Uma famosa atriz iraniana recebe um vídeo perturbador de uma garota implorando por ajuda para escapar de sua família conservadora. Ela então pede a seu amigo, o diretor Jafar Panahi, para descobrir se o vídeo é real ou uma manipulação. Juntos, eles seguem o caminho para a aldeia da menina nas remotas montanhas do norte, onde as tradições ancestrais continuam a ditar a vida local.
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Marília Mendonça: Sentimento Louco
Bonito filme, no meio do tradicional patriarcalismo e misoginia, iranianos... 🙄🙄🙄
02/12/2022 | Reserva Imovision
Panahi apresenta outro conto doloroso,mas dessa vez com alguns intervalos pra respirar.O início é de arregalar os olhos.Uma das aberturas mais sinistras de sua filmografia.
>Assistido em 03 de Julho de 2022
-Dou nota 7/10
Em 3 Faces somos apresentados a uma pequena comunidade nas montanhas iranianas. Comunidade esta que está no meio entre o persa e o turco, percebido nos diálogos as vezes em persa, outras em turco. Algo que pode soar curioso para o público de países como o Brasil, onde a convivência entre grupos étnicos diversos é muito mais sutil e abafado.
As três faces que Jafar Panahi nos apresenta diz respeito as faces da sociedade iraniana que, com seu machismo e conservadorismo religioso imposto pela Revolução de 1979, condena a jovem Marziyeh a um casamento por convenção, ao mesmo tempo que reconhece Behnaz Jafari como uma atriz de sucesso e condena uma atriz veterana (que atuava antes da revolução) ao ostracismo.
O limite entre documentário e ficção são explorados com primazia, desde o movimento de câmera vezes intimista e curioso, vezes cinematográfico e posado, mas sempre com uma fotografia linda. As atuações também reforçam isso, contado com atores profissionais do calibre de Jafari e com atores amadores habitantes da própria comunidade.
Ao final da exibição a impressão que me ficou é de que o filme não vai para lugar algum. E acredito que esta é a ideia que Panahi quis transmitir com a metáfora da estrada estreita onde um carro tem que esperar o outro passar, como se o destino da jovem Marziyeh estivesse condicionado à de Jafari e aquela tivesse que aguardar esta se aposentar para se tornar uma grande atriz. Como se não houvesse espaço para todas as mulheres seguirem este caminho. Mas elas trilham esta estrada juntas.
Mais uma fita sagaz do cineasta Jafar Panahi, banido do seu país, o Irã, responsável por obras cult importantes e questionadoras, como “O balão branco” (1995), “Isto não é um filme” (2011) e “Taxi Teerã” (2015). Seu último filme, esse “3 faces”, de 2018, ganhou o prêmio de melhor roteiro em Cannes, indicado à Palma de Ouro.
O diretor (também roteirista, produtor, ator e montador de grande parte de seus longas) é perseguido pelo regime iraniano desde 2009, quando apoiou um candidato oposicionista e reformista ao governo nas eleições daquele ano – na época teve a casa invadida e suas películas apreendidas, sendo preso em 2010, ficando 90 dias detido. Na cadeia fez greve de fome, ficou doente e quando solto foi proibido de filmar por 20 anos. De lá pra cá, em exílio domiciliar, já filmou três filmes escondido (ele grava sem ninguém saber, realiza filmes rápidos e caseiros, e o inscreve em festivais de cinema, mas devido ao banimento, não pode participar dos eventos).
Panahi é crítico ao governo extremista do Irã, as histórias escritas por ele falam da opressão dos governantes com o povo, a censura à informação, bem como registra a discriminação das mulheres pelo Estado Islâmico, intensificada após a Revolução de 1979. “Três faces” fala disso tudo; é a história de uma garota banida pela família quando pretende estudar cinema num conservatório em Teerã. Uma atriz renomada do país, Behnaz Jafari, ao receber um vídeo desesperador da menina, que promete se suicidar, resolve ajudá-la, com apoio do diretor Jafar. Eles seguem viagem de carro até a fronteira do Azerbaijão e o Irã, onde ela mora. Nesse longo percurso, esperam o pior, o medo toma conta dos dois viajantes. Não sabem como serão recebidos pelo povo que lá mora nem como será esse encontro. Aos poucos cruzam com pessoas hospitaleiras, gente com fortes crenças, alguns calados, outros com hobbies inusitados, muita gente divertida e com boas histórias para contar.
Panahi faz assim um filme-manifesto à cultura popular e à liberdade, também aos encontros que podem transformar vidas. Mostra um contraste entre a velha e a nova cultura, do Irã milenar das vilas com o Irã atual que tenta a todo custo se modernizar. É um documentário que flerta com a ficção (ou vice-versa) - até o diretor, na abertura do filme, fala que a obra transita entre a realidade e a ficção/representação (como já fez em outras vezes). Sensível, bem narrado e de impressionante capacidade técnica, frente às adversidades de se filmar num país tão intolerante e radical. Vale ver.
POR FELIPE BRIDA - BLOG CINEMA NA WEB