

    A escola termina. A mulher Marianne, e o homem Connell vão para a mesma universidade em Dublin. Se encontram novamente. O amor, a paixão e o tesão que sentem são os mesmos, assim como a falta de comunicação. Eles namoram outras pessoas e tentam seguir a vida, mas o magnetismo que seus corpos exalam os une intensamente.

    “Intensidade” é uma palavra que pode ser usada na análise de qualquer um dos doze episódios de “Normal People”, e isso se deve às atuações de seus protagonistas Daisy Edgar-Jones e Paul Mescal, e à direção de Lenny Abrahamson (“O Quarto de Jack”) e Hettie Macdonald. Os atores entregam tudo o que possuem para criarem personagens complexos e encantadores. Quando estão juntos em cena, as sensações que transmitem ao espectador variam entre tensão, angústia, cumplicidade, tristeza e alegria. A química entre eles é inegável e importante para a obra.

    Já os diretores aproveitam o talento de seus intérpretes com sabedoria. A câmera cola nos corpos. Os planos exalam significados nas câmeras que parecem esmagar corpos deitados, ou transfigurá-los de ponta cabeça. Os gestos são destacados, tirando a necessidade de qualquer diálogo em momentos chave, afinal, conhecemos intimamente Marianne e Connell. Abrahamson e Macdonald dirigem, cada um, seis episódios, e colocam essa série irlandesa no hall das obras-primas audiovisuais da atualidade.

    Ao término “Normal People”, fica um sentimento de solidão. Queremos ver mais da vida daquele casal – é improvável, pois, neste momento, uma segunda temporada está fora dos planos – o que vai ser deles após os acontecimentos da temporada? Comprar o livro de Sally Rooney, no qual a série se baseou, vira uma opção para tentar descobrir algo que não tenha entrado na série e que revele o destino de Marianne e Connel, no entanto, aquelas belas imagens recém-impressas em nossas memórias não podem ser substituídas.

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  • Rodrigo Miguel

    Para se fazer um bom filme, é preciso que haja um bom roteiro, isso é óbvio. Ter apenas uma boa ideia não basta. No entanto, a falta de bons roteiros é, para usar uma expressão do momento, pandêmica atualmente, mesmo que ideias “geniais” apareçam todo o tempo. Esse problema é mundial, e apenas alguns cineastas conseguem fugir dele através de seus talentos acima da média. O restante bate cabeça e tenta ao acaso ver seus filmes com boas ideias fazerem sucesso, independentemente da sua incapacidade como realizadores audiovisuais. Bem, então é preciso avisar para esses que o acaso não ajudará quando suas obras possuem um bando de referências porcas, cenas de ação patéticas e diálogos rasos, como na nova produção dirigida por Olivier Megaton, “The Last Days of American Crime”, lançada na Netflix.

    A história do longa é sobre o ladrão de bancos Graham Bricke (Édgar Ramírez) que acaba envolvido em um bilionário roubo à Casa da Moeda dos EUA com o casal formado por Shelby Dupree (Anna Brewster) e Kevin Cash (Michael Pitt). Até aí nada de mais, já que são inúmeros os filmes sobre assaltos produzidos durante o ano. Contudo, o que torna a trama de “The Last Days of American Crime” diferente das outras é que o roubo planejado por Brick será o último antes que o governo comece a usar uma espécie de sinal que afeta o cérebro daqueles que tentem cometer algum crime. Então, o plano é roubar mais de 1 bilhão de dólares e depois fugir para o Canadá.

    De fato, se trata de uma boa ideia, mas ela não veio do roteirista do filme Karl Gajdusek, e sim do quadrinista Rick Remender, que teve sua obra homônima adaptada. O que Gajdusek fez, provavelmente, foi destruir, com seu texto confuso, afetado e vazio, o que de melhor há nos quadrinhos. Para completar, a direção quase amadora de Megaton acaba colocando uma pá de cal nas pretensões da Netflix em ter mais um sucesso de qualidade em seu catálogo. Exemplificando sem muitas delongas: basta dizer que não há um único diálogo durante as mais de duas horas de exibição que não seja expositivo ou patético.

    Os personagens, em meio a isso, são pobremente construídos, como é o caso do policial William Sawyer, interpretado pelo bom Sharlto Copley. Suas motivações não são demonstradas; a única coisa que o espectador fica sabendo é que ele tem prazer em ser policial. Seu caminho se cruza com os dos protagonistas apenas para ser mais um mísero obstáculo a ser superado. Um desperdício de ator.

    Nem mesmo o protagonista gera qualquer conexão com o espectador, e olha que Ramírez goza de carisma e de talento para a atuação. Seu personagem é tão mal construído pelo roteiro que não dá para esperar que ele gere cumplicidade. É apenas um bandido e assassino sanguinário. O romance dele com Dupree piora a situação por não ter emoção ou química. Contudo, o pior deles é Cash, que foi escrito para ser um poço de referências, começando por Travis Bickle de “Taxi Driver” (sim! Há a cena do espelho) até Tony Montana de “Scarface” (mais uma vez: sim! Há a cena com a metralhadora, ele só não fala “say hello to my little friend”, mas aí seria demais). Com isso, a atuação de Pitt é prejudicada porque não pode ir além da gritaria e das frases de efeito; fazendo-o exagerar na dose de loucura em alguns momentos completamente irritantes.

    O que poderia salvar essa pretensa peça cinematográfica e transformá-la em entretenimento puro seria a ação – como acontece com alguns blockbusters sucessos de bilheteria – só que ela é completamente prejudicada pelo estilo picotador de videoclipe de Megaton, que não deixa que as sequências sejam devidamente degustadas. Tudo é rápido e urgente. Além disso, ele se esforça tanto para conferir estilo à sua direção que a torna repetitivamente cafona, como em outros filmes de sua autoria. Talvez, sua veia autoral estivesse pulsando ao máximo, só que nela não passa qualquer sangue artístico, infelizmente.

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  • Rodrigo Miguel

    Discussões sobre a vida das mulheres deveriam ser feitas pelas próprias mulheres, mas não é isso que acontece em uma sociedade dominada pela figura masculina que toma conta dos governos, das religiões e das famílias. O sofrimento do sexo feminino se intensifica de várias maneiras, principalmente quando a maternidade entra em foco, com o aborto como tema central. Todas essas questões são discutidas no filme “Devorar” de Carlo Mirabella-Davis, que segue a vida de Hunter (Haley Bennett), depois de casar-se com o rico Richie (Austin Stowell), passando também a conviver com o pai (David Rasche) e a mãe (Elizabeth Marvel) do rapaz, em uma bela casa. Com o marido sempre trabalhando e com as constantes intromissões dos sogros, Hunter se sente perdida no próprio casamente. Em decorrência disso, ela desenvolve uma inesperada vontade de engolir vários tipos de objetos.

    A compulsão por engolir, para depois expurgar de forma dolorosa, é negação antecipada ao bebê que descobre estar esperando. Ela diz à psicóloga contratada pela família que o prazer vem ao sentir o gosto e a textura dos objetivos em sua boca antes de engoli-los, e não da ação de engolir. Aí surge o paralelo com o sexo feito de forma quase animal com o marido. Há o prazer do ato, mas não a vontade de engravidar. Agora seu corpo foi invadido por um “objeto estranho”, e não há a certeza se deve mantê-lo ou não. Essa dúvida é externada quando, ao decorar o quarto do bebê, ela deixa metade da janela de vidro coberta com uma película vermelha, enquanto a outra metade mostra a vida da floresta do ambiente externo. Vida e morte em plena disputa naquele espaço.

    Bem, tudo piora quando Hunter descobre que o marido é um crápula abusador. Então, passar por uma gravidez indesejada e ainda de um homem desprezível é algo extremamente difícil. Sem ninguém para apoiá-la – mesmo casada, vivia solitária – terá mais um obstáculo para superar sozinha e depois esperar por algo melhor, que pode nunca vir. Como desgraça pouca é bobagem, ainda há traumas não superados do passado. Traumas esses que não serão comentados neste texto para evitar spoilers. O que pode ser dito é que Hunter possui, além da compulsão por engolir objetos, problemas psicológicos causados por atos graves cometidos por seu pai, e esses são de difícil resolução.

    Para carregar toda essa complexidade que a trama apresenta, era preciso uma atriz competente, e o trabalho de Bennett merece ser reconhecido. A atriz cria uma mulher confusa com seus próprios atos. Sua voz gentil e condescendente esconde uma pessoa destruída, o que aflora com choros espontâneos e desesperados. Sua submissão vem através de sua linguagem corporal composta pela cabeça baixa e pelas costas levemente inclinadas. Os olhos marejados e as palavras que querem sair da boca, mas que ficam apenas nos balbucios, completam essa figura subjugada.

    Claro, não é para menos, já que a pressão é enorme, e a direção de Mirabella-Davis destaca isso ao colocar a mulher sempre em posição de inferioridade, como nos planos que mostram seu marido em um local mais elevado. A cena em que ela trabalha em um jardim enquanto ele a vigia de uma janela superior é um exemplo. Há também o cerco feito pela família do rapaz, com a mãe, o pai e um segurança a rodeando. Então, mesmo em uma mansão exageradamente espaçosa, ela quase não consegue respirar ou pensar por si mesma. Hunter, ao contrário do que significa seu nome, será a caça em uma selva dominada por predadores irracionais. Infelizmente, essa é a situação de muitas mulheres no mundo real e dito civilizado.

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