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Encerro a minha breve maratona de filmes do Wes Anderson com aquele que, embora não seja oficialmente o seu primeiro trabalho, é, sem dúvida, a porta de entrada ao excêntrico universo cinematográfico criado pelo diretor. Assisti a esse longa, pela primeira vez, há anos atrás e, apesar de ter considerado bom, não havia o entendido por completo. O curioso é que estava no colégio e tinha quase a mesma idade do protagonista, porém, talvez por ser ainda muito jovem, somente consegui devidamente apreciar a esta obra após reassistir um bom tempo depois e já estando mais velho.
Nesta produção, o então iniciante cineasta, apesar de ainda não abusar da simetria, já apresentava alguns dos seus marcantes elementos visuais. No caso, um senso de cor singular, focando principalmente em azuis, verdes e vermelhos para criar uma realidade intensificada. Não obstante, diferentemente do que irá ocorrer no restante da carreira de Anderson, na qual o visual excêntrico será o grande chamativo, aqui presenciamos uma versão mais "limpa" do diretor, com um foco maior no roteiro e nas personagens.
O roteiro, diga-se de passagem, começou a ser escrito por Wes e Owen Wilson, antigos colegas e amigos desde a faculdade, até bem antes do seu primeiro trabalho juntos - Bottle Rocket. Além disso, a história, incluindo características dos personagens, reúne diversos aspectos extraídos das suas respectivas juventudes e por experiências que passaram ao longo da vida. Por exemplo, Wilson, assim como o protagonista do filme, igualmente havia sido expulso do colégio.
De início, o personagem Max Fischer, muito bem interpretado por um Jason Schwartzman também em início de carreira, pode parecer simples, caricato e, em determinados momentos, até irritante. Repleto de energia e ambição, ele, por outro lado, carecia da mesma motivação nos seus estudos e de discernimento na vida acadêmica. Sempre tomando decisões impulsivas e distraindo-se em atividades extracurriculares enquanto suas notas encontravam-se no fundo do poço, Fischer estava constantemente a um fio de ser expulso.
No entanto, alguns detalhes cuidadosamente deixados pelos roteiristas nos ajudam a compreender melhor o protagonista, as suas motivações e uma escondida complexidade que, à princípio, pode passar despercebida. "Sic transit gloria". Essa é uma famosa expressão, em latim, que significa "assim passa a glória do mundo", indicando que a fama, o poder e as conquistas materiais são passageiras. Essa, não à toa, também é uma das primeiras coisas que Max diz à Sra Cross e uma frase presente na lápide de sua mãe.
Em outras palavras, Anderson deixa subentendido que a mãe de Marx era uma pessoa aventureira e sonhadora, mas que morreu ainda muito jovem antes de fazer tudo aquilo que gostaria. O protagonista, por sua vez, toma isso como uma espécie de aprendizado e busca viver a sua vida ao máximo, criando clubes, escrevendo peças e realizando o máximo de atividades que for possível.
No entanto, o principal tema do filme não é sobre "viver a vida ao máximo", e sim sobre amadurecimento e como esse processo, por vezes, pode ser tortuoso durante a juventude. Veja bem, Marx tem confiança, energia e ambição de sobra, mas sem o devido foco e maturidade, tudo isso, em dado momento, acaba se virando contra, com ele perdendo a garota que amava, os seus amigos e o seu futuro acadêmico. Isso tudo somente é recuperado quando ele amadurece, entende que não se pode ter tudo, que se deve valorizar boas amizades e que, muitas vezes, é necessário perdoar e seguir em frente.
Esse tema é explorado de maneira competente pelo filme, sob a forma de humor negro inserido em um romance. E a história flui naturalmente em um roteiro bem amarrado, divertido e acompanhado de trilha sonora composta por clássicos do rock britânico, que transmitem com perfeição o espírito do protagonista e do ambiente colegial. O elenco também merece elogios, pois, além de Jason, também brilham a deslumbrante Olivia Williams e o carismático Bill Murray, em uma de suas melhores atuações da carreira - e que iniciava uma longa parceria com o diretor.
Aliás, Murray merece uma menção especial, mesmo em um papel, em tese, coadjuvante. O seu personagem, Herman Blume, é um rico homem de meia idade, que enfrenta uma crise no casamento e vive uma vida tediosa, tornando-se amigo de Marx por admirar a sua confiança e enxergar nele todas as qualidades que gostaria de ver em si próprio e em seus filhos. Mesmo com todas as diferenças entre eles, incluindo a idade, ambos eram muito parecidos, por exemplo, em sua paixão à Sra Cross, que os levava a agir de forma irracional e até infantil - e rende talvez a melhor sequência do filme. Vale destacar que Anderson e Wilson criaram o personagem tendo o veterano ator em mente e ele não decepciona.
Em resumo, "Rushmore" é não apenas o primeiro vislumbre da realidade excêntrica criada por Wes Anderson, mas um dos melhores trabalhos do diretor e parada obrigatória para quem aprecia o seu estilo diferenciado. O filme diverte, emociona e nos traz um clima de nostalgia dos tempos de colégio e da juventude, assim como todas as descobertas, paixões e frustrações que vêm junto. Recomendado.
Em seu quarto trabalho como diretor, Wes Anderson nos apresenta mais uma criativa história que mistura comédia e drama. Neste caso, possui um tom, creio, mais dramático do que o habitual em suas obras - apesar de manter as cores vibrantes e humor seco característicos. Tendo adquirido um status "cult" com o passar do tempo, "Vida Aquática com Steve Zissou" não está dentre os melhores filmes do cineasta e não foi bem recebido na época, porém, dentre erros e acertos, ainda constituiu um filme agradável e mais profundo do que a maioria imagina.
Em primeiro lugar, importante deixar bem claro que qualquer um que assistir a essa película esperando uma grande aventura marítima durante a qual serão exploradas as profundezas dos oceanos - ao melhor estilo "20.000 léguas submarinas" - poderá se decepcionar um pouco. Por razões óbvias, existem varias cenas que nos imergem nos mais diversos ambientes marinhos, cuja natureza serve como pano de fundo para a história, mas o longa, fundamentalmente, não foca naquilo que ocorre dentro da água, e sim fora dela. Além disso, não é um filme sobre a vida aquática, e sim sobre a vida humana, e as aflições e complicações nela presentes.
Mais especificamente, este filme é sobre Steve Zissou, um cineasta, oceanógrafo e aventureiro, que funciona quase como uma paródia do famoso - e verdadeiro - explorador Jacques Costeau. Arrogante, orgulhoso e já no alto de seus 52 anos, Zissou, que havia construído fama e uma carreira de sucesso com documentários contando a sua jornada pelos sete mares, encara agora um declínio tanto em sua vida profissional quanto pessoal, bem como uma crise de meia idade. Do lado profissional, percebe filas cada vez menores para acompanhar os seus filmes e sente estar sendo esquecido pelo resto do mundo antes mesmo de se aposentar ou morrer. No quesito pessoal, vive um casamento em ruínas e que mantinha-se meramente nas aparências.
Diante desse contexto, Zissou, extremamente preocupado com a sua própria imagem e em ter o seu legado lembrado, já inicia esta película em um estado de melancolia e depressão ao perceber o interesse ao seu trabalho se esvaindo, os seus amigos o deixando e a esposa se afastando. Bill Murray, figurinha carimbada nos filmes de Anderson, encontra-se aqui perfeito em um papel que parece ter sido feito para ele. Em uma performance que, sob um certo ângulo, lembra "Lost in Translation", interpreta, com competência, um homem aterrorizado com o futuro e sofrendo com a inevitável passagem do tempo, no entanto que também prefere deixar tais sentimentos, em grande parte, internalizados.
Sendo assim, o filme acaba tendo o seu componente dramático se sobrepondo a comédia e se tornando talvez um dos mais tristes da carreira de Anderson. Tal fato se deve a essa luta constante de Zissou em resolver os inúmeros problemas que se acumulam em sua vida e a batalha contra um adversário que não pode ser vencido: o tempo. Esse arco principal, envolvendo o protagonista, é muito bem construído, e igualmente alavancado por Murray, cujo estilo de atuação - prepotente, cheio de si e com tons de humor sarcástico - encaixa-se ao personagem em questão.
O filme tem dificuldade, porém, em explorar alguns elementos da trama. Por exemplo, o relacionamento entre Steve e Ned, até proporciona algumas poucas boas cenas, mas nunca é realmente aprofundado de maneira proporcional a importância que deveria ter para a história. Além disso, a mudança de comportamento do protagonista e o seu "arco de redenção" não funcionam tão bem quanto em outras produções do diretor com arcos semelhantes. Sendo sincero, ocorre de maneira um tanto repentina e sequer dá para considerar uma mudança considerável. Outro aspecto que atrapalha é o ritmo da película, que, em diversas situações, torna-se excessivamente arrastado sem que tal demora para os eventos acontecerem, por sua vez, agregue algo de relevante ou benéfico a narrativa.
Por fim, o veredito é que o filme, apesar de não ser ruim como a terrível recepção que teve por parte de público e crítica há 20 anos possa fazer parecer, também esta longe da melhor versão de Wes Anderson, possuindo um roteiro, em determinados momentos, falho. No mais, vale ressaltar que a experiência é melhorada - de forma considerável - pelo belo visual e pela inusitada participação de Seu Jorge, que rouba a cena e fornece uma interessante atmosfera com o seu cover, em português, de músicas do David Bowie.
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Em "13 Horas", Michael Bay demonstra que é capaz de, ao amenizar seus vícios, entregar um bom trabalho. Sob uma direção sóbria e competente, o cineasta dá aula de como conduzir um filme de ação, garantindo um ritmo eletrizante e, ao mesmo tempo, contando a história com clareza. Baseado no livro homônimo, de Mitchell Zuckoff, a obra retrata os acontecimentos reais do ataque terrorista ao centro diplomático americano na Líbia e como um pequeno grupo de indivíduos, que sequer pertenciam oficialmente ao governo, evitaram, de maneira heroica, o que seria um massacre.
Um dos aspectos mais interessantes desta película, em minha avaliação, é retratar os eventos em questão sob a perspectiva dos homens que participaram dos combates, aqui representados por um elenco que cumpre bem o seu papel. No caso, refiro-me ao grupo de combatentes paramilitares, contratados pelo governo dos EUA, encarregado da segurança de um complexo secreto da CIA em território líbio, e que acabaram no olho do furacão de um dos acontecimentos recentes mais trágicos da política externa americana.
Nesse sentido, o filme transmite, com competência, ao público, os mesmos sentimentos de tensão, confusão e ansiedades vivenciados, na pele, pelos soldados que lá estavam. Isso, por sua vez, ocorre graças ao trabalho de qualidade não somente do diretor, mas também da edição e som, prendendo a atenção do espectador, do começo ao fim, em uma narrativa angustiante e frenética. Por exemplo, em determinadas cenas, os soldados sequer sabem quem é inimigo e quem é aliado e encontram-se cercados por pessoas que não conhecem e não sabem se podem confiar, e o suspense gerado por esse fato é muito bem repassado a quem assiste.
No entanto, a ação eletrizante - e muito bem construída - não impede o longa de nos apresentar detalhes dos personagens, desenvolvê-lo e nos conectar a eles. A frase, dita por Jack, "Eu imagino o que minhas filhas pensariam de mim. Morrer em um local em que ele nem deveria estar, por uma causa que não compreendia e por um país que ele pouco se importava", é simplesmente brutal e resume bem o sentimento dos combatentes inseridos naquela trágica situação.
Mesmo incapazes de compreender, por completo, o que ocorria e abandonados por seus superiores, prosseguiam esforçando-se para cumprir a sua missão e em salvar as suas respectivas vidas e as daqueles ao seu redor. Se, por um lado, o grau de complexidade do contexto e a tensão sentida trazem um elemento dramático forte ao roteiro, igualmente engrandecem, por outro, o sacrifício e o heroísmo dos soldados presentes e trazem um maior impacto emocional às cenas de ação que, sem isso, seriam apenas meras cenas de ação.
O filme, além de cumprir todos os requisitos de um bom filme de ação, é, sem dúvida, um dos melhores trabalhos de Michael Bay, que mostra como é capaz de entregar mais do que normalmente se vê em suas produções. No mais, serve como uma bela homenagem aos soldados, sobreviventes e mortos, participantes desses acontecimentos e um registro de erros graves cometidos pelo governo americano sob uma, naquele momento, desastrosa política externa comandada por Obama e Clinton.