Tendo sido lançada inicialmente sob o formato de uma minissérie, pela NBC, e mais tarde reunida em mídia doméstica como um longa-metragem, "A Odisséia", de Andrei Konchalovsky pode não ser a produção de maior orçamento ou a de maior bilheteria intitulada com o mesmo nome da famosa obra de Homero. No entanto, é, sem dúvida, a melhor - e mais fiel ao material original - adaptação cinematográfica do épico retorno de Odisseu a sua terra natal.
Como em toda adaptação, aqui eventos são alterados, fundidos ou omitidos. Neste caso em particular, isso ocorre não por vontade do cineasta ou porque ele tivesse uma visão diferente, mas por mera necessidade, isto é, para que o filme pudesse durar três horas em vez de dez. Não obstante, o filme - irei chamar de filme, pois foi assim que assisti pela primeira vez - conserva o espírito e os temas do poema épico, com suas mais de 300 páginas, que permanecem intactos.
Apesar do baixo orçamento, o filme prova que mitos podem ser adaptados com sucesso para a tela e para uma audiência moderna sem perverter ou desvirtuar o material original. Graças à competência do experiente cineasta russo, que é responsável pela direção e pelo roteiro, esta obra consegue abordar todos os aspectos que tornam a história grandiosa - o esforço humano de Odisseu, a presença dos deuses e o caráter épico da narrativa - e, ao mesmo tempo, prender a atenção de espectadores de todos os tipos, isto é, tanto aqueles que leram quanto os que não leram o poema.
Dessa maneira, Konchalovsky traz a necessária dose de aventura e guerra, mas sem fazer o filme descarrilhar para uma ação desenfreada. Traz um toque de humor e leveza em algumas cenas, mas sem retirar a seriedade da história. Traz deuses e monstros, mas sem que a sua presença pareça estranha ao público moderno, e sim como parte do mundo no qual somos inseridos. Traz sensualidade, sem apelar à nudez explícita. E, acima de tudo, traz o épico, mas sem se sustentar somente na grandiosidade da narrativa para carregar o filme, e sim desenvolvendo bem os personagens e a trama com consistência.
Graças a um excelente trabalho da equipe técnica, que supera as limitações tecnológicas ainda presentes na época e o orçamento curto, é possível, através de uma completa imersão proporcionada pela obra, quase sentir o cheiro da areia, da magia, da poesia e da beleza de Ítaca e dos mares. Além de impecáveis cenários, fotografia e figurino, vale ressaltar que as criaturas são feitas à mão, sem ou com pouco uso de computação gráfica. Isso ocorre por mérito da Jim Henson Company, que dá vida ao lado sobrenatural da mitologia grega e não tem medo de retratar monstros de forma visceral e aterrorizante - Cila e Caríbdis, por exemplo, estão particularmente magníficas.
Paralelamente, é impossível deixar de mencionar o premiado compositor russo Eduard Artemyev, que cria uma trilha sonora que não apenas harmoniza e realça a atmosfera mediterrânea e mitológica da obra, mas também amplifica a carga emocional de momentos marcantes da história. De certa forma, é como se os eventos se desenrolassem à imagem e semelhança de um sonho, no qual o espectador é um convidado privilegiado na jornada de Odisseu para recuperar suas terras e seu amor.
Falando do elenco, começo por Armand Assante, que entrega-se de corpo e alma ao papel de Odisseu. Inclusive, ele declarou posteriormente que o roteirista e diretor Andrei Konchalovsky foi a única pessoa em quem confiou plenamente, e essa confiança e esse comprometimento resultaram em uma transposição perfeita da obra literária para a tela, capturando toda a imponência, a astúcia e a força física que o personagem exige, mas também não ignorando a sua arrogância e o seu orgulho. E o restante do elenco não fica muito para trás, tanto na aparência quanto na atuação, com os atores incorporando o papel com maestria e capturando a essência dos personagens tal como foram concebidos na obra literária. Menções especiais para as belas e elegantes Greta Scacchi e Isabella Rossellini, nos papéis respectivos de Penélope e Athena.
De fato, o único problema do filme é que as 3 horas de duração, que passam em um piscar de olhos, são muito pouco para uma história dessa magnitude e ficamos, ao término, com um gosto de querer mais ou de ficou faltando alguma coisa. Aliás, falando nisso, devo ser um pouco chato aqui e dizer que, em meio a tantas qualidades da produção, incomodou-me um pouco a ausência das sereias e o total apagamento do fiel cachorro Argos, apesar de, como ressaltei antes, tais alterações, mesmo doendo no coração, foram feitas por mera necessidade, e não por vontade do roteirista.
Não obstante os cortes feitos, o filme mostra respeito aos principais acontecimentos e detalhes do poema. No entanto, mais do que isso, "A Odisséia" de Konchalovsky destaca-se pelo respeito a essência da obra de Homero. Isso é brilhantemente sintetizado pela frase, proferida pelo protagonista, ao final: "Há muito de sagrado e bonito no mundo, mas nada mais bonito que um mundo criado pelo próprio homem. Um mundo a que se pode agarrar, e que sabe que será sempre seu. Você é o meu mundo, Penélope".
Odisseu sobrevive a uma guerra épica, supera inúmeros obstáculos, deuses e monstros e rejeita até a oferta pela própria imortalidade. Tudo isso para poder ter a oportunidade de reencontrar o seu filho, a sua terra e a sua esposa, que seriam exatamente as coisas que mais valorizava. A Odisséia de Homero é não uma crítica a humanidade ou a civilização, como recentemente um certo diretor acabou tendo a infelicidade de interpretar, mas o contrário, sendo um tributo a humanidade, ao homem e a nossa capacidade de vencer as maiores dificuldades para defender e preservar aquilo que temos como mais valioso e consideramos o nosso mundo: a nossa família e o nosso lar.
Uma grande adaptação e um filme de alto nível. Recomendado.
Sendo uma das primeiras adaptações da famosa história de Homero para o cinema, "Ulisses" impressiona pela qualidade técnica apresentada, não obstante às limitações em orçamento e tecnologia da época. Mesmo realizando alterações no enredo, e algumas tendo sido um tanto infelizes, o filme consegue preservar o caráter épico transmitido pelo poema e, dessa maneira, respeitar a essência que torna "A Odisséia" uma obra tão influente até os dias modernos.
Em primeiro lugar, destaco que esta versão de 1954 impressiona, sobretudo, pela escala, e, quando digo isso, refiro-me aos figurinos, a construção dos cenários e a direção de arte. O mundo é rico e impressionante, com as cenas ocorrendo em belas paisagens do Mediterrâneo e que auxiliam na construção da grandiosidade da história.
Na ausência de recursos tecnológicos mais avançados, devido a época em que esta película foi produzida, o filme compensa com uma utilização competente de recursos práticos. O caso mais emblemático é o da cena envolvendo o Ciclope, que, em minha avaliação, foi bem executada.
Outro trunfo é o elenco, com Kirk Douglas transmitindo, com maestria, a imponência, perspicácia e bravura de Odisseu, enquanto Anthony Quinn não fica muito atrás, no papel de Antinoos. No entanto, quem realmente brilha é a belíssima Silvana Mangano, que interpreta um papel duplo: a esposa fiel, Penélope, e a feiticeira sedutora, Circe. Isso traz uma complexidade psicológica interessante à narrativa, indicando que, para Ulisses, a segurança do lar e o perigo da tentação possuem o mesmo rosto.
Os maiores problemas do filme encontram-se nas alterações feitas no roteiro para conseguir encaixar uma história desse tamanho em uma película com menos de duas horas de duração. É notório que o diretor tenta ser o mais fiel possível ao poema e mostrar o máximo de eventos marcantes da obra de Homero, tais quais o encontro com Polifemo, as sereias, a estadia do protagonista em Feácia e o romance com Circe, mas, em dado momento, é obrigado a fazer cortes. E as principais vítimas acabam sendo Athena e Calipso, que são bastante excluídas da trama - a primeira é apenas brevemente mencionada ao final.
A alteração que mais me incomodou, por ser bastante desnecessária e evitável, foi quando os roteiristas, em uma completa mudança quanto à história original, atribuíram as dificuldades da jornada de volta de Odisseu ao saque do templo de Poseidon em Troia. Na realidade, ele não foi amaldiçoado pelos acontecimentos na queda da cidade, e sim por cegar o Ciclope, o filho do deus dos mares.
Em síntese, seria impossível para este filme, com os recursos disponíveis à época e a curta duração, ser inteiramente fiel ao poema de Homero, mas creio que elenco, diretor e produção técnica conseguem entregar um trabalho digno, apesar de longe do ideal, digno. Vale a pena ver.
Dirigido por Uberto Pasolini, "O Retorno" traz somente a última parte da jornada de Odisseu em sua volta à Itaca, iniciando exatamente no momento em que enfim alcança o litoral de sua terra natal. Por esse ser o trecho do poema com a menor presença de deuses, o diretor possui uma maior liberdade para colocar os elementos mitológicos de lado e focar no lado humano e psicológico da história e do protagonista.
Aqui, acompanhamos um comandante militar e rei desprovido de sua imponência e orgulho, retornando ao seu reino, agora entregue à miséria - em decorrência dos saques de invasores e pretendentes ao trono. Nem Odisseu e nem Itaca são mais os mesmos, estando transformados pelo longo período tanto da guerra quanto de seu retorno.
Tendo assistido este filme há um ano atrás e agora reassistindo após a "Odisséia" de Nolan, é impossível não fazer as comparações. Ambos os filmes trazem não apenas uma abordagem mais realista da história, mas também uma representação de um Odisseu traumatizado pela guerra. Apesar dessa abordagem, nos dois casos, ser equivocada e desviar da verdadeira essência do trabalho de Homero, considero que Pasolini executa melhor essa tarefa e, mesmo ainda distante do ideal, se aproxima mais da obra original.
Enquanto, no filme de Nolan, Odisseu sente remorso pela dor que infligiu nos outros, aqui ele sente tristeza pelos companheiros que levou à guerra e não conseguiu trazer de volta, o que é algo mais próximo daquilo presente no poema. Um protagonista, portanto, que retorna ao seu reino e é recebido não com louvor e festa, mas com a missão de expulsar os saqueadores e se mostrar, ao seu povo e a sua família, novamente digno de ocupar o trono.
Um dos motivos pelos quais Pasolini é mais bem sucedido em sua proposta reside no fato de que, como ele aborda apenas o capítulo final e não a Odisséia inteira, o foco no psicológico de Odisseu encaixa-se melhor. Em momento algum quis trazer uma aventura épica e nem vendeu o filme como tal - em outras palavras, deixou bem claro que iria trazer um aspecto específico da história e explorá-lo ao máximo. Nolan, por outro lado, quis realizar uma releitura semelhante da história - mas ainda tentando conservar outros elementos da narrativa - e acabou preso no meio do caminho, nem entregando um épico com grandiosidade e nem um drama psicológico com profundidade.
Outro fator que ajuda é a grande atuação de Ralph Fiennes e Juliette Binoche, que brilham em seus respectivos papéis e carregam o restante do elenco - que, por sua vez, não está a altura dos dois - e o filme inteiro nas costas. As cenas do reencontro com Argos e da prova do arco, por exemplo, são muito bem executadas pelo diretor e pelos atores, trazendo a carga de emoção necessária para esses que são momentos marcantes do poema.
O filme, apesar do êxito em retratar tais cenas, é prejudicado por desvios que faz em outros trechos da história original. Incomodou-me como Telemaco é aqui retratado, não como sendo um filho fiel ao pai e disposto a defender a sua mãe, mas como um adolescente mimado e, muitas vezes, incoerente - também não ajuda o ator escolhido ser bastante fraco. Além disso, considero que faltou emoção ao tão esperado reencontro entre Odisseu e Penélope - que, por sua vez, até parece estar triste, no início, pelo retorno do marido, o que foge muito da característica da personagem.
Entre erros e acertos, é mais uma daquelas obras que não busca realmente adaptar as histórias de Homero, mas reinterpreta-las sob uma óptica moderna. Aqui, pelos menos, devido ao fato de retratar o trecho mais "humano" e menos "mitológico" da Odisséia, pelo fato do diretor ter sido honesto sobre suas intenções e ter ao seu dispor um baixo orçamento, dá para dar um desconto. Como um drama psicológico, funciona muito bem, mas escolhas equivocadas no roteiro e limitações orçamentárias fazem o filme não ter a mesma qualidade em outros aspectos e ficar aquém daquilo que poderia ter sido.
Em "A Odisséia", Christopher Nolan toma a responsabilidade de adaptar aos cinemas aquela que, sem dúvida, é a história de ficção que mais resistiu ao implacável teste do tempo e mais inspirou a literatura ocidental. Aqui, são percebidas algumas das melhores qualidades do diretor, mas também encontram-se presentes, em igual proporção, alguns de seus mais comuns defeitos.
A começar por tudo aquilo que me agradou, é impossível não falar dos efeitos visuais e sonoros, bem como a impecável direção do experiente cineasta. Em termos de fotografia e som, o filme proporciona um verdadeiro espetáculo e uma ainda melhor experiência para quem assistiu nos cinemas - sobretudo, em IMAX. A trilha sonora de Ludwig Goransson se encaixa, com perfeição, com a jornada sofrida e misteriosa do protagonista de volta para casa.
Adendo: apesar dos elogios que faço ao visual, me incomodou um pouco a manutenção, em diversas cenas, da mesma "tonalidade cinzenta" adotada em sua filmografia, ainda mais considerando que a trama se passa no Mediterrâneo. Vale também ressaltar algumas imprecisões históricas no que se refere a armaduras e embarcações, que pareciam ter sido inspiradas mais nos vikings do que propriamente nos gregos, mas isso está longe de ser um grande problema para a maioria do público.
Destaco também alguns acontecimentos marcantes da história que seriam difíceis de representar em uma película, e que, em minha avaliação, os responsáveis desempenharam um competente trabalho. Refiro-me, em especial, as aparições do Ciclope e da bruxa Circe, que foram uns dos momentos que mais apreciei. A sequência que envolve o famoso "monstro de um olho só", por exemplo, é simplesmente aterrorizante, repassando, ao espectador, a aflição vivida pelos soldados que se depararam com ele e tentavam escapar de sua caverna.
As principais falhas deste filme, no entanto, residem naquilo que entendo como o mais importante de qualquer produção: o roteiro. E é aqui também que o meu maior temor pelo fato dessa história ter sido entregue nas mãos de Nolan acabou se confirmando. Como aqueles acostumados com o seu trabalho já sabem, o diretor, para o bem ou para o mal, gosta de adicionar o maior grau de realismo possível às suas obras, aproximando-as do espectador. Se, por um lado, isso pode proporcionar uma maior imersão e conexão por parte do público, igualmente torna-se um problema em se tratando da adaptação de uma narrativa épica e repleta de elementos mágicos e mitológicos.
Em outras palavras, se a grandiosidade da história de Homero - e pendurada por milhares de anos - reside exatamente em aspecto épico, trazê-la mais "para o chão", torná-la mais realista e aproximá-la do público talvez não seja a melhor opção. O filme, logo, encontra-se diante de um problema estabelecido pelo próprio estilo do diretor, sendo um épico que tem medo de ser visto como épico e com deuses que mais parecem humanos do que figuras mitológicas e imponentes.
E isso passa por diversos aspectos da produção do filme, desde a escolha de um elenco quase inteiramente americano até uma representação bastante superficial do submundo e outros eventos - tal qual o encontro com as sereias, que mal são vistas na tela. Presenciamos um espetáculo visual, mas sem a profundidade esperada de uma história dessa magnitude, o que, em grande parte, também deve-se a um roteiro com diálogos fracos e pouco memoráveis.
A "Lei de Zeus" é um termo recorrente na história, e ela está, embora com uma outra nomenclatura, também presente no poema. Apesar de Nolan acertar no significado dessa tradição, que consiste em tratar bem qualquer um como se fosse um deus disfarçado, ele falha ao utilizá-la, de maneira nem sempre coerente, para justificar a mensagem que tenta transmitir neste filme. Em síntese, o diretor traz não somente uma mensagem "anti-guerra", mas uma visão negativa acerca do homem e da civilização de uma maneira geral.
E como a Lei de Zeus se encaixa nisso? Bem, o ponto central da transformação do protagonista, desde a Guerra de Troia até o seu retorno à Itaca, nesta versão de Nolan, é um profundo arrependimento acerca de suas ações no conflito, que teriam violado a "lei", causando um trauma no personagem. Aqui, a guerra é tratada não como algo glorioso ou necessário, mas como algo traumático e melancólico. Mais do que um mero trauma psicológico, esse grande conflito é aqui colocado como a razão do declínio de toda uma civilização, marcando, junto as invasões dos "povos do mar", o fim da Era de Bronze.
Essa, no entanto, é a grande falha de Nolan nesta película e o que mais a distancia do poema de Homero. Na obra original, em momento algum é trazido um sentimento contra a guerra, mas, na realidade, a guerra é vista como um desastre inevitável que a humanidade deveria superar - e o próprio Cavalo de Troia, inclusive, seria um instrumento de superação. E, falando no Cavalo, a ideia de que seria uma violação da Lei de Zeus é simplesmente equivocada, pois, na verdade, seria uma resposta, bem como toda a Guerra de Troia, ao fato dos troianos terem inicialmente violado a "lei" ao sequestrar Helena. Aliás, no poema, o tática adotada por Odisseu é até apoiada por Athena e Poseidon.
É importante ressaltar que é impossível adaptar, ao cinema, qualquer obra literária de maneira completamente fiel. Mesmo nas melhores adaptações, sempre são necessárias alterações, seja adicionando algo novo ou cortando algum trecho que não seria adequado ao filme. Acontece que as melhores adaptações sabem fazer tais mudanças sem alterar a essência da história que estão adaptando, e também evitar inserir mensagens que não estão originalmente presentes, e esse cuidado é o que falta neste filme. Sendo assim, deixa de ser uma adaptação e torna-se quase que uma história diferente ou uma releitura, mas levemente inspirada em outra obra. Esta, de fato, é a Odisséia de Nolan, que pouco lembra a verdadeira Odisséia de Homero.
Outra coisa que me incomodou - e você que está lendo o comentário já percebe que essa lista é extensa - foi a maneira com a qual Odisseu é representado. Ora, estamos falando de alguém que é um comandante militar experiente e elaborou todo o planejamento da invasão à Troia, e, de repente, ao presenciar as consequências naturais da invasão que ele mesmo elaborou, ele está surpreso? Afinal, o que imaginava que iria ocorrer quando os soldados gregos, após uma década de uma guerra desgastante, iriam fazer ao adentrar nos muros da cidade?
Odisseu, no poema, é um indivíduo que, de fato, tem um tanto de arrogância e de orgulho, mas também é inteligente e, acima de tudo, um herói que encara os maiores obstáculos possíveis para reencontrar o seu lar e sua família. Ele é um elogio ao homem e a sua capacidade de superar dificuldades, e é exatamente a sua obstinação em retornar a sua terra que o faz ter o reconhecimento e a ajuda dos deuses - exceto, é claro, Poseidon. No filme, por outro lado, ele é alguém traumatizado pela guerra - algo não presente na obra original - e sem ter a mesma inteligência que deveria ser uma de suas principais qualidades - aliás, a cena em que atira uma flecha no Ciclope, de maneira completamente desnecessária, mesmo após os seus homens já terem saído da caverna, é ridícula.
Para não ficar a impressão de que somente a representação do protagonista foi equivocada, devo dizer que me surpreendeu o fato de Nolan reduzir significativamente a presença de outras mulheres centrais na história, tais quais Penelope, Atena e Cerce, que aparecem pouco. Também são excluídos momentos marcantes da história, como a revelação do nome de Odisseu ao Ciclope, o romance do protagonista com Cerce e a cena em que Penelope testa Odisseu para comprovar que ele é, de fato, o seu marido.
E aquilo que não foi excluído foi mostrado com uma drástica redução de seu significado e peso. A sequência que envolve Menelau, por exemplo, é, devido às alterações feitas, bastante desnecessária e descartável. E a cena do reencontro entre Odisseu e o seu cachorro Argo, que deveria ser um momento de profunda emoção, é limitada a meros segundos e passa em um piscar de olhos. Aliás, se quiserem uma representação realmente emocionante dessa cena, vejam "O Retorno", do diretor Uberto Pasolini - embora tal diferença também ocorra pelo fato de Ralph Fiennes ser um ator muito superior a Matt Damon.
Em conclusão, dá para dizer que, como um mero entretenimento por quase duas horas e meia no cinema, cumpre sua função. Quem for assistir no cinema, terá uma excelente experiência sob o ponto de vista visual e sonoro. Como adaptação de uma das maiores obras de ficção, no entanto, deixa muito a desejar. Quem for assistir esperando um épico mitológico, não irá encontrar nada de épico ou de mitológico.
Cerca de um ano após o encerramento do anime, Hideaki Anno trouxe ao mundo aquela que seria a verdadeira e definitiva conclusão da história - e que não pôde ser apresentada no seriado por limitações orçamentárias. Neste filme, são melhor explicados diversos elementos da trama ainda sem respostas e é trazido um desfecho para arcos que haviam sido deixados em aberto.
Em primeiro lugar, é importante ressaltar que "End of Evangelion" é, acima de tudo, uma obra extremamente complexa. Se você assistiu e não entendeu o final, não há o porquê de ter vergonha. E, se você assistiu e diz que entendeu tudo, ou está mentindo ou não entendeu tudo e ainda não sabe, pois esta película não foi feita para ser compreendida em sua totalidade logo depois da primeira assistida, ou mesmo da segunda e da terceira.
Foi feita, afinal para ser digerida lentamente dias, meses e anos após a sua conclusão, sendo repleta de simbolismos e trazendo inúmeras discussões filosóficas. Aliás, apesar de não compartilhar da opinião de que toda obra difícil de se compreender de imediato é necessariamente boa, devo dizer que algumas das grandes obras já feitas são quase que incompreensíveis à primeira vista. Sendo assim, este meu comentário é meramente uma tentativa de ilustrar aquilo que acho que entendi, após assistir e também após ter feito uma boa pesquisa.
E o filme, na realidade, corresponde a dois episódios de cerca de quarenta minutos unidos, com uma breve intermissão no meio, em uma mesma produção. Enquanto o anime encerra, de forma brilhante e inusitada, com uma abordagem mais psicológica, sob a perspectiva dos personagens - sobretudo, Shinji - e sem se preocupar com o restante das outras coisas "do lado de fora", este longa metragem mostra tudo aquilo que está acontecendo no mundo. Em outras palavras, o final do anime foca no destino do protagonista, ao passo em que o final do filme foca no destino do mundo de uma maneira geral.
A película consegue unir, de maneira competente, um visual fascinante com uma história que entrega momentos emocionantes e angustiantes, nos quais as emoções sentidas pelos personagens são bem repassadas ao público. Em muitas cenas, inclusive, simplesmente ficamos "de queixo caído", perplexos e como se estivéssemos em uma experiência psicodélica - e devo dizer que a parte final lembrou-me, de forma positiva, bastante do clássico "2001", de Stanley Kubrick. E não dá para ignorar a espetacular trilha sonora do seriado, que aqui retorna em grande estilo.
Feitas essas considerações, o filme inicia com a organização secreta SEELE, já tendo perdido a paciência com o comandante Gendo, buscando iniciar o misterioso projeto da "Instrumentalização Humana" por conta própria. Porém, com o intuito de alcançar esse objetivo, ordena a invasão do QG da NERV e do supercomputador Magi, pois as unidades Eva são parte essencial de seu plano. Logo no início, os personagens já se encontram encurralados em um beco sem saída.
========== ALERTA DE SPOILERS ==========
Um aspecto positivo, dentre vários, desta película - e que logo de imediato percebemos - é nos trazer mais informações não apenas sobre esse projeto em si, mas também acerca das reais intenções da SEELE. Em resumo, a organização, através das unidades já conhecidas e de outras mantidas escondidas, estaria buscando unir todas as almas e consciências humanas entre si e com os Evangelions/supercomputador Magi.
Os membros dessa organização acreditam que a humanidade, repleta de mal e violência e responsável por diversos problemas no mundo, seria imperfeita. Nesse sentido, seria necessário construir uma nova civilização - mais avançada e perfeita, que apenas poderia ser obtida a partir de uma evolução da própria raça humana como resultado do "Terceiro Impacto".
Em meio a isso, são vários os simbolismos que Hideaki traz para a história, e, apesar do próprio criador ter afirmado que muitos deles foram colocados meramente por uma razão "estética", eu creio que muitos deles possuem um forte significado religioso e filosófico. Por exemplo, considero que a recorrência da imagem de um "crucifixo" em diversas cenas como um desses simbolismos mais fortes.
Em minha interpretação, o projeto da Instrumentalização Humana, na tentativa de "melhorar" a humanidade e torná-la uma espécie de divindade, representaria, em uma grande ironia e tragédia, o verdadeiro fim da humanidade. Unindo todo o conhecimento do mundo em um único ser, este seria capaz de manipular todas as decisões das pessoas. Unindo todas as emoções das pessoas, seria capaz de manipular os seus sonhos.
Em linhas gerais, ao unir todas as pessoas em um único ser, iria acabar com o próprio conceito de ser humano, pois esse depende da convivência com outros indivíduos. O fim da humanidade viria a partir da extinção da individualidade e do livre arbítrio, com as pessoas unidas não em uma divindade, mas em uma monstruosidade artificial.
Sob uma perspectiva cristã, o "Evangelho" remete a uma série de ensinamentos através dos quais, a partir de nossa própria consciência e da liberdade que nos é dada, guiamos, enquanto indivíduos, as nossas decisões e a nossa vida, para o bem ou para o mal. O "Novo Evangelho" referido no título da obra de Hideaki Anno, seria uma mente única e poderosa comandando o coletivo de toda a raça humana, sem qualquer liberdade.
Esse plano dependeria, em última instância, daquele que estaria a bordo da unidade 01, isto é, Shinji. Em decorrência da vida traumática que o jovem teve, repleta de tristeza e decepções, a SEELE acreditava que a oportunidade de pôr fim à humanidade - e, dessa forma, do sofrimento causado pelos humanos - seria aceita por ele.
No entanto, a organização secreta não conseguiu prever a profunda reflexão feita por Shinji, que é mostrada no episódio de encerramento do anime. Tendo mudado a sua visão acerca da vida e de si próprio, ele acaba por decidir que a vida é sobre experimentar tanto dor quanto alegria e que rejeitar, por completo, o sofrimento levaria, no final das contas, a uma vida estéril e artificial.
Da mesma maneira que, como o protagonista descobre ao término do seriado, não vivemos sozinhos e a compreensão de quem somos depende da compreensão que temos acerca dos outros, não há felicidade sem tristeza, que é uma parte natural da existência. Enquanto vivermos em um mundo real com outras pessoas, e não em uma fantasia, e os humanos tiverem livre arbítrio e individualidade, eventualmente sofreremos, bem como também teremos momentos de prazer e felicidade, pois é assim que a vida é. Mudar isso seria acabar com a vida em si.
Sendo assim, Shinji, que tanto havia se acostumado a fugir dos problemas, dos outros e até de si próprio, toma, ao fim, a decisão de não fugir mais e de encarar todo o sofrimento e dores do mundo. Não adianta fugir do sofrimento da vida, pois o sofrimento é inerente à vida. Viver, inevitavelmente, é sofrer, mas, ao aceitar as dores que a vida nos traz, também podemos ter a oportunidade de vivenciar toda a alegria, a felicidade e a liberdade que a vida também traz. E esse é o grande ensinamento do filme.
Tendo isso em mente, Shinji não rejeita a humanidade, mas essa nova versão da humanidade que seria alcançada pela Instrumentalização, que seria, em síntese, não-humana. Ao fazê-lo, liberta as almas do mundo e termina em uma praia com Asuka. Ao tentar estrangular a menina e ela reclamar, Shinji percebe que o mundo voltou a ser o que era antes, pois, em uma "instrumentalidade", ela não seria capaz de expressar dor ou desgosto. Ao ouvir isso, percebe que, enfim, está livre, pois a vida, apesar do sofrimento a ela inerente, merece ser vivida.
Portanto, "The End of Evangelion" é daqueles filmes pesados e complexos que merece não apenas ser assistido, mas igualmente revisto e estudado várias vezes. Belíssimo no aspecto estético, emocionante e profundo nas reflexões que provoca, é um encerramento com chave de ouro para a saga criada por Hideaki Anno.
Baseado em um livro homônimo escrito por Max Brooks, "Guerra Mundial Z" traz uma interessante mistura entre o terror zumbi clássico, comum a obras do gênero, com um pouco de ficção científica e drama político. Em linhas gerais, o apocalipse zumbi é visto aqui menos sob o aspecto pessoal ou de sobrevivência de um determinado grupo de indivíduos, mas, tal qual o título sugere, como algo mundial - ou, em outras palavras, como uma gigantesca pandemia, tendo como diferença o fato de que, neste caso, a doença transforma as pessoas em mortos vivos.
No lado que envolve o terror em si, é possível dizer que o filme cumpre a tarefa com maestria. Muito por conta da boa direção de Marc Forster, a película consegue, de maneira competente, transmitir ao espectador as mesmas sensações de tensão vivenciadas pelos personagens, seja apenas durante a construção do suspense, seja nos momentos de ação eletrizante. A decisão de representar os zumbis como sendo extremamente velozes e capazes de dar grandes saltos também colabora com o aumento do efeito aterrorizante.
Por outro lado, é na parte associada a ficção científica e a política, que preenchem uma considerável porção da história, que o longa metragem dá as maiores derrapadas. Como não li o livro que inspirou a esta película e, logo, desconheço eventuais mudanças feitas no enredo original, considero que os diversos problemas na produção da película foram os responsáveis por esse processo.
Para quem não sabe, este filme teve sucessivas mudanças nos roteiristas responsáveis por escrever o script, totalizando, ao final, três diferentes pessoas encarregadas, durante a produção, pelo roteiro. E tamanhas mudanças não passam despercebidas, sobretudo ao percebermos uma considerável alteração no tom e na consistência da trama de sua primeira parte ao restante da película.
O ponto que mais me incomodou reside na série de elementos da história que são mal explicados e desenvolvidos de maneira rasa, até como se o roteirista final encarregado tivesse que ter apressado a finalização do roteiro sem a devida revisão. Por exemplo, o fato de Gerry ter "descoberto" uma forma de camuflar as pessoas quanto aos zumbis a partir de uma rápida observação e sem qualquer evidência que suportasse sua teoria é, no mínimo, absurdo. E mais absurdo que um grupo de cientistas renomados tenha aceito isso sem maiores explicações.
E, claro, o roteiro é repleto de outras conveniências. Dentre elas, cito o prisioneiro capturado em uma prisão coreana que, por alguma razão, sabe de inúmeras coisas e informações essenciais, mesmo que estivesse lá preso, por um motivo sem qualquer relação com o apocalipse zumbi, há bastante tempo e antes da pandemia sequer começar. E poderia citar o protagonista sobrevivendo a uma queda fatal de avião, ou a vez em que ele toma um frasco aleatório contendo um vírus e acaba, por sorte, o camuflando contra zumbis. Enfim, a lista de eventos semelhantes que ocorrem no filme é longa.
Em resumo, o filme prende bem a atenção do espectador e é um terror eficiente, mas peca em detalhes cruciais do roteiro, que cai bastante de qualidade do meio para o final.
"Eu gostaria de destruir esse relógio e espalhar todas as suas partes pelo chão. Quando eu vejo algo assim, eu quero saber o que tem dentro dele". Essa frase, dita em uma conversa entre Davis e Phil sobre um velho relógio no escritório do segundo, talvez seja o que melhor define o filme, a história e as motivações do protagonista nesta que é uma bem executada obra de drama.
Essa película já inicia com o banqueiro, como é descrito na sinopse, na cena em que perde sua esposa em um acidente trágico. Não conhecemos absolutamente nada sobre ela ou sobre a vida de casal dos dois e, logo no começo da história, a personagem em questão é subitamente retirada e a vida do protagonista alterada por completo.
No entanto, para a nossa surpresa, a vida dele, pelo menos no aspecto externo, não muda tanto assim. Logo após os instantes iniciais, acompanhamos Davis seguindo a sua rotina, seja dentro de casa ou seja no trabalho, como se nada tivesse acontecido. E, também ao longo da trama, descobrimos que o personagem não somente desconhecia muita coisa da sua esposa, como também até sentia que não a amava mais.
A "demolição" ao qual o título do filme se refere começa a partir daí, quando Davis simplesmente passa a destruir coisas. E, ao escrever "coisas", refiro-me a qualquer coisa, desde máquinas de café a portas ou até mesmo uma casa por completo. Aquilo que poderia ser uma mera estranha reação a uma situação de luto pode ser interpretada, de forma mais ampla, como o resultado de uma incapacidade do personagem em lidar com os próprios sentimentos, que agora extravasam e são catalisados a esse processo de destruição, e em ver um sentido em sua vida.
Como ilustrado na frase que mencionei ao início do comentário, essa demolição não seria algo aleatório, mas uma tentativa desordenada de entender aquilo que tem, aquilo que ele quer ao seu futuro e até mesmo aquilo que é. Diante da dificuldade de entender melhor a sua relação com a esposa, acaba destruindo tudo aquilo que, na ausência dela, ainda o ligava a mesma: a relação com a sua família, a sua casa e assim por diante.
Destruir, não pelo mero objetivo de destruir, mas de colocar todas as peças no chão e de, ao sentir alguma coisa perante todo esse processo, tentar ver o que há por dentro, inclusive de si próprio. Davis, por não entender os outros e nem ele mesmo, sente um completo vazio, e tudo aquilo que realiza, desde os meros atos de destruição até o relacionamento com Karen, têm o objetivo de tentar preencher esse vazio.
E é exatamente quando consegue demolir tudo que tinha na vida - o trabalho, a relação com a família da esposa e até a tentativa de relacionamento com Karen - e alcança o fundo do poço, ele enfim entende o que ele quer, o que ele sente e quem ele é. Aos poucos, o próprio amor que sentia pela esposa, que considerava que já havia se exaurido, é redescoberto. Aos poucos, a esposa que antes parecia estranha para ele, é alguém que ele passa a conhecer, mesmo que, para isso, tenha que ter primeiro a perdido.
Apesar de todas as qualidades, das quais também destaco a excepcional performance do elenco de uma maneira geral, o filme tem dois pontos que fazem a qualidade cair um pouco e colocam uma história com potencial de ser "ótima" no patamar de "apenas bom". O primeiro é o arco envolvendo o filho de Karen que parece um pouco "fora de lugar" e não conecta-se tanto com o foco central da trama, e o segundo é uma revelação feita, ao final, sobre a Júlia, que considero desnecessária.
Em resumo, o filme é um dos melhores trabalhos de Jean-Marc Vallée - e, infelizmente o seu último trabalho cinematográfico, em decorrência de sua morte prematura - e uma interessante história sobre luto, vazio e a busca por entendermos nossos sentimentos e o nosso objetivo na vida.
Dirigido por David Ayer, "Corações de Ferro" é, sem dúvida, um retrato brutal da Segunda Guerra Mundial, mostrando os duros efeitos que o conflito provocou em civis e militares - não poupando sequer aqueles que estavam do lado vitorioso. Em meio a várias qualidades do filme, creio, no entanto, que a produção pecou, de maneira considerável, na história abordada - que, mesmo inserida em um contexto real, é fictícia - e no desenvolvimento dos personagens.
Irei começar aqui por tudo aquilo que considero que Ayer acertou. A sua direção, em primeiro lugar, bem como todos os aspectos técnicos do longa metragem, é algo que não pode ser ignorado, sobretudo pela sua precisão nas cenas de batalha. O diretor consegue, de maneira competente, retratar os conflitos com realismo e fidelidade histórica e, ao mesmo tempo, transmitir ao espectador a tensão sentida pelos personagens.
Quanto a mensagem repassada pela película, é bem claro que corresponde a uma mensagem contra a guerra de uma maneira geral, mostrando a destruição que provoca no mundo e em cada soldado individualmente. Colocados dentro de uma carnificina, os homens, em sua maioria, ou são extremamente frios e desprovidos de emoções, ou são entregues aos seus instintos mais primitivos, como resultado de traumas sofridos em batalha.
O problema é que, independente da mensagem que alguém queira repassar em um filme, ela deve ser sempre acompanhada de uma história e personagens consistentes e interessantes, e é esse o ponto em que esta obra falha. A começar pelos personagens, confesso que, com exceção do Norman e do Boyd, eu não senti interesse por absolutamente nenhum dos que estão representados na trama. E eu diria que todos os personagens, até mesmo aqueles aos quais tive uma maior conexão, são muito mal desenvolvidos e, em diversos momentos, extremamente genéricos e caricatos.
Aliás, quanto ao personagem interpretado por John Bernthal, ele é tão repugnante que, em dado momento, até me faz torcer para que algum nazista o mate. Como mencionei antes, o objetivo do filme é exatamente mostrar os efeitos da guerra nos soldados, mas, no caso deste personagem em particular, passou-se bastante do ponto. Os roteiristas miraram em alguém traumatizado e transformado pela guerra, mas acabaram acertando em alguém que, convenhamos, mais parece meramente um completo imbecil e sem qualquer característica para ser elogiada.
E, com relação à história em si, o filme é repleto de cenas que ou falham em repassar a mensagem desejada ou pecam pela inconsistência. Por exemplo, existe uma cena em o comandante leva Norman a uma sala repleta de nazistas mortos e diz algo no sentido de que "ideais são pacíficos, mas a realidade é violenta" e depois ambos saem do local sem falar mais alguma palavra, e confesso que não entendi o que uma coisa tem haver com a outra. Pareceu-me uma tentativa do filme ser mais profundo do que realmente os roteiristas são capazes de entregar em profundidade.
Outro momento desses é aquele em, novamente, o comandante e Logan estão juntos, dessa vez com duas mulheres alemãs em um apartamento. A intenção, creio, era procurar trazer uma maior leveza à história para, em seguida, mostrar a perversão sexual dos outros soldados, já completamente afetados pela guerra, que chegaram depois. No entanto, o resultado foi apenas uma cena extremamente desconfortável, grotesca e que prolongou-se mais do que deveria por motivos que desconheço - o comandante, inclusive, poderia ter, logo no começo, impedido os seus subordinados de agir de maneira mal educada com a garota, mas permitiu a situação continuar bem além do aceitável.
E, para completar, a cena final, que é absurda. Apesar do comandante, no começo do filme, dizer que nada mais importava para ele do que manter os seus companheiros vivos, ele não vê problema algum em arriscar a sua própria vida e a dos outros ao enfrentar, apenas com seu tanque atolado, uma tropa de trezentos soldados alemães, quando ele poderia simplesmente recuar e retornar ao combate com reforços. Um comportamento, no mínimo, inconsistente por parte do personagem. E, por incrível que pareça, apesar de toda a desvantagem numérica, os alemães são derrotados no confronto, o que seria impossível na vida real.
Não me levem a mal, o filme tem uma direção, no aspecto técnico, exemplar, além de uma excelente fotografia, boas atuações e cenas de batalha eletrizantes. Porém, o fraco roteiro, bem como o praticamente nulo desenvolvimento dos personagens - com a exceção de Norman, acaba, sem dúvida, atrapalhando a mensagem que a obra queria passar e ofuscando as qualidades apresentadas. Veredito: não é ruim e dá para passar o tempo, mas está longe de ser essa obra prima que vi vários comentando.
É raro encontrar uma obra literária que, não sendo muito conhecida e nem aclamada universalmente, tenha sido adaptada tantas vezes, ao cinema, quanto "The Body Snatchers", de Jack Finney. E impressionante o fato da quarta adaptação ser, não obstante o fato de possuir a maior quantidade de material para se inspirar, a mais fraca.
E isso se deve, sobretudo, ao fraco roteiro. O filme até começa de maneira interessante, construindo um suspense acerca da misteriosa doença que está se espalhando e dos efeitos dela nas pessoas. No entanto, dos primeiros quarenta minutos pra frente, a história vai, gradativamente, apagando o lado da ficção-científica e acentuando o lado da ação, o que prejudica bastante a trama.
Não à toa, é a partir daí que o enredo torna-se cada vez mais confuso e, por consequência, desinteressante ao espectador. Além disso, acompanhamos uma série de furos no roteiro, acontecimentos mal explicados e uma história que não sabe no que focar. Mesmo com o filme até possuindo algumas cenas que, fora do contexto, poderiam ser interpretadas como boas, elas se perdem em meio a inúmeros outros momentos que tiveram execução ruim e que parecem ter sido escritos à pressa por algum roteirista.
Por exemplo, a mãe que está desesperada em encontrar o filho, mas esquece de simplesmente ligar ao celular dele. O técnico de laboratório que mal descobre a doença e, dois depois, aparentemente já sabe tudo sobre ela. O fato dos pesquisadores não procurarem outras pessoas imunes e focarem somente na criança. E, claro, a cena em que a doutora tem uma injeção de adrenalina no bolso e, por algum motivo, prefere arriscar cair no sono ao invés de usá-la.
Também não é bem desenvolvido o que esses seres alienígenas realmente querem. Em dado instante, fica parecendo até que essa invasão pode ser benéfica, pois, após o seu início, vemos notícias de fins de guerras, medicamentos gratuitos sendo distribuídos e assim por diante. Se eles possuem alguma má intenção por trás, em momento algum é mostrado.
Sendo assim, o filme, perdido nas próprias incoerências do roteiro e sem saber ao certo se quer ser ficção-científica, ação ou suspense, acaba, no final das contas, não sendo nada disso. Nicole Kidman está deslumbrante na película, mas ela e o restante do elenco apenas podem fazer o que é possível com o script que lhes foi entregue e, convenhamos, não é suficiente para salvar isso aqui. Um desperdício de tempo para o espectador, e um desperdício ainda maior de uma proposta que possuía potencial.
Dos filmes protagonizados pela dupla Simon Pegg e Nick Frost, este talvez seja um dos mais fracos, apesar de também ser aquele que tinha o maior potencial. Em "Paul", temos a história de um alien que encontra dois nerds pelo caminho e pega carona com eles enquanto fogem do governo americano.
O alienígena em si é o melhor personagem do filme. Com a voz do Seth Rogen, que se encaixa muito bem aqui, e um CGI decente, ele, refugiado há bastante tempo na Terra, já adquiriu um grande conhecimento não apenas da cultura terrestre como também dos humanos de uma maneira geral.
A grande sacada da história, inclusive, é a como eles representaram o alienígena. Apesar de ter a aparência mais genérica possível para um extraterrestre, a sua personalidade é completamente distinta daquilo que se imagina de tal criatura. Em síntese, é quase como um humano no corpo de um alien, com um jeito irreverente e algumas boas piadas.
O problema é que, com exceção de alguns momentos que realmente são engraçados e boas referências a clássicos da ficção científica, o filme deixa a desejar durante a maior parte do tempo. Além de várias cenas sem graça e desnecessárias, vale mencionar que, em muitas oportunidades que poderiam ter sido melhor exploradas, os roteiristas se contentaram com piadas baratas, rasas e pouco criativas. E os outros personagens, sinceramente, são bem desinteressantes e mal desenvolvidos.
Sendo assim, a película até traz uma boa proposta, mas não consegue ir muito além do estilo "comédia pastelão" e "besteirol". Ou, em outras palavras, é o tipo de filme "Sessão da Tarde": despretensioso, repleto de altos e baixos e apenas bom mesmo para passar o tempo enquanto desligamos o cérebro por umas duas horas, sem nada de impressionante ou muito inteligente.
Dirigido pelo jovem Curry Barker, "Obsessão" é não somente uma das gratas surpresas deste ano no cinema, mas também um daqueles filmes capazes de ensinar algumas lições à indústria cinematográfica. Primeiro, que é possível entregar um bom produto sem necessariamente gastar centenas de milhões no orçamento e, segundo, que é importante dar oportunidade a novos e desconhecidos talentos ao invés de continuar na mesmice com nomes repetidos.
Para quem não sabe, Barker, antes de se aventurar no mundo da direção, era - e ainda é - youtuber, sendo dono de um canal no qual posta sketchs de comédia. Sendo assim, não é surpresa, àqueles já acostumados ao seu trabalho, a interessante mistura que ele faz aqui - que, é verdade, não é mais exatamente uma grande novidade e até vem se tornando bastante comum nos últimos anos - entre comédia e terror.
No entanto, mais importante do que a junção em si entre esses dois gêneros aparentemente distantes, encontra-se a forma com que esse processo é feito. Aqui, Barker não adota nem um estilo de "comédia pastelão" e nem um terror barato apoiado em jumpscares - embora eles estão presentes e utilizados com competência, mas utiliza os melhores elementos e qualidades desses estilos de forma natural e bem encaixada na história, de forma que o desenrolar dos acontecimentos não parece forçado, mas flui da maneira que se esperaria que os personagens em questão agissem diante dos fatos.
E essa abordagem do diretor é sustentada por um roteiro, também escrito por ele, que, apesar de beber da fonte de outras produções de terror, inova e subverte as expectativas. Digo isso porque o que estamos acostumados a ver em um filme do gênero que envolve um rapaz apaixonado por uma garota é algo no sentido do homem invadindo a privacidade e agindo de maneira esquisita e obcecada em relação a mulher. Pois bem, aqui é exatamente o oposto.
Após o desejo que o protagonista, Baron, faz ao "salgueiro mágico" de que Nikki se apaixone por ele e o ame mais do que tudo no mundo, o desejo é, para a sua surpresa e para o seu posterior arrependimento, atendido. Sendo assim, não se trata de um homem que passa o filme inteiro, como em outras películas do tipo, obcecado ou atraído por um enlouquecido desejo sexual em torno de uma mulher e que nunca é atendido ou retribuído. Aqui, a atração é retribuída, e isso exatamente o que acaba sendo o problema para o homem.
O diretor realiza um excelente trabalho na construção do enredo, que é muito bem estruturado, raramente cai em repetições ou artifícios baratos e mantém bem a atenção do espectador ao longo da trama. O terror e a angústia que Baron sente são, com eficiência, repassados, ao público, a tal ponto que, em muitos momentos, ficamos sufocados e sem ver saída daquela situação que não seja através de alguma tragédia. Logo, o mais forte aspecto do terror, em "Obsessão", não é um susto aqui e acolá, mas no constante estado de tensão e desconforto que o filme nos impõe a partir do desenrolar dos acontecimentos.
Também vale destacar, dentre um elenco que entregou grandes performances, a atuação de Inde Navarrette. A atriz, que provavelmente a partir de agora irá receber mais oportunidades na carreira, presenteia-nos com uma atuação emblemática em produções de terror. Muito sustentada por sua expressividade corporal, ela consegue alterar entre a comédia e o horror, o delicado e o bruto e o amoroso e o aterrorizante com extrema naturalidade, encaixando-se bem na loucura - e nos conflitos - de sua personagem.
Um aspecto que considero interessante, e que pode ter passado batido por alguns, é que a grande e verdadeira "obsessão" ao qual o título se refere não é a que Nikki sente por Baron, mas a que Baron sente por Nikki. Isso porque a primeira age como age devido a uma espécie de feitiço colocado sobre ela, e não por vontade própria. Inclusive, em muitas cenas, vemos a luta da "verdadeira Nikki", que ainda está presente em algum lugar dentro da mente, em tentar fugir dessa situação louca em que está inserida.
O segundo, por sua vez, embora não seja possível dizer que o que está ocorrendo era exatamente o que ele tinha em mente, ainda sente uma forte atração pela garota. Mesmo com todas as loucuras que a sua "namorada possuída" realiza, ele jamais sugere romper o relacionamento, constantemente retorna para a sua casa apesar de todos os perigos imprevisíveis pela frente e insiste em tentar mantê-la como sua até os últimos instantes, quando enfim percebe que tem de pôr fim a tudo.
Logo, quem é o verdadeiro obcecado: a mulher que age, afetada por uma magia sobrenatural, como absurdamente louca de paixão por um homem ou o homem que, por livre vontade, continua com essa mulher mesmo ciente do que está ocorrendo? Baron, logo, está, sim, assustado e aterrorizado pelo comportamento de Nikki, mas prolonga o seu desejo de tê-la ao seu lado até os momentos finais, pois também, durante boa parte do tempo, é incapaz de deixá-la ir embora.
Aliás, eu até acho que o final - que, diga-se de passagem, achei um tanto fraco e bastante apressado - poderia ter sido melhor sem o seu suicídio, com ele simplesmente aceitando a realidade e mantendo a Nikki presa naquela situação. Mais trágico, mas mais coerente com o personagem e com suas inseguranças e obsessões.
No geral, um filme muito bom, que faz juz aos elogios e que vale a pena assistir. Recomendado.
Em "O Patriota", acompanhamos o personagem fictício Benjamin Martin, que já foi um grande e feroz soldado em guerras prévias, mas que, com sete filhos para cuidar e viúvo, opta por deixar o seu passado violento para trás e viver uma vida tranquila e pacífica. Isso muda, no entanto, com o início da Revolução Americana, que, em meio à promessa por independência e a luta contra os impostos, acaba também, como efeito colateral, levando a um sangrento conflito entre EUA e Inglaterra. Com essa guerra não ficando limitada aos campos de batalha e também atingindo civis, o protagonista se vê obrigado a pegar novamente em armas para salvar a sua família.
É interessante observar que o filme tem, sem dúvidas, os seus exageros e imprecisões históricas, mas isso não necessariamente impacta, de maneira muito negativa, a produção. E isso ocorre pelo simples fato de que esta película não se propõe a ser um documentário ou uma representação fiel dos fatos, mas um drama sobre um homem que luta contra um passado do qual se envergonha enquanto, ao mesmo tempo, busca usar sua natureza violenta para proteger a quem ama. Como mencionado antes, nem o personagem existiu na vida real e nem a história retratada de fato ocorreu, o que fornece mais liberdade criativa ao diretor e roteiristas, mas a trama meramente se passa durante um evento real - a Guerra de Independência.
Além disso, claramente o filme busca retratar esse período histórico sob a perspectiva americana, o que é natural considerando que o protagonista é americano, o que explica a caracterização extremamente negativa dada aos ingleses, pois é assim que os americanos, à época, viam-nos em meio as tentativas de aumentar o poder real e os impostos e reduzir a autonomia à colônia. No entanto, vale também destacar que a obra acerta em diversos aspectos históricos, como, por exemplo, ao mostrar que nem todos os americanos concordaram com a Independência e que alguns até lutaram ao lado dos ingleses.
Outro aspecto positivo foram as cenas de batalha, que não somente foi bem retratadas do ponto de vista histórico, como, na mesma medida, foram eletrizantes e emocionantes, prendendo a atenção do espectador e sendo um dos pontos altos do filme. A execução impecável dos confrontos entre ingleses e americanos, em combinação à sempre brilhante trilha sonora de John Williams, contribuíram para fornecer um forte impacto emocional à história.
Pessoalmente, incomodou-me um pouco a tentativa de estabelecer um romance para Benjamin e mais ainda com tal tentativa ter sido feita com uma personagem que, em tese, é da família. Mesmo sabendo que, naquele período, isso era mais comum, ainda assim fiquei com um certo desconforto e considerei um tanto desnecessário, apesar de reconhecer que Joely Richardson está deslumbrante no filme. Outro ponto que foi bem exagerado foi a cena em que ele e os filhos emboscam os ingleses, que, com todo respeito, mais parecia ter sido retirada da franquia do "Rambo".
Entre erros e acertos, o filme, em linhas gerais, é um bom drama e uma ótima experiência para quem curte filmes de batalhas históricas e guerras. No entanto, como mencionei antes, antes de assistir, espere uma história fictícia que ocorre em um evento real e não um documentário.
Confesso que, ao ter encerrado o anime e visto que havia um filme do "Cowboy Bebop", pensei que seria somente mais uma daquelas películas que se aproveitam do sucesso de um seriado para, no final das contas, entregar uma história sem graça, inútil e apenas sustentada por puro fan service. No entanto, fui surpreendido por um filme que é genuinamente muito bom, possuindo uma interessante história e entretendo o espectador.
Em linhas gerais, esta obra possui todos os elementos que amamos na série. E, quando digo isso, refiro-me não apenas aos nossos já conhecidos caçadores de recompensa, mas também ao estilo de animação, ao humor, as cenas de ação e, obviamente, a sempre espetacular trilha sonora, que mais uma vez encaixa-se com perfeição.
Além disso, eu também pontuaria que, por se tratar de um filme com quase duas horas de duração, aqui é percebido um melhor desenvolvimento tanto da história quanto dos personagens envolvidos em relação ao que seria possível se essa história fosse resumida em somente um ou dois episódios. E a trama, diga-se de passagem, é bem elaborada, com um vilão interessante, bons personagens secundários e um suspense/mistério que leva o tempo necessário para ser desvendado.
Aliás, essa talvez seja a minha única reclamação acerca da série, que é o fato de algumas tramas, para se encaixarem em um período de vinte minutos, muitas vezes desenvolviam-se de maneira muito apressada e com personagens secundários, que, durando somente um único episódio, surgiam e depois desapareciam sem sequer termos tempo para nos importar com eles. Neste filme, gostei bastante de Vincent e Elektra e das suas histórias de origem. Também é interessante acompanhar os paralelos feitos entre o antagonista da película e Spike, o protagonista do anime, que aqui tem suas motivações e personalidade muito bem exploradas, em especial naquela cena em que conversa com Elektra.
Em resumo: o filme realmente é muito bom e divertido e com uma trama bem elaborada. Se você é fã da série, aqui está presente tudo de positivo que tornou a série um clássico e ainda um pouco além do que isso.
Sendo uma adaptação do livro homônimo escrito por Andy Weir, "Devoradores de Estrelas" - ou simplesmente "Project Hail Mary", em seu título original - é uma grata surpresa não somente no campo da ficção científica, mas no cinema de uma maneira geral. Em uma época marcada, infelizmente, tanto pela falta de criatividade e de ousadia na indústria cinematográfica quanto pelas reiteradas tentativas de impor agendas ideológicas, é refrescante ver um filme que não apenas foge aos clichês e "lugares comuns" da maioria das produções, mas também nos traz uma história leve, divertida e inspiradora dedicada a todos os públicos.
Na obra, acompanhamos Ryland Grace, um professor de biologia brilhante - mas que pouco acredita no próprio potencial - que é selecionado a fazer parte de um projeto com o objetivo de estudar - e, se possível, apresentar uma solução para resolver o problema o quanto antes - microrganismos misteriosos que estão destruindo o Sol e, por consequência, ameaçam toda a vida na Terra. Devido a sua participação nesse projeto, a situação dramática existente e diversas outras circunstâncias explicadas ao longo da película, ele acaba por ser incluído em uma missão espacial que nada mais é do que uma tentativa desesperadora de salvar a humanidade - ou, em outras palavras, um último "Hail Mary".
A decisão do roteirista e dos diretores de iniciar a história quando ele acorda do coma, isto é, quando ele já está há vários anos dentro da nave espacial, e, aos poucos, ir explicando o passado do protagonista e como ele se inseriu nessa situação é bem interessante e acertada. Dessa maneira, passamos a conhecer Ryland "de trás pra frente", assim como também compreender o tamanho da situação em que ele e toda a humanidade encontram-se situados e a importância do seu trabalho, cujo sucesso será decisivo na salvação da vida na Terra.
O ex-professor - e agora astronauta - se vê forçado a encarar os seus medos, explorar o desconhecido e acreditar em seu próprio potencial de encontrar soluções e alternativas em meio a um contexto extremamente desesperador e no qual bilhões de vidas dependem dele. Mesmo dada a dramaticidade envolvida, é fascinante observar como a obra - e isso também tem muito mérito da boa atuação de Ryan Gosling - consegue proporcionar momentos de leveza e humor.
Outro destaque - e também responsável por bastante do humor da película - é Rocky, o inesperado e improvável companheiro de Grace nessa aventura. À princípio, a sua aparência pode causar estranheza, mas, com o passar do tempo, não apenas nos acostumamos com o alienígena, mas igualmente passamos a amá-lo com o seu jeito puro, divertido e corajoso. Para quem não sabe, as cenas envolvendo Rocky, embora tenham um pouco de CGI e animação, foram feitas, em grande parte, com o uso de bonecos e efeitos práticos, o que dá um ar mais "realista" ao personagem.
Em combinação aos méritos no roteiro e na história, "Project Hail Mary" impressiona pelos efeitos visuais deslumbrantes, competente direção e boa trilha sonora, que ajudam a, juntos, constituir uma divertida, apaixonante e visualmente belíssima odisseia no espaço. Além disso, traz mensagens inspiradoras acerca de amizade, esperança e sobre acreditar em si próprio mesmo nos momentos em que tudo parece estar perdido. Grata surpresa e uma boa pedida para assistir com toda a família.
No capítulo final desta trilogia, George Lucas nos entrega aquele que considero um de seus melhores trabalhos como diretor, um dos melhores filmes de toda a saga e, particularmente, o meu favorito da franquia. Em "A Vingança dos Sith", temos o desfecho de todos os acontecimentos iniciados previamente e a conclusão não apenas da transformação de Anakin em Darth Vader, mas também da República no Império Galáctico.
Neste filme, alcança-se o ápice daquilo que as prequelas, desde o início, buscaram mostrar: a derrota do bem sobre o mal, o triunfo da tirania sobre a democracia e a liberdade. No entanto, como já sabemos o que vai acontecer, isto é, que Anakin eventualmente cairá ao lado sombrio da Força e que Palpatine triunfará e se tornará imperador da galáxia, o grande mistério reside em como as coisas, de fato, irão acontecer. Em outras palavras, a grandiosidade da história reside nos detalhes que proporcionam o desenrolar dos fatos.
No término do episódio anterior, por exemplo, acompanhamos o início oficial das Guerras Clônicas. Em decorrência da corrupção e ineficiência da República, planetas e sistemas que sentiam-se escanteados decidem separar-se de um sistema de governo que não é mais visto por eles como benéfico e montar a sua própria confederação independente. Ansiosos por uma maior autonomia, são atraídos pelo ex-mestre Jedi Conde Dooku, cujo carisma e liderança não somente atrai mais interessados à causa, mas igualmente os convence a ir além e construir um grande exército de dróides com o intuito de forçar o Senado galáctico a aceitar os termos de sua independência - embora, devido ao surgimento do exército de clones, acabou forçando o início de uma prolongada guerra.
Pouco eles sabiam, no entanto, que, por trás das promessas de autonomia e liberdade pregadas por Dooku, estava um interesse muito mais obscuro. Sidious, o lorde Sith que havia motivado a crise entre a Federação do Comércio e Naboo anos antes e plantado a "semente" da discórdia em uma galáxia que já demonstrava sinais de instabilidade e descontentamento, enquanto a "liderança fantasma" da Confederação dos Sistemas Independentes e mestre de Dooku, pouco se importava com os desejos dos planetas e sistemas que aderiam a causa e sim com o estabelecimento de um futuro império governado por ele.
Pouco também eles sabiam que Sidious, na verdade, era ninguém menos que Palpatine, o chanceler da República, isto é, o principal inimigo dos separatistas. Em outras palavras, Sidious arquitetou uma grande guerra tendo como objetivo, em meio ao caos e discórdia inerentes a um conflito de proporções galácticas, a obtenção de poderes cada vez maiores que o possibilitassem tornar o seu império uma realidade. Em uma interessante crítica feita por Lucas a como democracias são corrompidas a tornarem-se tiranias, aqui vemos como, em períodos considerados de crise, até mesmo aqueles que se dizem os maiores defensores dos ideais democráticos são capazes de abrir mão desses ideais e princípios em nome de uma eventual segurança ou até mesmo com a justificativa de preservar a própria democracia, que, na realidade, acaba sendo destruída, junto com a liberdade, a partir de tais ações. Essa trama pode ser sintetizada pela clássica frase de Benjamin Franklin: "quem abre mão da liberdade essencial para comprar um pouco de segurança temporária, não merece nem liberdade nem segurança".
Aliás, os seus objetivos não limitavam-se a meros aspectos políticos, mas sendo ele um dos últimos representantes do Lado Negro da Força, mas também abrangiam uma verdadeira guerra espiritual. Isso ocorre por que os Jedi, devido a derrota dos Sith e a constituição de um período de estabilidade na galáxia, passaram os últimos milhares de anos ocupando-se mais como diplomatas do que como guerreiros e servindo como instrumentos pela manutenção da paz. Devido à guerra em vigência, esses mesmos Jedi tornaram-se generais, liderando inúmeras tropas de clones, e passavam mais tempo em batalhas e conflitos em locais longínquos do que propriamente negociando paz ou meditando sobre a Força, o que, em tese, deveria ser a sua ocupação primordial.
Ou seja, Palpatine não apenas corrompeu o Senado e as principais instituições que sustentavam a democracia na República, mas, na mesma proporção, corrompeu a Ordem Jedi, obrigando-a abandonar diversos dos seus princípios e valores em detrimento do conflito em andamento, trazendo confusão até mesmo a sábios mestres e levando-os a cometer erros que, em outros tempos, não teriam cometido. Naturalmente, o Lorde Sith utilizou ambos os fatos ao seu favor, pois somente um Senado corrompido o alçaria a máximos poderes e somente uma Ordem Jedi enfraquecida e confusa não seria capaz de detê-lo ou de deter a transformação de Anakin ao Lado Negro da Força. Aliás, a ascensão de Sidious e os seus planos maquiavélicos são brilhantemente escritos por George Lucas e um dos pontos altos deste filme e da trilogia de uma maneira geral.
E falando em Anakin, temos aqui uma da histórias mais trágicas já narradas em ficção científica e no cinema. Sim, uma tragédia já esperada, mas, mesmo assim, igualmente impactante. Em primeiro lugar, gostaria logo de tentar rebater uma das críticas mais frequentes e, ao meu ver, infundadas acerca desse personagem, que é a de que a sua queda ao Lado Negro foi "muito rápida" ou até mesmo incoerente. Um pouco mais de atenção nos detalhes, como eu mencionei no início do meu comentário, é fundamental nesse caso. O passo inicial para compreender a sua transformação começa já no primeiro episódio, quando ele é aceito na Ordem aos nove anos de idade, o que é considerado muito tarde para o padrão dos Jedi.
Isso, na verdade, possui um motivo muito claro: os Jedi são, podemos dizer, estoicos, isto é, são capazes de ter emoções e sentimentos, mas não podem deixar tais coisas atrapalharem os seus julgamentos. Os Jedi precisam estar completamente focados em compreender o mistério da força não através de uma busca incessante por poder e conhecimento, mas a partir de uma compreensão do seu interior. Somente tendo a sua mente em equilíbrio, será capaz de se equilibrar na Força e utilizá-la da maneira adequada - não fazendo uso dela como um instrumento para benefício particular, e sim como parte de si próprio e em benefício de todos. E, para ter a mente em completo equilíbrios, eles creem em limpar a vida de quaisquer possessões, seja materiais ou emotivas. E a melhor forma de fazer isso é não ter família ou relacionamentos amorosos, o que explica o motivo de indivíduos sensíveis na Força serem levados tão cedo à Ordem.
O problema é que Anakin, diferente de outros Jedi, já havia tido uma vida e uma família antes de chegar em Coruscant. Sim, como um escravo e, sim, apenas tendo a sua mãe como família, mas, ainda assim, uma vida e uma família. Seria impossível, para ele, desvencilhar-se totalmente ou esquecer das memórias de sua vida passada, o que o fazia ser mais emotivo e mais propenso a relacionamentos pessoais estreitos do que os seus companheiros da Ordem.
E, no episódio anterior, outro fato marcante: a perda de sua mãe, de uma forma traumática e brutal, e o fato de não ter sido capaz, mesmo com todo o seu treinamento Jedi e dos seus poderes, de salvar a sua vida, é um dos eventos mais importantes de sua trajetória nesta trilogia. Ele havia tido visões de que a sua mãe estava em perigo, ou seja, tinha noção de algum ruim poderia acontecer, e mesmo assim havia sido incapaz de salvá-la. Tal acontecimento o traz tristeza, raiva e ódio que, aos poucos, começam a alimentar um monstro dentro de si.
Neste filme, Anakin volta a ter visões perturbadoras, desta vez sobre a sua esposa, Padmé, morrendo durante o parto, o que, obviamente, seria algo duplamente trágico, pois poderia custar a vida tanto de sua amada quanto de seu filho. É importante deixar bem claro esses não são apenas mero pesadelos, mas verdadeiras visões do futuro, o que já é sabido que indivíduos sensíveis à Força são capazes de ter - apesar de poderem ser difíceis de interpretar e cuja tentativa de evitar que se tornem realidade é algo ainda visto como arriscado e confuso de acordo com a filosofia Jedi. Portanto, agora Anakin, que já havia tido uma visão que se cumpriu sobre a morte de sua mãe, convivia agora com visões de mesmo teor sobre sua esposa e filho, sendo algo que claramente afeta a cabeça de qualquer indivíduo e mais ainda alguém extremamente passional, protetivo e que teve a vida marcada por tragédias como Skywalker.
Além disso, temos a relação entre Anakin e Palpatine. Lucas, de forma sutil, deixa claro em diversas falas e partes da história, que ambos são próximos e confiam um no outro a tal ponto de confidenciar segredos entre si. Em determinados momentos, é até possível interpretar que Anakin vê Palpatine quase como uma figura paterna, sobretudo devido a tudo que o Chanceler fez por ele desde que o mesmo chegou em Coruscant, aconselhando-o, motivando-o e entendendo os seus anseios e desejos de uma maneira que os demais mestres Jedi, inclusive Obi-Wan, não conseguiam.
No entanto, isso não ocorre por engano ou acidente, mas é uma relação que representa meramente mais uma dentre as várias peças do xadrez jogado por Palpatine, que cuidadosamente construiu, ao lado do tempo, uma relação próxima e afetuosa com Anakin, sempre escolhendo bem as palavras a serem ditas com o intuito de obter a confiança máxima do jovem e, no momento certo, utilizá-la em seu favor. Enquanto Obi-Wan e o resto do Conselho buscam corrigir os defeitos de Anakin com o intuito de orientá-lo a tornar-se um melhor Jedi, Palpatine abraça a impulsividade, a raiva e o forte caráter emocional, que, enquanto são vistas como um problema de acordo com a filosofia dos Jedi, são, por outro lado, interpretadas como qualidades e importantes instrumentos segundo a filosofia dos Sith. E vai além: também oferece a Anakin poderes e conhecimentos que poderiam não apenas salvar a sua amada, mas também torná-lo mais poderoso do que qualquer outro, o que era exatamente o Anakin almejava.
Aliás, esse um ponto interessante a ser analisado: não, Anakin não se transforma em um Sith neste filme, mas, na realidade, ele sempre foi - e apenas não sabia ainda. As suas emoções à flor da pele, o seu forte caráter possessivo, o seu descrédito pelas regras impostas pela Ordem e a sua incessante busca por poder combinam muito mais com aquilo que é celebrado pelo Lado Negro da Força e representam elementos fundamentais para compreender a sua transformação em Darth Vader, que, se analisarmos sob essa óptica, foi mais uma mera mudança de nome ou um "empurrão" final do que propriamente uma alteração radical nas características do personagem, que sempre estiveram ali presentes.
Junto aos traumas de seu passado e de sua amizade com Palpatine, temos também como um forte elemento a insatisfação de Anakin com a Ordem Jedi, que ele crê estar limitando os seus poderes e não reconhecendo todos os seus feitos durante a guerra. No entanto, ao pensar desse jeito, acaba não percebendo que estaria dando razão ao demais mestres por não concederem a ele o mesmo título, pois um verdadeiro mestre jamais poderia apresentar tal nível de impaciência, emoção ou busca desenfreada pelo poder. Em outras palavras: o Jedi que deseja muito receber um determinado título ou alcançar certa posição talvez não mereça nem esse título e nem essa posição.
Sendo assim, podemos recapitular. Anakin, que já havia tido visões que se tornaram realidade sobre a morte de sua mãe - e que ele se culpava por não ter sido capaz de evitar, vem apresentando, repetidamente, visões perturbadoras que retratam a morte de sua esposa e filho. Nesse cenário, Palpatine, um homem que ele vê como um amigo e quase como um pai, o promete poderes capazes de salvar aqueles que ama, enquanto a Ordem Jedi, por outro lado, o nega o título de mestre e ainda o coloca para espionar esse mesmo homem que o está prometendo grandes poderes. E, com tudo isso se desenrolando na mente de um jovem impulsivo, emotivo, sedento por poder, aflito por proteger aqueles próximos de si e que jamais teve muita obediência pelas regras da Ordem. Enxergando as coisas sob essa perspectiva, é tão absurdo assim que Anakin tenha tomado a decisão que tomou? Na realidade, não somente não é absurdo, como também é algo perfeitamente esperado levando em consideração as circunstâncias.
Não querendo justificar o que ele fez, sobretudo o assassinato de pessoas inocentes que nada tinham culpa pelo desenrolar dos acontecimentos, mas é importante, mesmo que discordando das ações de um personagem, entender as suas motivações e George Lucas, ao longo dos três filmes, preparou muito bem a explicação para o surgimento de Darth Vader e as motivações por trás de tal fato. Sendo assim, o que ocorre com o personagem é trágico, mas é um tragédia que tem uma lógica por trás. Ao decepar o braço de Mace Windu, Anakin não estava pensando em proteger Palpatine, mas em proteger Padmé, que, segundo a sua interpretação manipulada pelo lorde Sith, somente poderia ser salva através de Palpatine e dos poderes que ele possuía. E, no final, foram as suas ações que, ironicamente, desencadearam a morte de sua amada. Anakin é o símbolo máximo de como uma pessoa com grande potencial e talento é capaz de arruinar a própria vida ao ser incapaz de controlar os próprios impulsos.
Em linhas gerais, "A Vingança dos Sith" não apenas possui uma história e roteiro espetaculares, mas possui excepcionais efeitos visuais, grandiosa trilha sonora - aqui John Williams consegue superar até mesmo o seu altíssimos padrão de qualidade - e alguns dos momentos mais marcantes, impactantes e emocionantes da saga, como, por exemplo, o mais longo e épico duelo de sabre de luz já mostrado no cinema, entre Anakin e Obi-Wan. Um excelente encerramento para uma boa trilogia, que, subestimada à época, envelheceu como vinho.
Em "Ataque dos Clones", George Lucas nos entrega o maior salto temporal da franquia, com uma década de diferença, na história, entre o episódio anterior e este. Padmé, antes uma jovem rainha de Naboo, agora é uma senadora, representando o seu planeta natal, na capital galática, Coruscante. Obi-Wan Kenobi, antes um padawan de Qui-Gon, agora já está consolidado como um cavaleiro Jedi. Anakin, antes uma mera criança - porém com imenso potencial - resgatada em Tatooine, agora era não somente o padawan de Kenobi, mas um jovem adulto. E a galáxia, antes em um contexto de estabilidade - uma estabilidade defeituosa e marcada pela corrupção na política, é verdade - agora se encontra em uma crise, com a ascensão de uma aliança separatista, liderada por um misterioso ex-mestre Jedi, o Conde Dookan (ou Dooku, em seu nome original em inglês).
Assim como seu predecessor, este filme dividiu e ainda divide opiniões entre os fãs da saga. Pessoalmente, eu não apenas sempre gostei desta película, e da trilogia de uma maneira geral, como posso dizer que minha opinião até melhorou bastante com o passar do tempo, à medida em que, a cada reassistida, entendia cada vez mais as intrigas políticas que marcam a história e também determinadas escolhas por parte das personagens.
Em primeiro lugar, comecemos pelos aspectos que são, sem sombra de dúvida, qualidades desta produção que nem os maiores opositores da nova trilogia podem se negar a elogiar: os aspectos técnicos. Embora prossiga a impressão de que talvez Lucas poderia ter usado um pouco mais os efeitos práticos em algumas situações, é inegável que o filme, mais uma vez, apresenta-nos belíssimos efeitos visuais - em um CGI que ainda impressiona até os dias de hoje - e, como de costume, uma espetacular trilha sonora por parte de John Williams, que aqui nos entrega um dos seus melhores trabalhos, com "Across the Stars".
Inclusive, o visual do filme, em conjunto com o estilo da história em diversas partes do longa metragem, torna "Ataque dos Clones" um episódio bastante único dentro do universo Star Wars. Nesse sentido, as cenas noturnas e a investigação conduzida por Obi-Wan, que o leva a desvendar a formação dos dois exércitos - os clones e os droides - que estão sendo preparados para uma guerra prestes a explodir, são exemplos de momentos em que o diretor leva a franquia a um interessante clima de "noir" e mistério inédito à franquia. No entanto, Lucas utiliza isso como um importante complemento, ou um elemento adicional na trama, sem se separar, demasiadamente, do estilo de aventura, fantasia e romance que marcam a saga, que, como era de se esperar, também estão presentes de maneira marcante.
Em segundo lugar, gostaria de mencionar o romance entre Anakin e Padmé, que é, além de um dos pontos centrais do filme, talvez um dos aspectos mais polêmicos do episódio. Dentre as reclamações costumeiramente feitas, encontram-se as afirmações de que o casal não possui uma "química" ou que o romance ocorreu de maneira muito repentina. Creio que tais afirmações desconsideram elementos fundamentais não apenas dos personagens em si, como também do próprio universo no qual se passa a história.
É curioso observar, e considero que isso pode passar despercebido por muitos que assistiram a esta obra, que Anakin e Padmé, apesar de trajetórias tão distintas e tendo origens completamente diferentes, com o primeiro nascendo escravo em um terra desértica e a segunda nascendo na realeza de um planeta que mais lembra um paraíso, são, ao mesmo tempo, muito parecidos. E essa constatação, somada a natural atração física mútua entre eles, é, sem dúvida, um fator que ajuda a explicar como eles acabam iniciando um relacionamento.
Vejamos bem: ambos, desde cedo, jamais tiveram a oportunidade de uma infância e adolescência, digamos, normais. No caso de Padmé, devido a sua carreira política, primeiro como rainha e depois como senadora. No caso de Anakin, devido primeiro ao fato de ter sido um escravo até os nove anos de idade e, depois, em decorrência de seu treinamento Jedi. Os dois, logo, jamais tiveram tempo para se divertir, para relaxar e, como consequência, para amar, sendo duas almas jovens, porém solitárias - ou, pelo menos, solitárias até se reencontrarem.
Também vale a pena mencionar que os dois possuem mentalidades muito parecidas, sendo marcadas pela impulsividade e pela tendência em se colocar em situações arriscadas. Nenhum dos dois, portanto, possui qualquer medo ou receio do perigo, da aventura ou daquilo que é considerado proibido. Padmé já havia demonstrado isso no filme anterior, em seu retorno à Naboo para salvar o seu planeta em uma missão quase suicida e demonstra tal comportamento novamente logo no início deste episódio, ao recusar diversas tentativas de reforçar a sua segurança não obstante as tentativas de assassinato contra a sua pessoa. E Anakin, por sua vez, demonstra essa atitude de forma contínua, sobretudo em seu desdém pelas regras da Ordem Jedi e pelas instruções de seu mestre, Obi-Wan.
Logo, levando tudo isso em consideração, e também colocando na balança que ambos passaram vários dias sozinhos em Naboo, um dos locais mais românticos da galáxia, e que logo em seguida passaram, juntos, por experiências impactantes em suas vidas, primeiro em Tatooine e depois em Geonosis, é tão irrealista, improvável e incompreensível, como alguns apontam, que essa dupla se apaixone e forme um casal? Muito pelo contrário: a paixão entre os dois é algo perfeitamente natural.
O filme também dá mais um importante passo na transformação de Anakin e na sua gradativa atração pelo Lado Negro da força. A perda de sua mãe, de uma forma traumática e brutal, e o fato de não ter sido capaz, mesmo com todo o seu treinamento Jedi e dos seus poderes, de salvar a sua vida, é um dos eventos mais importantes de sua trajetória nesta trilogia. Muitas das decisões que o protagonista toma daqui pra frente serão, direto ou indiretamente, influenciadas por esse fato, sobretudo a sua busca incessante por aumentar o seu poder, mesmo que seguindo caminhos além da tradicional educação fornecida pelos Jedi e por seu mestre, Obi-Wan, e por proteger aqueles que ama - carregando, consigo, a culpa de não ter salvado Shmi.
Também vale a pena mencionar Conde Dookan (ou Dooku), um dos personagens mais fascinantes e subestimados, em minha visão, da Prequela, cujo único defeito, digamos, é ter aparecido muito pouco. Isso por que ele não é um Sith, digamos, tradicional. Ele é um ex-mestre Jedi, elegante e sábio, que anteriormente era bastante respeitado pela Ordem tanto pela sua sabedoria quanto pela sua habilidade em duelo, porém que se desiludiu com a corrupção e ineficiência da República e com a subserviência dos Jedi a uma democracia falha, o que inevitavelmente o levou a ser seduzido por Sidious. Este, por sua vez, o encarregou de comandar a Confederação Separatista como a sua liderança pública, enquanto ele ficaria sendo a liderança "de facto", escondido nas sombras. Obviamente, além do personagem em si ser muito interessante, ajuda o fato da atuação de Christopher Lee ser espetacular.
Em linhas gerais, é um bom filme e uma competente continuação, dando prosseguimento, de forma satisfatória, a história e levemente elevando o nível em relação ao filme anterior. Além disso, também serve como ponte ao episódio final, que, em minha avaliação, é o melhor da trilogia e um dos melhores da franquia - no entanto, somente é capaz disso pois muitos elementos fundamentais da trama são começam a se construídos e aprofundados aqui. Para quem quiser acompanhar pela primeira vez ou rever, também recomendo ver as cenas deletadas - que, pessoalmente, gostaria que tivessem sido incluídas - e a novelização do filme, escrita por R. A. Salvatore, que fornecem maiores detalhes da história e complementam/aprofundam diversos aspectos presentes no longa metragem.
É seguro dizer que, em 1999, George Lucas lançava um dos filmes mais esperados da história do cinema. Eu era ainda muito jovem na época e, dessa maneira, não posso dizer que vivenciei isso na pele, mas basta acompanhar qualquer vídeo disponível na internet - como, por exemplo, reportagens e entrevistas - que mostrem a expectativa dos fãs para se ter um pouco de noção do tamanho do evento que foi o lançamento deste longa. Após mais de 15 anos de espera, finalmente Star Wars retornaria à tela dos cinemas e, desta vez, contando a história que antecedeu o início da saga.
Igualmente, também é seguro dizer que este foi um dos filmes mais controversos já feitos. E não digo isso no sentido de que esta produção tocou em assuntos polêmicos ou algo do tipo, mas no sentido de que dividiu - e até hoje divide - os apaixonados pela franquia. Direção, roteiro e até mesmo a escolha do elenco foram - e continuam sendo - motivo de debate. Tendo este sido o primeiro filme de Star Wars que eu assisti - e, na ocasião, amei - e tendo crescido acompanhando as prequelas, talvez seja suspeito para falar, pois sempre as defenderei e prosseguirei defendendo, no entanto vou aqui dissecar alguns elementos que considero importante.
Em primeiro lugar, acredito que boa parte da reação negativa a "Ameaça Fantasma" vem de um descompasso entre o que George Lucas enxergava para a saga e o que muitos fãs, na época, queriam e esperavam. Aliás, em muitas séries e filmes, é comum ver que, sempre que uma história não segue o rumo desejado por boa parte do público, tal história é, imediatamente, taxada como "ruim", quando meramente seguiu um caminho diferente. Com os seus pontos positivos e negativos, é claro, mas apenas... diferente.
Quando "Episódio I" foi lançado, toda a compreensão que os fãs tinham do universo de Star Wars provinha dos filmes originais, isto é, de uma galáxia mergulhada na escuridão, sob a tirania do Império Galáctico, e tendo uma pequena e com poucos recursos, porém corajosa e valente, Rebelião, lutando pela liberdade. Em outras palavras, é a história de como um grupo seleto de heróis, desafiando toda as probabilidades, levantou-se contra os tiranos e, seguindo o caminho correto e mais difícil ao invés do mais fácil, alcançou a vitória. É a história do triunfo do bem contra o mal.
Na história abordada durante as prequelas, no entanto, o rumo é completamente outro. E tem de ser outro. Aqui a trama ocorre mais de três décadas antes do início da saga de Luke Skywalker, então em um cenário diametralmente oposto. Não há Império, e sim uma - defeituosa, porém ainda estável -República. Os Jedis não desapareçam, mas ainda existem em milhares, e centralizados em uma forte Ordem. Não há guerra civil, e sim um dos períodos de maior estabilidade na galáxia. Os personagens são outros e os conflitos são outros, então é natural que, mesmo ainda inserido no mesmo universo e carregando a mesma "essência de Star Wars", a história seja diferente.
Nesta trilogia, é abordado como o mal inicialmente derrotou o bem e como uma democracia falha se tornou uma tirania sanguinária exatamente pelas ações daqueles que se diziam os defensores mais fervorosos da democracia. Nesta trilogia, vemos o triunfo da corrupção, da sede pelo poder e da guerra diante da virtude, do diálogo e da paz. Em linhas gerais, George Lucas, enquanto o criador da saga e a mente por trás de tudo, arrisca-se e expande o universo que ele próprio deu origem anos antes, apresentando novos planetas, novos cenários e novas histórias. É apresentando um mundo completamente diferente, com mais cores e com mais vida. Enquanto muitos fãs queriam era apenas uma repetição daquilo que já havia sido feito, Lucas nos apresenta algo inédito. E tudo isto começa em "Ameaça Fantasma".
Dessa maneira, muitos elementos que foram criticados na época são, na realidade, não apenas muito interessantes, mas também fundamentais para o desenvolvimento da trama e para a compreensão da história, tal qual as discussões políticas. É fundamental compreender as intrigas no Senado e a corrupção na República para, de tal modo, entender como uma longínqua República democrática tornou-se em um Império ditatorial. A política das prequelas - incluindo este filme - não é "chata", mas brilhante. O "Episódio I" também nos apresenta a antiga Ordem Jedi, e o papel dos cavaleiros não como guerreiros, mas como diplomatas e mediadores da paz, em um período de vasta estabilidade que, aos poucos, fica diante de desafios há muito tempo não vistos, como um possível retorno dos Sith.
Os efeitos especiais, para a época, foram espetaculares. Aliás, digo que, até mesmo observando com os olhos de hoje, envelheceram muito bem. A única crítica - que considero justa, diga-se de passagem - é que Lucas poderia ter usado mais efeitos práticos e que talvez tenha usado o CGI um pouco em excesso. Também é justa a crítica a Jar Jar Binks, que, no começo, é engraçado e até "fofo", porém é tão forçado, pelo diretor, a ser um alívio cômico que, no decorrer do longa, sem dúvida torna-se irritante. O próprio, logo, não foi personagem em si, mas a maneira como foi utilizado, sobretudo, na segunda metade do filme.
No entanto, tais elementos negativos não superam os inúmeros elementos positivos, tais quais a trilha sonora, os belíssimos efeitos visuais e a história, que considero boa, interessante e consistente. Além disso, somos presenteados com uma das maiores e mais intensas lutas com sabre de luz em toda a saga, no épico duelo entre Qui Gon e Obi Wan contra Darth Maul. Em linhas gerais, foi um bom começo para a nova trilogia.
Sendo assim, "Ameaça Fantasma" poderia ter sido melhor caso algumas pequenas mudanças tivessem sido feitas? Sim, mas apesar de tudo, o saldo final continua sendo positivo para este que, mesmo passando longe de ser o melhor filme da franquia, ainda é uma agradável experiência e uma boa produção.
Em "13 Horas", Michael Bay demonstra que é capaz de, ao amenizar seus vícios, entregar um bom trabalho. Sob uma direção sóbria e competente, o cineasta dá aula de como conduzir um filme de ação, garantindo um ritmo eletrizante e, ao mesmo tempo, contando a história com clareza. Baseado no livro homônimo, de Mitchell Zuckoff, a obra retrata os acontecimentos reais do ataque terrorista ao centro diplomático americano na Líbia e como um pequeno grupo de indivíduos, que sequer pertenciam oficialmente ao governo, evitaram, de maneira heroica, o que seria um massacre.
Um dos aspectos mais interessantes desta película, em minha avaliação, é retratar os eventos em questão sob a perspectiva dos homens que participaram dos combates, aqui representados por um elenco que cumpre bem o seu papel. No caso, refiro-me ao grupo de combatentes paramilitares, contratados pelo governo dos EUA, encarregado da segurança de um complexo secreto da CIA em território líbio, e que acabaram no olho do furacão de um dos acontecimentos recentes mais trágicos da política externa americana.
Nesse sentido, o filme transmite, com competência, ao público, os mesmos sentimentos de tensão, confusão e ansiedades vivenciados, na pele, pelos soldados que lá estavam. Isso, por sua vez, ocorre graças ao trabalho de qualidade não somente do diretor, mas também da edição e som, prendendo a atenção do espectador, do começo ao fim, em uma narrativa angustiante e frenética. Por exemplo, em determinadas cenas, os soldados sequer sabem quem é inimigo e quem é aliado e encontram-se cercados por pessoas que não conhecem e não sabem se podem confiar, e o suspense gerado por esse fato é muito bem repassado a quem assiste.
No entanto, a ação eletrizante - e muito bem construída - não impede o longa de nos apresentar detalhes dos personagens, desenvolvê-lo e nos conectar a eles. A frase, dita por Jack, "Eu imagino o que minhas filhas pensariam de mim. Morrer em um local em que ele nem deveria estar, por uma causa que não compreendia e por um país que ele pouco se importava", é simplesmente brutal e resume bem o sentimento dos combatentes inseridos naquela trágica situação.
Mesmo incapazes de compreender, por completo, o que ocorria e abandonados por seus superiores, prosseguiam esforçando-se para cumprir a sua missão e em salvar as suas respectivas vidas e as daqueles ao seu redor. Se, por um lado, o grau de complexidade do contexto e a tensão sentida trazem um elemento dramático forte ao roteiro, igualmente engrandecem, por outro, o sacrifício e o heroísmo dos soldados presentes e trazem um maior impacto emocional às cenas de ação que, sem isso, seriam apenas meras cenas de ação.
O filme, além de cumprir todos os requisitos de um bom filme de ação, é, sem dúvida, um dos melhores trabalhos de Michael Bay, que mostra como é capaz de entregar mais do que normalmente se vê em suas produções. No mais, serve como uma bela homenagem aos soldados, sobreviventes e mortos, participantes desses acontecimentos e um registro de erros graves cometidos pelo governo americano sob uma, naquele momento, desastrosa política externa comandada por Obama e Clinton.
Encerro a minha breve maratona de filmes do Wes Anderson com aquele que, embora não seja oficialmente o seu primeiro trabalho, é, sem dúvida, a porta de entrada ao excêntrico universo cinematográfico criado pelo diretor. Assisti a esse longa, pela primeira vez, há anos atrás e, apesar de ter considerado bom, não havia o entendido por completo. O curioso é que estava no colégio e tinha quase a mesma idade do protagonista, porém, talvez por ser ainda muito jovem, somente consegui devidamente apreciar a esta obra após reassistir um bom tempo depois e já estando mais velho.
Nesta produção, o então iniciante cineasta, apesar de ainda não abusar da simetria, já apresentava alguns dos seus marcantes elementos visuais. No caso, um senso de cor singular, focando principalmente em azuis, verdes e vermelhos para criar uma realidade intensificada. Não obstante, diferentemente do que irá ocorrer no restante da carreira de Anderson, na qual o visual excêntrico será o grande chamativo, aqui presenciamos uma versão mais "limpa" do diretor, com um foco maior no roteiro e nas personagens.
O roteiro, diga-se de passagem, começou a ser escrito por Wes e Owen Wilson, antigos colegas e amigos desde a faculdade, até bem antes do seu primeiro trabalho juntos - Bottle Rocket. Além disso, a história, incluindo características dos personagens, reúne diversos aspectos extraídos das suas respectivas juventudes e por experiências que passaram ao longo da vida. Por exemplo, Wilson, assim como o protagonista do filme, igualmente havia sido expulso do colégio.
De início, o personagem Max Fischer, muito bem interpretado por um Jason Schwartzman também em início de carreira, pode parecer simples, caricato e, em determinados momentos, até irritante. Repleto de energia e ambição, ele, por outro lado, carecia da mesma motivação nos seus estudos e de discernimento na vida acadêmica. Sempre tomando decisões impulsivas e distraindo-se em atividades extracurriculares enquanto suas notas encontravam-se no fundo do poço, Fischer estava constantemente a um fio de ser expulso.
No entanto, alguns detalhes cuidadosamente deixados pelos roteiristas nos ajudam a compreender melhor o protagonista, as suas motivações e uma escondida complexidade que, à princípio, pode passar despercebida. "Sic transit gloria". Essa é uma famosa expressão, em latim, que significa "assim passa a glória do mundo", indicando que a fama, o poder e as conquistas materiais são passageiras. Essa, não à toa, também é uma das primeiras coisas que Max diz à Sra Cross e uma frase presente na lápide de sua mãe.
Em outras palavras, Anderson deixa subentendido que a mãe de Marx era uma pessoa aventureira e sonhadora, mas que morreu ainda muito jovem antes de fazer tudo aquilo que gostaria. O protagonista, por sua vez, toma isso como uma espécie de aprendizado e busca viver a sua vida ao máximo, criando clubes, escrevendo peças e realizando o máximo de atividades que for possível.
No entanto, o principal tema do filme não é sobre "viver a vida ao máximo", e sim sobre amadurecimento e como esse processo, por vezes, pode ser tortuoso durante a juventude. Veja bem, Marx tem confiança, energia e ambição de sobra, mas sem o devido foco e maturidade, tudo isso, em dado momento, acaba se virando contra, com ele perdendo a garota que amava, os seus amigos e o seu futuro acadêmico. Isso tudo somente é recuperado quando ele amadurece, entende que não se pode ter tudo, que se deve valorizar boas amizades e que, muitas vezes, é necessário perdoar e seguir em frente.
Esse tema é explorado de maneira competente pelo filme, sob a forma de humor negro inserido em um romance. E a história flui naturalmente em um roteiro bem amarrado, divertido e acompanhado de trilha sonora composta por clássicos do rock britânico, que transmitem com perfeição o espírito do protagonista e do ambiente colegial. O elenco também merece elogios, pois, além de Jason, também brilham a deslumbrante Olivia Williams e o carismático Bill Murray, em uma de suas melhores atuações da carreira - e que iniciava uma longa parceria com o diretor.
Aliás, Murray merece uma menção especial, mesmo em um papel, em tese, coadjuvante. O seu personagem, Herman Blume, é um rico homem de meia idade, que enfrenta uma crise no casamento e vive uma vida tediosa, tornando-se amigo de Marx por admirar a sua confiança e enxergar nele todas as qualidades que gostaria de ver em si próprio e em seus filhos. Mesmo com todas as diferenças entre eles, incluindo a idade, ambos eram muito parecidos, por exemplo, em sua paixão à Sra Cross, que os levava a agir de forma irracional e até infantil - e rende talvez a melhor sequência do filme. Vale destacar que Anderson e Wilson criaram o personagem tendo o veterano ator em mente e ele não decepciona.
Em resumo, "Rushmore" é não apenas o primeiro vislumbre da realidade excêntrica criada por Wes Anderson, mas um dos melhores trabalhos do diretor e parada obrigatória para quem aprecia o seu estilo diferenciado. O filme diverte, emociona e nos traz um clima de nostalgia dos tempos de colégio e da juventude, assim como todas as descobertas, paixões e frustrações que vêm junto. Recomendado.
Em seu quarto trabalho como diretor, Wes Anderson nos apresenta mais uma criativa história que mistura comédia e drama. Neste caso, possui um tom, creio, mais dramático do que o habitual em suas obras - apesar de manter as cores vibrantes e humor seco característicos. Tendo adquirido um status "cult" com o passar do tempo, "Vida Aquática com Steve Zissou" não está dentre os melhores filmes do cineasta e não foi bem recebido na época, porém, dentre erros e acertos, ainda constituiu um filme agradável e mais profundo do que a maioria imagina.
Em primeiro lugar, importante deixar bem claro que qualquer um que assistir a essa película esperando uma grande aventura marítima durante a qual serão exploradas as profundezas dos oceanos - ao melhor estilo "20.000 léguas submarinas" - poderá se decepcionar um pouco. Por razões óbvias, existem varias cenas que nos imergem nos mais diversos ambientes marinhos, cuja natureza serve como pano de fundo para a história, mas o longa, fundamentalmente, não foca naquilo que ocorre dentro da água, e sim fora dela. Além disso, não é um filme sobre a vida aquática, e sim sobre a vida humana, e as aflições e complicações nela presentes.
Mais especificamente, este filme é sobre Steve Zissou, um cineasta, oceanógrafo e aventureiro, que funciona quase como uma paródia do famoso - e verdadeiro - explorador Jacques Costeau. Arrogante, orgulhoso e já no alto de seus 52 anos, Zissou, que havia construído fama e uma carreira de sucesso com documentários contando a sua jornada pelos sete mares, encara agora um declínio tanto em sua vida profissional quanto pessoal, bem como uma crise de meia idade. Do lado profissional, percebe filas cada vez menores para acompanhar os seus filmes e sente estar sendo esquecido pelo resto do mundo antes mesmo de se aposentar ou morrer. No quesito pessoal, vive um casamento em ruínas e que mantinha-se meramente nas aparências.
Diante desse contexto, Zissou, extremamente preocupado com a sua própria imagem e em ter o seu legado lembrado, já inicia esta película em um estado de melancolia e depressão ao perceber o interesse ao seu trabalho se esvaindo, os seus amigos o deixando e a esposa se afastando. Bill Murray, figurinha carimbada nos filmes de Anderson, encontra-se aqui perfeito em um papel que parece ter sido feito para ele. Em uma performance que, sob um certo ângulo, lembra "Lost in Translation", interpreta, com competência, um homem aterrorizado com o futuro e sofrendo com a inevitável passagem do tempo, no entanto que também prefere deixar tais sentimentos, em grande parte, internalizados.
Sendo assim, o filme acaba tendo o seu componente dramático se sobrepondo a comédia e se tornando talvez um dos mais tristes da carreira de Anderson. Tal fato se deve a essa luta constante de Zissou em resolver os inúmeros problemas que se acumulam em sua vida e a batalha contra um adversário que não pode ser vencido: o tempo. Esse arco principal, envolvendo o protagonista, é muito bem construído, e igualmente alavancado por Murray, cujo estilo de atuação - prepotente, cheio de si e com tons de humor sarcástico - encaixa-se ao personagem em questão.
O filme tem dificuldade, porém, em explorar alguns elementos da trama. Por exemplo, o relacionamento entre Steve e Ned, até proporciona algumas poucas boas cenas, mas nunca é realmente aprofundado de maneira proporcional a importância que deveria ter para a história. Além disso, a mudança de comportamento do protagonista e o seu "arco de redenção" não funcionam tão bem quanto em outras produções do diretor com arcos semelhantes. Sendo sincero, ocorre de maneira um tanto repentina e sequer dá para considerar uma mudança considerável. Outro aspecto que atrapalha é o ritmo da película, que, em diversas situações, torna-se excessivamente arrastado sem que tal demora para os eventos acontecerem, por sua vez, agregue algo de relevante ou benéfico a narrativa.
Por fim, o veredito é que o filme, apesar de não ser ruim como a terrível recepção que teve por parte de público e crítica há 20 anos possa fazer parecer, também esta longe da melhor versão de Wes Anderson, possuindo um roteiro, em determinados momentos, falho. No mais, vale ressaltar que a experiência é melhorada - de forma considerável - pelo belo visual e pela inusitada participação de Seu Jorge, que rouba a cena e fornece uma interessante atmosfera com o seu cover, em português, de músicas do David Bowie.
Prosseguindo em minha maratona pela cinematografia de Wes Anderson, "Viagem a Darjeeling" divide opiniões e não está dentre os seus melhores trabalhos, porém ainda assim consegue entregar, com algumas ressalvas, um resultado satisfatório. A película acompanha três irmãos que embarcam em uma viagem de trem, pela Índia, com o objetivo de se reaproximarem e curarem feridas do passado. Nesta obra, o diretor, mesmo conservando muito do seu estilo característico, traz uma abordagem, em minha avaliação, mais focada nos personagens e suas relações do que propriamente no visual.
Quanto a esse último quesito, creio que talvez seja o grande diferencial do filme e o seu principal positivo, que é o foco no relacionamento entre os protagonistas. Inclusive, a a relação entre irmãos - e quem não for filho único sabe do que estou falando - é aqui muito bem representada. É uma complexa situação em que as pessoas envolvidas se amam e se preocupam umas com as outras, mas, em muitas oportunidades, têm dificuldade de expressar tais emoções, o que pode gerar um estranho distanciamento por vezes confundido com indiferença.
A fala "Será que seríamos amigos se não fôssemos irmãos?" sintetiza, com simplicidade e perfeição, esse complicado sentimento de irmandade, em que conhecer uma pessoa desde a infância e crescer junto com ela não necessariamente traz, de forma imediata, confiança e amizade. No caso, às vezes isso demora para ser construído ou até está presente durante a infância, porém depois se desfaz na fase adulta e precisa ser reatado - isto ocorre com os irmãos Whitman.
No início, Francis prepara um verdadeiro planejamento para a viagem, com um itinerário meticulosamente organizado a fim de fazê-los passar por todos os locais sagrados e rituais supostamente necessários para a "transformação espiritual" que almejava estabelecer. A ironia, por sua vez, reside no fato de que foi somente na ocorrência de imprevistos pelo caminho que os três irmãos verdadeiramente conseguiram reatar os laços.
Nesse sentido, a moral da história é que qualquer jornada espiritual não ocorre apenas se apropriando de vestimentas específicas, imitando rituais e visitando locais específicos. Esse processo, logo, tem de ser algo interno, e não forçado de fora para dentro. Tem de ser algo genuíno, natural e até inesperado, e não preparado artificialmente. Ao longo da trama, é através das situações mais inusitadas que os protagonistas se aproximam, de maneira gradativa e bem desenvolvida por Anderson, junto a uma excelente trilha sonora.
No entanto, o filme também tem os seus problemas, com dois em particular que me incomodaram. O primeiro reside no trio de atores principal, que, em minha humilde opinião, não consegue trazer a profundidade que o filme tenta alcançar - Schwartzman e, sobretudo, Bordy, até se esforçam, mas Wilson é incapaz de entregar algo além do genérico. O segundo encontra-se em diversos elementos no roteiro que não são bem desenvolvidos, como a relação com a mãe - que aparece pouquíssimo - e o que motivou o afastamento entre os irmãos.
Em resumo, o filme, apesar de bom e eficiente em seu arco principal, falha em aprofundar outros temas e personagens secundários, bem como é prejudicado por atuações medianas do elenco. Levando tudo em consideração, vale a pena, mas recomendo assisti-lo somente após ver "Hotel Chevalier", um curta que funciona como prólogo e ao qual algumas referências são feitas.
Alguns artistas têm uma maneira de cativar o nosso olhar com a certeza do que fazem, seja pela temática da obra, pelo estilo ou por outro motivo às vezes inexplicável. Pois bem, Wes Anderson encaixa-se, perfeitamente, nessa definição. Baseado no livro homônimo escrito por Roald Dahl, "O Fantástico Sr Raposo" é mais um desses trabalhos do diretor que conseguem contar uma interessante história de maneira divertida, leve e excêntrica, porém sem deixar de abordar assuntos complexos e provocar reflexões.
Isso vai parecer um tanto estranho, mas um dos elementos que tornam este longa tão bom é o "paradoxo" que o compõe, isto é, como as suas ideias e escolhas são aparentemente conflituosas entre si e, não obstante, como coeso o resultado final acaba se tornando. Para início de conversa, temos um filme infantil cujo protagonista está passando por uma crise de meia idade. No caso, uma raposa, atualmente colunista em um jornal, que se vê paralisada pela passagem do tempo, encontrando-se diante tanto de um temor em relação ao futuro - pois está chegando ao final da vida - e de uma nostalgia acerca do passado. Então, ele decide retomar o que fazia durante a juventude, ou seja, roubar galinhas - dessa vez, no entanto, em uma escala muito maior, pois os alvos serão os poderosos fazendeiros Boggis, Bunce e Bean.
O problema é o risco que isso envolve, pois poderia não somente, após tantos anos longe de sua "rotina criminosa", ser capturado, como também colocar em perigo sua família e amigos. Analisando apenas pelo que foi descrito até aqui, muitos seriam levados a crer que se trata de uma espécie de drama familiar - e é, de certa forma. Porém, Wes Anderson, com o seu estilo característico, traz um tom lúdico e infantil para a história de um adulto em crise. Aliás, mais do que montar essa "salada" de elementos, o diretor consegue balancear o drama e a comédia de tal maneira que um não ofusca o outro e cada qual se encontra na medida certa. O filme é divertido e hilário, e, quando preciso, igualmente emocionante e profundo.
Verdade seja dita, utilizar animais selvagens para explorar a natureza humana não é algo novo - na verdade, bastante comum em filmes animados. O grande diferencial desta película é a forma como isso é feito. Ao prestar um pouco de atenção nos detalhes, percebemos que os animais se vestem como se estivessem nos anos 50, possuem empregos respeitáveis, comunicam-se com educação e polidez e agem com um grau civilizado. Enquanto isso, os poderosos fazendeiros, por sua vez, comportam-se de maneira mais animalesca e furiosa do que qualquer animal que aqui é retratado. No entanto, os animais são cientes do seus instintos e de sua natureza, enquanto os humanos, por outro lado, não percebem a destruição que provocam ao seu redor.
Obviamente, resumir esta obra somente a partir da velha dicotomia "animais vs humanos" seria muito pouco, pois o filme aborda inúmeros temas. É sobre valorizar aquilo que temos no presente, ao invés de alimentar uma cobiça constante por mais riquezas materiais no futuro ou um desejo obsessivo der retornar ao passado. É sobre encontrar a sua própria identidade, não se preocupando em ser "diferente" ou não dos outros, e sim reconhecendo que temos distintas personalidades e habilidades. E é sobre sobrevivência, mencionada no discurso final, isto é, nossa paixão e impulso para fazer com que o mundo crie um espaço para nós, em vez de deixarmos que o mundo nos coloque em um lugar para sua própria conveniência.
Isso me faz retornar, neste comentário que já está se tornando longo, ao que havia dito antes: o belo paradoxo que este filme representa. Mesmo sendo uma obra destinada ao público infantil e com uma trama, a rigor, simples, provoca várias reflexões, sendo que algumas podem até passar despercebidas perante todas as aventuras e piadas presentes na história e o ritmo dinâmico estabelecido por Anderson. De igual maneira, também pode passar despercebido o esforço gigantesco por trás da produção, que utilizou uma das mais antigas formas de animação, o "stop motion", em que a construção de um único frame já é um trabalho extremamente cansativo - porém que compensa no final.
Aliás, todo o estilo do filme é um verdadeiro deleite aos nossos sentidos. Além de todas as características às quais já estamos acostumados na cinematografia do diretor, a animação confere, dentre outras coisas, uma textura diferenciada - os pelos dos animais, por exemplo, são bem realistas. E, claro, os competentes efeitos visuais, a incrível trilha sonora e a belíssima fotografia, que, combinadas com maestria, constituem um filme que reúne elementos de pintura e de teatro de bonecos simultaneamente. Em linhas gerais, com um humor eficiente e uma complexidade que, paradoxalmente, reside em sua simplicidade, este é um dos melhores trabalhos de Wes Anderson e uma obra que cativa públicos de todas idades.
São poucas as vezes em que uma sequência consegue superar a obra que a precedeu, mas este, com certeza, é um desses casos. Enquanto o original foi revolucionário quanto a temática abordada e a tecnologia empregada - porém com um enredo mediano, esta produção consegue conciliar o deslumbrante e futurista visual com uma história, apesar de algumas ressalvas, mais sólida. Com espetaculares efeitos visuais e sonoros, "Tron: O Legado" é não somente um bom filme, mas uma verdadeira experiência cinematográfica, levando o universo criado por Steven Lisberger a um outro patamar.
Um dos aspectos que mais me agradou na história, além de toda a expansão feita em comparação ao primeiro filme, é a relação entre Kevin, o criador desse mundo digital, e Clu, a sua réplica virtual, criada com a missão de ajudá-lo a construir um "mundo perfeito". O problema é que o significado de "perfeição" pode ser, muitas vezes, complexo e difícil de definir, sendo algo que, nas palavras do próprio criador, sequer ele sabia descrever quando criou a sua cópia.
Alguns enxergam na presença de ordem e organização o ápice da perfeição, enquanto outros, por outro lado, entendem a desordem e a liberdade como elementos intrínsecos para o perfeito. Na ausência de uma definição clara, Clu opta pelo que considera ser o correto, que é controlando o mundo digital sob a forma de uma tirania, na qual qualquer coisa considerada imperfeição teria de ser eliminada, bem como qualquer obstáculo no caminho, inclusive o próprio Kevin. Logo, o antagonista não se enxerga fazendo o mal, e sim cumprindo a tarefa que foi designada a ele, o que dá complexidade ao personagem e à trama.
Acompanhando essa interessante história, estão os incríveis efeitos visuais, que realizam uma completa imersão, ao espectador, no mundo digital de Tron e proporcionam um deleite aos olhos de quem assiste ao filme. Também não dá para deixar de mencionar a eletrizante trilha sonora composta pelo Daft Punk, que contribui na ambientação de um universo futurista e "techo-noir". A combinação desses dois elementos, sem dúvida, garantem uma identidade marcante ao longa e, por si só, já tornam válida a experiência.
Os pontos negativos, no entanto, residem no roteiro, que, mesmo indiscutivelmente superior ao da obra original, tem falhas e um grande potencial desperdiçado, sobretudo na segunda metade. Primeiro, o plano de Clu, não obstante o fato de ser um personagem interessante, é bastante superficial e genérico, caindo no velho clichê de "vilão que quer dominar o mundo de alguma forma". Segundo, Zuse e Tron - cujo retorno é mal explicado - são personagens completamente descartáveis e que tomam decisões incoerentes, apenas ocupando um tempo que poderia ter sido melhor aproveitado com mais cenas da Korra.
Em resumo, é um bom filme e uma continuação que supera, por muito, o original. Porém, fiquei com a sensação de que diversos elementos do roteiro poderiam ter sido melhor desenvolvidos e, no final das contas, o que realmente se destaca é o visual e a trilha sonora.
Depois de muito tempo, decidi reassistir a esse filme e, sem dúvida, foi uma decisão acertada. Sendo apenas o terceiro longa da carreira de Wes Anderson, é possível perceber que ele ainda aperfeiçoava os seus toques característicos — uma mistura de humor sofisticado e rasteiro, simetria, pathos mórbido e um grande elenco. Apesar disso, não seria exagero dizer que esta obra, que aborda temas familiares delicados e provoca reflexões de uma forma lúdica e divertida, é também um dos melhores trabalhos do diretor.
No início, somos logo apresentados a uma breve introdução do passado dos Tenenbaums e das características de cada um dos personagens. De maneira eficiente, Anderson nos mostra as personalidades dos excêntricos indivíduos que irão fazer parte da história, os traumas que carregam e como tais elementos influenciaram - e continuam influenciando - em suas vidas e ajudaram a montar uma grande e disfuncional família. Um pai ausente, uma mãe que deu pouca liberdade aos filhos e crianças superdotadas e talentosas - mas que se tornaram adultos fracassados. Aliás, o elenco, de uma maneira geral, realiza uma grande performance na representação dessas interessantes figuras
Mas quem realmente faz o filme brilhar é Gene Hackman. O lendário vencedor do Oscar interpreta Royal Tenenbaum, o patriarca distante e moralmente flexível, que, agora falido e sozinho, tenta retomar a família. Hackman não queria participar dessa produção, odiou as filmagens e não entende Wes Anderson nem um pouco — e atua como se estivesse em um filme de Gene Hackman o tempo todo. E é isso que o torna especialmente "cru" e perfeito no papel — e sutilmente hilário.
Ao longo da trama, acompanhamos os percalços enfrentados por Royal ao tentar reatar os laços com os seus familiares, bem como o complicado relacionamento entre os próprios irmãos. À medida em que vai se tornando clara a presença de uma sólida barreira entre ele e sua família, fica igualmente evidente, para si, o estrago que o fato de ter sido um péssimo marido e um pai ausente fizeram a ele e a todos ao seu redor. Esse arco principal, graças a um roteiro bem elaborado, flui naturalmente, mesclando humor e drama na medida certa, e é acompanhado por bons arcos secundários, como aquele entre Richie e Margot, que, em dado momento, até toma para si o protagonismo da película.
Vale também destacar os aspectos técnicos, tais quais a eficiente edição, uma belíssima fotografia e uma trilha sonora espetacular, que tornam a experiência do espectador, mesmo em alguns momentos mais dramáticos, extremamente agradável e divertida. Em resumo, uma dramédia excêntrica e criativa que mostra como até a mais estranha e disfuncional família pode ter, com o devido esforço, solução.
Curiosidades:
O falcão chamado Mordecai foi sequestrado no meio das filmagens, e precisou ser trocado. Foi exigido dinheiro para devolver a ave, e, para não correr o risco das negociações atrasarem o processo de gravação, a equipe optou por substituir o falcão. É possível notar como, da metade para o final do filme, a ave possui mais penas brancas do que visto anteriormente, isso aconteceu pois são falcões diferentes.
O roteiro de Os Excêntricos Tenenbaums (2001) começou a ser escrito inspirado no divórcio dos pais do cineasta Wes Anderson: Melver e Texas Anderson. Contudo, conforme o processo de escrita foi fluindo, muitas características foram alteradas e o filme acabou não sendo tão fiel à realidade, apenas se assemelhou na profissão da mãe do cineasta e da personagem Etheline: arqueóloga.
Wes Anderson comentou em entrevistas sobre ter escrito o papel de Royal Tenenbaum pensando especificamente em Gene Hackman, porém, o ator quase recusou o convite. Segundo Hackman, ao ler o roteiro, se sentiu mal, pois enxergou muito do jeito frio e insensível do personagem nele mesmo, e achou que poderia desagradar a família ao interpretá-lo. No entanto, os familiares apoiaram Hackman a aceitar a oferta.
A Odisséia
3.7 193Tendo sido lançada inicialmente sob o formato de uma minissérie, pela NBC, e mais tarde reunida em mídia doméstica como um longa-metragem, "A Odisséia", de Andrei Konchalovsky pode não ser a produção de maior orçamento ou a de maior bilheteria intitulada com o mesmo nome da famosa obra de Homero. No entanto, é, sem dúvida, a melhor - e mais fiel ao material original - adaptação cinematográfica do épico retorno de Odisseu a sua terra natal.
Como em toda adaptação, aqui eventos são alterados, fundidos ou omitidos. Neste caso em particular, isso ocorre não por vontade do cineasta ou porque ele tivesse uma visão diferente, mas por mera necessidade, isto é, para que o filme pudesse durar três horas em vez de dez. Não obstante, o filme - irei chamar de filme, pois foi assim que assisti pela primeira vez - conserva o espírito e os temas do poema épico, com suas mais de 300 páginas, que permanecem intactos.
Apesar do baixo orçamento, o filme prova que mitos podem ser adaptados com sucesso para a tela e para uma audiência moderna sem perverter ou desvirtuar o material original. Graças à competência do experiente cineasta russo, que é responsável pela direção e pelo roteiro, esta obra consegue abordar todos os aspectos que tornam a história grandiosa - o esforço humano de Odisseu, a presença dos deuses e o caráter épico da narrativa - e, ao mesmo tempo, prender a atenção de espectadores de todos os tipos, isto é, tanto aqueles que leram quanto os que não leram o poema.
Dessa maneira, Konchalovsky traz a necessária dose de aventura e guerra, mas sem fazer o filme descarrilhar para uma ação desenfreada. Traz um toque de humor e leveza em algumas cenas, mas sem retirar a seriedade da história. Traz deuses e monstros, mas sem que a sua presença pareça estranha ao público moderno, e sim como parte do mundo no qual somos inseridos. Traz sensualidade, sem apelar à nudez explícita. E, acima de tudo, traz o épico, mas sem se sustentar somente na grandiosidade da narrativa para carregar o filme, e sim desenvolvendo bem os personagens e a trama com consistência.
Graças a um excelente trabalho da equipe técnica, que supera as limitações tecnológicas ainda presentes na época e o orçamento curto, é possível, através de uma completa imersão proporcionada pela obra, quase sentir o cheiro da areia, da magia, da poesia e da beleza de Ítaca e dos mares. Além de impecáveis cenários, fotografia e figurino, vale ressaltar que as criaturas são feitas à mão, sem ou com pouco uso de computação gráfica. Isso ocorre por mérito da Jim Henson Company, que dá vida ao lado sobrenatural da mitologia grega e não tem medo de retratar monstros de forma visceral e aterrorizante - Cila e Caríbdis, por exemplo, estão particularmente magníficas.
Paralelamente, é impossível deixar de mencionar o premiado compositor russo Eduard Artemyev, que cria uma trilha sonora que não apenas harmoniza e realça a atmosfera mediterrânea e mitológica da obra, mas também amplifica a carga emocional de momentos marcantes da história. De certa forma, é como se os eventos se desenrolassem à imagem e semelhança de um sonho, no qual o espectador é um convidado privilegiado na jornada de Odisseu para recuperar suas terras e seu amor.
Falando do elenco, começo por Armand Assante, que entrega-se de corpo e alma ao papel de Odisseu. Inclusive, ele declarou posteriormente que o roteirista e diretor Andrei Konchalovsky foi a única pessoa em quem confiou plenamente, e essa confiança e esse comprometimento resultaram em uma transposição perfeita da obra literária para a tela, capturando toda a imponência, a astúcia e a força física que o personagem exige, mas também não ignorando a sua arrogância e o seu orgulho. E o restante do elenco não fica muito para trás, tanto na aparência quanto na atuação, com os atores incorporando o papel com maestria e capturando a essência dos personagens tal como foram concebidos na obra literária. Menções especiais para as belas e elegantes Greta Scacchi e Isabella Rossellini, nos papéis respectivos de Penélope e Athena.
De fato, o único problema do filme é que as 3 horas de duração, que passam em um piscar de olhos, são muito pouco para uma história dessa magnitude e ficamos, ao término, com um gosto de querer mais ou de ficou faltando alguma coisa. Aliás, falando nisso, devo ser um pouco chato aqui e dizer que, em meio a tantas qualidades da produção, incomodou-me um pouco a ausência das sereias e o total apagamento do fiel cachorro Argos, apesar de, como ressaltei antes, tais alterações, mesmo doendo no coração, foram feitas por mera necessidade, e não por vontade do roteirista.
Não obstante os cortes feitos, o filme mostra respeito aos principais acontecimentos e detalhes do poema. No entanto, mais do que isso, "A Odisséia" de Konchalovsky destaca-se pelo respeito a essência da obra de Homero. Isso é brilhantemente sintetizado pela frase, proferida pelo protagonista, ao final: "Há muito de sagrado e bonito no mundo, mas nada mais bonito que um mundo criado pelo próprio homem. Um mundo a que se pode agarrar, e que sabe que será sempre seu. Você é o meu mundo, Penélope".
Odisseu sobrevive a uma guerra épica, supera inúmeros obstáculos, deuses e monstros e rejeita até a oferta pela própria imortalidade. Tudo isso para poder ter a oportunidade de reencontrar o seu filho, a sua terra e a sua esposa, que seriam exatamente as coisas que mais valorizava. A Odisséia de Homero é não uma crítica a humanidade ou a civilização, como recentemente um certo diretor acabou tendo a infelicidade de interpretar, mas o contrário, sendo um tributo a humanidade, ao homem e a nossa capacidade de vencer as maiores dificuldades para defender e preservar aquilo que temos como mais valioso e consideramos o nosso mundo: a nossa família e o nosso lar.
Uma grande adaptação e um filme de alto nível. Recomendado.
Ulysses
3.6 50 Assista AgoraSendo uma das primeiras adaptações da famosa história de Homero para o cinema, "Ulisses" impressiona pela qualidade técnica apresentada, não obstante às limitações em orçamento e tecnologia da época. Mesmo realizando alterações no enredo, e algumas tendo sido um tanto infelizes, o filme consegue preservar o caráter épico transmitido pelo poema e, dessa maneira, respeitar a essência que torna "A Odisséia" uma obra tão influente até os dias modernos.
Em primeiro lugar, destaco que esta versão de 1954 impressiona, sobretudo, pela escala, e, quando digo isso, refiro-me aos figurinos, a construção dos cenários e a direção de arte. O mundo é rico e impressionante, com as cenas ocorrendo em belas paisagens do Mediterrâneo e que auxiliam na construção da grandiosidade da história.
Na ausência de recursos tecnológicos mais avançados, devido a época em que esta película foi produzida, o filme compensa com uma utilização competente de recursos práticos. O caso mais emblemático é o da cena envolvendo o Ciclope, que, em minha avaliação, foi bem executada.
Outro trunfo é o elenco, com Kirk Douglas transmitindo, com maestria, a imponência, perspicácia e bravura de Odisseu, enquanto Anthony Quinn não fica muito atrás, no papel de Antinoos. No entanto, quem realmente brilha é a belíssima Silvana Mangano, que interpreta um papel duplo: a esposa fiel, Penélope, e a feiticeira sedutora, Circe. Isso traz uma complexidade psicológica interessante à narrativa, indicando que, para Ulisses, a segurança do lar e o perigo da tentação possuem o mesmo rosto.
Os maiores problemas do filme encontram-se nas alterações feitas no roteiro para conseguir encaixar uma história desse tamanho em uma película com menos de duas horas de duração. É notório que o diretor tenta ser o mais fiel possível ao poema e mostrar o máximo de eventos marcantes da obra de Homero, tais quais o encontro com Polifemo, as sereias, a estadia do protagonista em Feácia e o romance com Circe, mas, em dado momento, é obrigado a fazer cortes. E as principais vítimas acabam sendo Athena e Calipso, que são bastante excluídas da trama - a primeira é apenas brevemente mencionada ao final.
A alteração que mais me incomodou, por ser bastante desnecessária e evitável, foi quando os roteiristas, em uma completa mudança quanto à história original, atribuíram as dificuldades da jornada de volta de Odisseu ao saque do templo de Poseidon em Troia. Na realidade, ele não foi amaldiçoado pelos acontecimentos na queda da cidade, e sim por cegar o Ciclope, o filho do deus dos mares.
Em síntese, seria impossível para este filme, com os recursos disponíveis à época e a curta duração, ser inteiramente fiel ao poema de Homero, mas creio que elenco, diretor e produção técnica conseguem entregar um trabalho digno, apesar de longe do ideal, digno. Vale a pena ver.
O Retorno
3.1 38 Assista AgoraDirigido por Uberto Pasolini, "O Retorno" traz somente a última parte da jornada de Odisseu em sua volta à Itaca, iniciando exatamente no momento em que enfim alcança o litoral de sua terra natal. Por esse ser o trecho do poema com a menor presença de deuses, o diretor possui uma maior liberdade para colocar os elementos mitológicos de lado e focar no lado humano e psicológico da história e do protagonista.
Aqui, acompanhamos um comandante militar e rei desprovido de sua imponência e orgulho, retornando ao seu reino, agora entregue à miséria - em decorrência dos saques de invasores e pretendentes ao trono. Nem Odisseu e nem Itaca são mais os mesmos, estando transformados pelo longo período tanto da guerra quanto de seu retorno.
Tendo assistido este filme há um ano atrás e agora reassistindo após a "Odisséia" de Nolan, é impossível não fazer as comparações. Ambos os filmes trazem não apenas uma abordagem mais realista da história, mas também uma representação de um Odisseu traumatizado pela guerra. Apesar dessa abordagem, nos dois casos, ser equivocada e desviar da verdadeira essência do trabalho de Homero, considero que Pasolini executa melhor essa tarefa e, mesmo ainda distante do ideal, se aproxima mais da obra original.
Enquanto, no filme de Nolan, Odisseu sente remorso pela dor que infligiu nos outros, aqui ele sente tristeza pelos companheiros que levou à guerra e não conseguiu trazer de volta, o que é algo mais próximo daquilo presente no poema. Um protagonista, portanto, que retorna ao seu reino e é recebido não com louvor e festa, mas com a missão de expulsar os saqueadores e se mostrar, ao seu povo e a sua família, novamente digno de ocupar o trono.
Um dos motivos pelos quais Pasolini é mais bem sucedido em sua proposta reside no fato de que, como ele aborda apenas o capítulo final e não a Odisséia inteira, o foco no psicológico de Odisseu encaixa-se melhor. Em momento algum quis trazer uma aventura épica e nem vendeu o filme como tal - em outras palavras, deixou bem claro que iria trazer um aspecto específico da história e explorá-lo ao máximo. Nolan, por outro lado, quis realizar uma releitura semelhante da história - mas ainda tentando conservar outros elementos da narrativa - e acabou preso no meio do caminho, nem entregando um épico com grandiosidade e nem um drama psicológico com profundidade.
Outro fator que ajuda é a grande atuação de Ralph Fiennes e Juliette Binoche, que brilham em seus respectivos papéis e carregam o restante do elenco - que, por sua vez, não está a altura dos dois - e o filme inteiro nas costas. As cenas do reencontro com Argos e da prova do arco, por exemplo, são muito bem executadas pelo diretor e pelos atores, trazendo a carga de emoção necessária para esses que são momentos marcantes do poema.
O filme, apesar do êxito em retratar tais cenas, é prejudicado por desvios que faz em outros trechos da história original. Incomodou-me como Telemaco é aqui retratado, não como sendo um filho fiel ao pai e disposto a defender a sua mãe, mas como um adolescente mimado e, muitas vezes, incoerente - também não ajuda o ator escolhido ser bastante fraco. Além disso, considero que faltou emoção ao tão esperado reencontro entre Odisseu e Penélope - que, por sua vez, até parece estar triste, no início, pelo retorno do marido, o que foge muito da característica da personagem.
Entre erros e acertos, é mais uma daquelas obras que não busca realmente adaptar as histórias de Homero, mas reinterpreta-las sob uma óptica moderna. Aqui, pelos menos, devido ao fato de retratar o trecho mais "humano" e menos "mitológico" da Odisséia, pelo fato do diretor ter sido honesto sobre suas intenções e ter ao seu dispor um baixo orçamento, dá para dar um desconto. Como um drama psicológico, funciona muito bem, mas escolhas equivocadas no roteiro e limitações orçamentárias fazem o filme não ter a mesma qualidade em outros aspectos e ficar aquém daquilo que poderia ter sido.
A Odisseia
4.2 583Em "A Odisséia", Christopher Nolan toma a responsabilidade de adaptar aos cinemas aquela que, sem dúvida, é a história de ficção que mais resistiu ao implacável teste do tempo e mais inspirou a literatura ocidental. Aqui, são percebidas algumas das melhores qualidades do diretor, mas também encontram-se presentes, em igual proporção, alguns de seus mais comuns defeitos.
A começar por tudo aquilo que me agradou, é impossível não falar dos efeitos visuais e sonoros, bem como a impecável direção do experiente cineasta. Em termos de fotografia e som, o filme proporciona um verdadeiro espetáculo e uma ainda melhor experiência para quem assistiu nos cinemas - sobretudo, em IMAX. A trilha sonora de Ludwig Goransson se encaixa, com perfeição, com a jornada sofrida e misteriosa do protagonista de volta para casa.
Adendo: apesar dos elogios que faço ao visual, me incomodou um pouco a manutenção, em diversas cenas, da mesma "tonalidade cinzenta" adotada em sua filmografia, ainda mais considerando que a trama se passa no Mediterrâneo. Vale também ressaltar algumas imprecisões históricas no que se refere a armaduras e embarcações, que pareciam ter sido inspiradas mais nos vikings do que propriamente nos gregos, mas isso está longe de ser um grande problema para a maioria do público.
Destaco também alguns acontecimentos marcantes da história que seriam difíceis de representar em uma película, e que, em minha avaliação, os responsáveis desempenharam um competente trabalho. Refiro-me, em especial, as aparições do Ciclope e da bruxa Circe, que foram uns dos momentos que mais apreciei. A sequência que envolve o famoso "monstro de um olho só", por exemplo, é simplesmente aterrorizante, repassando, ao espectador, a aflição vivida pelos soldados que se depararam com ele e tentavam escapar de sua caverna.
As principais falhas deste filme, no entanto, residem naquilo que entendo como o mais importante de qualquer produção: o roteiro. E é aqui também que o meu maior temor pelo fato dessa história ter sido entregue nas mãos de Nolan acabou se confirmando. Como aqueles acostumados com o seu trabalho já sabem, o diretor, para o bem ou para o mal, gosta de adicionar o maior grau de realismo possível às suas obras, aproximando-as do espectador. Se, por um lado, isso pode proporcionar uma maior imersão e conexão por parte do público, igualmente torna-se um problema em se tratando da adaptação de uma narrativa épica e repleta de elementos mágicos e mitológicos.
Em outras palavras, se a grandiosidade da história de Homero - e pendurada por milhares de anos - reside exatamente em aspecto épico, trazê-la mais "para o chão", torná-la mais realista e aproximá-la do público talvez não seja a melhor opção. O filme, logo, encontra-se diante de um problema estabelecido pelo próprio estilo do diretor, sendo um épico que tem medo de ser visto como épico e com deuses que mais parecem humanos do que figuras mitológicas e imponentes.
E isso passa por diversos aspectos da produção do filme, desde a escolha de um elenco quase inteiramente americano até uma representação bastante superficial do submundo e outros eventos - tal qual o encontro com as sereias, que mal são vistas na tela. Presenciamos um espetáculo visual, mas sem a profundidade esperada de uma história dessa magnitude, o que, em grande parte, também deve-se a um roteiro com diálogos fracos e pouco memoráveis.
A "Lei de Zeus" é um termo recorrente na história, e ela está, embora com uma outra nomenclatura, também presente no poema. Apesar de Nolan acertar no significado dessa tradição, que consiste em tratar bem qualquer um como se fosse um deus disfarçado, ele falha ao utilizá-la, de maneira nem sempre coerente, para justificar a mensagem que tenta transmitir neste filme. Em síntese, o diretor traz não somente uma mensagem "anti-guerra", mas uma visão negativa acerca do homem e da civilização de uma maneira geral.
E como a Lei de Zeus se encaixa nisso? Bem, o ponto central da transformação do protagonista, desde a Guerra de Troia até o seu retorno à Itaca, nesta versão de Nolan, é um profundo arrependimento acerca de suas ações no conflito, que teriam violado a "lei", causando um trauma no personagem. Aqui, a guerra é tratada não como algo glorioso ou necessário, mas como algo traumático e melancólico. Mais do que um mero trauma psicológico, esse grande conflito é aqui colocado como a razão do declínio de toda uma civilização, marcando, junto as invasões dos "povos do mar", o fim da Era de Bronze.
Essa, no entanto, é a grande falha de Nolan nesta película e o que mais a distancia do poema de Homero. Na obra original, em momento algum é trazido um sentimento contra a guerra, mas, na realidade, a guerra é vista como um desastre inevitável que a humanidade deveria superar - e o próprio Cavalo de Troia, inclusive, seria um instrumento de superação. E, falando no Cavalo, a ideia de que seria uma violação da Lei de Zeus é simplesmente equivocada, pois, na verdade, seria uma resposta, bem como toda a Guerra de Troia, ao fato dos troianos terem inicialmente violado a "lei" ao sequestrar Helena. Aliás, no poema, o tática adotada por Odisseu é até apoiada por Athena e Poseidon.
É importante ressaltar que é impossível adaptar, ao cinema, qualquer obra literária de maneira completamente fiel. Mesmo nas melhores adaptações, sempre são necessárias alterações, seja adicionando algo novo ou cortando algum trecho que não seria adequado ao filme. Acontece que as melhores adaptações sabem fazer tais mudanças sem alterar a essência da história que estão adaptando, e também evitar inserir mensagens que não estão originalmente presentes, e esse cuidado é o que falta neste filme. Sendo assim, deixa de ser uma adaptação e torna-se quase que uma história diferente ou uma releitura, mas levemente inspirada em outra obra. Esta, de fato, é a Odisséia de Nolan, que pouco lembra a verdadeira Odisséia de Homero.
Outra coisa que me incomodou - e você que está lendo o comentário já percebe que essa lista é extensa - foi a maneira com a qual Odisseu é representado. Ora, estamos falando de alguém que é um comandante militar experiente e elaborou todo o planejamento da invasão à Troia, e, de repente, ao presenciar as consequências naturais da invasão que ele mesmo elaborou, ele está surpreso? Afinal, o que imaginava que iria ocorrer quando os soldados gregos, após uma década de uma guerra desgastante, iriam fazer ao adentrar nos muros da cidade?
Odisseu, no poema, é um indivíduo que, de fato, tem um tanto de arrogância e de orgulho, mas também é inteligente e, acima de tudo, um herói que encara os maiores obstáculos possíveis para reencontrar o seu lar e sua família. Ele é um elogio ao homem e a sua capacidade de superar dificuldades, e é exatamente a sua obstinação em retornar a sua terra que o faz ter o reconhecimento e a ajuda dos deuses - exceto, é claro, Poseidon. No filme, por outro lado, ele é alguém traumatizado pela guerra - algo não presente na obra original - e sem ter a mesma inteligência que deveria ser uma de suas principais qualidades - aliás, a cena em que atira uma flecha no Ciclope, de maneira completamente desnecessária, mesmo após os seus homens já terem saído da caverna, é ridícula.
Para não ficar a impressão de que somente a representação do protagonista foi equivocada, devo dizer que me surpreendeu o fato de Nolan reduzir significativamente a presença de outras mulheres centrais na história, tais quais Penelope, Atena e Cerce, que aparecem pouco. Também são excluídos momentos marcantes da história, como a revelação do nome de Odisseu ao Ciclope, o romance do protagonista com Cerce e a cena em que Penelope testa Odisseu para comprovar que ele é, de fato, o seu marido.
E aquilo que não foi excluído foi mostrado com uma drástica redução de seu significado e peso. A sequência que envolve Menelau, por exemplo, é, devido às alterações feitas, bastante desnecessária e descartável. E a cena do reencontro entre Odisseu e o seu cachorro Argo, que deveria ser um momento de profunda emoção, é limitada a meros segundos e passa em um piscar de olhos. Aliás, se quiserem uma representação realmente emocionante dessa cena, vejam "O Retorno", do diretor Uberto Pasolini - embora tal diferença também ocorra pelo fato de Ralph Fiennes ser um ator muito superior a Matt Damon.
Em conclusão, dá para dizer que, como um mero entretenimento por quase duas horas e meia no cinema, cumpre sua função. Quem for assistir no cinema, terá uma excelente experiência sob o ponto de vista visual e sonoro. Como adaptação de uma das maiores obras de ficção, no entanto, deixa muito a desejar. Quem for assistir esperando um épico mitológico, não irá encontrar nada de épico ou de mitológico.
Neon Genesis Evangelion: O Fim do Evangelho
4.3 263 Assista AgoraCerca de um ano após o encerramento do anime, Hideaki Anno trouxe ao mundo aquela que seria a verdadeira e definitiva conclusão da história - e que não pôde ser apresentada no seriado por limitações orçamentárias. Neste filme, são melhor explicados diversos elementos da trama ainda sem respostas e é trazido um desfecho para arcos que haviam sido deixados em aberto.
Em primeiro lugar, é importante ressaltar que "End of Evangelion" é, acima de tudo, uma obra extremamente complexa. Se você assistiu e não entendeu o final, não há o porquê de ter vergonha. E, se você assistiu e diz que entendeu tudo, ou está mentindo ou não entendeu tudo e ainda não sabe, pois esta película não foi feita para ser compreendida em sua totalidade logo depois da primeira assistida, ou mesmo da segunda e da terceira.
Foi feita, afinal para ser digerida lentamente dias, meses e anos após a sua conclusão, sendo repleta de simbolismos e trazendo inúmeras discussões filosóficas. Aliás, apesar de não compartilhar da opinião de que toda obra difícil de se compreender de imediato é necessariamente boa, devo dizer que algumas das grandes obras já feitas são quase que incompreensíveis à primeira vista. Sendo assim, este meu comentário é meramente uma tentativa de ilustrar aquilo que acho que entendi, após assistir e também após ter feito uma boa pesquisa.
E o filme, na realidade, corresponde a dois episódios de cerca de quarenta minutos unidos, com uma breve intermissão no meio, em uma mesma produção. Enquanto o anime encerra, de forma brilhante e inusitada, com uma abordagem mais psicológica, sob a perspectiva dos personagens - sobretudo, Shinji - e sem se preocupar com o restante das outras coisas "do lado de fora", este longa metragem mostra tudo aquilo que está acontecendo no mundo. Em outras palavras, o final do anime foca no destino do protagonista, ao passo em que o final do filme foca no destino do mundo de uma maneira geral.
A película consegue unir, de maneira competente, um visual fascinante com uma história que entrega momentos emocionantes e angustiantes, nos quais as emoções sentidas pelos personagens são bem repassadas ao público. Em muitas cenas, inclusive, simplesmente ficamos "de queixo caído", perplexos e como se estivéssemos em uma experiência psicodélica - e devo dizer que a parte final lembrou-me, de forma positiva, bastante do clássico "2001", de Stanley Kubrick. E não dá para ignorar a espetacular trilha sonora do seriado, que aqui retorna em grande estilo.
Feitas essas considerações, o filme inicia com a organização secreta SEELE, já tendo perdido a paciência com o comandante Gendo, buscando iniciar o misterioso projeto da "Instrumentalização Humana" por conta própria. Porém, com o intuito de alcançar esse objetivo, ordena a invasão do QG da NERV e do supercomputador Magi, pois as unidades Eva são parte essencial de seu plano. Logo no início, os personagens já se encontram encurralados em um beco sem saída.
========== ALERTA DE SPOILERS ==========
Um aspecto positivo, dentre vários, desta película - e que logo de imediato percebemos - é nos trazer mais informações não apenas sobre esse projeto em si, mas também acerca das reais intenções da SEELE. Em resumo, a organização, através das unidades já conhecidas e de outras mantidas escondidas, estaria buscando unir todas as almas e consciências humanas entre si e com os Evangelions/supercomputador Magi.
Os membros dessa organização acreditam que a humanidade, repleta de mal e violência e responsável por diversos problemas no mundo, seria imperfeita. Nesse sentido, seria necessário construir uma nova civilização - mais avançada e perfeita, que apenas poderia ser obtida a partir de uma evolução da própria raça humana como resultado do "Terceiro Impacto".
Em meio a isso, são vários os simbolismos que Hideaki traz para a história, e, apesar do próprio criador ter afirmado que muitos deles foram colocados meramente por uma razão "estética", eu creio que muitos deles possuem um forte significado religioso e filosófico. Por exemplo, considero que a recorrência da imagem de um "crucifixo" em diversas cenas como um desses simbolismos mais fortes.
Em minha interpretação, o projeto da Instrumentalização Humana, na tentativa de "melhorar" a humanidade e torná-la uma espécie de divindade, representaria, em uma grande ironia e tragédia, o verdadeiro fim da humanidade. Unindo todo o conhecimento do mundo em um único ser, este seria capaz de manipular todas as decisões das pessoas. Unindo todas as emoções das pessoas, seria capaz de manipular os seus sonhos.
Em linhas gerais, ao unir todas as pessoas em um único ser, iria acabar com o próprio conceito de ser humano, pois esse depende da convivência com outros indivíduos. O fim da humanidade viria a partir da extinção da individualidade e do livre arbítrio, com as pessoas unidas não em uma divindade, mas em uma monstruosidade artificial.
Sob uma perspectiva cristã, o "Evangelho" remete a uma série de ensinamentos através dos quais, a partir de nossa própria consciência e da liberdade que nos é dada, guiamos, enquanto indivíduos, as nossas decisões e a nossa vida, para o bem ou para o mal. O "Novo Evangelho" referido no título da obra de Hideaki Anno, seria uma mente única e poderosa comandando o coletivo de toda a raça humana, sem qualquer liberdade.
Esse plano dependeria, em última instância, daquele que estaria a bordo da unidade 01, isto é, Shinji. Em decorrência da vida traumática que o jovem teve, repleta de tristeza e decepções, a SEELE acreditava que a oportunidade de pôr fim à humanidade - e, dessa forma, do sofrimento causado pelos humanos - seria aceita por ele.
No entanto, a organização secreta não conseguiu prever a profunda reflexão feita por Shinji, que é mostrada no episódio de encerramento do anime. Tendo mudado a sua visão acerca da vida e de si próprio, ele acaba por decidir que a vida é sobre experimentar tanto dor quanto alegria e que rejeitar, por completo, o sofrimento levaria, no final das contas, a uma vida estéril e artificial.
Da mesma maneira que, como o protagonista descobre ao término do seriado, não vivemos sozinhos e a compreensão de quem somos depende da compreensão que temos acerca dos outros, não há felicidade sem tristeza, que é uma parte natural da existência. Enquanto vivermos em um mundo real com outras pessoas, e não em uma fantasia, e os humanos tiverem livre arbítrio e individualidade, eventualmente sofreremos, bem como também teremos momentos de prazer e felicidade, pois é assim que a vida é. Mudar isso seria acabar com a vida em si.
Sendo assim, Shinji, que tanto havia se acostumado a fugir dos problemas, dos outros e até de si próprio, toma, ao fim, a decisão de não fugir mais e de encarar todo o sofrimento e dores do mundo. Não adianta fugir do sofrimento da vida, pois o sofrimento é inerente à vida. Viver, inevitavelmente, é sofrer, mas, ao aceitar as dores que a vida nos traz, também podemos ter a oportunidade de vivenciar toda a alegria, a felicidade e a liberdade que a vida também traz. E esse é o grande ensinamento do filme.
Tendo isso em mente, Shinji não rejeita a humanidade, mas essa nova versão da humanidade que seria alcançada pela Instrumentalização, que seria, em síntese, não-humana. Ao fazê-lo, liberta as almas do mundo e termina em uma praia com Asuka. Ao tentar estrangular a menina e ela reclamar, Shinji percebe que o mundo voltou a ser o que era antes, pois, em uma "instrumentalidade", ela não seria capaz de expressar dor ou desgosto. Ao ouvir isso, percebe que, enfim, está livre, pois a vida, apesar do sofrimento a ela inerente, merece ser vivida.
Portanto, "The End of Evangelion" é daqueles filmes pesados e complexos que merece não apenas ser assistido, mas igualmente revisto e estudado várias vezes. Belíssimo no aspecto estético, emocionante e profundo nas reflexões que provoca, é um encerramento com chave de ouro para a saga criada por Hideaki Anno.
Guerra Mundial Z
3.5 3,3K Assista AgoraBaseado em um livro homônimo escrito por Max Brooks, "Guerra Mundial Z" traz uma interessante mistura entre o terror zumbi clássico, comum a obras do gênero, com um pouco de ficção científica e drama político. Em linhas gerais, o apocalipse zumbi é visto aqui menos sob o aspecto pessoal ou de sobrevivência de um determinado grupo de indivíduos, mas, tal qual o título sugere, como algo mundial - ou, em outras palavras, como uma gigantesca pandemia, tendo como diferença o fato de que, neste caso, a doença transforma as pessoas em mortos vivos.
No lado que envolve o terror em si, é possível dizer que o filme cumpre a tarefa com maestria. Muito por conta da boa direção de Marc Forster, a película consegue, de maneira competente, transmitir ao espectador as mesmas sensações de tensão vivenciadas pelos personagens, seja apenas durante a construção do suspense, seja nos momentos de ação eletrizante. A decisão de representar os zumbis como sendo extremamente velozes e capazes de dar grandes saltos também colabora com o aumento do efeito aterrorizante.
Por outro lado, é na parte associada a ficção científica e a política, que preenchem uma considerável porção da história, que o longa metragem dá as maiores derrapadas. Como não li o livro que inspirou a esta película e, logo, desconheço eventuais mudanças feitas no enredo original, considero que os diversos problemas na produção da película foram os responsáveis por esse processo.
Para quem não sabe, este filme teve sucessivas mudanças nos roteiristas responsáveis por escrever o script, totalizando, ao final, três diferentes pessoas encarregadas, durante a produção, pelo roteiro. E tamanhas mudanças não passam despercebidas, sobretudo ao percebermos uma considerável alteração no tom e na consistência da trama de sua primeira parte ao restante da película.
O ponto que mais me incomodou reside na série de elementos da história que são mal explicados e desenvolvidos de maneira rasa, até como se o roteirista final encarregado tivesse que ter apressado a finalização do roteiro sem a devida revisão. Por exemplo, o fato de Gerry ter "descoberto" uma forma de camuflar as pessoas quanto aos zumbis a partir de uma rápida observação e sem qualquer evidência que suportasse sua teoria é, no mínimo, absurdo. E mais absurdo que um grupo de cientistas renomados tenha aceito isso sem maiores explicações.
E, claro, o roteiro é repleto de outras conveniências. Dentre elas, cito o prisioneiro capturado em uma prisão coreana que, por alguma razão, sabe de inúmeras coisas e informações essenciais, mesmo que estivesse lá preso, por um motivo sem qualquer relação com o apocalipse zumbi, há bastante tempo e antes da pandemia sequer começar. E poderia citar o protagonista sobrevivendo a uma queda fatal de avião, ou a vez em que ele toma um frasco aleatório contendo um vírus e acaba, por sorte, o camuflando contra zumbis. Enfim, a lista de eventos semelhantes que ocorrem no filme é longa.
Em resumo, o filme prende bem a atenção do espectador e é um terror eficiente, mas peca em detalhes cruciais do roteiro, que cai bastante de qualidade do meio para o final.
Demolição
3.7 488 Assista Agora"Eu gostaria de destruir esse relógio e espalhar todas as suas partes pelo chão. Quando eu vejo algo assim, eu quero saber o que tem dentro dele". Essa frase, dita em uma conversa entre Davis e Phil sobre um velho relógio no escritório do segundo, talvez seja o que melhor define o filme, a história e as motivações do protagonista nesta que é uma bem executada obra de drama.
Essa película já inicia com o banqueiro, como é descrito na sinopse, na cena em que perde sua esposa em um acidente trágico. Não conhecemos absolutamente nada sobre ela ou sobre a vida de casal dos dois e, logo no começo da história, a personagem em questão é subitamente retirada e a vida do protagonista alterada por completo.
No entanto, para a nossa surpresa, a vida dele, pelo menos no aspecto externo, não muda tanto assim. Logo após os instantes iniciais, acompanhamos Davis seguindo a sua rotina, seja dentro de casa ou seja no trabalho, como se nada tivesse acontecido. E, também ao longo da trama, descobrimos que o personagem não somente desconhecia muita coisa da sua esposa, como também até sentia que não a amava mais.
A "demolição" ao qual o título do filme se refere começa a partir daí, quando Davis simplesmente passa a destruir coisas. E, ao escrever "coisas", refiro-me a qualquer coisa, desde máquinas de café a portas ou até mesmo uma casa por completo. Aquilo que poderia ser uma mera estranha reação a uma situação de luto pode ser interpretada, de forma mais ampla, como o resultado de uma incapacidade do personagem em lidar com os próprios sentimentos, que agora extravasam e são catalisados a esse processo de destruição, e em ver um sentido em sua vida.
Como ilustrado na frase que mencionei ao início do comentário, essa demolição não seria algo aleatório, mas uma tentativa desordenada de entender aquilo que tem, aquilo que ele quer ao seu futuro e até mesmo aquilo que é. Diante da dificuldade de entender melhor a sua relação com a esposa, acaba destruindo tudo aquilo que, na ausência dela, ainda o ligava a mesma: a relação com a sua família, a sua casa e assim por diante.
Destruir, não pelo mero objetivo de destruir, mas de colocar todas as peças no chão e de, ao sentir alguma coisa perante todo esse processo, tentar ver o que há por dentro, inclusive de si próprio. Davis, por não entender os outros e nem ele mesmo, sente um completo vazio, e tudo aquilo que realiza, desde os meros atos de destruição até o relacionamento com Karen, têm o objetivo de tentar preencher esse vazio.
E é exatamente quando consegue demolir tudo que tinha na vida - o trabalho, a relação com a família da esposa e até a tentativa de relacionamento com Karen - e alcança o fundo do poço, ele enfim entende o que ele quer, o que ele sente e quem ele é. Aos poucos, o próprio amor que sentia pela esposa, que considerava que já havia se exaurido, é redescoberto. Aos poucos, a esposa que antes parecia estranha para ele, é alguém que ele passa a conhecer, mesmo que, para isso, tenha que ter primeiro a perdido.
Apesar de todas as qualidades, das quais também destaco a excepcional performance do elenco de uma maneira geral, o filme tem dois pontos que fazem a qualidade cair um pouco e colocam uma história com potencial de ser "ótima" no patamar de "apenas bom". O primeiro é o arco envolvendo o filho de Karen que parece um pouco "fora de lugar" e não conecta-se tanto com o foco central da trama, e o segundo é uma revelação feita, ao final, sobre a Júlia, que considero desnecessária.
Em resumo, o filme é um dos melhores trabalhos de Jean-Marc Vallée - e, infelizmente o seu último trabalho cinematográfico, em decorrência de sua morte prematura - e uma interessante história sobre luto, vazio e a busca por entendermos nossos sentimentos e o nosso objetivo na vida.
Corações de Ferro
3.9 1,4K Assista AgoraDirigido por David Ayer, "Corações de Ferro" é, sem dúvida, um retrato brutal da Segunda Guerra Mundial, mostrando os duros efeitos que o conflito provocou em civis e militares - não poupando sequer aqueles que estavam do lado vitorioso. Em meio a várias qualidades do filme, creio, no entanto, que a produção pecou, de maneira considerável, na história abordada - que, mesmo inserida em um contexto real, é fictícia - e no desenvolvimento dos personagens.
Irei começar aqui por tudo aquilo que considero que Ayer acertou. A sua direção, em primeiro lugar, bem como todos os aspectos técnicos do longa metragem, é algo que não pode ser ignorado, sobretudo pela sua precisão nas cenas de batalha. O diretor consegue, de maneira competente, retratar os conflitos com realismo e fidelidade histórica e, ao mesmo tempo, transmitir ao espectador a tensão sentida pelos personagens.
Quanto a mensagem repassada pela película, é bem claro que corresponde a uma mensagem contra a guerra de uma maneira geral, mostrando a destruição que provoca no mundo e em cada soldado individualmente. Colocados dentro de uma carnificina, os homens, em sua maioria, ou são extremamente frios e desprovidos de emoções, ou são entregues aos seus instintos mais primitivos, como resultado de traumas sofridos em batalha.
O problema é que, independente da mensagem que alguém queira repassar em um filme, ela deve ser sempre acompanhada de uma história e personagens consistentes e interessantes, e é esse o ponto em que esta obra falha. A começar pelos personagens, confesso que, com exceção do Norman e do Boyd, eu não senti interesse por absolutamente nenhum dos que estão representados na trama. E eu diria que todos os personagens, até mesmo aqueles aos quais tive uma maior conexão, são muito mal desenvolvidos e, em diversos momentos, extremamente genéricos e caricatos.
Aliás, quanto ao personagem interpretado por John Bernthal, ele é tão repugnante que, em dado momento, até me faz torcer para que algum nazista o mate. Como mencionei antes, o objetivo do filme é exatamente mostrar os efeitos da guerra nos soldados, mas, no caso deste personagem em particular, passou-se bastante do ponto. Os roteiristas miraram em alguém traumatizado e transformado pela guerra, mas acabaram acertando em alguém que, convenhamos, mais parece meramente um completo imbecil e sem qualquer característica para ser elogiada.
E, com relação à história em si, o filme é repleto de cenas que ou falham em repassar a mensagem desejada ou pecam pela inconsistência. Por exemplo, existe uma cena em o comandante leva Norman a uma sala repleta de nazistas mortos e diz algo no sentido de que "ideais são pacíficos, mas a realidade é violenta" e depois ambos saem do local sem falar mais alguma palavra, e confesso que não entendi o que uma coisa tem haver com a outra. Pareceu-me uma tentativa do filme ser mais profundo do que realmente os roteiristas são capazes de entregar em profundidade.
Outro momento desses é aquele em, novamente, o comandante e Logan estão juntos, dessa vez com duas mulheres alemãs em um apartamento. A intenção, creio, era procurar trazer uma maior leveza à história para, em seguida, mostrar a perversão sexual dos outros soldados, já completamente afetados pela guerra, que chegaram depois. No entanto, o resultado foi apenas uma cena extremamente desconfortável, grotesca e que prolongou-se mais do que deveria por motivos que desconheço - o comandante, inclusive, poderia ter, logo no começo, impedido os seus subordinados de agir de maneira mal educada com a garota, mas permitiu a situação continuar bem além do aceitável.
E, para completar, a cena final, que é absurda. Apesar do comandante, no começo do filme, dizer que nada mais importava para ele do que manter os seus companheiros vivos, ele não vê problema algum em arriscar a sua própria vida e a dos outros ao enfrentar, apenas com seu tanque atolado, uma tropa de trezentos soldados alemães, quando ele poderia simplesmente recuar e retornar ao combate com reforços. Um comportamento, no mínimo, inconsistente por parte do personagem. E, por incrível que pareça, apesar de toda a desvantagem numérica, os alemães são derrotados no confronto, o que seria impossível na vida real.
Não me levem a mal, o filme tem uma direção, no aspecto técnico, exemplar, além de uma excelente fotografia, boas atuações e cenas de batalha eletrizantes. Porém, o fraco roteiro, bem como o praticamente nulo desenvolvimento dos personagens - com a exceção de Norman, acaba, sem dúvida, atrapalhando a mensagem que a obra queria passar e ofuscando as qualidades apresentadas. Veredito: não é ruim e dá para passar o tempo, mas está longe de ser essa obra prima que vi vários comentando.
Invasores
3.1 430 Assista AgoraÉ raro encontrar uma obra literária que, não sendo muito conhecida e nem aclamada universalmente, tenha sido adaptada tantas vezes, ao cinema, quanto "The Body Snatchers", de Jack Finney. E impressionante o fato da quarta adaptação ser, não obstante o fato de possuir a maior quantidade de material para se inspirar, a mais fraca.
E isso se deve, sobretudo, ao fraco roteiro. O filme até começa de maneira interessante, construindo um suspense acerca da misteriosa doença que está se espalhando e dos efeitos dela nas pessoas. No entanto, dos primeiros quarenta minutos pra frente, a história vai, gradativamente, apagando o lado da ficção-científica e acentuando o lado da ação, o que prejudica bastante a trama.
Não à toa, é a partir daí que o enredo torna-se cada vez mais confuso e, por consequência, desinteressante ao espectador. Além disso, acompanhamos uma série de furos no roteiro, acontecimentos mal explicados e uma história que não sabe no que focar. Mesmo com o filme até possuindo algumas cenas que, fora do contexto, poderiam ser interpretadas como boas, elas se perdem em meio a inúmeros outros momentos que tiveram execução ruim e que parecem ter sido escritos à pressa por algum roteirista.
Por exemplo, a mãe que está desesperada em encontrar o filho, mas esquece de simplesmente ligar ao celular dele. O técnico de laboratório que mal descobre a doença e, dois depois, aparentemente já sabe tudo sobre ela. O fato dos pesquisadores não procurarem outras pessoas imunes e focarem somente na criança. E, claro, a cena em que a doutora tem uma injeção de adrenalina no bolso e, por algum motivo, prefere arriscar cair no sono ao invés de usá-la.
Também não é bem desenvolvido o que esses seres alienígenas realmente querem. Em dado instante, fica parecendo até que essa invasão pode ser benéfica, pois, após o seu início, vemos notícias de fins de guerras, medicamentos gratuitos sendo distribuídos e assim por diante. Se eles possuem alguma má intenção por trás, em momento algum é mostrado.
Sendo assim, o filme, perdido nas próprias incoerências do roteiro e sem saber ao certo se quer ser ficção-científica, ação ou suspense, acaba, no final das contas, não sendo nada disso. Nicole Kidman está deslumbrante na película, mas ela e o restante do elenco apenas podem fazer o que é possível com o script que lhes foi entregue e, convenhamos, não é suficiente para salvar isso aqui. Um desperdício de tempo para o espectador, e um desperdício ainda maior de uma proposta que possuía potencial.
Paul: O Alien Fugitivo
3.4 759 Assista AgoraDos filmes protagonizados pela dupla Simon Pegg e Nick Frost, este talvez seja um dos mais fracos, apesar de também ser aquele que tinha o maior potencial. Em "Paul", temos a história de um alien que encontra dois nerds pelo caminho e pega carona com eles enquanto fogem do governo americano.
O alienígena em si é o melhor personagem do filme. Com a voz do Seth Rogen, que se encaixa muito bem aqui, e um CGI decente, ele, refugiado há bastante tempo na Terra, já adquiriu um grande conhecimento não apenas da cultura terrestre como também dos humanos de uma maneira geral.
A grande sacada da história, inclusive, é a como eles representaram o alienígena. Apesar de ter a aparência mais genérica possível para um extraterrestre, a sua personalidade é completamente distinta daquilo que se imagina de tal criatura. Em síntese, é quase como um humano no corpo de um alien, com um jeito irreverente e algumas boas piadas.
O problema é que, com exceção de alguns momentos que realmente são engraçados e boas referências a clássicos da ficção científica, o filme deixa a desejar durante a maior parte do tempo. Além de várias cenas sem graça e desnecessárias, vale mencionar que, em muitas oportunidades que poderiam ter sido melhor exploradas, os roteiristas se contentaram com piadas baratas, rasas e pouco criativas. E os outros personagens, sinceramente, são bem desinteressantes e mal desenvolvidos.
Sendo assim, a película até traz uma boa proposta, mas não consegue ir muito além do estilo "comédia pastelão" e "besteirol". Ou, em outras palavras, é o tipo de filme "Sessão da Tarde": despretensioso, repleto de altos e baixos e apenas bom mesmo para passar o tempo enquanto desligamos o cérebro por umas duas horas, sem nada de impressionante ou muito inteligente.
Obsessão
3.9 931 Assista AgoraDirigido pelo jovem Curry Barker, "Obsessão" é não somente uma das gratas surpresas deste ano no cinema, mas também um daqueles filmes capazes de ensinar algumas lições à indústria cinematográfica. Primeiro, que é possível entregar um bom produto sem necessariamente gastar centenas de milhões no orçamento e, segundo, que é importante dar oportunidade a novos e desconhecidos talentos ao invés de continuar na mesmice com nomes repetidos.
Para quem não sabe, Barker, antes de se aventurar no mundo da direção, era - e ainda é - youtuber, sendo dono de um canal no qual posta sketchs de comédia. Sendo assim, não é surpresa, àqueles já acostumados ao seu trabalho, a interessante mistura que ele faz aqui - que, é verdade, não é mais exatamente uma grande novidade e até vem se tornando bastante comum nos últimos anos - entre comédia e terror.
No entanto, mais importante do que a junção em si entre esses dois gêneros aparentemente distantes, encontra-se a forma com que esse processo é feito. Aqui, Barker não adota nem um estilo de "comédia pastelão" e nem um terror barato apoiado em jumpscares - embora eles estão presentes e utilizados com competência, mas utiliza os melhores elementos e qualidades desses estilos de forma natural e bem encaixada na história, de forma que o desenrolar dos acontecimentos não parece forçado, mas flui da maneira que se esperaria que os personagens em questão agissem diante dos fatos.
E essa abordagem do diretor é sustentada por um roteiro, também escrito por ele, que, apesar de beber da fonte de outras produções de terror, inova e subverte as expectativas. Digo isso porque o que estamos acostumados a ver em um filme do gênero que envolve um rapaz apaixonado por uma garota é algo no sentido do homem invadindo a privacidade e agindo de maneira esquisita e obcecada em relação a mulher. Pois bem, aqui é exatamente o oposto.
Após o desejo que o protagonista, Baron, faz ao "salgueiro mágico" de que Nikki se apaixone por ele e o ame mais do que tudo no mundo, o desejo é, para a sua surpresa e para o seu posterior arrependimento, atendido. Sendo assim, não se trata de um homem que passa o filme inteiro, como em outras películas do tipo, obcecado ou atraído por um enlouquecido desejo sexual em torno de uma mulher e que nunca é atendido ou retribuído. Aqui, a atração é retribuída, e isso exatamente o que acaba sendo o problema para o homem.
O diretor realiza um excelente trabalho na construção do enredo, que é muito bem estruturado, raramente cai em repetições ou artifícios baratos e mantém bem a atenção do espectador ao longo da trama. O terror e a angústia que Baron sente são, com eficiência, repassados, ao público, a tal ponto que, em muitos momentos, ficamos sufocados e sem ver saída daquela situação que não seja através de alguma tragédia. Logo, o mais forte aspecto do terror, em "Obsessão", não é um susto aqui e acolá, mas no constante estado de tensão e desconforto que o filme nos impõe a partir do desenrolar dos acontecimentos.
Também vale destacar, dentre um elenco que entregou grandes performances, a atuação de Inde Navarrette. A atriz, que provavelmente a partir de agora irá receber mais oportunidades na carreira, presenteia-nos com uma atuação emblemática em produções de terror. Muito sustentada por sua expressividade corporal, ela consegue alterar entre a comédia e o horror, o delicado e o bruto e o amoroso e o aterrorizante com extrema naturalidade, encaixando-se bem na loucura - e nos conflitos - de sua personagem.
Um aspecto que considero interessante, e que pode ter passado batido por alguns, é que a grande e verdadeira "obsessão" ao qual o título se refere não é a que Nikki sente por Baron, mas a que Baron sente por Nikki. Isso porque a primeira age como age devido a uma espécie de feitiço colocado sobre ela, e não por vontade própria. Inclusive, em muitas cenas, vemos a luta da "verdadeira Nikki", que ainda está presente em algum lugar dentro da mente, em tentar fugir dessa situação louca em que está inserida.
O segundo, por sua vez, embora não seja possível dizer que o que está ocorrendo era exatamente o que ele tinha em mente, ainda sente uma forte atração pela garota. Mesmo com todas as loucuras que a sua "namorada possuída" realiza, ele jamais sugere romper o relacionamento, constantemente retorna para a sua casa apesar de todos os perigos imprevisíveis pela frente e insiste em tentar mantê-la como sua até os últimos instantes, quando enfim percebe que tem de pôr fim a tudo.
Logo, quem é o verdadeiro obcecado: a mulher que age, afetada por uma magia sobrenatural, como absurdamente louca de paixão por um homem ou o homem que, por livre vontade, continua com essa mulher mesmo ciente do que está ocorrendo? Baron, logo, está, sim, assustado e aterrorizado pelo comportamento de Nikki, mas prolonga o seu desejo de tê-la ao seu lado até os momentos finais, pois também, durante boa parte do tempo, é incapaz de deixá-la ir embora.
Aliás, eu até acho que o final - que, diga-se de passagem, achei um tanto fraco e bastante apressado - poderia ter sido melhor sem o seu suicídio, com ele simplesmente aceitando a realidade e mantendo a Nikki presa naquela situação. Mais trágico, mas mais coerente com o personagem e com suas inseguranças e obsessões.
No geral, um filme muito bom, que faz juz aos elogios e que vale a pena assistir. Recomendado.
O Patriota
3.7 511 Assista AgoraEm "O Patriota", acompanhamos o personagem fictício Benjamin Martin, que já foi um grande e feroz soldado em guerras prévias, mas que, com sete filhos para cuidar e viúvo, opta por deixar o seu passado violento para trás e viver uma vida tranquila e pacífica. Isso muda, no entanto, com o início da Revolução Americana, que, em meio à promessa por independência e a luta contra os impostos, acaba também, como efeito colateral, levando a um sangrento conflito entre EUA e Inglaterra. Com essa guerra não ficando limitada aos campos de batalha e também atingindo civis, o protagonista se vê obrigado a pegar novamente em armas para salvar a sua família.
É interessante observar que o filme tem, sem dúvidas, os seus exageros e imprecisões históricas, mas isso não necessariamente impacta, de maneira muito negativa, a produção. E isso ocorre pelo simples fato de que esta película não se propõe a ser um documentário ou uma representação fiel dos fatos, mas um drama sobre um homem que luta contra um passado do qual se envergonha enquanto, ao mesmo tempo, busca usar sua natureza violenta para proteger a quem ama. Como mencionado antes, nem o personagem existiu na vida real e nem a história retratada de fato ocorreu, o que fornece mais liberdade criativa ao diretor e roteiristas, mas a trama meramente se passa durante um evento real - a Guerra de Independência.
Além disso, claramente o filme busca retratar esse período histórico sob a perspectiva americana, o que é natural considerando que o protagonista é americano, o que explica a caracterização extremamente negativa dada aos ingleses, pois é assim que os americanos, à época, viam-nos em meio as tentativas de aumentar o poder real e os impostos e reduzir a autonomia à colônia. No entanto, vale também destacar que a obra acerta em diversos aspectos históricos, como, por exemplo, ao mostrar que nem todos os americanos concordaram com a Independência e que alguns até lutaram ao lado dos ingleses.
Outro aspecto positivo foram as cenas de batalha, que não somente foi bem retratadas do ponto de vista histórico, como, na mesma medida, foram eletrizantes e emocionantes, prendendo a atenção do espectador e sendo um dos pontos altos do filme. A execução impecável dos confrontos entre ingleses e americanos, em combinação à sempre brilhante trilha sonora de John Williams, contribuíram para fornecer um forte impacto emocional à história.
Pessoalmente, incomodou-me um pouco a tentativa de estabelecer um romance para Benjamin e mais ainda com tal tentativa ter sido feita com uma personagem que, em tese, é da família. Mesmo sabendo que, naquele período, isso era mais comum, ainda assim fiquei com um certo desconforto e considerei um tanto desnecessário, apesar de reconhecer que Joely Richardson está deslumbrante no filme. Outro ponto que foi bem exagerado foi a cena em que ele e os filhos emboscam os ingleses, que, com todo respeito, mais parecia ter sido retirada da franquia do "Rambo".
Entre erros e acertos, o filme, em linhas gerais, é um bom drama e uma ótima experiência para quem curte filmes de batalhas históricas e guerras. No entanto, como mencionei antes, antes de assistir, espere uma história fictícia que ocorre em um evento real e não um documentário.
Cowboy Bebop: O Filme
4.1 115Confesso que, ao ter encerrado o anime e visto que havia um filme do "Cowboy Bebop", pensei que seria somente mais uma daquelas películas que se aproveitam do sucesso de um seriado para, no final das contas, entregar uma história sem graça, inútil e apenas sustentada por puro fan service. No entanto, fui surpreendido por um filme que é genuinamente muito bom, possuindo uma interessante história e entretendo o espectador.
Em linhas gerais, esta obra possui todos os elementos que amamos na série. E, quando digo isso, refiro-me não apenas aos nossos já conhecidos caçadores de recompensa, mas também ao estilo de animação, ao humor, as cenas de ação e, obviamente, a sempre espetacular trilha sonora, que mais uma vez encaixa-se com perfeição.
Além disso, eu também pontuaria que, por se tratar de um filme com quase duas horas de duração, aqui é percebido um melhor desenvolvimento tanto da história quanto dos personagens envolvidos em relação ao que seria possível se essa história fosse resumida em somente um ou dois episódios. E a trama, diga-se de passagem, é bem elaborada, com um vilão interessante, bons personagens secundários e um suspense/mistério que leva o tempo necessário para ser desvendado.
Aliás, essa talvez seja a minha única reclamação acerca da série, que é o fato de algumas tramas, para se encaixarem em um período de vinte minutos, muitas vezes desenvolviam-se de maneira muito apressada e com personagens secundários, que, durando somente um único episódio, surgiam e depois desapareciam sem sequer termos tempo para nos importar com eles. Neste filme, gostei bastante de Vincent e Elektra e das suas histórias de origem. Também é interessante acompanhar os paralelos feitos entre o antagonista da película e Spike, o protagonista do anime, que aqui tem suas motivações e personalidade muito bem exploradas, em especial naquela cena em que conversa com Elektra.
Em resumo: o filme realmente é muito bom e divertido e com uma trama bem elaborada. Se você é fã da série, aqui está presente tudo de positivo que tornou a série um clássico e ainda um pouco além do que isso.
Devoradores de Estrelas
4.0 798 Assista AgoraSendo uma adaptação do livro homônimo escrito por Andy Weir, "Devoradores de Estrelas" - ou simplesmente "Project Hail Mary", em seu título original - é uma grata surpresa não somente no campo da ficção científica, mas no cinema de uma maneira geral. Em uma época marcada, infelizmente, tanto pela falta de criatividade e de ousadia na indústria cinematográfica quanto pelas reiteradas tentativas de impor agendas ideológicas, é refrescante ver um filme que não apenas foge aos clichês e "lugares comuns" da maioria das produções, mas também nos traz uma história leve, divertida e inspiradora dedicada a todos os públicos.
Na obra, acompanhamos Ryland Grace, um professor de biologia brilhante - mas que pouco acredita no próprio potencial - que é selecionado a fazer parte de um projeto com o objetivo de estudar - e, se possível, apresentar uma solução para resolver o problema o quanto antes - microrganismos misteriosos que estão destruindo o Sol e, por consequência, ameaçam toda a vida na Terra. Devido a sua participação nesse projeto, a situação dramática existente e diversas outras circunstâncias explicadas ao longo da película, ele acaba por ser incluído em uma missão espacial que nada mais é do que uma tentativa desesperadora de salvar a humanidade - ou, em outras palavras, um último "Hail Mary".
A decisão do roteirista e dos diretores de iniciar a história quando ele acorda do coma, isto é, quando ele já está há vários anos dentro da nave espacial, e, aos poucos, ir explicando o passado do protagonista e como ele se inseriu nessa situação é bem interessante e acertada. Dessa maneira, passamos a conhecer Ryland "de trás pra frente", assim como também compreender o tamanho da situação em que ele e toda a humanidade encontram-se situados e a importância do seu trabalho, cujo sucesso será decisivo na salvação da vida na Terra.
O ex-professor - e agora astronauta - se vê forçado a encarar os seus medos, explorar o desconhecido e acreditar em seu próprio potencial de encontrar soluções e alternativas em meio a um contexto extremamente desesperador e no qual bilhões de vidas dependem dele. Mesmo dada a dramaticidade envolvida, é fascinante observar como a obra - e isso também tem muito mérito da boa atuação de Ryan Gosling - consegue proporcionar momentos de leveza e humor.
Outro destaque - e também responsável por bastante do humor da película - é Rocky, o inesperado e improvável companheiro de Grace nessa aventura. À princípio, a sua aparência pode causar estranheza, mas, com o passar do tempo, não apenas nos acostumamos com o alienígena, mas igualmente passamos a amá-lo com o seu jeito puro, divertido e corajoso. Para quem não sabe, as cenas envolvendo Rocky, embora tenham um pouco de CGI e animação, foram feitas, em grande parte, com o uso de bonecos e efeitos práticos, o que dá um ar mais "realista" ao personagem.
Em combinação aos méritos no roteiro e na história, "Project Hail Mary" impressiona pelos efeitos visuais deslumbrantes, competente direção e boa trilha sonora, que ajudam a, juntos, constituir uma divertida, apaixonante e visualmente belíssima odisseia no espaço. Além disso, traz mensagens inspiradoras acerca de amizade, esperança e sobre acreditar em si próprio mesmo nos momentos em que tudo parece estar perdido. Grata surpresa e uma boa pedida para assistir com toda a família.
Star Wars, Episódio III: A Vingança dos Sith
4.1 1,2K Assista AgoraRevisitando a Trilogia Prequela (Parte 3).
No capítulo final desta trilogia, George Lucas nos entrega aquele que considero um de seus melhores trabalhos como diretor, um dos melhores filmes de toda a saga e, particularmente, o meu favorito da franquia. Em "A Vingança dos Sith", temos o desfecho de todos os acontecimentos iniciados previamente e a conclusão não apenas da transformação de Anakin em Darth Vader, mas também da República no Império Galáctico.
Neste filme, alcança-se o ápice daquilo que as prequelas, desde o início, buscaram mostrar: a derrota do bem sobre o mal, o triunfo da tirania sobre a democracia e a liberdade. No entanto, como já sabemos o que vai acontecer, isto é, que Anakin eventualmente cairá ao lado sombrio da Força e que Palpatine triunfará e se tornará imperador da galáxia, o grande mistério reside em como as coisas, de fato, irão acontecer. Em outras palavras, a grandiosidade da história reside nos detalhes que proporcionam o desenrolar dos fatos.
No término do episódio anterior, por exemplo, acompanhamos o início oficial das Guerras Clônicas. Em decorrência da corrupção e ineficiência da República, planetas e sistemas que sentiam-se escanteados decidem separar-se de um sistema de governo que não é mais visto por eles como benéfico e montar a sua própria confederação independente. Ansiosos por uma maior autonomia, são atraídos pelo ex-mestre Jedi Conde Dooku, cujo carisma e liderança não somente atrai mais interessados à causa, mas igualmente os convence a ir além e construir um grande exército de dróides com o intuito de forçar o Senado galáctico a aceitar os termos de sua independência - embora, devido ao surgimento do exército de clones, acabou forçando o início de uma prolongada guerra.
Pouco eles sabiam, no entanto, que, por trás das promessas de autonomia e liberdade pregadas por Dooku, estava um interesse muito mais obscuro. Sidious, o lorde Sith que havia motivado a crise entre a Federação do Comércio e Naboo anos antes e plantado a "semente" da discórdia em uma galáxia que já demonstrava sinais de instabilidade e descontentamento, enquanto a "liderança fantasma" da Confederação dos Sistemas Independentes e mestre de Dooku, pouco se importava com os desejos dos planetas e sistemas que aderiam a causa e sim com o estabelecimento de um futuro império governado por ele.
Pouco também eles sabiam que Sidious, na verdade, era ninguém menos que Palpatine, o chanceler da República, isto é, o principal inimigo dos separatistas. Em outras palavras, Sidious arquitetou uma grande guerra tendo como objetivo, em meio ao caos e discórdia inerentes a um conflito de proporções galácticas, a obtenção de poderes cada vez maiores que o possibilitassem tornar o seu império uma realidade. Em uma interessante crítica feita por Lucas a como democracias são corrompidas a tornarem-se tiranias, aqui vemos como, em períodos considerados de crise, até mesmo aqueles que se dizem os maiores defensores dos ideais democráticos são capazes de abrir mão desses ideais e princípios em nome de uma eventual segurança ou até mesmo com a justificativa de preservar a própria democracia, que, na realidade, acaba sendo destruída, junto com a liberdade, a partir de tais ações. Essa trama pode ser sintetizada pela clássica frase de Benjamin Franklin: "quem abre mão da liberdade essencial para comprar um pouco de segurança temporária, não merece nem liberdade nem segurança".
Aliás, os seus objetivos não limitavam-se a meros aspectos políticos, mas sendo ele um dos últimos representantes do Lado Negro da Força, mas também abrangiam uma verdadeira guerra espiritual. Isso ocorre por que os Jedi, devido a derrota dos Sith e a constituição de um período de estabilidade na galáxia, passaram os últimos milhares de anos ocupando-se mais como diplomatas do que como guerreiros e servindo como instrumentos pela manutenção da paz. Devido à guerra em vigência, esses mesmos Jedi tornaram-se generais, liderando inúmeras tropas de clones, e passavam mais tempo em batalhas e conflitos em locais longínquos do que propriamente negociando paz ou meditando sobre a Força, o que, em tese, deveria ser a sua ocupação primordial.
Ou seja, Palpatine não apenas corrompeu o Senado e as principais instituições que sustentavam a democracia na República, mas, na mesma proporção, corrompeu a Ordem Jedi, obrigando-a abandonar diversos dos seus princípios e valores em detrimento do conflito em andamento, trazendo confusão até mesmo a sábios mestres e levando-os a cometer erros que, em outros tempos, não teriam cometido. Naturalmente, o Lorde Sith utilizou ambos os fatos ao seu favor, pois somente um Senado corrompido o alçaria a máximos poderes e somente uma Ordem Jedi enfraquecida e confusa não seria capaz de detê-lo ou de deter a transformação de Anakin ao Lado Negro da Força. Aliás, a ascensão de Sidious e os seus planos maquiavélicos são brilhantemente escritos por George Lucas e um dos pontos altos deste filme e da trilogia de uma maneira geral.
E falando em Anakin, temos aqui uma da histórias mais trágicas já narradas em ficção científica e no cinema. Sim, uma tragédia já esperada, mas, mesmo assim, igualmente impactante. Em primeiro lugar, gostaria logo de tentar rebater uma das críticas mais frequentes e, ao meu ver, infundadas acerca desse personagem, que é a de que a sua queda ao Lado Negro foi "muito rápida" ou até mesmo incoerente. Um pouco mais de atenção nos detalhes, como eu mencionei no início do meu comentário, é fundamental nesse caso. O passo inicial para compreender a sua transformação começa já no primeiro episódio, quando ele é aceito na Ordem aos nove anos de idade, o que é considerado muito tarde para o padrão dos Jedi.
Isso, na verdade, possui um motivo muito claro: os Jedi são, podemos dizer, estoicos, isto é, são capazes de ter emoções e sentimentos, mas não podem deixar tais coisas atrapalharem os seus julgamentos. Os Jedi precisam estar completamente focados em compreender o mistério da força não através de uma busca incessante por poder e conhecimento, mas a partir de uma compreensão do seu interior. Somente tendo a sua mente em equilíbrio, será capaz de se equilibrar na Força e utilizá-la da maneira adequada - não fazendo uso dela como um instrumento para benefício particular, e sim como parte de si próprio e em benefício de todos. E, para ter a mente em completo equilíbrios, eles creem em limpar a vida de quaisquer possessões, seja materiais ou emotivas. E a melhor forma de fazer isso é não ter família ou relacionamentos amorosos, o que explica o motivo de indivíduos sensíveis na Força serem levados tão cedo à Ordem.
O problema é que Anakin, diferente de outros Jedi, já havia tido uma vida e uma família antes de chegar em Coruscant. Sim, como um escravo e, sim, apenas tendo a sua mãe como família, mas, ainda assim, uma vida e uma família. Seria impossível, para ele, desvencilhar-se totalmente ou esquecer das memórias de sua vida passada, o que o fazia ser mais emotivo e mais propenso a relacionamentos pessoais estreitos do que os seus companheiros da Ordem.
E, no episódio anterior, outro fato marcante: a perda de sua mãe, de uma forma traumática e brutal, e o fato de não ter sido capaz, mesmo com todo o seu treinamento Jedi e dos seus poderes, de salvar a sua vida, é um dos eventos mais importantes de sua trajetória nesta trilogia. Ele havia tido visões de que a sua mãe estava em perigo, ou seja, tinha noção de algum ruim poderia acontecer, e mesmo assim havia sido incapaz de salvá-la. Tal acontecimento o traz tristeza, raiva e ódio que, aos poucos, começam a alimentar um monstro dentro de si.
Neste filme, Anakin volta a ter visões perturbadoras, desta vez sobre a sua esposa, Padmé, morrendo durante o parto, o que, obviamente, seria algo duplamente trágico, pois poderia custar a vida tanto de sua amada quanto de seu filho. É importante deixar bem claro esses não são apenas mero pesadelos, mas verdadeiras visões do futuro, o que já é sabido que indivíduos sensíveis à Força são capazes de ter - apesar de poderem ser difíceis de interpretar e cuja tentativa de evitar que se tornem realidade é algo ainda visto como arriscado e confuso de acordo com a filosofia Jedi. Portanto, agora Anakin, que já havia tido uma visão que se cumpriu sobre a morte de sua mãe, convivia agora com visões de mesmo teor sobre sua esposa e filho, sendo algo que claramente afeta a cabeça de qualquer indivíduo e mais ainda alguém extremamente passional, protetivo e que teve a vida marcada por tragédias como Skywalker.
Além disso, temos a relação entre Anakin e Palpatine. Lucas, de forma sutil, deixa claro em diversas falas e partes da história, que ambos são próximos e confiam um no outro a tal ponto de confidenciar segredos entre si. Em determinados momentos, é até possível interpretar que Anakin vê Palpatine quase como uma figura paterna, sobretudo devido a tudo que o Chanceler fez por ele desde que o mesmo chegou em Coruscant, aconselhando-o, motivando-o e entendendo os seus anseios e desejos de uma maneira que os demais mestres Jedi, inclusive Obi-Wan, não conseguiam.
No entanto, isso não ocorre por engano ou acidente, mas é uma relação que representa meramente mais uma dentre as várias peças do xadrez jogado por Palpatine, que cuidadosamente construiu, ao lado do tempo, uma relação próxima e afetuosa com Anakin, sempre escolhendo bem as palavras a serem ditas com o intuito de obter a confiança máxima do jovem e, no momento certo, utilizá-la em seu favor. Enquanto Obi-Wan e o resto do Conselho buscam corrigir os defeitos de Anakin com o intuito de orientá-lo a tornar-se um melhor Jedi, Palpatine abraça a impulsividade, a raiva e o forte caráter emocional, que, enquanto são vistas como um problema de acordo com a filosofia dos Jedi, são, por outro lado, interpretadas como qualidades e importantes instrumentos segundo a filosofia dos Sith. E vai além: também oferece a Anakin poderes e conhecimentos que poderiam não apenas salvar a sua amada, mas também torná-lo mais poderoso do que qualquer outro, o que era exatamente o Anakin almejava.
Aliás, esse um ponto interessante a ser analisado: não, Anakin não se transforma em um Sith neste filme, mas, na realidade, ele sempre foi - e apenas não sabia ainda. As suas emoções à flor da pele, o seu forte caráter possessivo, o seu descrédito pelas regras impostas pela Ordem e a sua incessante busca por poder combinam muito mais com aquilo que é celebrado pelo Lado Negro da Força e representam elementos fundamentais para compreender a sua transformação em Darth Vader, que, se analisarmos sob essa óptica, foi mais uma mera mudança de nome ou um "empurrão" final do que propriamente uma alteração radical nas características do personagem, que sempre estiveram ali presentes.
Junto aos traumas de seu passado e de sua amizade com Palpatine, temos também como um forte elemento a insatisfação de Anakin com a Ordem Jedi, que ele crê estar limitando os seus poderes e não reconhecendo todos os seus feitos durante a guerra. No entanto, ao pensar desse jeito, acaba não percebendo que estaria dando razão ao demais mestres por não concederem a ele o mesmo título, pois um verdadeiro mestre jamais poderia apresentar tal nível de impaciência, emoção ou busca desenfreada pelo poder. Em outras palavras: o Jedi que deseja muito receber um determinado título ou alcançar certa posição talvez não mereça nem esse título e nem essa posição.
Sendo assim, podemos recapitular. Anakin, que já havia tido visões que se tornaram realidade sobre a morte de sua mãe - e que ele se culpava por não ter sido capaz de evitar, vem apresentando, repetidamente, visões perturbadoras que retratam a morte de sua esposa e filho. Nesse cenário, Palpatine, um homem que ele vê como um amigo e quase como um pai, o promete poderes capazes de salvar aqueles que ama, enquanto a Ordem Jedi, por outro lado, o nega o título de mestre e ainda o coloca para espionar esse mesmo homem que o está prometendo grandes poderes. E, com tudo isso se desenrolando na mente de um jovem impulsivo, emotivo, sedento por poder, aflito por proteger aqueles próximos de si e que jamais teve muita obediência pelas regras da Ordem. Enxergando as coisas sob essa perspectiva, é tão absurdo assim que Anakin tenha tomado a decisão que tomou? Na realidade, não somente não é absurdo, como também é algo perfeitamente esperado levando em consideração as circunstâncias.
Não querendo justificar o que ele fez, sobretudo o assassinato de pessoas inocentes que nada tinham culpa pelo desenrolar dos acontecimentos, mas é importante, mesmo que discordando das ações de um personagem, entender as suas motivações e George Lucas, ao longo dos três filmes, preparou muito bem a explicação para o surgimento de Darth Vader e as motivações por trás de tal fato. Sendo assim, o que ocorre com o personagem é trágico, mas é um tragédia que tem uma lógica por trás. Ao decepar o braço de Mace Windu, Anakin não estava pensando em proteger Palpatine, mas em proteger Padmé, que, segundo a sua interpretação manipulada pelo lorde Sith, somente poderia ser salva através de Palpatine e dos poderes que ele possuía. E, no final, foram as suas ações que, ironicamente, desencadearam a morte de sua amada. Anakin é o símbolo máximo de como uma pessoa com grande potencial e talento é capaz de arruinar a própria vida ao ser incapaz de controlar os próprios impulsos.
Em linhas gerais, "A Vingança dos Sith" não apenas possui uma história e roteiro espetaculares, mas possui excepcionais efeitos visuais, grandiosa trilha sonora - aqui John Williams consegue superar até mesmo o seu altíssimos padrão de qualidade - e alguns dos momentos mais marcantes, impactantes e emocionantes da saga, como, por exemplo, o mais longo e épico duelo de sabre de luz já mostrado no cinema, entre Anakin e Obi-Wan. Um excelente encerramento para uma boa trilogia, que, subestimada à época, envelheceu como vinho.
Star Wars, Episódio II: Ataque dos Clones
3.7 800 Assista AgoraRevisitando a Trilogia Prequela (parte 2)...
Em "Ataque dos Clones", George Lucas nos entrega o maior salto temporal da franquia, com uma década de diferença, na história, entre o episódio anterior e este. Padmé, antes uma jovem rainha de Naboo, agora é uma senadora, representando o seu planeta natal, na capital galática, Coruscante. Obi-Wan Kenobi, antes um padawan de Qui-Gon, agora já está consolidado como um cavaleiro Jedi. Anakin, antes uma mera criança - porém com imenso potencial - resgatada em Tatooine, agora era não somente o padawan de Kenobi, mas um jovem adulto. E a galáxia, antes em um contexto de estabilidade - uma estabilidade defeituosa e marcada pela corrupção na política, é verdade - agora se encontra em uma crise, com a ascensão de uma aliança separatista, liderada por um misterioso ex-mestre Jedi, o Conde Dookan (ou Dooku, em seu nome original em inglês).
Assim como seu predecessor, este filme dividiu e ainda divide opiniões entre os fãs da saga. Pessoalmente, eu não apenas sempre gostei desta película, e da trilogia de uma maneira geral, como posso dizer que minha opinião até melhorou bastante com o passar do tempo, à medida em que, a cada reassistida, entendia cada vez mais as intrigas políticas que marcam a história e também determinadas escolhas por parte das personagens.
Em primeiro lugar, comecemos pelos aspectos que são, sem sombra de dúvida, qualidades desta produção que nem os maiores opositores da nova trilogia podem se negar a elogiar: os aspectos técnicos. Embora prossiga a impressão de que talvez Lucas poderia ter usado um pouco mais os efeitos práticos em algumas situações, é inegável que o filme, mais uma vez, apresenta-nos belíssimos efeitos visuais - em um CGI que ainda impressiona até os dias de hoje - e, como de costume, uma espetacular trilha sonora por parte de John Williams, que aqui nos entrega um dos seus melhores trabalhos, com "Across the Stars".
Inclusive, o visual do filme, em conjunto com o estilo da história em diversas partes do longa metragem, torna "Ataque dos Clones" um episódio bastante único dentro do universo Star Wars. Nesse sentido, as cenas noturnas e a investigação conduzida por Obi-Wan, que o leva a desvendar a formação dos dois exércitos - os clones e os droides - que estão sendo preparados para uma guerra prestes a explodir, são exemplos de momentos em que o diretor leva a franquia a um interessante clima de "noir" e mistério inédito à franquia. No entanto, Lucas utiliza isso como um importante complemento, ou um elemento adicional na trama, sem se separar, demasiadamente, do estilo de aventura, fantasia e romance que marcam a saga, que, como era de se esperar, também estão presentes de maneira marcante.
Em segundo lugar, gostaria de mencionar o romance entre Anakin e Padmé, que é, além de um dos pontos centrais do filme, talvez um dos aspectos mais polêmicos do episódio. Dentre as reclamações costumeiramente feitas, encontram-se as afirmações de que o casal não possui uma "química" ou que o romance ocorreu de maneira muito repentina. Creio que tais afirmações desconsideram elementos fundamentais não apenas dos personagens em si, como também do próprio universo no qual se passa a história.
É curioso observar, e considero que isso pode passar despercebido por muitos que assistiram a esta obra, que Anakin e Padmé, apesar de trajetórias tão distintas e tendo origens completamente diferentes, com o primeiro nascendo escravo em um terra desértica e a segunda nascendo na realeza de um planeta que mais lembra um paraíso, são, ao mesmo tempo, muito parecidos. E essa constatação, somada a natural atração física mútua entre eles, é, sem dúvida, um fator que ajuda a explicar como eles acabam iniciando um relacionamento.
Vejamos bem: ambos, desde cedo, jamais tiveram a oportunidade de uma infância e adolescência, digamos, normais. No caso de Padmé, devido a sua carreira política, primeiro como rainha e depois como senadora. No caso de Anakin, devido primeiro ao fato de ter sido um escravo até os nove anos de idade e, depois, em decorrência de seu treinamento Jedi. Os dois, logo, jamais tiveram tempo para se divertir, para relaxar e, como consequência, para amar, sendo duas almas jovens, porém solitárias - ou, pelo menos, solitárias até se reencontrarem.
Também vale a pena mencionar que os dois possuem mentalidades muito parecidas, sendo marcadas pela impulsividade e pela tendência em se colocar em situações arriscadas. Nenhum dos dois, portanto, possui qualquer medo ou receio do perigo, da aventura ou daquilo que é considerado proibido. Padmé já havia demonstrado isso no filme anterior, em seu retorno à Naboo para salvar o seu planeta em uma missão quase suicida e demonstra tal comportamento novamente logo no início deste episódio, ao recusar diversas tentativas de reforçar a sua segurança não obstante as tentativas de assassinato contra a sua pessoa. E Anakin, por sua vez, demonstra essa atitude de forma contínua, sobretudo em seu desdém pelas regras da Ordem Jedi e pelas instruções de seu mestre, Obi-Wan.
Logo, levando tudo isso em consideração, e também colocando na balança que ambos passaram vários dias sozinhos em Naboo, um dos locais mais românticos da galáxia, e que logo em seguida passaram, juntos, por experiências impactantes em suas vidas, primeiro em Tatooine e depois em Geonosis, é tão irrealista, improvável e incompreensível, como alguns apontam, que essa dupla se apaixone e forme um casal? Muito pelo contrário: a paixão entre os dois é algo perfeitamente natural.
O filme também dá mais um importante passo na transformação de Anakin e na sua gradativa atração pelo Lado Negro da força. A perda de sua mãe, de uma forma traumática e brutal, e o fato de não ter sido capaz, mesmo com todo o seu treinamento Jedi e dos seus poderes, de salvar a sua vida, é um dos eventos mais importantes de sua trajetória nesta trilogia. Muitas das decisões que o protagonista toma daqui pra frente serão, direto ou indiretamente, influenciadas por esse fato, sobretudo a sua busca incessante por aumentar o seu poder, mesmo que seguindo caminhos além da tradicional educação fornecida pelos Jedi e por seu mestre, Obi-Wan, e por proteger aqueles que ama - carregando, consigo, a culpa de não ter salvado Shmi.
Também vale a pena mencionar Conde Dookan (ou Dooku), um dos personagens mais fascinantes e subestimados, em minha visão, da Prequela, cujo único defeito, digamos, é ter aparecido muito pouco. Isso por que ele não é um Sith, digamos, tradicional. Ele é um ex-mestre Jedi, elegante e sábio, que anteriormente era bastante respeitado pela Ordem tanto pela sua sabedoria quanto pela sua habilidade em duelo, porém que se desiludiu com a corrupção e ineficiência da República e com a subserviência dos Jedi a uma democracia falha, o que inevitavelmente o levou a ser seduzido por Sidious. Este, por sua vez, o encarregou de comandar a Confederação Separatista como a sua liderança pública, enquanto ele ficaria sendo a liderança "de facto", escondido nas sombras. Obviamente, além do personagem em si ser muito interessante, ajuda o fato da atuação de Christopher Lee ser espetacular.
Em linhas gerais, é um bom filme e uma competente continuação, dando prosseguimento, de forma satisfatória, a história e levemente elevando o nível em relação ao filme anterior. Além disso, também serve como ponte ao episódio final, que, em minha avaliação, é o melhor da trilogia e um dos melhores da franquia - no entanto, somente é capaz disso pois muitos elementos fundamentais da trama são começam a se construídos e aprofundados aqui. Para quem quiser acompanhar pela primeira vez ou rever, também recomendo ver as cenas deletadas - que, pessoalmente, gostaria que tivessem sido incluídas - e a novelização do filme, escrita por R. A. Salvatore, que fornecem maiores detalhes da história e complementam/aprofundam diversos aspectos presentes no longa metragem.
Star Wars, Episódio I: A Ameaça Fantasma
3.6 1,3K Assista AgoraRevisitando a Trilogia Prequela (Parte 1).
É seguro dizer que, em 1999, George Lucas lançava um dos filmes mais esperados da história do cinema. Eu era ainda muito jovem na época e, dessa maneira, não posso dizer que vivenciei isso na pele, mas basta acompanhar qualquer vídeo disponível na internet - como, por exemplo, reportagens e entrevistas - que mostrem a expectativa dos fãs para se ter um pouco de noção do tamanho do evento que foi o lançamento deste longa. Após mais de 15 anos de espera, finalmente Star Wars retornaria à tela dos cinemas e, desta vez, contando a história que antecedeu o início da saga.
Igualmente, também é seguro dizer que este foi um dos filmes mais controversos já feitos. E não digo isso no sentido de que esta produção tocou em assuntos polêmicos ou algo do tipo, mas no sentido de que dividiu - e até hoje divide - os apaixonados pela franquia. Direção, roteiro e até mesmo a escolha do elenco foram - e continuam sendo - motivo de debate. Tendo este sido o primeiro filme de Star Wars que eu assisti - e, na ocasião, amei - e tendo crescido acompanhando as prequelas, talvez seja suspeito para falar, pois sempre as defenderei e prosseguirei defendendo, no entanto vou aqui dissecar alguns elementos que considero importante.
Em primeiro lugar, acredito que boa parte da reação negativa a "Ameaça Fantasma" vem de um descompasso entre o que George Lucas enxergava para a saga e o que muitos fãs, na época, queriam e esperavam. Aliás, em muitas séries e filmes, é comum ver que, sempre que uma história não segue o rumo desejado por boa parte do público, tal história é, imediatamente, taxada como "ruim", quando meramente seguiu um caminho diferente. Com os seus pontos positivos e negativos, é claro, mas apenas... diferente.
Quando "Episódio I" foi lançado, toda a compreensão que os fãs tinham do universo de Star Wars provinha dos filmes originais, isto é, de uma galáxia mergulhada na escuridão, sob a tirania do Império Galáctico, e tendo uma pequena e com poucos recursos, porém corajosa e valente, Rebelião, lutando pela liberdade. Em outras palavras, é a história de como um grupo seleto de heróis, desafiando toda as probabilidades, levantou-se contra os tiranos e, seguindo o caminho correto e mais difícil ao invés do mais fácil, alcançou a vitória. É a história do triunfo do bem contra o mal.
Na história abordada durante as prequelas, no entanto, o rumo é completamente outro. E tem de ser outro. Aqui a trama ocorre mais de três décadas antes do início da saga de Luke Skywalker, então em um cenário diametralmente oposto. Não há Império, e sim uma - defeituosa, porém ainda estável -República. Os Jedis não desapareçam, mas ainda existem em milhares, e centralizados em uma forte Ordem. Não há guerra civil, e sim um dos períodos de maior estabilidade na galáxia. Os personagens são outros e os conflitos são outros, então é natural que, mesmo ainda inserido no mesmo universo e carregando a mesma "essência de Star Wars", a história seja diferente.
Nesta trilogia, é abordado como o mal inicialmente derrotou o bem e como uma democracia falha se tornou uma tirania sanguinária exatamente pelas ações daqueles que se diziam os defensores mais fervorosos da democracia. Nesta trilogia, vemos o triunfo da corrupção, da sede pelo poder e da guerra diante da virtude, do diálogo e da paz. Em linhas gerais, George Lucas, enquanto o criador da saga e a mente por trás de tudo, arrisca-se e expande o universo que ele próprio deu origem anos antes, apresentando novos planetas, novos cenários e novas histórias. É apresentando um mundo completamente diferente, com mais cores e com mais vida. Enquanto muitos fãs queriam era apenas uma repetição daquilo que já havia sido feito, Lucas nos apresenta algo inédito. E tudo isto começa em "Ameaça Fantasma".
Dessa maneira, muitos elementos que foram criticados na época são, na realidade, não apenas muito interessantes, mas também fundamentais para o desenvolvimento da trama e para a compreensão da história, tal qual as discussões políticas. É fundamental compreender as intrigas no Senado e a corrupção na República para, de tal modo, entender como uma longínqua República democrática tornou-se em um Império ditatorial. A política das prequelas - incluindo este filme - não é "chata", mas brilhante. O "Episódio I" também nos apresenta a antiga Ordem Jedi, e o papel dos cavaleiros não como guerreiros, mas como diplomatas e mediadores da paz, em um período de vasta estabilidade que, aos poucos, fica diante de desafios há muito tempo não vistos, como um possível retorno dos Sith.
Os efeitos especiais, para a época, foram espetaculares. Aliás, digo que, até mesmo observando com os olhos de hoje, envelheceram muito bem. A única crítica - que considero justa, diga-se de passagem - é que Lucas poderia ter usado mais efeitos práticos e que talvez tenha usado o CGI um pouco em excesso. Também é justa a crítica a Jar Jar Binks, que, no começo, é engraçado e até "fofo", porém é tão forçado, pelo diretor, a ser um alívio cômico que, no decorrer do longa, sem dúvida torna-se irritante. O próprio, logo, não foi personagem em si, mas a maneira como foi utilizado, sobretudo, na segunda metade do filme.
No entanto, tais elementos negativos não superam os inúmeros elementos positivos, tais quais a trilha sonora, os belíssimos efeitos visuais e a história, que considero boa, interessante e consistente. Além disso, somos presenteados com uma das maiores e mais intensas lutas com sabre de luz em toda a saga, no épico duelo entre Qui Gon e Obi Wan contra Darth Maul. Em linhas gerais, foi um bom começo para a nova trilogia.
Sendo assim, "Ameaça Fantasma" poderia ter sido melhor caso algumas pequenas mudanças tivessem sido feitas? Sim, mas apesar de tudo, o saldo final continua sendo positivo para este que, mesmo passando longe de ser o melhor filme da franquia, ainda é uma agradável experiência e uma boa produção.
13 Horas: Os Soldados Secretos de Benghazi
3.5 323Em "13 Horas", Michael Bay demonstra que é capaz de, ao amenizar seus vícios, entregar um bom trabalho. Sob uma direção sóbria e competente, o cineasta dá aula de como conduzir um filme de ação, garantindo um ritmo eletrizante e, ao mesmo tempo, contando a história com clareza. Baseado no livro homônimo, de Mitchell Zuckoff, a obra retrata os acontecimentos reais do ataque terrorista ao centro diplomático americano na Líbia e como um pequeno grupo de indivíduos, que sequer pertenciam oficialmente ao governo, evitaram, de maneira heroica, o que seria um massacre.
Um dos aspectos mais interessantes desta película, em minha avaliação, é retratar os eventos em questão sob a perspectiva dos homens que participaram dos combates, aqui representados por um elenco que cumpre bem o seu papel. No caso, refiro-me ao grupo de combatentes paramilitares, contratados pelo governo dos EUA, encarregado da segurança de um complexo secreto da CIA em território líbio, e que acabaram no olho do furacão de um dos acontecimentos recentes mais trágicos da política externa americana.
Nesse sentido, o filme transmite, com competência, ao público, os mesmos sentimentos de tensão, confusão e ansiedades vivenciados, na pele, pelos soldados que lá estavam. Isso, por sua vez, ocorre graças ao trabalho de qualidade não somente do diretor, mas também da edição e som, prendendo a atenção do espectador, do começo ao fim, em uma narrativa angustiante e frenética. Por exemplo, em determinadas cenas, os soldados sequer sabem quem é inimigo e quem é aliado e encontram-se cercados por pessoas que não conhecem e não sabem se podem confiar, e o suspense gerado por esse fato é muito bem repassado a quem assiste.
No entanto, a ação eletrizante - e muito bem construída - não impede o longa de nos apresentar detalhes dos personagens, desenvolvê-lo e nos conectar a eles. A frase, dita por Jack, "Eu imagino o que minhas filhas pensariam de mim. Morrer em um local em que ele nem deveria estar, por uma causa que não compreendia e por um país que ele pouco se importava", é simplesmente brutal e resume bem o sentimento dos combatentes inseridos naquela trágica situação.
Mesmo incapazes de compreender, por completo, o que ocorria e abandonados por seus superiores, prosseguiam esforçando-se para cumprir a sua missão e em salvar as suas respectivas vidas e as daqueles ao seu redor. Se, por um lado, o grau de complexidade do contexto e a tensão sentida trazem um elemento dramático forte ao roteiro, igualmente engrandecem, por outro, o sacrifício e o heroísmo dos soldados presentes e trazem um maior impacto emocional às cenas de ação que, sem isso, seriam apenas meras cenas de ação.
O filme, além de cumprir todos os requisitos de um bom filme de ação, é, sem dúvida, um dos melhores trabalhos de Michael Bay, que mostra como é capaz de entregar mais do que normalmente se vê em suas produções. No mais, serve como uma bela homenagem aos soldados, sobreviventes e mortos, participantes desses acontecimentos e um registro de erros graves cometidos pelo governo americano sob uma, naquele momento, desastrosa política externa comandada por Obama e Clinton.
Três é Demais
3.8 282 Assista AgoraEncerro a minha breve maratona de filmes do Wes Anderson com aquele que, embora não seja oficialmente o seu primeiro trabalho, é, sem dúvida, a porta de entrada ao excêntrico universo cinematográfico criado pelo diretor. Assisti a esse longa, pela primeira vez, há anos atrás e, apesar de ter considerado bom, não havia o entendido por completo. O curioso é que estava no colégio e tinha quase a mesma idade do protagonista, porém, talvez por ser ainda muito jovem, somente consegui devidamente apreciar a esta obra após reassistir um bom tempo depois e já estando mais velho.
Nesta produção, o então iniciante cineasta, apesar de ainda não abusar da simetria, já apresentava alguns dos seus marcantes elementos visuais. No caso, um senso de cor singular, focando principalmente em azuis, verdes e vermelhos para criar uma realidade intensificada. Não obstante, diferentemente do que irá ocorrer no restante da carreira de Anderson, na qual o visual excêntrico será o grande chamativo, aqui presenciamos uma versão mais "limpa" do diretor, com um foco maior no roteiro e nas personagens.
O roteiro, diga-se de passagem, começou a ser escrito por Wes e Owen Wilson, antigos colegas e amigos desde a faculdade, até bem antes do seu primeiro trabalho juntos - Bottle Rocket. Além disso, a história, incluindo características dos personagens, reúne diversos aspectos extraídos das suas respectivas juventudes e por experiências que passaram ao longo da vida. Por exemplo, Wilson, assim como o protagonista do filme, igualmente havia sido expulso do colégio.
De início, o personagem Max Fischer, muito bem interpretado por um Jason Schwartzman também em início de carreira, pode parecer simples, caricato e, em determinados momentos, até irritante. Repleto de energia e ambição, ele, por outro lado, carecia da mesma motivação nos seus estudos e de discernimento na vida acadêmica. Sempre tomando decisões impulsivas e distraindo-se em atividades extracurriculares enquanto suas notas encontravam-se no fundo do poço, Fischer estava constantemente a um fio de ser expulso.
No entanto, alguns detalhes cuidadosamente deixados pelos roteiristas nos ajudam a compreender melhor o protagonista, as suas motivações e uma escondida complexidade que, à princípio, pode passar despercebida. "Sic transit gloria". Essa é uma famosa expressão, em latim, que significa "assim passa a glória do mundo", indicando que a fama, o poder e as conquistas materiais são passageiras. Essa, não à toa, também é uma das primeiras coisas que Max diz à Sra Cross e uma frase presente na lápide de sua mãe.
Em outras palavras, Anderson deixa subentendido que a mãe de Marx era uma pessoa aventureira e sonhadora, mas que morreu ainda muito jovem antes de fazer tudo aquilo que gostaria. O protagonista, por sua vez, toma isso como uma espécie de aprendizado e busca viver a sua vida ao máximo, criando clubes, escrevendo peças e realizando o máximo de atividades que for possível.
No entanto, o principal tema do filme não é sobre "viver a vida ao máximo", e sim sobre amadurecimento e como esse processo, por vezes, pode ser tortuoso durante a juventude. Veja bem, Marx tem confiança, energia e ambição de sobra, mas sem o devido foco e maturidade, tudo isso, em dado momento, acaba se virando contra, com ele perdendo a garota que amava, os seus amigos e o seu futuro acadêmico. Isso tudo somente é recuperado quando ele amadurece, entende que não se pode ter tudo, que se deve valorizar boas amizades e que, muitas vezes, é necessário perdoar e seguir em frente.
Esse tema é explorado de maneira competente pelo filme, sob a forma de humor negro inserido em um romance. E a história flui naturalmente em um roteiro bem amarrado, divertido e acompanhado de trilha sonora composta por clássicos do rock britânico, que transmitem com perfeição o espírito do protagonista e do ambiente colegial. O elenco também merece elogios, pois, além de Jason, também brilham a deslumbrante Olivia Williams e o carismático Bill Murray, em uma de suas melhores atuações da carreira - e que iniciava uma longa parceria com o diretor.
Aliás, Murray merece uma menção especial, mesmo em um papel, em tese, coadjuvante. O seu personagem, Herman Blume, é um rico homem de meia idade, que enfrenta uma crise no casamento e vive uma vida tediosa, tornando-se amigo de Marx por admirar a sua confiança e enxergar nele todas as qualidades que gostaria de ver em si próprio e em seus filhos. Mesmo com todas as diferenças entre eles, incluindo a idade, ambos eram muito parecidos, por exemplo, em sua paixão à Sra Cross, que os levava a agir de forma irracional e até infantil - e rende talvez a melhor sequência do filme. Vale destacar que Anderson e Wilson criaram o personagem tendo o veterano ator em mente e ele não decepciona.
Em resumo, "Rushmore" é não apenas o primeiro vislumbre da realidade excêntrica criada por Wes Anderson, mas um dos melhores trabalhos do diretor e parada obrigatória para quem aprecia o seu estilo diferenciado. O filme diverte, emociona e nos traz um clima de nostalgia dos tempos de colégio e da juventude, assim como todas as descobertas, paixões e frustrações que vêm junto. Recomendado.
A Vida Marinha com Steve Zissou
3.8 458 Assista AgoraEm seu quarto trabalho como diretor, Wes Anderson nos apresenta mais uma criativa história que mistura comédia e drama. Neste caso, possui um tom, creio, mais dramático do que o habitual em suas obras - apesar de manter as cores vibrantes e humor seco característicos. Tendo adquirido um status "cult" com o passar do tempo, "Vida Aquática com Steve Zissou" não está dentre os melhores filmes do cineasta e não foi bem recebido na época, porém, dentre erros e acertos, ainda constituiu um filme agradável e mais profundo do que a maioria imagina.
Em primeiro lugar, importante deixar bem claro que qualquer um que assistir a essa película esperando uma grande aventura marítima durante a qual serão exploradas as profundezas dos oceanos - ao melhor estilo "20.000 léguas submarinas" - poderá se decepcionar um pouco. Por razões óbvias, existem varias cenas que nos imergem nos mais diversos ambientes marinhos, cuja natureza serve como pano de fundo para a história, mas o longa, fundamentalmente, não foca naquilo que ocorre dentro da água, e sim fora dela. Além disso, não é um filme sobre a vida aquática, e sim sobre a vida humana, e as aflições e complicações nela presentes.
Mais especificamente, este filme é sobre Steve Zissou, um cineasta, oceanógrafo e aventureiro, que funciona quase como uma paródia do famoso - e verdadeiro - explorador Jacques Costeau. Arrogante, orgulhoso e já no alto de seus 52 anos, Zissou, que havia construído fama e uma carreira de sucesso com documentários contando a sua jornada pelos sete mares, encara agora um declínio tanto em sua vida profissional quanto pessoal, bem como uma crise de meia idade. Do lado profissional, percebe filas cada vez menores para acompanhar os seus filmes e sente estar sendo esquecido pelo resto do mundo antes mesmo de se aposentar ou morrer. No quesito pessoal, vive um casamento em ruínas e que mantinha-se meramente nas aparências.
Diante desse contexto, Zissou, extremamente preocupado com a sua própria imagem e em ter o seu legado lembrado, já inicia esta película em um estado de melancolia e depressão ao perceber o interesse ao seu trabalho se esvaindo, os seus amigos o deixando e a esposa se afastando. Bill Murray, figurinha carimbada nos filmes de Anderson, encontra-se aqui perfeito em um papel que parece ter sido feito para ele. Em uma performance que, sob um certo ângulo, lembra "Lost in Translation", interpreta, com competência, um homem aterrorizado com o futuro e sofrendo com a inevitável passagem do tempo, no entanto que também prefere deixar tais sentimentos, em grande parte, internalizados.
Sendo assim, o filme acaba tendo o seu componente dramático se sobrepondo a comédia e se tornando talvez um dos mais tristes da carreira de Anderson. Tal fato se deve a essa luta constante de Zissou em resolver os inúmeros problemas que se acumulam em sua vida e a batalha contra um adversário que não pode ser vencido: o tempo. Esse arco principal, envolvendo o protagonista, é muito bem construído, e igualmente alavancado por Murray, cujo estilo de atuação - prepotente, cheio de si e com tons de humor sarcástico - encaixa-se ao personagem em questão.
O filme tem dificuldade, porém, em explorar alguns elementos da trama. Por exemplo, o relacionamento entre Steve e Ned, até proporciona algumas poucas boas cenas, mas nunca é realmente aprofundado de maneira proporcional a importância que deveria ter para a história. Além disso, a mudança de comportamento do protagonista e o seu "arco de redenção" não funcionam tão bem quanto em outras produções do diretor com arcos semelhantes. Sendo sincero, ocorre de maneira um tanto repentina e sequer dá para considerar uma mudança considerável. Outro aspecto que atrapalha é o ritmo da película, que, em diversas situações, torna-se excessivamente arrastado sem que tal demora para os eventos acontecerem, por sua vez, agregue algo de relevante ou benéfico a narrativa.
Por fim, o veredito é que o filme, apesar de não ser ruim como a terrível recepção que teve por parte de público e crítica há 20 anos possa fazer parecer, também esta longe da melhor versão de Wes Anderson, possuindo um roteiro, em determinados momentos, falho. No mais, vale ressaltar que a experiência é melhorada - de forma considerável - pelo belo visual e pela inusitada participação de Seu Jorge, que rouba a cena e fornece uma interessante atmosfera com o seu cover, em português, de músicas do David Bowie.
Viagem a Darjeeling
3.8 459 Assista AgoraProsseguindo em minha maratona pela cinematografia de Wes Anderson, "Viagem a Darjeeling" divide opiniões e não está dentre os seus melhores trabalhos, porém ainda assim consegue entregar, com algumas ressalvas, um resultado satisfatório. A película acompanha três irmãos que embarcam em uma viagem de trem, pela Índia, com o objetivo de se reaproximarem e curarem feridas do passado. Nesta obra, o diretor, mesmo conservando muito do seu estilo característico, traz uma abordagem, em minha avaliação, mais focada nos personagens e suas relações do que propriamente no visual.
Quanto a esse último quesito, creio que talvez seja o grande diferencial do filme e o seu principal positivo, que é o foco no relacionamento entre os protagonistas. Inclusive, a a relação entre irmãos - e quem não for filho único sabe do que estou falando - é aqui muito bem representada. É uma complexa situação em que as pessoas envolvidas se amam e se preocupam umas com as outras, mas, em muitas oportunidades, têm dificuldade de expressar tais emoções, o que pode gerar um estranho distanciamento por vezes confundido com indiferença.
A fala "Será que seríamos amigos se não fôssemos irmãos?" sintetiza, com simplicidade e perfeição, esse complicado sentimento de irmandade, em que conhecer uma pessoa desde a infância e crescer junto com ela não necessariamente traz, de forma imediata, confiança e amizade. No caso, às vezes isso demora para ser construído ou até está presente durante a infância, porém depois se desfaz na fase adulta e precisa ser reatado - isto ocorre com os irmãos Whitman.
No início, Francis prepara um verdadeiro planejamento para a viagem, com um itinerário meticulosamente organizado a fim de fazê-los passar por todos os locais sagrados e rituais supostamente necessários para a "transformação espiritual" que almejava estabelecer. A ironia, por sua vez, reside no fato de que foi somente na ocorrência de imprevistos pelo caminho que os três irmãos verdadeiramente conseguiram reatar os laços.
Nesse sentido, a moral da história é que qualquer jornada espiritual não ocorre apenas se apropriando de vestimentas específicas, imitando rituais e visitando locais específicos. Esse processo, logo, tem de ser algo interno, e não forçado de fora para dentro. Tem de ser algo genuíno, natural e até inesperado, e não preparado artificialmente. Ao longo da trama, é através das situações mais inusitadas que os protagonistas se aproximam, de maneira gradativa e bem desenvolvida por Anderson, junto a uma excelente trilha sonora.
No entanto, o filme também tem os seus problemas, com dois em particular que me incomodaram. O primeiro reside no trio de atores principal, que, em minha humilde opinião, não consegue trazer a profundidade que o filme tenta alcançar - Schwartzman e, sobretudo, Bordy, até se esforçam, mas Wilson é incapaz de entregar algo além do genérico. O segundo encontra-se em diversos elementos no roteiro que não são bem desenvolvidos, como a relação com a mãe - que aparece pouquíssimo - e o que motivou o afastamento entre os irmãos.
Em resumo, o filme, apesar de bom e eficiente em seu arco principal, falha em aprofundar outros temas e personagens secundários, bem como é prejudicado por atuações medianas do elenco. Levando tudo em consideração, vale a pena, mas recomendo assisti-lo somente após ver "Hotel Chevalier", um curta que funciona como prólogo e ao qual algumas referências são feitas.
O Fantástico Sr. Raposo
4.2 964 Assista AgoraAlguns artistas têm uma maneira de cativar o nosso olhar com a certeza do que fazem, seja pela temática da obra, pelo estilo ou por outro motivo às vezes inexplicável. Pois bem, Wes Anderson encaixa-se, perfeitamente, nessa definição. Baseado no livro homônimo escrito por Roald Dahl, "O Fantástico Sr Raposo" é mais um desses trabalhos do diretor que conseguem contar uma interessante história de maneira divertida, leve e excêntrica, porém sem deixar de abordar assuntos complexos e provocar reflexões.
Isso vai parecer um tanto estranho, mas um dos elementos que tornam este longa tão bom é o "paradoxo" que o compõe, isto é, como as suas ideias e escolhas são aparentemente conflituosas entre si e, não obstante, como coeso o resultado final acaba se tornando. Para início de conversa, temos um filme infantil cujo protagonista está passando por uma crise de meia idade. No caso, uma raposa, atualmente colunista em um jornal, que se vê paralisada pela passagem do tempo, encontrando-se diante tanto de um temor em relação ao futuro - pois está chegando ao final da vida - e de uma nostalgia acerca do passado. Então, ele decide retomar o que fazia durante a juventude, ou seja, roubar galinhas - dessa vez, no entanto, em uma escala muito maior, pois os alvos serão os poderosos fazendeiros Boggis, Bunce e Bean.
O problema é o risco que isso envolve, pois poderia não somente, após tantos anos longe de sua "rotina criminosa", ser capturado, como também colocar em perigo sua família e amigos. Analisando apenas pelo que foi descrito até aqui, muitos seriam levados a crer que se trata de uma espécie de drama familiar - e é, de certa forma. Porém, Wes Anderson, com o seu estilo característico, traz um tom lúdico e infantil para a história de um adulto em crise. Aliás, mais do que montar essa "salada" de elementos, o diretor consegue balancear o drama e a comédia de tal maneira que um não ofusca o outro e cada qual se encontra na medida certa. O filme é divertido e hilário, e, quando preciso, igualmente emocionante e profundo.
Verdade seja dita, utilizar animais selvagens para explorar a natureza humana não é algo novo - na verdade, bastante comum em filmes animados. O grande diferencial desta película é a forma como isso é feito. Ao prestar um pouco de atenção nos detalhes, percebemos que os animais se vestem como se estivessem nos anos 50, possuem empregos respeitáveis, comunicam-se com educação e polidez e agem com um grau civilizado. Enquanto isso, os poderosos fazendeiros, por sua vez, comportam-se de maneira mais animalesca e furiosa do que qualquer animal que aqui é retratado. No entanto, os animais são cientes do seus instintos e de sua natureza, enquanto os humanos, por outro lado, não percebem a destruição que provocam ao seu redor.
Obviamente, resumir esta obra somente a partir da velha dicotomia "animais vs humanos" seria muito pouco, pois o filme aborda inúmeros temas. É sobre valorizar aquilo que temos no presente, ao invés de alimentar uma cobiça constante por mais riquezas materiais no futuro ou um desejo obsessivo der retornar ao passado. É sobre encontrar a sua própria identidade, não se preocupando em ser "diferente" ou não dos outros, e sim reconhecendo que temos distintas personalidades e habilidades. E é sobre sobrevivência, mencionada no discurso final, isto é, nossa paixão e impulso para fazer com que o mundo crie um espaço para nós, em vez de deixarmos que o mundo nos coloque em um lugar para sua própria conveniência.
Isso me faz retornar, neste comentário que já está se tornando longo, ao que havia dito antes: o belo paradoxo que este filme representa. Mesmo sendo uma obra destinada ao público infantil e com uma trama, a rigor, simples, provoca várias reflexões, sendo que algumas podem até passar despercebidas perante todas as aventuras e piadas presentes na história e o ritmo dinâmico estabelecido por Anderson. De igual maneira, também pode passar despercebido o esforço gigantesco por trás da produção, que utilizou uma das mais antigas formas de animação, o "stop motion", em que a construção de um único frame já é um trabalho extremamente cansativo - porém que compensa no final.
Aliás, todo o estilo do filme é um verdadeiro deleite aos nossos sentidos. Além de todas as características às quais já estamos acostumados na cinematografia do diretor, a animação confere, dentre outras coisas, uma textura diferenciada - os pelos dos animais, por exemplo, são bem realistas. E, claro, os competentes efeitos visuais, a incrível trilha sonora e a belíssima fotografia, que, combinadas com maestria, constituem um filme que reúne elementos de pintura e de teatro de bonecos simultaneamente. Em linhas gerais, com um humor eficiente e uma complexidade que, paradoxalmente, reside em sua simplicidade, este é um dos melhores trabalhos de Wes Anderson e uma obra que cativa públicos de todas idades.
Tron: O Legado
3.2 1,8K Assista AgoraSão poucas as vezes em que uma sequência consegue superar a obra que a precedeu, mas este, com certeza, é um desses casos. Enquanto o original foi revolucionário quanto a temática abordada e a tecnologia empregada - porém com um enredo mediano, esta produção consegue conciliar o deslumbrante e futurista visual com uma história, apesar de algumas ressalvas, mais sólida. Com espetaculares efeitos visuais e sonoros, "Tron: O Legado" é não somente um bom filme, mas uma verdadeira experiência cinematográfica, levando o universo criado por Steven Lisberger a um outro patamar.
Um dos aspectos que mais me agradou na história, além de toda a expansão feita em comparação ao primeiro filme, é a relação entre Kevin, o criador desse mundo digital, e Clu, a sua réplica virtual, criada com a missão de ajudá-lo a construir um "mundo perfeito". O problema é que o significado de "perfeição" pode ser, muitas vezes, complexo e difícil de definir, sendo algo que, nas palavras do próprio criador, sequer ele sabia descrever quando criou a sua cópia.
Alguns enxergam na presença de ordem e organização o ápice da perfeição, enquanto outros, por outro lado, entendem a desordem e a liberdade como elementos intrínsecos para o perfeito. Na ausência de uma definição clara, Clu opta pelo que considera ser o correto, que é controlando o mundo digital sob a forma de uma tirania, na qual qualquer coisa considerada imperfeição teria de ser eliminada, bem como qualquer obstáculo no caminho, inclusive o próprio Kevin. Logo, o antagonista não se enxerga fazendo o mal, e sim cumprindo a tarefa que foi designada a ele, o que dá complexidade ao personagem e à trama.
Acompanhando essa interessante história, estão os incríveis efeitos visuais, que realizam uma completa imersão, ao espectador, no mundo digital de Tron e proporcionam um deleite aos olhos de quem assiste ao filme. Também não dá para deixar de mencionar a eletrizante trilha sonora composta pelo Daft Punk, que contribui na ambientação de um universo futurista e "techo-noir". A combinação desses dois elementos, sem dúvida, garantem uma identidade marcante ao longa e, por si só, já tornam válida a experiência.
Os pontos negativos, no entanto, residem no roteiro, que, mesmo indiscutivelmente superior ao da obra original, tem falhas e um grande potencial desperdiçado, sobretudo na segunda metade. Primeiro, o plano de Clu, não obstante o fato de ser um personagem interessante, é bastante superficial e genérico, caindo no velho clichê de "vilão que quer dominar o mundo de alguma forma". Segundo, Zuse e Tron - cujo retorno é mal explicado - são personagens completamente descartáveis e que tomam decisões incoerentes, apenas ocupando um tempo que poderia ter sido melhor aproveitado com mais cenas da Korra.
Em resumo, é um bom filme e uma continuação que supera, por muito, o original. Porém, fiquei com a sensação de que diversos elementos do roteiro poderiam ter sido melhor desenvolvidos e, no final das contas, o que realmente se destaca é o visual e a trilha sonora.
Os Excêntricos Tenenbaums
4.1 869 Assista AgoraDepois de muito tempo, decidi reassistir a esse filme e, sem dúvida, foi uma decisão acertada. Sendo apenas o terceiro longa da carreira de Wes Anderson, é possível perceber que ele ainda aperfeiçoava os seus toques característicos — uma mistura de humor sofisticado e rasteiro, simetria, pathos mórbido e um grande elenco. Apesar disso, não seria exagero dizer que esta obra, que aborda temas familiares delicados e provoca reflexões de uma forma lúdica e divertida, é também um dos melhores trabalhos do diretor.
No início, somos logo apresentados a uma breve introdução do passado dos Tenenbaums e das características de cada um dos personagens. De maneira eficiente, Anderson nos mostra as personalidades dos excêntricos indivíduos que irão fazer parte da história, os traumas que carregam e como tais elementos influenciaram - e continuam influenciando - em suas vidas e ajudaram a montar uma grande e disfuncional família. Um pai ausente, uma mãe que deu pouca liberdade aos filhos e crianças superdotadas e talentosas - mas que se tornaram adultos fracassados. Aliás, o elenco, de uma maneira geral, realiza uma grande performance na representação dessas interessantes figuras
Mas quem realmente faz o filme brilhar é Gene Hackman. O lendário vencedor do Oscar interpreta Royal Tenenbaum, o patriarca distante e moralmente flexível, que, agora falido e sozinho, tenta retomar a família. Hackman não queria participar dessa produção, odiou as filmagens e não entende Wes Anderson nem um pouco — e atua como se estivesse em um filme de Gene Hackman o tempo todo. E é isso que o torna especialmente "cru" e perfeito no papel — e sutilmente hilário.
Ao longo da trama, acompanhamos os percalços enfrentados por Royal ao tentar reatar os laços com os seus familiares, bem como o complicado relacionamento entre os próprios irmãos. À medida em que vai se tornando clara a presença de uma sólida barreira entre ele e sua família, fica igualmente evidente, para si, o estrago que o fato de ter sido um péssimo marido e um pai ausente fizeram a ele e a todos ao seu redor. Esse arco principal, graças a um roteiro bem elaborado, flui naturalmente, mesclando humor e drama na medida certa, e é acompanhado por bons arcos secundários, como aquele entre Richie e Margot, que, em dado momento, até toma para si o protagonismo da película.
Vale também destacar os aspectos técnicos, tais quais a eficiente edição, uma belíssima fotografia e uma trilha sonora espetacular, que tornam a experiência do espectador, mesmo em alguns momentos mais dramáticos, extremamente agradável e divertida. Em resumo, uma dramédia excêntrica e criativa que mostra como até a mais estranha e disfuncional família pode ter, com o devido esforço, solução.
Curiosidades:
O falcão chamado Mordecai foi sequestrado no meio das filmagens, e precisou ser trocado. Foi exigido dinheiro para devolver a ave, e, para não correr o risco das negociações atrasarem o processo de gravação, a equipe optou por substituir o falcão. É possível notar como, da metade para o final do filme, a ave possui mais penas brancas do que visto anteriormente, isso aconteceu pois são falcões diferentes.
O roteiro de Os Excêntricos Tenenbaums (2001) começou a ser escrito inspirado no divórcio dos pais do cineasta Wes Anderson: Melver e Texas Anderson. Contudo, conforme o processo de escrita foi fluindo, muitas características foram alteradas e o filme acabou não sendo tão fiel à realidade, apenas se assemelhou na profissão da mãe do cineasta e da personagem Etheline: arqueóloga.
Wes Anderson comentou em entrevistas sobre ter escrito o papel de Royal Tenenbaum pensando especificamente em Gene Hackman, porém, o ator quase recusou o convite. Segundo Hackman, ao ler o roteiro, se sentiu mal, pois enxergou muito do jeito frio e insensível do personagem nele mesmo, e achou que poderia desagradar a família ao interpretá-lo. No entanto, os familiares apoiaram Hackman a aceitar a oferta.