Tendo sido lançada inicialmente sob o formato de uma minissérie, pela NBC, e mais tarde reunida em mídia doméstica como um longa-metragem, "A Odisséia", de Andrei Konchalovsky pode não ser a produção de maior orçamento ou a de maior bilheteria intitulada com o mesmo nome da famosa obra de Homero. No entanto, é, sem dúvida, a melhor - e mais fiel ao material original - adaptação cinematográfica do épico retorno de Odisseu a sua terra natal.
Como em toda adaptação, aqui eventos são alterados, fundidos ou omitidos. Neste caso em particular, isso ocorre não por vontade do cineasta ou porque ele tivesse uma visão diferente, mas por mera necessidade, isto é, para que o filme pudesse durar três horas em vez de dez. Não obstante, o filme - irei chamar de filme, pois foi assim que assisti pela primeira vez - conserva o espírito e os temas do poema épico, com suas mais de 300 páginas, que permanecem intactos.
Apesar do baixo orçamento, o filme prova que mitos podem ser adaptados com sucesso para a tela e para uma audiência moderna sem perverter ou desvirtuar o material original. Graças à competência do experiente cineasta russo, que é responsável pela direção e pelo roteiro, esta obra consegue abordar todos os aspectos que tornam a história grandiosa - o esforço humano de Odisseu, a presença dos deuses e o caráter épico da narrativa - e, ao mesmo tempo, prender a atenção de espectadores de todos os tipos, isto é, tanto aqueles que leram quanto os que não leram o poema.
Dessa maneira, Konchalovsky traz a necessária dose de aventura e guerra, mas sem fazer o filme descarrilhar para uma ação desenfreada. Traz um toque de humor e leveza em algumas cenas, mas sem retirar a seriedade da história. Traz deuses e monstros, mas sem que a sua presença pareça estranha ao público moderno, e sim como parte do mundo no qual somos inseridos. Traz sensualidade, sem apelar à nudez explícita. E, acima de tudo, traz o épico, mas sem se sustentar somente na grandiosidade da narrativa para carregar o filme, e sim desenvolvendo bem os personagens e a trama com consistência.
Graças a um excelente trabalho da equipe técnica, que supera as limitações tecnológicas ainda presentes na época e o orçamento curto, é possível, através de uma completa imersão proporcionada pela obra, quase sentir o cheiro da areia, da magia, da poesia e da beleza de Ítaca e dos mares. Além de impecáveis cenários, fotografia e figurino, vale ressaltar que as criaturas são feitas à mão, sem ou com pouco uso de computação gráfica. Isso ocorre por mérito da Jim Henson Company, que dá vida ao lado sobrenatural da mitologia grega e não tem medo de retratar monstros de forma visceral e aterrorizante - Cila e Caríbdis, por exemplo, estão particularmente magníficas.
Paralelamente, é impossível deixar de mencionar o premiado compositor russo Eduard Artemyev, que cria uma trilha sonora que não apenas harmoniza e realça a atmosfera mediterrânea e mitológica da obra, mas também amplifica a carga emocional de momentos marcantes da história. De certa forma, é como se os eventos se desenrolassem à imagem e semelhança de um sonho, no qual o espectador é um convidado privilegiado na jornada de Odisseu para recuperar suas terras e seu amor.
Falando do elenco, começo por Armand Assante, que entrega-se de corpo e alma ao papel de Odisseu. Inclusive, ele declarou posteriormente que o roteirista e diretor Andrei Konchalovsky foi a única pessoa em quem confiou plenamente, e essa confiança e esse comprometimento resultaram em uma transposição perfeita da obra literária para a tela, capturando toda a imponência, a astúcia e a força física que o personagem exige, mas também não ignorando a sua arrogância e o seu orgulho. E o restante do elenco não fica muito para trás, tanto na aparência quanto na atuação, com os atores incorporando o papel com maestria e capturando a essência dos personagens tal como foram concebidos na obra literária. Menções especiais para as belas e elegantes Greta Scacchi e Isabella Rossellini, nos papéis respectivos de Penélope e Athena.
De fato, o único problema do filme é que as 3 horas de duração, que passam em um piscar de olhos, são muito pouco para uma história dessa magnitude e ficamos, ao término, com um gosto de querer mais ou de ficou faltando alguma coisa. Aliás, falando nisso, devo ser um pouco chato aqui e dizer que, em meio a tantas qualidades da produção, incomodou-me um pouco a ausência das sereias e o total apagamento do fiel cachorro Argos, apesar de, como ressaltei antes, tais alterações, mesmo doendo no coração, foram feitas por mera necessidade, e não por vontade do roteirista.
Não obstante os cortes feitos, o filme mostra respeito aos principais acontecimentos e detalhes do poema. No entanto, mais do que isso, "A Odisséia" de Konchalovsky destaca-se pelo respeito a essência da obra de Homero. Isso é brilhantemente sintetizado pela frase, proferida pelo protagonista, ao final: "Há muito de sagrado e bonito no mundo, mas nada mais bonito que um mundo criado pelo próprio homem. Um mundo a que se pode agarrar, e que sabe que será sempre seu. Você é o meu mundo, Penélope".
Odisseu sobrevive a uma guerra épica, supera inúmeros obstáculos, deuses e monstros e rejeita até a oferta pela própria imortalidade. Tudo isso para poder ter a oportunidade de reencontrar o seu filho, a sua terra e a sua esposa, que seriam exatamente as coisas que mais valorizava. A Odisséia de Homero é não uma crítica a humanidade ou a civilização, como recentemente um certo diretor acabou tendo a infelicidade de interpretar, mas o contrário, sendo um tributo a humanidade, ao homem e a nossa capacidade de vencer as maiores dificuldades para defender e preservar aquilo que temos como mais valioso e consideramos o nosso mundo: a nossa família e o nosso lar.
Uma grande adaptação e um filme de alto nível. Recomendado.
Sendo uma das primeiras adaptações da famosa história de Homero para o cinema, "Ulisses" impressiona pela qualidade técnica apresentada, não obstante às limitações em orçamento e tecnologia da época. Mesmo realizando alterações no enredo, e algumas tendo sido um tanto infelizes, o filme consegue preservar o caráter épico transmitido pelo poema e, dessa maneira, respeitar a essência que torna "A Odisséia" uma obra tão influente até os dias modernos.
Em primeiro lugar, destaco que esta versão de 1954 impressiona, sobretudo, pela escala, e, quando digo isso, refiro-me aos figurinos, a construção dos cenários e a direção de arte. O mundo é rico e impressionante, com as cenas ocorrendo em belas paisagens do Mediterrâneo e que auxiliam na construção da grandiosidade da história.
Na ausência de recursos tecnológicos mais avançados, devido a época em que esta película foi produzida, o filme compensa com uma utilização competente de recursos práticos. O caso mais emblemático é o da cena envolvendo o Ciclope, que, em minha avaliação, foi bem executada.
Outro trunfo é o elenco, com Kirk Douglas transmitindo, com maestria, a imponência, perspicácia e bravura de Odisseu, enquanto Anthony Quinn não fica muito atrás, no papel de Antinoos. No entanto, quem realmente brilha é a belíssima Silvana Mangano, que interpreta um papel duplo: a esposa fiel, Penélope, e a feiticeira sedutora, Circe. Isso traz uma complexidade psicológica interessante à narrativa, indicando que, para Ulisses, a segurança do lar e o perigo da tentação possuem o mesmo rosto.
Os maiores problemas do filme encontram-se nas alterações feitas no roteiro para conseguir encaixar uma história desse tamanho em uma película com menos de duas horas de duração. É notório que o diretor tenta ser o mais fiel possível ao poema e mostrar o máximo de eventos marcantes da obra de Homero, tais quais o encontro com Polifemo, as sereias, a estadia do protagonista em Feácia e o romance com Circe, mas, em dado momento, é obrigado a fazer cortes. E as principais vítimas acabam sendo Athena e Calipso, que são bastante excluídas da trama - a primeira é apenas brevemente mencionada ao final.
A alteração que mais me incomodou, por ser bastante desnecessária e evitável, foi quando os roteiristas, em uma completa mudança quanto à história original, atribuíram as dificuldades da jornada de volta de Odisseu ao saque do templo de Poseidon em Troia. Na realidade, ele não foi amaldiçoado pelos acontecimentos na queda da cidade, e sim por cegar o Ciclope, o filho do deus dos mares.
Em síntese, seria impossível para este filme, com os recursos disponíveis à época e a curta duração, ser inteiramente fiel ao poema de Homero, mas creio que elenco, diretor e produção técnica conseguem entregar um trabalho digno, apesar de longe do ideal, digno. Vale a pena ver.
Dirigido por Uberto Pasolini, "O Retorno" traz somente a última parte da jornada de Odisseu em sua volta à Itaca, iniciando exatamente no momento em que enfim alcança o litoral de sua terra natal. Por esse ser o trecho do poema com a menor presença de deuses, o diretor possui uma maior liberdade para colocar os elementos mitológicos de lado e focar no lado humano e psicológico da história e do protagonista.
Aqui, acompanhamos um comandante militar e rei desprovido de sua imponência e orgulho, retornando ao seu reino, agora entregue à miséria - em decorrência dos saques de invasores e pretendentes ao trono. Nem Odisseu e nem Itaca são mais os mesmos, estando transformados pelo longo período tanto da guerra quanto de seu retorno.
Tendo assistido este filme há um ano atrás e agora reassistindo após a "Odisséia" de Nolan, é impossível não fazer as comparações. Ambos os filmes trazem não apenas uma abordagem mais realista da história, mas também uma representação de um Odisseu traumatizado pela guerra. Apesar dessa abordagem, nos dois casos, ser equivocada e desviar da verdadeira essência do trabalho de Homero, considero que Pasolini executa melhor essa tarefa e, mesmo ainda distante do ideal, se aproxima mais da obra original.
Enquanto, no filme de Nolan, Odisseu sente remorso pela dor que infligiu nos outros, aqui ele sente tristeza pelos companheiros que levou à guerra e não conseguiu trazer de volta, o que é algo mais próximo daquilo presente no poema. Um protagonista, portanto, que retorna ao seu reino e é recebido não com louvor e festa, mas com a missão de expulsar os saqueadores e se mostrar, ao seu povo e a sua família, novamente digno de ocupar o trono.
Um dos motivos pelos quais Pasolini é mais bem sucedido em sua proposta reside no fato de que, como ele aborda apenas o capítulo final e não a Odisséia inteira, o foco no psicológico de Odisseu encaixa-se melhor. Em momento algum quis trazer uma aventura épica e nem vendeu o filme como tal - em outras palavras, deixou bem claro que iria trazer um aspecto específico da história e explorá-lo ao máximo. Nolan, por outro lado, quis realizar uma releitura semelhante da história - mas ainda tentando conservar outros elementos da narrativa - e acabou preso no meio do caminho, nem entregando um épico com grandiosidade e nem um drama psicológico com profundidade.
Outro fator que ajuda é a grande atuação de Ralph Fiennes e Juliette Binoche, que brilham em seus respectivos papéis e carregam o restante do elenco - que, por sua vez, não está a altura dos dois - e o filme inteiro nas costas. As cenas do reencontro com Argos e da prova do arco, por exemplo, são muito bem executadas pelo diretor e pelos atores, trazendo a carga de emoção necessária para esses que são momentos marcantes do poema.
O filme, apesar do êxito em retratar tais cenas, é prejudicado por desvios que faz em outros trechos da história original. Incomodou-me como Telemaco é aqui retratado, não como sendo um filho fiel ao pai e disposto a defender a sua mãe, mas como um adolescente mimado e, muitas vezes, incoerente - também não ajuda o ator escolhido ser bastante fraco. Além disso, considero que faltou emoção ao tão esperado reencontro entre Odisseu e Penélope - que, por sua vez, até parece estar triste, no início, pelo retorno do marido, o que foge muito da característica da personagem.
Entre erros e acertos, é mais uma daquelas obras que não busca realmente adaptar as histórias de Homero, mas reinterpreta-las sob uma óptica moderna. Aqui, pelos menos, devido ao fato de retratar o trecho mais "humano" e menos "mitológico" da Odisséia, pelo fato do diretor ter sido honesto sobre suas intenções e ter ao seu dispor um baixo orçamento, dá para dar um desconto. Como um drama psicológico, funciona muito bem, mas escolhas equivocadas no roteiro e limitações orçamentárias fazem o filme não ter a mesma qualidade em outros aspectos e ficar aquém daquilo que poderia ter sido.
Em "A Odisséia", Christopher Nolan toma a responsabilidade de adaptar aos cinemas aquela que, sem dúvida, é a história de ficção que mais resistiu ao implacável teste do tempo e mais inspirou a literatura ocidental. Aqui, são percebidas algumas das melhores qualidades do diretor, mas também encontram-se presentes, em igual proporção, alguns de seus mais comuns defeitos.
A começar por tudo aquilo que me agradou, é impossível não falar dos efeitos visuais e sonoros, bem como a impecável direção do experiente cineasta. Em termos de fotografia e som, o filme proporciona um verdadeiro espetáculo e uma ainda melhor experiência para quem assistiu nos cinemas - sobretudo, em IMAX. A trilha sonora de Ludwig Goransson se encaixa, com perfeição, com a jornada sofrida e misteriosa do protagonista de volta para casa.
Adendo: apesar dos elogios que faço ao visual, me incomodou um pouco a manutenção, em diversas cenas, da mesma "tonalidade cinzenta" adotada em sua filmografia, ainda mais considerando que a trama se passa no Mediterrâneo. Vale também ressaltar algumas imprecisões históricas no que se refere a armaduras e embarcações, que pareciam ter sido inspiradas mais nos vikings do que propriamente nos gregos, mas isso está longe de ser um grande problema para a maioria do público.
Destaco também alguns acontecimentos marcantes da história que seriam difíceis de representar em uma película, e que, em minha avaliação, os responsáveis desempenharam um competente trabalho. Refiro-me, em especial, as aparições do Ciclope e da bruxa Circe, que foram uns dos momentos que mais apreciei. A sequência que envolve o famoso "monstro de um olho só", por exemplo, é simplesmente aterrorizante, repassando, ao espectador, a aflição vivida pelos soldados que se depararam com ele e tentavam escapar de sua caverna.
As principais falhas deste filme, no entanto, residem naquilo que entendo como o mais importante de qualquer produção: o roteiro. E é aqui também que o meu maior temor pelo fato dessa história ter sido entregue nas mãos de Nolan acabou se confirmando. Como aqueles acostumados com o seu trabalho já sabem, o diretor, para o bem ou para o mal, gosta de adicionar o maior grau de realismo possível às suas obras, aproximando-as do espectador. Se, por um lado, isso pode proporcionar uma maior imersão e conexão por parte do público, igualmente torna-se um problema em se tratando da adaptação de uma narrativa épica e repleta de elementos mágicos e mitológicos.
Em outras palavras, se a grandiosidade da história de Homero - e pendurada por milhares de anos - reside exatamente em aspecto épico, trazê-la mais "para o chão", torná-la mais realista e aproximá-la do público talvez não seja a melhor opção. O filme, logo, encontra-se diante de um problema estabelecido pelo próprio estilo do diretor, sendo um épico que tem medo de ser visto como épico e com deuses que mais parecem humanos do que figuras mitológicas e imponentes.
E isso passa por diversos aspectos da produção do filme, desde a escolha de um elenco quase inteiramente americano até uma representação bastante superficial do submundo e outros eventos - tal qual o encontro com as sereias, que mal são vistas na tela. Presenciamos um espetáculo visual, mas sem a profundidade esperada de uma história dessa magnitude, o que, em grande parte, também deve-se a um roteiro com diálogos fracos e pouco memoráveis.
A "Lei de Zeus" é um termo recorrente na história, e ela está, embora com uma outra nomenclatura, também presente no poema. Apesar de Nolan acertar no significado dessa tradição, que consiste em tratar bem qualquer um como se fosse um deus disfarçado, ele falha ao utilizá-la, de maneira nem sempre coerente, para justificar a mensagem que tenta transmitir neste filme. Em síntese, o diretor traz não somente uma mensagem "anti-guerra", mas uma visão negativa acerca do homem e da civilização de uma maneira geral.
E como a Lei de Zeus se encaixa nisso? Bem, o ponto central da transformação do protagonista, desde a Guerra de Troia até o seu retorno à Itaca, nesta versão de Nolan, é um profundo arrependimento acerca de suas ações no conflito, que teriam violado a "lei", causando um trauma no personagem. Aqui, a guerra é tratada não como algo glorioso ou necessário, mas como algo traumático e melancólico. Mais do que um mero trauma psicológico, esse grande conflito é aqui colocado como a razão do declínio de toda uma civilização, marcando, junto as invasões dos "povos do mar", o fim da Era de Bronze.
Essa, no entanto, é a grande falha de Nolan nesta película e o que mais a distancia do poema de Homero. Na obra original, em momento algum é trazido um sentimento contra a guerra, mas, na realidade, a guerra é vista como um desastre inevitável que a humanidade deveria superar - e o próprio Cavalo de Troia, inclusive, seria um instrumento de superação. E, falando no Cavalo, a ideia de que seria uma violação da Lei de Zeus é simplesmente equivocada, pois, na verdade, seria uma resposta, bem como toda a Guerra de Troia, ao fato dos troianos terem inicialmente violado a "lei" ao sequestrar Helena. Aliás, no poema, o tática adotada por Odisseu é até apoiada por Athena e Poseidon.
É importante ressaltar que é impossível adaptar, ao cinema, qualquer obra literária de maneira completamente fiel. Mesmo nas melhores adaptações, sempre são necessárias alterações, seja adicionando algo novo ou cortando algum trecho que não seria adequado ao filme. Acontece que as melhores adaptações sabem fazer tais mudanças sem alterar a essência da história que estão adaptando, e também evitar inserir mensagens que não estão originalmente presentes, e esse cuidado é o que falta neste filme. Sendo assim, deixa de ser uma adaptação e torna-se quase que uma história diferente ou uma releitura, mas levemente inspirada em outra obra. Esta, de fato, é a Odisséia de Nolan, que pouco lembra a verdadeira Odisséia de Homero.
Outra coisa que me incomodou - e você que está lendo o comentário já percebe que essa lista é extensa - foi a maneira com a qual Odisseu é representado. Ora, estamos falando de alguém que é um comandante militar experiente e elaborou todo o planejamento da invasão à Troia, e, de repente, ao presenciar as consequências naturais da invasão que ele mesmo elaborou, ele está surpreso? Afinal, o que imaginava que iria ocorrer quando os soldados gregos, após uma década de uma guerra desgastante, iriam fazer ao adentrar nos muros da cidade?
Odisseu, no poema, é um indivíduo que, de fato, tem um tanto de arrogância e de orgulho, mas também é inteligente e, acima de tudo, um herói que encara os maiores obstáculos possíveis para reencontrar o seu lar e sua família. Ele é um elogio ao homem e a sua capacidade de superar dificuldades, e é exatamente a sua obstinação em retornar a sua terra que o faz ter o reconhecimento e a ajuda dos deuses - exceto, é claro, Poseidon. No filme, por outro lado, ele é alguém traumatizado pela guerra - algo não presente na obra original - e sem ter a mesma inteligência que deveria ser uma de suas principais qualidades - aliás, a cena em que atira uma flecha no Ciclope, de maneira completamente desnecessária, mesmo após os seus homens já terem saído da caverna, é ridícula.
Para não ficar a impressão de que somente a representação do protagonista foi equivocada, devo dizer que me surpreendeu o fato de Nolan reduzir significativamente a presença de outras mulheres centrais na história, tais quais Penelope, Atena e Cerce, que aparecem pouco. Também são excluídos momentos marcantes da história, como a revelação do nome de Odisseu ao Ciclope, o romance do protagonista com Cerce e a cena em que Penelope testa Odisseu para comprovar que ele é, de fato, o seu marido.
E aquilo que não foi excluído foi mostrado com uma drástica redução de seu significado e peso. A sequência que envolve Menelau, por exemplo, é, devido às alterações feitas, bastante desnecessária e descartável. E a cena do reencontro entre Odisseu e o seu cachorro Argo, que deveria ser um momento de profunda emoção, é limitada a meros segundos e passa em um piscar de olhos. Aliás, se quiserem uma representação realmente emocionante dessa cena, vejam "O Retorno", do diretor Uberto Pasolini - embora tal diferença também ocorra pelo fato de Ralph Fiennes ser um ator muito superior a Matt Damon.
Em conclusão, dá para dizer que, como um mero entretenimento por quase duas horas e meia no cinema, cumpre sua função. Quem for assistir no cinema, terá uma excelente experiência sob o ponto de vista visual e sonoro. Como adaptação de uma das maiores obras de ficção, no entanto, deixa muito a desejar. Quem for assistir esperando um épico mitológico, não irá encontrar nada de épico ou de mitológico.
Misturando thriller com drama familiar, "Tudo Culpa Dela" cumpre bem a função de manter a tensão de um suspense bem construído e prender bem a atenção do espectador ao longo do decorrer da história. A cada episódio, somos levados, intencionalmente, a aumentar as nossas suspeitas para um personagem diferente e ficamos submersos no mistério que envolve o desaparecimento do pequeno Milo.
Embora o grande foco da trama seja a investigação policial, é também interessante acompanhar o drama familiar. As desconfianças, tensões e segredos entre membros de uma mesma família nos permitem conhecer mais acerca dos personagens, mas também se conectam com a investigação e elevam o clima de suspeita entre aqueles envolvidos na história.
Por outro lado, a minissérie também tem as suas falhas. Em primeiro lugar, o arco envolvendo a Jenny (Dakota Fenning) e sua família é, convenhamos, bem desnecessário e pouco acrescenta ao arco central da trama - não obstante, ocupa bastante tempo dos episódios, que poderiam ter sido melhor aproveitado melhor desenvolvendo outros elementos. Em segundo lugar, à medida em que se aproxima do final, a produção acumula, talvez por mera ânsia dos roteiristas em estabelecer um plot twist, uma sequência de furos de roteiros.
O principal deles é o fato do casal ter se envolvido em um acidente de trânsito que envolveu a morte de uma criança e quase matou uma outra pessoa e tal acontecimento não ter qualquer menção em cenas prévias. Aliás, é tratado antes como se sequer tivesse ocorrido, pois não apenas não houve qualquer investigação contra o casal, mas também ele sequer reconheciam o rosto de Josephine.
Outro exemplo é o fato de Peter ter conseguido levar Milo, sem o pequeno o reconhecer, ao porta-malas do carro e deixa-lo na frente da delegacia sem ser visto por absolutamente ninguém, sequer por uma câmera que facilmente poderia tê-lo detectado. Eu entendo a intenção de querer construir o mistério, mas essa e outras cenas são simplesmente muito inverossímeis para serem aceitas.
Em resumo, a minissérie é boa, prende a atenção e entretém, mas cai um pouco, ao término, na tentativa de entregar um plot twist. Ou seja, a construção do suspense foi melhor do que aquilo que o suspense entregou ao final.
Cerca de um ano após o encerramento do anime, Hideaki Anno trouxe ao mundo aquela que seria a verdadeira e definitiva conclusão da história - e que não pôde ser apresentada no seriado por limitações orçamentárias. Neste filme, são melhor explicados diversos elementos da trama ainda sem respostas e é trazido um desfecho para arcos que haviam sido deixados em aberto.
Em primeiro lugar, é importante ressaltar que "End of Evangelion" é, acima de tudo, uma obra extremamente complexa. Se você assistiu e não entendeu o final, não há o porquê de ter vergonha. E, se você assistiu e diz que entendeu tudo, ou está mentindo ou não entendeu tudo e ainda não sabe, pois esta película não foi feita para ser compreendida em sua totalidade logo depois da primeira assistida, ou mesmo da segunda e da terceira.
Foi feita, afinal para ser digerida lentamente dias, meses e anos após a sua conclusão, sendo repleta de simbolismos e trazendo inúmeras discussões filosóficas. Aliás, apesar de não compartilhar da opinião de que toda obra difícil de se compreender de imediato é necessariamente boa, devo dizer que algumas das grandes obras já feitas são quase que incompreensíveis à primeira vista. Sendo assim, este meu comentário é meramente uma tentativa de ilustrar aquilo que acho que entendi, após assistir e também após ter feito uma boa pesquisa.
E o filme, na realidade, corresponde a dois episódios de cerca de quarenta minutos unidos, com uma breve intermissão no meio, em uma mesma produção. Enquanto o anime encerra, de forma brilhante e inusitada, com uma abordagem mais psicológica, sob a perspectiva dos personagens - sobretudo, Shinji - e sem se preocupar com o restante das outras coisas "do lado de fora", este longa metragem mostra tudo aquilo que está acontecendo no mundo. Em outras palavras, o final do anime foca no destino do protagonista, ao passo em que o final do filme foca no destino do mundo de uma maneira geral.
A película consegue unir, de maneira competente, um visual fascinante com uma história que entrega momentos emocionantes e angustiantes, nos quais as emoções sentidas pelos personagens são bem repassadas ao público. Em muitas cenas, inclusive, simplesmente ficamos "de queixo caído", perplexos e como se estivéssemos em uma experiência psicodélica - e devo dizer que a parte final lembrou-me, de forma positiva, bastante do clássico "2001", de Stanley Kubrick. E não dá para ignorar a espetacular trilha sonora do seriado, que aqui retorna em grande estilo.
Feitas essas considerações, o filme inicia com a organização secreta SEELE, já tendo perdido a paciência com o comandante Gendo, buscando iniciar o misterioso projeto da "Instrumentalização Humana" por conta própria. Porém, com o intuito de alcançar esse objetivo, ordena a invasão do QG da NERV e do supercomputador Magi, pois as unidades Eva são parte essencial de seu plano. Logo no início, os personagens já se encontram encurralados em um beco sem saída.
========== ALERTA DE SPOILERS ==========
Um aspecto positivo, dentre vários, desta película - e que logo de imediato percebemos - é nos trazer mais informações não apenas sobre esse projeto em si, mas também acerca das reais intenções da SEELE. Em resumo, a organização, através das unidades já conhecidas e de outras mantidas escondidas, estaria buscando unir todas as almas e consciências humanas entre si e com os Evangelions/supercomputador Magi.
Os membros dessa organização acreditam que a humanidade, repleta de mal e violência e responsável por diversos problemas no mundo, seria imperfeita. Nesse sentido, seria necessário construir uma nova civilização - mais avançada e perfeita, que apenas poderia ser obtida a partir de uma evolução da própria raça humana como resultado do "Terceiro Impacto".
Em meio a isso, são vários os simbolismos que Hideaki traz para a história, e, apesar do próprio criador ter afirmado que muitos deles foram colocados meramente por uma razão "estética", eu creio que muitos deles possuem um forte significado religioso e filosófico. Por exemplo, considero que a recorrência da imagem de um "crucifixo" em diversas cenas como um desses simbolismos mais fortes.
Em minha interpretação, o projeto da Instrumentalização Humana, na tentativa de "melhorar" a humanidade e torná-la uma espécie de divindade, representaria, em uma grande ironia e tragédia, o verdadeiro fim da humanidade. Unindo todo o conhecimento do mundo em um único ser, este seria capaz de manipular todas as decisões das pessoas. Unindo todas as emoções das pessoas, seria capaz de manipular os seus sonhos.
Em linhas gerais, ao unir todas as pessoas em um único ser, iria acabar com o próprio conceito de ser humano, pois esse depende da convivência com outros indivíduos. O fim da humanidade viria a partir da extinção da individualidade e do livre arbítrio, com as pessoas unidas não em uma divindade, mas em uma monstruosidade artificial.
Sob uma perspectiva cristã, o "Evangelho" remete a uma série de ensinamentos através dos quais, a partir de nossa própria consciência e da liberdade que nos é dada, guiamos, enquanto indivíduos, as nossas decisões e a nossa vida, para o bem ou para o mal. O "Novo Evangelho" referido no título da obra de Hideaki Anno, seria uma mente única e poderosa comandando o coletivo de toda a raça humana, sem qualquer liberdade.
Esse plano dependeria, em última instância, daquele que estaria a bordo da unidade 01, isto é, Shinji. Em decorrência da vida traumática que o jovem teve, repleta de tristeza e decepções, a SEELE acreditava que a oportunidade de pôr fim à humanidade - e, dessa forma, do sofrimento causado pelos humanos - seria aceita por ele.
No entanto, a organização secreta não conseguiu prever a profunda reflexão feita por Shinji, que é mostrada no episódio de encerramento do anime. Tendo mudado a sua visão acerca da vida e de si próprio, ele acaba por decidir que a vida é sobre experimentar tanto dor quanto alegria e que rejeitar, por completo, o sofrimento levaria, no final das contas, a uma vida estéril e artificial.
Da mesma maneira que, como o protagonista descobre ao término do seriado, não vivemos sozinhos e a compreensão de quem somos depende da compreensão que temos acerca dos outros, não há felicidade sem tristeza, que é uma parte natural da existência. Enquanto vivermos em um mundo real com outras pessoas, e não em uma fantasia, e os humanos tiverem livre arbítrio e individualidade, eventualmente sofreremos, bem como também teremos momentos de prazer e felicidade, pois é assim que a vida é. Mudar isso seria acabar com a vida em si.
Sendo assim, Shinji, que tanto havia se acostumado a fugir dos problemas, dos outros e até de si próprio, toma, ao fim, a decisão de não fugir mais e de encarar todo o sofrimento e dores do mundo. Não adianta fugir do sofrimento da vida, pois o sofrimento é inerente à vida. Viver, inevitavelmente, é sofrer, mas, ao aceitar as dores que a vida nos traz, também podemos ter a oportunidade de vivenciar toda a alegria, a felicidade e a liberdade que a vida também traz. E esse é o grande ensinamento do filme.
Tendo isso em mente, Shinji não rejeita a humanidade, mas essa nova versão da humanidade que seria alcançada pela Instrumentalização, que seria, em síntese, não-humana. Ao fazê-lo, liberta as almas do mundo e termina em uma praia com Asuka. Ao tentar estrangular a menina e ela reclamar, Shinji percebe que o mundo voltou a ser o que era antes, pois, em uma "instrumentalidade", ela não seria capaz de expressar dor ou desgosto. Ao ouvir isso, percebe que, enfim, está livre, pois a vida, apesar do sofrimento a ela inerente, merece ser vivida.
Portanto, "The End of Evangelion" é daqueles filmes pesados e complexos que merece não apenas ser assistido, mas igualmente revisto e estudado várias vezes. Belíssimo no aspecto estético, emocionante e profundo nas reflexões que provoca, é um encerramento com chave de ouro para a saga criada por Hideaki Anno.
Dirigido por Hideaki Anno, "Evangelion" é daqueles animes que marcaram uma geração e, com merecimento, situa-se no panteão dos clássicos dos desenhos japoneses. Aparentando ser, a princípio, um mero seriado de ficção científica situado em um mundo apocalíptico, aos poucos vai se revelando um complexo e muito bem elaborado drama psicológico.
Nesta série, somos apresentados a um mundo futurista em que a humanidade cria robôs - denominados "Evangelions" - para combater criaturas misteriosas conhecidas como "Anjos", que estão trazendo uma grande destruição ao redor do planeta. No entanto, é curioso perceber que os anjos em si não representam o aspecto mais importante da trama, sendo, sob uma certa óptica, somente coadjuvantes perante outras questões que são melhor exploradas na história.
Devidamente inseridos nesse universo, acompanhamos uma narrativa contada sob dois caminhos. No primeiro caminho, o mistério envolvendo a agência NERV, o seu comandante e os segredos por ele guardados, que vão sendo revelados de forma gradativa. No segundo, que considero o mais interessante e o principal do anime, os conflitos internos sentidos pelos personagens, em especial o protagonista, Shinji.
Ao longo da história, o público vai, gradativamente, conhecendo melhor os personagens, sobretudo a partir de flashbacks que nos ajudam a entender o porquê de serem quem são. No caso, são revisitadas experiências traumáticas que tiveram no passado e os moldaram. De uma certa maneira, é até válido pontuar que a verdadeira batalha que cada um trava não é contra os Anjos, e sim contra o seu próprio interior.
Da mesma maneira em que aborda temas complexos como solidão e existencialismo, o seriado também reúne diversos elementos, tais quais drama, comédia e ação. Neste último caso, devo dizer que as cenas de batalha são muito bem representadas, eletrizantes e um dos pontos altos da produção - embora, novamente ressalto, que a batalha em si não é o foco, e sim os personagens nelas inseridos. Uma prova dessa diversidade de elementos é, por exemplo, a diferença de tom entre a primeira e a segunda metades da temporada. Enquanto a primeira possui uma abordagem mais leve, bem humorada e aventuresca, a segunda possui um aspecto mais dramático e psicológico.
========== ALERTA DE SPOILERS ===========
Nos episódios finais, o seriado realiza um excelente trabalho de inserir o espectador na mente dos personagens principais - no caso, refiro-me, sobretudo, a Shinji, Misato, Rey e Asuka - e fazê-lo entender, por completo, os seus anseios, traumas e medos. Ou, em outras palavras, tudo aquilo que define as suas ações, as suas motivações e quem eles, de fato, são.
Shinji, tendo fugido do pai após a morte trágica da mãe, passara a vida inteira se considerando um covarde e um fracasso - e, dessa maneira, odiando a si próprio. Por trás da busca por receber atenção e reconhecimento do pai, o que ele realmente desejava, acima de tudo, era o reconhecimento das pessoas ao seu redor.
Misato, por sua vez, vivenciava sentimentos conflituosos em relação ao seu pai. Tendo o perdido muito jovem durante o Segundo Impacto, havia decidido trabalhar na NERV com o intuito de se vingar dos "Anjos". Por outro lado, quando o seu pai ainda era vivo, ela o odiava por impor restrições a ela, o que a fez adquirir uma personalidade "solta" e disposta a correr riscos na vida. Os seus relacionamentos amorosos e a sua busca por prazeres seriam uma maneira de compensar a ausência da figura paterna.
E, quanto à Asuka, o curioso é que, nos primeiros episódios aos quais somos apresentados a ela, a impressão inicial é a de uma garota temperamental e, em diversos momentos, irritante. Ao conhecermos melhor a sua história de origem - que considero a mais trágica de todas - e entendermos os seus traumas e o estado psicológico decorrente deles, conseguimos ter mais empatia com ela. Por baixo de sua arrogância e comportamento explosivo, encontra-se uma menina completamente quebrada por dentro e desesperada por afeto e atenção.
Nos três casos, os personagens, cada qual a sua maneira, não somente assolados por um tremendo vazio existencial, mas também cujas ações, de maneira inconsciente ou não, buscam exatamente preencher esse vazio. São, logo, escravos de seus medos, de seus passados e de sua própria incompletude. E o anime consegue, com perfeição, transmitir ao público esse conflito interno, em cenas que são, sem dúvida, angustiantes e tensas.
E, a partir daí, é possível perceber o porquê dos pilotos em questão conseguirem ter sucesso ao sincronizar com os Evangelions. Shinji e Asuka, em sua busca por reconhecimento e afeto, enxergam as unidades EVA como o único caminho para alcançarem esse objetivo, tornando-se dependentes dessas máquinas no intuito de preencher os seus respectivos vazios. Sendo dependentes das unidades, são capazes de se tornar "um só" com as mesmas.
Na cena final, temos Shinji vislumbrando o que poderia ser a sua vida em um outro universo, no qual ele seria menos dependente de seus traumas e inseguranças. Ele escuta inúmeras vozes falando que o que somos e o mundo do qual fazemos parte é definido, em síntese, pelas emoções que sentimos, as experiências que vivenciamos e os laços que construímos. Somente existimos de acordo com o que vivemos com os outros e somente conseguimos nos entender ao ter contato com os outros, pois, caso contrário, não teremos referência alguma.
Diante disso, ele entende, enfim, o ciclo em que está inserido. Ao se odiar, não consegue se aproximar dos outros - afinal, se não é capaz de se amar, os outras pessoas também não serão capazes. Ao não se aproximar dos outros, não consegue descobrir quem é. Ao não descobrir quem é, cria um vazio interno. Destruído por esse vazio, odeia aquilo que se tornou. Para se libertar, precisa quebrar o ciclo, e permitir se aproximar daqueles que o amam. Não existimos sozinhos, e essa é a principal lição aprendida pelo protagonista e brilhantemente transmitida pelo anime.
Aliás, Shinji, a julgar por alguns comentários, talvez seja um dos protagonistas de anime mais incompreendidos. Ele pode parecer irritante às vezes, mas o seu comportamento é explicado por um motivo simples e que deveria ser óbvio: ele, além de todas as questões inerentes à adolescência, também é um jovem com depressão. E, para pessoas com essa condição, não é incomum chorar, se fechar para os outros e ter dificuldade em construir relacionamentos.
O criador da série, Hideaki Anno, em diversas ocasiões, disse que a sua batalha contra a depressão foi a principal inspiração para criar a história. E o garoto é o personagem que melhor reflete o estado depressivo vivido pelo autor. Por trás de toda a mitologia, das cenas épicas e das batalhas contra criaturas gigantes, a história é nada mais e nada menos do que a luta de um indivíduo contra a depressão, com a pessoa, após uma série de dificuldades e conflitos, triunfando ao final.
As únicas criticas que faço ao anime é que, em primeiro lugar, ele termina, devido a restrições orçamentárias, sem a verdadeira conclusão da história, que somente é trazida no filme. E, em segundo lugar, existem diversas cenas de teor sexual que, em minha avaliação, foram um tanto desnecessárias. Eu até entendo que muitos dos personagens são adolescentes e estão em uma "fase de descoberta", mas, quando algumas dessas situações ocorrem em contextos inadequados, isso torna-se um problema.
Baseado em um livro homônimo escrito por Max Brooks, "Guerra Mundial Z" traz uma interessante mistura entre o terror zumbi clássico, comum a obras do gênero, com um pouco de ficção científica e drama político. Em linhas gerais, o apocalipse zumbi é visto aqui menos sob o aspecto pessoal ou de sobrevivência de um determinado grupo de indivíduos, mas, tal qual o título sugere, como algo mundial - ou, em outras palavras, como uma gigantesca pandemia, tendo como diferença o fato de que, neste caso, a doença transforma as pessoas em mortos vivos.
No lado que envolve o terror em si, é possível dizer que o filme cumpre a tarefa com maestria. Muito por conta da boa direção de Marc Forster, a película consegue, de maneira competente, transmitir ao espectador as mesmas sensações de tensão vivenciadas pelos personagens, seja apenas durante a construção do suspense, seja nos momentos de ação eletrizante. A decisão de representar os zumbis como sendo extremamente velozes e capazes de dar grandes saltos também colabora com o aumento do efeito aterrorizante.
Por outro lado, é na parte associada a ficção científica e a política, que preenchem uma considerável porção da história, que o longa metragem dá as maiores derrapadas. Como não li o livro que inspirou a esta película e, logo, desconheço eventuais mudanças feitas no enredo original, considero que os diversos problemas na produção da película foram os responsáveis por esse processo.
Para quem não sabe, este filme teve sucessivas mudanças nos roteiristas responsáveis por escrever o script, totalizando, ao final, três diferentes pessoas encarregadas, durante a produção, pelo roteiro. E tamanhas mudanças não passam despercebidas, sobretudo ao percebermos uma considerável alteração no tom e na consistência da trama de sua primeira parte ao restante da película.
O ponto que mais me incomodou reside na série de elementos da história que são mal explicados e desenvolvidos de maneira rasa, até como se o roteirista final encarregado tivesse que ter apressado a finalização do roteiro sem a devida revisão. Por exemplo, o fato de Gerry ter "descoberto" uma forma de camuflar as pessoas quanto aos zumbis a partir de uma rápida observação e sem qualquer evidência que suportasse sua teoria é, no mínimo, absurdo. E mais absurdo que um grupo de cientistas renomados tenha aceito isso sem maiores explicações.
E, claro, o roteiro é repleto de outras conveniências. Dentre elas, cito o prisioneiro capturado em uma prisão coreana que, por alguma razão, sabe de inúmeras coisas e informações essenciais, mesmo que estivesse lá preso, por um motivo sem qualquer relação com o apocalipse zumbi, há bastante tempo e antes da pandemia sequer começar. E poderia citar o protagonista sobrevivendo a uma queda fatal de avião, ou a vez em que ele toma um frasco aleatório contendo um vírus e acaba, por sorte, o camuflando contra zumbis. Enfim, a lista de eventos semelhantes que ocorrem no filme é longa.
Em resumo, o filme prende bem a atenção do espectador e é um terror eficiente, mas peca em detalhes cruciais do roteiro, que cai bastante de qualidade do meio para o final.
"Eu gostaria de destruir esse relógio e espalhar todas as suas partes pelo chão. Quando eu vejo algo assim, eu quero saber o que tem dentro dele". Essa frase, dita em uma conversa entre Davis e Phil sobre um velho relógio no escritório do segundo, talvez seja o que melhor define o filme, a história e as motivações do protagonista nesta que é uma bem executada obra de drama.
Essa película já inicia com o banqueiro, como é descrito na sinopse, na cena em que perde sua esposa em um acidente trágico. Não conhecemos absolutamente nada sobre ela ou sobre a vida de casal dos dois e, logo no começo da história, a personagem em questão é subitamente retirada e a vida do protagonista alterada por completo.
No entanto, para a nossa surpresa, a vida dele, pelo menos no aspecto externo, não muda tanto assim. Logo após os instantes iniciais, acompanhamos Davis seguindo a sua rotina, seja dentro de casa ou seja no trabalho, como se nada tivesse acontecido. E, também ao longo da trama, descobrimos que o personagem não somente desconhecia muita coisa da sua esposa, como também até sentia que não a amava mais.
A "demolição" ao qual o título do filme se refere começa a partir daí, quando Davis simplesmente passa a destruir coisas. E, ao escrever "coisas", refiro-me a qualquer coisa, desde máquinas de café a portas ou até mesmo uma casa por completo. Aquilo que poderia ser uma mera estranha reação a uma situação de luto pode ser interpretada, de forma mais ampla, como o resultado de uma incapacidade do personagem em lidar com os próprios sentimentos, que agora extravasam e são catalisados a esse processo de destruição, e em ver um sentido em sua vida.
Como ilustrado na frase que mencionei ao início do comentário, essa demolição não seria algo aleatório, mas uma tentativa desordenada de entender aquilo que tem, aquilo que ele quer ao seu futuro e até mesmo aquilo que é. Diante da dificuldade de entender melhor a sua relação com a esposa, acaba destruindo tudo aquilo que, na ausência dela, ainda o ligava a mesma: a relação com a sua família, a sua casa e assim por diante.
Destruir, não pelo mero objetivo de destruir, mas de colocar todas as peças no chão e de, ao sentir alguma coisa perante todo esse processo, tentar ver o que há por dentro, inclusive de si próprio. Davis, por não entender os outros e nem ele mesmo, sente um completo vazio, e tudo aquilo que realiza, desde os meros atos de destruição até o relacionamento com Karen, têm o objetivo de tentar preencher esse vazio.
E é exatamente quando consegue demolir tudo que tinha na vida - o trabalho, a relação com a família da esposa e até a tentativa de relacionamento com Karen - e alcança o fundo do poço, ele enfim entende o que ele quer, o que ele sente e quem ele é. Aos poucos, o próprio amor que sentia pela esposa, que considerava que já havia se exaurido, é redescoberto. Aos poucos, a esposa que antes parecia estranha para ele, é alguém que ele passa a conhecer, mesmo que, para isso, tenha que ter primeiro a perdido.
Apesar de todas as qualidades, das quais também destaco a excepcional performance do elenco de uma maneira geral, o filme tem dois pontos que fazem a qualidade cair um pouco e colocam uma história com potencial de ser "ótima" no patamar de "apenas bom". O primeiro é o arco envolvendo o filho de Karen que parece um pouco "fora de lugar" e não conecta-se tanto com o foco central da trama, e o segundo é uma revelação feita, ao final, sobre a Júlia, que considero desnecessária.
Em resumo, o filme é um dos melhores trabalhos de Jean-Marc Vallée - e, infelizmente o seu último trabalho cinematográfico, em decorrência de sua morte prematura - e uma interessante história sobre luto, vazio e a busca por entendermos nossos sentimentos e o nosso objetivo na vida.
Dirigido por David Ayer, "Corações de Ferro" é, sem dúvida, um retrato brutal da Segunda Guerra Mundial, mostrando os duros efeitos que o conflito provocou em civis e militares - não poupando sequer aqueles que estavam do lado vitorioso. Em meio a várias qualidades do filme, creio, no entanto, que a produção pecou, de maneira considerável, na história abordada - que, mesmo inserida em um contexto real, é fictícia - e no desenvolvimento dos personagens.
Irei começar aqui por tudo aquilo que considero que Ayer acertou. A sua direção, em primeiro lugar, bem como todos os aspectos técnicos do longa metragem, é algo que não pode ser ignorado, sobretudo pela sua precisão nas cenas de batalha. O diretor consegue, de maneira competente, retratar os conflitos com realismo e fidelidade histórica e, ao mesmo tempo, transmitir ao espectador a tensão sentida pelos personagens.
Quanto a mensagem repassada pela película, é bem claro que corresponde a uma mensagem contra a guerra de uma maneira geral, mostrando a destruição que provoca no mundo e em cada soldado individualmente. Colocados dentro de uma carnificina, os homens, em sua maioria, ou são extremamente frios e desprovidos de emoções, ou são entregues aos seus instintos mais primitivos, como resultado de traumas sofridos em batalha.
O problema é que, independente da mensagem que alguém queira repassar em um filme, ela deve ser sempre acompanhada de uma história e personagens consistentes e interessantes, e é esse o ponto em que esta obra falha. A começar pelos personagens, confesso que, com exceção do Norman e do Boyd, eu não senti interesse por absolutamente nenhum dos que estão representados na trama. E eu diria que todos os personagens, até mesmo aqueles aos quais tive uma maior conexão, são muito mal desenvolvidos e, em diversos momentos, extremamente genéricos e caricatos.
Aliás, quanto ao personagem interpretado por John Bernthal, ele é tão repugnante que, em dado momento, até me faz torcer para que algum nazista o mate. Como mencionei antes, o objetivo do filme é exatamente mostrar os efeitos da guerra nos soldados, mas, no caso deste personagem em particular, passou-se bastante do ponto. Os roteiristas miraram em alguém traumatizado e transformado pela guerra, mas acabaram acertando em alguém que, convenhamos, mais parece meramente um completo imbecil e sem qualquer característica para ser elogiada.
E, com relação à história em si, o filme é repleto de cenas que ou falham em repassar a mensagem desejada ou pecam pela inconsistência. Por exemplo, existe uma cena em o comandante leva Norman a uma sala repleta de nazistas mortos e diz algo no sentido de que "ideais são pacíficos, mas a realidade é violenta" e depois ambos saem do local sem falar mais alguma palavra, e confesso que não entendi o que uma coisa tem haver com a outra. Pareceu-me uma tentativa do filme ser mais profundo do que realmente os roteiristas são capazes de entregar em profundidade.
Outro momento desses é aquele em, novamente, o comandante e Logan estão juntos, dessa vez com duas mulheres alemãs em um apartamento. A intenção, creio, era procurar trazer uma maior leveza à história para, em seguida, mostrar a perversão sexual dos outros soldados, já completamente afetados pela guerra, que chegaram depois. No entanto, o resultado foi apenas uma cena extremamente desconfortável, grotesca e que prolongou-se mais do que deveria por motivos que desconheço - o comandante, inclusive, poderia ter, logo no começo, impedido os seus subordinados de agir de maneira mal educada com a garota, mas permitiu a situação continuar bem além do aceitável.
E, para completar, a cena final, que é absurda. Apesar do comandante, no começo do filme, dizer que nada mais importava para ele do que manter os seus companheiros vivos, ele não vê problema algum em arriscar a sua própria vida e a dos outros ao enfrentar, apenas com seu tanque atolado, uma tropa de trezentos soldados alemães, quando ele poderia simplesmente recuar e retornar ao combate com reforços. Um comportamento, no mínimo, inconsistente por parte do personagem. E, por incrível que pareça, apesar de toda a desvantagem numérica, os alemães são derrotados no confronto, o que seria impossível na vida real.
Não me levem a mal, o filme tem uma direção, no aspecto técnico, exemplar, além de uma excelente fotografia, boas atuações e cenas de batalha eletrizantes. Porém, o fraco roteiro, bem como o praticamente nulo desenvolvimento dos personagens - com a exceção de Norman, acaba, sem dúvida, atrapalhando a mensagem que a obra queria passar e ofuscando as qualidades apresentadas. Veredito: não é ruim e dá para passar o tempo, mas está longe de ser essa obra prima que vi vários comentando.
É raro encontrar uma obra literária que, não sendo muito conhecida e nem aclamada universalmente, tenha sido adaptada tantas vezes, ao cinema, quanto "The Body Snatchers", de Jack Finney. E impressionante o fato da quarta adaptação ser, não obstante o fato de possuir a maior quantidade de material para se inspirar, a mais fraca.
E isso se deve, sobretudo, ao fraco roteiro. O filme até começa de maneira interessante, construindo um suspense acerca da misteriosa doença que está se espalhando e dos efeitos dela nas pessoas. No entanto, dos primeiros quarenta minutos pra frente, a história vai, gradativamente, apagando o lado da ficção-científica e acentuando o lado da ação, o que prejudica bastante a trama.
Não à toa, é a partir daí que o enredo torna-se cada vez mais confuso e, por consequência, desinteressante ao espectador. Além disso, acompanhamos uma série de furos no roteiro, acontecimentos mal explicados e uma história que não sabe no que focar. Mesmo com o filme até possuindo algumas cenas que, fora do contexto, poderiam ser interpretadas como boas, elas se perdem em meio a inúmeros outros momentos que tiveram execução ruim e que parecem ter sido escritos à pressa por algum roteirista.
Por exemplo, a mãe que está desesperada em encontrar o filho, mas esquece de simplesmente ligar ao celular dele. O técnico de laboratório que mal descobre a doença e, dois depois, aparentemente já sabe tudo sobre ela. O fato dos pesquisadores não procurarem outras pessoas imunes e focarem somente na criança. E, claro, a cena em que a doutora tem uma injeção de adrenalina no bolso e, por algum motivo, prefere arriscar cair no sono ao invés de usá-la.
Também não é bem desenvolvido o que esses seres alienígenas realmente querem. Em dado instante, fica parecendo até que essa invasão pode ser benéfica, pois, após o seu início, vemos notícias de fins de guerras, medicamentos gratuitos sendo distribuídos e assim por diante. Se eles possuem alguma má intenção por trás, em momento algum é mostrado.
Sendo assim, o filme, perdido nas próprias incoerências do roteiro e sem saber ao certo se quer ser ficção-científica, ação ou suspense, acaba, no final das contas, não sendo nada disso. Nicole Kidman está deslumbrante na película, mas ela e o restante do elenco apenas podem fazer o que é possível com o script que lhes foi entregue e, convenhamos, não é suficiente para salvar isso aqui. Um desperdício de tempo para o espectador, e um desperdício ainda maior de uma proposta que possuía potencial.
Dos filmes protagonizados pela dupla Simon Pegg e Nick Frost, este talvez seja um dos mais fracos, apesar de também ser aquele que tinha o maior potencial. Em "Paul", temos a história de um alien que encontra dois nerds pelo caminho e pega carona com eles enquanto fogem do governo americano.
O alienígena em si é o melhor personagem do filme. Com a voz do Seth Rogen, que se encaixa muito bem aqui, e um CGI decente, ele, refugiado há bastante tempo na Terra, já adquiriu um grande conhecimento não apenas da cultura terrestre como também dos humanos de uma maneira geral.
A grande sacada da história, inclusive, é a como eles representaram o alienígena. Apesar de ter a aparência mais genérica possível para um extraterrestre, a sua personalidade é completamente distinta daquilo que se imagina de tal criatura. Em síntese, é quase como um humano no corpo de um alien, com um jeito irreverente e algumas boas piadas.
O problema é que, com exceção de alguns momentos que realmente são engraçados e boas referências a clássicos da ficção científica, o filme deixa a desejar durante a maior parte do tempo. Além de várias cenas sem graça e desnecessárias, vale mencionar que, em muitas oportunidades que poderiam ter sido melhor exploradas, os roteiristas se contentaram com piadas baratas, rasas e pouco criativas. E os outros personagens, sinceramente, são bem desinteressantes e mal desenvolvidos.
Sendo assim, a película até traz uma boa proposta, mas não consegue ir muito além do estilo "comédia pastelão" e "besteirol". Ou, em outras palavras, é o tipo de filme "Sessão da Tarde": despretensioso, repleto de altos e baixos e apenas bom mesmo para passar o tempo enquanto desligamos o cérebro por umas duas horas, sem nada de impressionante ou muito inteligente.
Dirigido pelo jovem Curry Barker, "Obsessão" é não somente uma das gratas surpresas deste ano no cinema, mas também um daqueles filmes capazes de ensinar algumas lições à indústria cinematográfica. Primeiro, que é possível entregar um bom produto sem necessariamente gastar centenas de milhões no orçamento e, segundo, que é importante dar oportunidade a novos e desconhecidos talentos ao invés de continuar na mesmice com nomes repetidos.
Para quem não sabe, Barker, antes de se aventurar no mundo da direção, era - e ainda é - youtuber, sendo dono de um canal no qual posta sketchs de comédia. Sendo assim, não é surpresa, àqueles já acostumados ao seu trabalho, a interessante mistura que ele faz aqui - que, é verdade, não é mais exatamente uma grande novidade e até vem se tornando bastante comum nos últimos anos - entre comédia e terror.
No entanto, mais importante do que a junção em si entre esses dois gêneros aparentemente distantes, encontra-se a forma com que esse processo é feito. Aqui, Barker não adota nem um estilo de "comédia pastelão" e nem um terror barato apoiado em jumpscares - embora eles estão presentes e utilizados com competência, mas utiliza os melhores elementos e qualidades desses estilos de forma natural e bem encaixada na história, de forma que o desenrolar dos acontecimentos não parece forçado, mas flui da maneira que se esperaria que os personagens em questão agissem diante dos fatos.
E essa abordagem do diretor é sustentada por um roteiro, também escrito por ele, que, apesar de beber da fonte de outras produções de terror, inova e subverte as expectativas. Digo isso porque o que estamos acostumados a ver em um filme do gênero que envolve um rapaz apaixonado por uma garota é algo no sentido do homem invadindo a privacidade e agindo de maneira esquisita e obcecada em relação a mulher. Pois bem, aqui é exatamente o oposto.
Após o desejo que o protagonista, Baron, faz ao "salgueiro mágico" de que Nikki se apaixone por ele e o ame mais do que tudo no mundo, o desejo é, para a sua surpresa e para o seu posterior arrependimento, atendido. Sendo assim, não se trata de um homem que passa o filme inteiro, como em outras películas do tipo, obcecado ou atraído por um enlouquecido desejo sexual em torno de uma mulher e que nunca é atendido ou retribuído. Aqui, a atração é retribuída, e isso exatamente o que acaba sendo o problema para o homem.
O diretor realiza um excelente trabalho na construção do enredo, que é muito bem estruturado, raramente cai em repetições ou artifícios baratos e mantém bem a atenção do espectador ao longo da trama. O terror e a angústia que Baron sente são, com eficiência, repassados, ao público, a tal ponto que, em muitos momentos, ficamos sufocados e sem ver saída daquela situação que não seja através de alguma tragédia. Logo, o mais forte aspecto do terror, em "Obsessão", não é um susto aqui e acolá, mas no constante estado de tensão e desconforto que o filme nos impõe a partir do desenrolar dos acontecimentos.
Também vale destacar, dentre um elenco que entregou grandes performances, a atuação de Inde Navarrette. A atriz, que provavelmente a partir de agora irá receber mais oportunidades na carreira, presenteia-nos com uma atuação emblemática em produções de terror. Muito sustentada por sua expressividade corporal, ela consegue alterar entre a comédia e o horror, o delicado e o bruto e o amoroso e o aterrorizante com extrema naturalidade, encaixando-se bem na loucura - e nos conflitos - de sua personagem.
Um aspecto que considero interessante, e que pode ter passado batido por alguns, é que a grande e verdadeira "obsessão" ao qual o título se refere não é a que Nikki sente por Baron, mas a que Baron sente por Nikki. Isso porque a primeira age como age devido a uma espécie de feitiço colocado sobre ela, e não por vontade própria. Inclusive, em muitas cenas, vemos a luta da "verdadeira Nikki", que ainda está presente em algum lugar dentro da mente, em tentar fugir dessa situação louca em que está inserida.
O segundo, por sua vez, embora não seja possível dizer que o que está ocorrendo era exatamente o que ele tinha em mente, ainda sente uma forte atração pela garota. Mesmo com todas as loucuras que a sua "namorada possuída" realiza, ele jamais sugere romper o relacionamento, constantemente retorna para a sua casa apesar de todos os perigos imprevisíveis pela frente e insiste em tentar mantê-la como sua até os últimos instantes, quando enfim percebe que tem de pôr fim a tudo.
Logo, quem é o verdadeiro obcecado: a mulher que age, afetada por uma magia sobrenatural, como absurdamente louca de paixão por um homem ou o homem que, por livre vontade, continua com essa mulher mesmo ciente do que está ocorrendo? Baron, logo, está, sim, assustado e aterrorizado pelo comportamento de Nikki, mas prolonga o seu desejo de tê-la ao seu lado até os momentos finais, pois também, durante boa parte do tempo, é incapaz de deixá-la ir embora.
Aliás, eu até acho que o final - que, diga-se de passagem, achei um tanto fraco e bastante apressado - poderia ter sido melhor sem o seu suicídio, com ele simplesmente aceitando a realidade e mantendo a Nikki presa naquela situação. Mais trágico, mas mais coerente com o personagem e com suas inseguranças e obsessões.
No geral, um filme muito bom, que faz juz aos elogios e que vale a pena assistir. Recomendado.
Sendo uma adaptação extremamente fiel do mangá homônimo criado por Naoki Urasawa, é possível pontuar "Pluto", assim como mantém as várias qualidades da obra literária, também conserva os poucos - mas perceptíveis - defeitos. Em linhas gerais, no entanto, o seriado tem bem mais pontos positivos do que negativos, sobretudo destacando-se pela animação de qualidade, boa trilha sonora e história bem estruturada.
Em primeiro lugar, é preciso entender o trabalho que serviu de base para a adaptação. Dito isso, o mangá, na verdade, é uma espécie de releitura de uma das histórias mais famosas dentres os quadrinhos japoneses, o "Astro Boy" - mais especificamente, o arco "The Greatest Robot on Earth". Tendo como inspiração esse clássico desenho, Urasawa reutiliza muitos elementos da história original, como os nomes dos personagens, e estrutura, a partir daí, uma trama com um tom bastante diferente.
Tanto no mangá quanto no anime, estamos diante não apenas de uma mera ficção científica futurista, mas de um suspense investigativo - ou, simplesmente, thriller. Nele, acompanhamos o detetive robô Gesicht tentando solucionar um misterioso caso que envolve a morte de humanos e de robôs e que, a medida na qual a investigação avança, vai se tornando cada vez mais complexo.
Nesse sentido, o seriado realiza um excelente trabalho na construção do suspense, dando poucas pistas, mesmo para aquele espectador mais atento, sobre o mistério envolvendo o caso. Episódio por episódio, é apresentada, simultaneamente ao público e aos personagens, mais uma peça do quebra cabeça, que é montado de forma gradativa. Sendo assim, é necessário, para quem decidir assistir ao anime, a devida paciência, pois as respostas não serão dadas de imediato e, em dados momentos, tudo pode parecer extremamente confuso, mas, ao final, as coisas ficam mais claras.
Um outro aspecto que me agradou nessa produção, além do suspense, foram os temas abordados na história. Em vários momentos, o seriado passa uma boa mensagem - que, é verdade, não é exatamente uma novidade, mas, mesmo assim, sempre bem vinda - sobre os males não apenas da guerra, mas do ódio e da vingança de uma maneira geral, apontadas aqui, corretamente, como elementos que alimentam um ciclo vicioso sem fim e jamais trazem bons frutos ao final.
E, em tempos de avanços na área de robótica e de inteligência artificial, o enredo traz uma interessante perspectiva sobre o assunto. Na história, é possível encontrar o melhor lado do uso da tecnologia pelo homem, com robôs que ajudam aos mais necessitados, compreendem as emoções humanas com empatia e afeto e são úteis à sociedade. Do mesmo modo, também encontra-se o pior lado, ao mostrar os impactos negativos do desenvolvimento tecnológico, tal qual o desemprego, a algumas pessoas e a utilização das máquinas como armas de assassinato e até de destruição em massa.
Porém, se eu tivesse que colocar esses dois aspectos na balança, eu diria que a série pende mais ao lado positivo. Aqui, somos apresentados a robôs que têm famílias, têm empregos e possuem uma compreensão de sentimentos e emoções até maior do que muitos humanos. Enquanto isso, muitos dos problemas envolvendo essas máquinas não são provenientes das máquinas em si, mas do mau uso feito, delas, pelo homem ou pela emulação das piores características humanas, como manipulação e ódio.
Logo, um robô, sendo meramente um robô, não seria capaz de ter quaisquer sentimentos, sejam bons ou maus. Um robô bem integrado a sociedade, seria capaz de ter bons sentimentos. Um robô extremamente avançado e excessivamente humano, seria capaz, assim como um humano, de cometer atrocidades. E, nos personagens da trama, vemos cada um desses exemplos.
O único defeito do seriado, curiosamente, é um defeito também presente no mangá, que é o fato da história, na reta final, tornar-se um tanto "apressada". Além disso, apesar da maior parte do mistério ser esclarecida até o término, alguns elementos importantes são deixados sem explicação ou apresentados de maneira muito rasa. Isso, inevitavelmente, deixa a sensação de que ficou faltando alguma coisa.
Conclusão: a série é boa e vale a pena assistir, mas poderia ter sido melhor. O problema é que muitas das respostas que faltam sequer estão presentes no material original, então os roteiristas do anime ficaram de mãos atadas aqui.
Apesar de manter o alto nível no que diz respeito a atuações do elenco, fotografia, trilha sonora e direção, creio que esta é a temporada mais fraca das três. A queda de qualidade que já havia sido percebida da primeira para a segunda, aqui é vista de maneira ainda maior e considerável.
E isso se deve, sobretudo, ao roteiro. Nas duas temporadas anteriores, em especial na segunda, existem vários aspectos da história que, de maneira proposital, são complexos e confusos. No entanto, continuamos assistindo na expectativa de que em algum momento, tudo será explicado e fará sentido, bastando apenas ter um pouco de paciência.
Pois bem, chegamos na temporada final e não dá para dizer que tudo foi explicado - ou, pelo menos, não de forma satisfatória. O roteiro, sim, explica diversos elementos do enredo e nos dá uma compreensão melhor sobre as motivações de alguns personagens. Além disso, os primeiros episódios são interessantes e nos prendem bem a atenção. Por outro lado, ao mesmo tempo, o seriado também deixa inúmeras perguntas em aberto e furos no roteiro.
Por exemplo, é revelado que o relojoeiro é a "chave" de tudo, com o seu desejo de evitar a morte de sua família como sendo a origem para a viagem no tempo. No entanto, essa informação está longe de ser um grande "plot twist", pois já é sabido, há muito tempo, que foi ele que literalmente inventou a máquina do tempo. Logo, não seria óbvio desde o começo? E, sendo óbvio desde o começo, como Cláudia, Adam e os outros não perceberam isso antes? E, se sabia, porque simplesmente não viajou ao tempo antes para corrigir isso ao invés de esperar ao último instante para revelar esse fato?
E, se não bastasse, existem dois pontos que me incomodaram bastante. O primeiro foi a adição de novos arcos e personagens, que foram mal desenvolvidos, sem mesmo antes explicar os outros arcos já existentes. O segundo foi o excesso de linhas do tempo diferentes aqui apresentadas, que complicaram ainda mais o que já era complicado.
Como resultado, é tanta informação, tanto personagem e tanta subtrama que não somente é difícil para o espectador verdadeiramente se importar com alguma coisa que está acontecendo, como também faz o seriado tornar-se repetitivo e cansativo. O episódio final é bom, apesar dos furos no roteiro, mas, quando chegamos nele, já estamos cansados da história e queremos que tudo termine logo.
Logo, esta é uma temporada final que não está a altura das temporadas anteriores - sobretudo a primeira - e, sinceramente, foi difícil de terminar. Não diria que foi ruim, pois tiveram alguns bons episódios, mas bem abaixo daquilo que esperava e do que poderia ter sido.
Em linhas gerais, é possível dizer que a segunda temporada mantém muito do estilo "sci-fi noir" apresentado anteriormente na produção. Dessa forma, todas as qualidades do seriado, bem como os temas representados, ambientação e a combinação de suspense com ficção científica estão aqui presentes. E, claro, não falta aquela boa e velha dor de cabeça para entender a complexidade dessa esquisita, porém fascinante, série.
Nesta temporada, "Dark", ao dar prosseguimento na história, trata de responder diversas perguntas deixadas em aberto na temporada anterior. No entanto, destaco que é necessário, por parte, do espectador, um pouco de paciência nos primeiros episódios, que adotam um ritmo mais lento. Do meio pra frente, a temporada "pega no ritmo" e conecta, de uma forma mais dinâmica, as diversas peças da trama.
Além de dar continuidade a arcos previamente apresentados, o seriado introduz novas narrativas e dramas e aprofunda outros que haviam sido apenas brevemente abordados antes. No entanto, em determinados momentos, considero que a série passa um pouco do ponto e torna a trama excessivamente confusa, sobretudo com a adição de mais linhas do tempo e dimensões, que, em minha avaliação, prejudicaram o enredo e provocaram uma certa queda de qualidade - não uma grande queda, mas perceptível.
Por fim, aquilo que mais gostei desta temporada foi o aprofundamento do tema relacionado ao destino e livre arbítrio. Afinal, ao voltarmos ou avançarmos no tempo, é possível mudar o rumo dos acontecimentos ou tudo irái nevitavelmente desencadear no mesmo desfecho? Conseguimos controlar nossas ações e destinos ou somos controlados por forças externas mais poderosas? Em meio a confusão entre as linhas do tempo, é o passado que está definindo o presente e futuro ou vice versa? Essas são as perguntas que fazemos ao acompanhar essa loucura e cujas respostas seguem incertas.
Definitivamente, uma das séries mais complexas, malucas e criativas que já assisti. Misturando mistério com ficção científica, "Dark" começa como um drama/suspense investigativo, em que somos introduzidos a uma pequena cidade alemã na qual uma criança desapareceu, mas, a medida em que a história prossegue, a trama vai se expandindo para diversas camadas.
Na falta de uma expressão mais apropriada, eu diria que "descer na toca do coelho" é a melhor forma de descrever a experiência de assistir a esse seriado. Ao longo do desenrolar dos acontecimentos, vamos mergulhando na complexidade do enredo e nos arcos dos personagens, tendo, muitas vezes, que ter cuidado para não se perder em meio a tantos nomes e diferentes linhas do tempo.
A série consegue realizar um grande trabalho em prender a atenção do espectador com personagens cujos dramas pessoais são interessantes e, acima de tudo, um suspense bem construído, que mantém o mistério de maneira exímia e leva a trama a caminhos inesperados - porém que se encaixam perfeitamente. Como se estivéssemos juntando peças de um quebra cabeça, aos poucos mais informações acerca dos personagens é revelada e compreendemos melhor, mesmo com direito a uma boa e velha dor de cabeça, diversos elementos da história.
Outra qualidade da produção é o estabelecimento de um drama que, apesar de ter o tema da viagem do tempo como um aspecto central, não se apoia somente nisso para sustentar a história. No caso, a viagem no tempo convive com outras narrativas pessoais dos personagens e reflexões sobre perda, destino e livre arbítrio. Recomendado.
Em sua segunda temporada, "Frieren" consegue fazer algo difícil, que é manter o alto nível já apresentado anteriormente, dando continuidade à saga da maga élfica e de seus companheiros, Fern e Stark e ainda preparando o terreno para a terceira temporada que será lançada ano que vem. E eu diria que isso ocorre, sobretudo, porque o anime preserva todas as qualidades marcantes apresentadas na primeira temporada e responsáveis pela boa recepção da série: os deslumbrantes efeitos visuais, a excelente trilha sonora, as dinâmicas e divertidas interações entre as personagens e, sobretudo, a atmosfera acolhedora, tranquila e leve da história.
A trilha sonora, inclusive, merece um destaque especial. Com composição feita pelo americano Evan Call, que já trabalhou em outros animes, a trilha incorpora diversos elementos da música folclórica europeia e contribui para a ambientação do espectador no mundo em que se passa a história. E o que é curioso é que, apesar de ser um mundo fictício e repleto de magia, temos, muito graças ao aspecto musical, uma sensação de pertencimento a essas terras e locais que jamais colocamos os pés e de memória a uma casa da qual jamais fizemos parte, o que contribui com a nossa imersão na história.
No entanto, o anime não se limita a simplesmente repetir a fórmula já estabelecida, mas também, dentre outras adições, expande o "lore" de alguns personagens que haviam sido introduzidos no final da temporada anterior - tais quais Methode e Genau, apresenta novas informações sobre o passado de Frieren, Himmel e do antigo grupo e traz uma boa progressão na relação entre Fern e Stark. Neste último caso, eu diria que alguns dos melhores episódios foram aqueles que focaram mais no seu relacionamento/romance, proporcionando não somente cenas bonitas e um aprofundamento em ambos os personagens, mas também momentos engraçados.
Em linhas gerais, os temas abordados no seriado prosseguem o mesmos - e, de fato, não haveria razão alguma para mudar isso - e segue sendo desenvolvido através tanto das aventuras do grupo atual quanto dos flashbacks do grupo antigo. No caso, o seriado nos faz refletir sobre as relações humanas, sobre o impacto que outros fazem em nossas vidas e que nós fazemos nas vidas dos outros e também sobre aproveitar os bons momentos nesta jornada que percorremos, por menores, bobos e até insignificantes que possam parecer inicialmente - como, por exemplo, observar um pôr do sol.
É também sempre fascinante observar como este seriado consegue trazer reflexões sobre temas profundos, nos fazer imergir em um mundo de fantasia e "acalmar a nossa alma" com cenários e sons deslumbrantes e, ao mesmo tempo, apresentar tamanha simplicidade. Assim como na primeira temporada, temos algumas cenas em que simplesmente nada ou pouco acontece - às vezes, são apenas os personagens principais caminhando, ou permanecendo em um quarto, dormindo, conversando ou se alimentando - e, por incrível que pareça, essas são algumas das cenas que mais nos fascinam, prendem a nossa atenção e tornam este anime tão especial. Naturalmente, temos a progressão natural do arco central da história e acontecimentos importantes ocorrendo, mas, mais importante do que isso, são as pequenas missões secundárias nas quais os personagens se envolvem e o desenvolvimento pessoal de cada um.
Logo, a segunda temporada de "Frieren" não decepciona e mantém tudo aquilo que amamos no seriado sem cair na mesmice ou repetição. O seu único defeito, como era de se esperar, é que é muito curta e, sem dúvida, 10 episódios não é suficiente para nos satisfazer, no entanto aceito mesmo assim e já estou no aguardo pela próxima temporada.
Sem dúvida, "Frieren" é daqueles animes que, além de apresentarem uma alta qualidade por si só, proporcionam prazer/conforto ao assistir e nos dá uma sensação boa após terminarmos cada episódio, sobretudo pela beleza tanto do visual quanto da história. Nesta série, acompanhamos uma maga élfica que, várias décadas após ter derrotado, junto aos seus amigos heróis, o "Rei Demônio", agora refaz, com um outro grupo de companheiros, a mesma rota que percorreu outrora. No entanto, nesta nova aventura, a protagonista da série não apenas possui como objetivo derrotar monstros e demônios, mas realizar uma jornada pessoal ao longo de suas próprias emoções, sentimentos e lembranças.
Em primeiro lugar, destaco aqui a qualidade da animação, que é simplesmente belíssima e, em diversas cenas, quase que assemelha-se a uma verdadeira obra de arte, com cores e tons que trazem vida ao mundo mágico que é aqui representado. E, se não bastassem os deslumbrantes efeitos visuais, o anime igualmente nos traz uma incrível trilha sonora, que possui traços medievais, seja em tons mais relaxantes, seja em tons mais imponentes, que encaixam-se, com perfeição, ao universo fictício no qual a história encontra-se inserida - que, embora fictício, claramente é inspirado em antigas narrativas medievais.
Em seguida, não posso deixar de mencionar as personagens, que, inclusive pelo caráter fortemente intimista do anime, são um aspecto até mais importante do que os próprios elementos mágicos existentes. Frieren, a protagonista, é uma elfa com poderes mágicos e cuja expectativa de vida beira a eternidade, logo, mesmo já tendo vivido mais de um milênio, possui a aparência, e em várias vezes também a personalidade, de uma criança - ou de uma adolescente, se preferir. Para ela, séculos passam como se fossem apenas alguns meses, o que a faz ter uma percepção do tempo completamente diferente da maioria das pessoas e, na mesma proporção, impacta a forma como a mesma enxerga relações pessoais, tais quais amizade e afeto.
Isso ocorre por que, sendo ela capaz de viver por milhares de anos e de ultrapassar a expectativa de vida de praticamente todos com quem convive, jamais teve a vontade de ter amigos ou aprendizes e de constituir relações amorosas ou quaisquer laços com quem quer que seja, pois já teria o conhecimento de que tais relacionamentos teriam duração ínfima se comparado à totalidade de sua vida, surgindo e depois desaparecendo naquilo que para ela seria um mero piscar de olhos. Sendo assim, várias de suas atitudes que poderiam soar como "frieza" são naturalmente explicadas por uma mera incapacidade de compreender as emoções alheias, e tal incapacidade sendo derivada da sua extensa longevidade, que nesse caso, serve, ao mesmo tempo, como benção e maldição. Afinal, se todos aqueles que ama e com que se relaciona irão morrer antes dela, então qual a necessidade de estabelecer qualquer relacionamento?
Isso, obviamente, começa a mudar quando conhece Himmel, Heiter e Eisen, que a convidam para fazer parte do famoso grupo de heróis que eventualmente iria derrotar o Rei Demônio e trazer paz e prosperidade para aquelas terras. Com eles, passa a vivenciar experiências e sentimentos e a construir laços que antes jamais havia tido, em diversas cenas que são sempre trazidas ao espectador através de "flashbacks". No entanto, mesmo depois de tudo e até mesmo da morte da maioria dos seus antigos companheiros de aventura, ela percebia que ainda conhecia pouco dos seus amigos e das emoções humanas de uma maneira geral, o que é exatamente o motivo que a faz embarcar em uma nova jornada, refazendo a mesma rota previamente percorrida pelo grupo.
Ao reavivar as memórias de suas aventuras, passaria a, enfim, compreender o impacto que os seus amigos verdadeiramente tiveram em sua vida e na vida dos outros ao redor, o qual ela não havia percebido antes. E é por isso que o constante uso de "flashbacks" encaixa-se tão bem aqui, pois trata-se de uma jornada, deixando de lado os duelos com outros magos, demônios e monstros, essencialmente pessoal da protagonista em redescobrir o seu próprio passado e, ao fazê-lo, conectá-lo com o seu presente. Ao longo da história, é possível acompanhar Frieren, na companhia dos seus novos colegas Fern e Stark, aprendendo importantes lições sobre laços, memórias, a valorização dos momentos que vivemos e as marcas que os outros deixam em nossas vidas, o que também é uma reflexão que o anime traz ao espectador.
Esse último aspecto, inclusive, considero como sendo um dos mais recorrentes e importantes ao longo da série. Na maioria dos episódios, é, frequentemente, mostrado como uma boa ação - seja ela grandiosa tal qual vencer um Rei Demônio ou pequena como aplicar um mero feitiço de fazer surgir flores a uma criança - pode fazer a diferença na vida de uma ou mais pessoas. E, ao realizar uma boa ação que faça a diferença na vida do outro, a pessoa que realizou a ação, de certa maneira, tornar-se-ia "imortal", pois viveria eternamente através da memória de quem ajudou e do reconhecimento de suas boas ações. Ironicamente, Frieren, mesmo sendo a única verdadeiramente imortal no grupo original de heróis, não era a única que havia sido imortalizada, pois todos os seus outros companheiros possuíam estátuas erguidas e histórias escritas em sua homenagem - e Himmel, aquele que mais dedicou a sua vida a ajudar os outros, naturalmente iria ser o mais lembrado. Em outras palavras, a verdadeira imortalidade não passa por uma habilidade mágica ou vida eterna propriamente dita, mas pelos atos que realizamos nesta terra.
E não apenas Frieren é uma excelente personagem, mas também os próprios Fern e Stark destacam-se na história. E, falando nisso, destaco que um dos aspectos que mais me agradou na construção - e no desenvolvimento - das personagens é a forma como o anime retrata a sua, digamos, dualidade, retratando bem tanto suas qualidades quanto os seus defeitos e facilitando a identificação/conexão do público com essas figuras. Frieren é uma maga poderosa e milenar, mas muitas vezes age de forma infantil. Fern possui grande força e controle sobre magia, mas possui um temperamento volátil e facilmente se irrita mesmo com pequenas coisas. Stark é um forte e valente guerreiro, mas em diversos momentos simplesmente tem dificuldade de encontrar a coragem necessária dentro de si. Eles não são, portanto, perfeitos, imbatíveis e apenas repleto de virtudes, mas possuem as suas fraquezas e defeitos - e o fato de tentarem superá-los durante a jornada que percorrem é o que dá mais peso às suas respectivas trajetórias.
Vale também ressaltar que, ao longo dos 28 episódios desta primeira temporada, é possível dividir a história em duas partes, com a segunda deixando o tom intimista um pouco de lado e dando um maior foco aos testes pelos quais Frieren e Fern passam a fim de obter o título de "Mago Nível 1". Nesses episódios, presenciamos várias batalhas e disputas entre magos, que aqui foram muito bem executadas, e somos apresentados a diversos novos personagens. Quanto a essa segunda parte, devo admitir que considero que, em linhas gerais, houve uma certa queda - não muito grande, mas, de qualquer maneira, uma queda - em relação a primeira parte. E isso deve-se, sobretudo, ao elevado número de personagens novos que foram introduzidos e que, naturalmente, também não puderam ser, salvo uma exceção ou outra, propriamente desenvolvidos - bem como as suas histórias de origem e personalidades não tiveram o tempo e espaço para que o espectador desenvolvesse algum forte interesse.
Aliás, todo aquele arco envolvendo o segundo teste, que ocorre nas masmorra, apesar de ter os seus bons momentos, não me agradou muito. Em diversas cenas, a história acaba se perdendo, em minha avaliação, no excesso de diálogos e inúmeras e incansáveis explicações sobre detalhes envolvendo as técnicas de magias utilizadas. Além disso, todo aquele conflito em que os personagens debatem o que fazer para enfrentar a "réplica da Frieren" é bem estúpido, pois todos os magos poderiam simplesmente enfrentá-la ao mesmo tempo e depois destruir o demônio da masmorra, o que iria também destruir as outras réplicas - ao invés disso, preferem enfrentar as outras réplicas separadamente e deixar Frieren e Fern encarar, sem qualquer assistência, a réplica principal.
Em síntese, "Frieren", apesar dos problemas na segunda parte, é, sem sombra de dúvida, um anime muito bom, de alta qualidade e que vale muito a pena assistir. Bela, agradável e divertida, a série animada traz personagens principais bem desenvolvidos e fáceis de nos apegarmos, uma história interessante, deslumbrantes efeitos visuais e sonoros e pertinentes reflexões sobre a vida e relações humanas. E tudo isso com boas doses de humor, ação e aventura, que tornam a experiência extremamente prazerosa. Agora é rumo à segunda temporada, que irei começar em breve.
Sendo baseado no mangá homônimo escrito cerca de uma década antes, "Berserk", de 1997, é a primeira - e, até, hoje, a mais elogiada - adaptação da aclamada obra de Kentaro Miura. O anime, é importante ressaltar logo no início, não busca retratar toda a história do mangá, que possui mais de trezentos capítulos e continuou sendo produzido até muitos anos após o lançamento da série televisiva, mas somente uma parte da história, denominada de "arco da Era Dourada". Assim como a obra literária que o inspirou, o anime corresponde a uma "dark fantasy", isto é, uma produção que mescla fantasia - e, aqui, também aventuras e batalhas - com uma atmosfera sombria, provocando, em diversas ocasiões, uma sensação de horror e medo no espectador.
Em primeiro lugar, destaco aqui o estilo da animação. Apesar das críticas recebidas e de diversos comentários alegando que a qualidade da animação é ruim, eu não poderia discordar mais. É verdade que algumas cenas apresentam uma animação, digamos, mais simples ou até mesmo "rígida", mas também é verdade que, em uma quantidade ainda maior de cenas, este anime consegue apresentar uma enorme riqueza de detalhes e momentos belíssimos - e, quando necessário, também momentos aterrorizantes - que mais parecem ter sido retirados de uma pintura. É sempre importante ressaltar que esta série foi feita nos anos 90, quando a animação, embora seja nostálgica para mim, não era tão avançada e detinha de menos recursos.
Além disso, também vale destacar que o próprio Kentaro Miura, em adição às colaborações que fez ao roteiro do seriado, igualmente contribuiu, diretamente, no design artístico que foi aqui apresentando, o que fez com que esta adaptação apresentasse inúmeras semelhanças, em termos de estilo, ao mangá. Um desses elementos diz respeito aos momentos em que a cena "congela" e imita a arte que o autor desenhou na obra original, captando bem as emoções dos personagens envolvidos e dando profundidade - e peso - a algumas cenas importantes da narrativa.
E, mesmo nas oportunidades no qual o anime possui uma faceta mais "rústica" ou que aparenta ser "mal feita", considero que encaixa-se perfeitamente na natureza da história aqui retratada. Em outras palavras, "Berserk", tanto no anime quanto no mangá, não é uma obra que foi feita para ser agradável, mas, na realidade, exatamente o contrário, isto é, para causar desconforto e perturbar o mental de qualquer um que ler ou assistir a essa produção. Sendo assim, um estilo de animação mais "limpo" e com maior qualidade talvez não provocasse o mesmo efeito que essa série de 1997 provoca. No final das contas, o estilo adotado nesta adaptação, quer alguns gostem ou não, acaba contribuindo para estabelecer uma sensação de terror e para construir uma atmosfera sombria.
O segundo aspecto que pontuo é a trilha sonora, que, sem dúvida, considero como outro fator que faz com que esta versão seja tão aclamada. Para além das músicas de abertura e de encerramento, que são ótimas e se encaixam perfeitamente, cada qual de uma forma diferente, respectivamente no espírito do protagonista e do seriado, é impossível não mencionar a trilha assinada por Susumu Hirasawa, que contribui para amplificar todas as sensações e sentimentos proporcionados pela história. O tema do Guts, por exemplo, é algo deslumbrante, sobretudo pelo fato de ser uma música, mesmo sem ter qualquer letra, capaz de expressar cada emoção do personagem principal, sendo repleta de esperança, tristeza e solidão. Não apenas há algo de especial nisso, mas até transcendental.
E o terceiro ponto que menciono, por fim, é a história, que, reafirmo, é apenas uma fração da história completa escrita no mangá e, mesmo, assim, é espetacular e muito bem estruturada. É interessante analisar que o anime toma a decisão, que agradou a uns e desagradou a outros, de deixar diversos elementos fantasiosos e mágicos de lado. Porém, um olhar mais atento é capaz de perceber que tal decisão, para o bem ou para o mal, é feita tendo como alvo algo bem claro: focar nos personagens. Mais especificamente, nas interações entre os personagens principais Guts, Griffith, Casca entre si e em relação ao restante do Bando. Nesse sentido, uma das maiores qualidades da série é, além da retratação e leitura psicológica perfeitas dos personagens, a evolução que tais personagens vão tendo no decorrer do enredo, sendo influenciados e afetados pelas decisões que tomam e por outros acontecimentos que ocorrem em suas vidas e ao redor.
A trama inicia com Guts, já no primeiro episódio, apresentado como um guerreiro sem coração e um anti-herói indiferente a matar, que, no primeiro capítulo, está batalhando contra um demônio. Conforme a história avança, vamos descobrindo, gradativamente, tudo aquilo que o tornou nesse monstro, ou seja, somos introduzidos aos seus profundos conflitos internos e o seu passado trágico, o que acaba por revelar um personagem mais complexo. No entanto, um dos poucos defeitos que aponto nesta série é o fato de não ter ido um pouco mais além na infância do protagonista e deixado alguns interessantes aspectos de lado.
Quando criança, Guts já empunhava uma espada e lutava dentro de um grupo de mercenários, tendo Gambino como o seu mentor, amigo e quase como uma figura paterna. Nesse contexto, passa por uma experiência traumática quando esse mesmo companheiro o trai ao tentar assassiná-lo de forma repentina, o que o faz matar Gambino e fugir do grupo. Agora vagando sozinho pelo desconhecido e sem objetivos ou sonhos na vida, Guts, tendo perdido a confiança nas pessoas e adotado uma vida solitária, vive agora de um trabalho a outro.
E tudo isso começar a mudar quando descobre o Bando do Falcão, liderado por um dos personagens mais fascinantes que eu já vi não somente em um anime/mangá, mas também na ficção de uma maneira geral: Griffith. Inteligente, sereno e ambicioso, é um excepcional duelista e um líder nato, que, desde as primeiras conversas com Guts, mostra-se diferente dos demais e interessado em alçar uma posição de destaque no mundo. Ao longo da série e após se juntar a esse novo bando de mercenários, Guts passa a desenvolver uma relação de confiança com Griffith e torna-se um dos seus principais capitães.
Casca também é outro ótimo personagem, que vai crescendo no decorrer da história. Um dos pontos centrais dos seus primeiro episódios - e isso se estende até a metade da temporada - é o ciúmes que nutre quanto a Guts, que é muito bem explicado, com a personagem até mesmo desejando, no início, que o protagonista morra. Desde a sua história de origem, é detalhado que ela, após ter sido salva por Griffith, junta-se ao seu bando e, com o tempo, passa a admirá-lo, não apenas pelo que fez por ela, mas por reconhecer a sua determinação em buscar um sonho ambicioso e quase inalcançável. Ela, logo, deseja ser a espada de Griffith para que ele consiga tornar o seu sonho uma realidade, o que, de certa maneira, acaba tornando o sonho dele o mesmo que o dela: o de ver o líder do Bando no topo.
Diante disso , é natural que, quando Guts aparece e rapidamente passa a ser o "braço direito" de Griffith, ela sente-se deixada para trás e esquecida. E isso agrava-se quando ela, sendo conhecida pelas suas habilidades em duelo, vai percebendo algumas limitações naturais que o seu corpo, por ser mulher, apresenta, distanciando-a ainda mais do seu objetivo de auxiliar o seu líder a trilhar o seu caminho rumo à vitória. Isso não afeta a sua lealdade quanto à Griffith, mas a deixa triste e com raiva. Porém, depois de ter sido resgatada por Guts de uma situação de quase morte, ela passa a se abrir mais com ele e, lentamente vai construindo, com o protagonista, uma relação de confiança, ternura e amizade que, depois, dá origem a um belo romance.
No entanto, por mais que goste da personagem da Casca, é inegável que a trama gira, verdadeiramente, em torno de Guts e Griffith e do relacionamento que estabelecem. Quanto a isso, é interessante notar o contraste, estabelecido com competência no anime, entre ambos. Por exemplo, a primeira impressão que temos de Guts é de um guerreiro com aspecto sombrio e sujo, que mais parece ter sido retirado das profundezas do inferno, enquanto a primeira cena com Griffith nos apresenta a alguém que, por outro lado, mais lembra a um anjo, com cabelos brancos, olhar acolhedor, voz suave e perfeito em absolutamente tudo.
Um episódio após o outro, não apenas vamos descobrindo mais do passado de Guts e dos motivos pelo qual se tornou essa pessoa fria e com dificuldades de confiar nos outros, mas, na mesma proporção, passamos a perceber que Griffith não é esse anjo que inicialmente imaginávamos. Além disso, percebemos uma evolução de Guts, que torna-se mais maduro, sensato e estabelece laços de amizade com os outros membros do grupo, enquanto Griffith vai se distanciando cada vez mais dos seus companheiros - que, apesar disso, continuam extremamente leais a ele - e ultrapassando barreiras morais para alcançar os seus objetivos.
Nos episódios finais, também é possível acompanhar as diferenças nos rumos que as respectivas trajetórias desses personagens vão tomando, em especial após Guts deixar o Bando do Falcão. Enquanto ele, na busca por um sonho próprio, consegue, enfim, encontrar o caminho que deseja trilhar pela sua vida e passa a elevar as suas ambições e anseios, Griffith, por outro lado, vê o seu grande sonho desmoronar de maneira vertiginosa. Em um período de um ano entre a sua prisão e posterior resgate, presencia a destruição de sua posição e reputação no reino, a deformação de seu corpo e, ainda por cima, a destituição de sua posição de líder do bando, que agora passa a ser ocupada por Guts - não porque os membros do grupo não o respeitam mais, mas porque ele está completamente debilitado e incapacitado de liderar.
Se, antes, Guts vivia de uma trabalho a outro enquanto mercenário, caminhando sozinho pelo mundo e sem perspectiva, agora ele teria uma mulher, Casca, ao seu lado, como a sua companheira, e passaria a liderar um grupo de guerreiros. Se, antes, Griffith, almejava ter um reino para si e controlar grandes exércitos, agora teria sorte se conseguisse se manter vivo por algum tempo, dado o estado de saúde precário em que se encontrava, e deveria se contentar com uma vida mais simples. Enquanto um estava em seu momento mais feliz, o outro estava no fundo do poço. E, no seu momento mais desesperador, eis que Griffith escolhe sacrificar todos os seus subordinados em troca de poder, pois essa seria a única forma de ocupar a posição que almejava, mesmo que, para isso, tivesse que se tornar um verdadeiro demônio.
Ao estuprar Casca em frente à Guts, em uma cena aterrorizante, Griffith estava nada mais do que, em sua deturpada visão, reestabelecendo, sob ambos, o poder que antes detinha quanto a eles. Esse personagem, desde os primeiros momentos em que é introduzido ao espectador, demonstra o desejo de controlar outras pessoas, às vezes de maneira sutil e, outras vezes, de forma bem evidente. Ele controla Casca ao mantê-la sempre por perto e nutrindo, dentro dela, uma espécie de amor platônico. Ele controla Guts e todos os outros do Bando a dar a eles um sonho e possibilidades que jamais teriam sozinhos. Quando perde esse poder, utiliza o amuleto demoníaco para não somente restabelecê-lo, mas amplificá-lo.
Um outro aspecto que o anime faz extremamente bem é mostrar os dois lados de Griffith: a figura que todo mundo vê - angelical e perfeita - e a figura que ele realmente é, ou seja, humana, fraca, e consumida por traumas e sentimentos reprimidos. A humana é mostrada no passado e em algumas cenas em que está sozinho, mostrando alguém que está tão obcecado por seu sonho e por ocupar um lugar de destaque no mundo que está apto não somente a até sacrificar crianças ou o seu o próprio corpo, mas também a realizar os atos mais imorais, terríveis e nojentos. Ele representa, logo, a figura mais podre humana: aquela que se esconde em uma farsa. Por fora, é perfeito, lindo e sem falhas, mas, por dentro, sua mentalidade é a de um demônio, embora talvez nem perceba.
O que torna Griffith um personagem tão fascinante, tanto no anime quanto no mangá, é que ele é uma representação realista e profunda do mal em sua forma mais pura. Ele acredita que suas ações são justificadas não apenas por seus erros, mas também por interpretações equivocadas, enxergando, por exemplo, que o amor era algo que só podia ser obtido com poder e admiração - e sua solidão apenas alimentava essa narrativa. E o que o torna mais assustador é que seus anseios são compreensíveis a tal ponto de crermos que muitas pessoas, talvez até nós mesmos, poderiam fazer o mesmo se estivessem em sua posição.
A dura realidade é: você tem o potencial dentro de si para ser tão ruim quanto Griffith. Só porque você ama alguém não o impede de cometer grandes males contra essa pessoa. Só porque você acredita na bondade não significa que você seja bom. Só porque você é forte não o torna inquebrável. Nunca se esqueça de questionar o que você pensa ser verdade e certo, pois, em diversas oportunidades, podemos cometer as maiores atrocidades com as melhores das intenções e cometer os atos mais sujos tendo os sonhos mais nobres e belos por trás.
E o motivo pelo qual odiamos tanto Griffith, ao término da história, não é somente por tudo aquilo que ele faz em si, mas porque, em algum momento, o amamos. A traição que ele comete contra os outros personagens, logo, também é sentida por nós, pois, de certa maneira, também fomos traídos, pois torcemos por ele e celebramos as suas vitórias para depois recebermos uma dolorosa facada nas costas. Um homem que trocou aqueles que o admiravam e o consideravam um verdadeiro amigo por poder. E agora que realizou seu sonho, não há ninguém para celebrá-lo, porque ele sacrificou justamente aqueles que mais o admiravam para alcançá-lo.
O episódio final de Berserk é uma das coisas mais perturbadoras e aterrorizantes que já vi em qualquer obra de ficção, mas consolida a grande tragédia das histórias de Guts, Griffith e de todo o Bando do Falcão. Aqueles que fizeram o sonho de Griffith ser também o seu sonho são, ao término, jogados em um verdadeiro pesadelo. Também admiro aqui a coragem de terem encerrado o anime no momento mais triste e traumático possível. Isso, é verdade, proporciona um tremendo soco no estômago do espectador, mas combina perfeitamente com o aspecto trágico que a história deseja mostrar. E tragédias, apesar de tristes, também possuem a sua estranha beleza.
Em resumo, "Berserk" é não somente uma adaptação fiel à essência da obra de Kentaro Miura, mas um dos grandes animes já feitos, tendo como maior pecado o fato de ter durado apenas uma única temporada de vinte e cinco episódios, quando, na realidade, merecia bem mais dada a sua qualidade. Além disso, trata-se de uma série profunda, que aborda temas, tal qual o mangá, como a natureza humana, moralidade, amizade, traição, destino e a busca por poder. Extremamente recomendado, mas alerto: prepare-se mentalmente antes de assistir.
Em "O Patriota", acompanhamos o personagem fictício Benjamin Martin, que já foi um grande e feroz soldado em guerras prévias, mas que, com sete filhos para cuidar e viúvo, opta por deixar o seu passado violento para trás e viver uma vida tranquila e pacífica. Isso muda, no entanto, com o início da Revolução Americana, que, em meio à promessa por independência e a luta contra os impostos, acaba também, como efeito colateral, levando a um sangrento conflito entre EUA e Inglaterra. Com essa guerra não ficando limitada aos campos de batalha e também atingindo civis, o protagonista se vê obrigado a pegar novamente em armas para salvar a sua família.
É interessante observar que o filme tem, sem dúvidas, os seus exageros e imprecisões históricas, mas isso não necessariamente impacta, de maneira muito negativa, a produção. E isso ocorre pelo simples fato de que esta película não se propõe a ser um documentário ou uma representação fiel dos fatos, mas um drama sobre um homem que luta contra um passado do qual se envergonha enquanto, ao mesmo tempo, busca usar sua natureza violenta para proteger a quem ama. Como mencionado antes, nem o personagem existiu na vida real e nem a história retratada de fato ocorreu, o que fornece mais liberdade criativa ao diretor e roteiristas, mas a trama meramente se passa durante um evento real - a Guerra de Independência.
Além disso, claramente o filme busca retratar esse período histórico sob a perspectiva americana, o que é natural considerando que o protagonista é americano, o que explica a caracterização extremamente negativa dada aos ingleses, pois é assim que os americanos, à época, viam-nos em meio as tentativas de aumentar o poder real e os impostos e reduzir a autonomia à colônia. No entanto, vale também destacar que a obra acerta em diversos aspectos históricos, como, por exemplo, ao mostrar que nem todos os americanos concordaram com a Independência e que alguns até lutaram ao lado dos ingleses.
Outro aspecto positivo foram as cenas de batalha, que não somente foi bem retratadas do ponto de vista histórico, como, na mesma medida, foram eletrizantes e emocionantes, prendendo a atenção do espectador e sendo um dos pontos altos do filme. A execução impecável dos confrontos entre ingleses e americanos, em combinação à sempre brilhante trilha sonora de John Williams, contribuíram para fornecer um forte impacto emocional à história.
Pessoalmente, incomodou-me um pouco a tentativa de estabelecer um romance para Benjamin e mais ainda com tal tentativa ter sido feita com uma personagem que, em tese, é da família. Mesmo sabendo que, naquele período, isso era mais comum, ainda assim fiquei com um certo desconforto e considerei um tanto desnecessário, apesar de reconhecer que Joely Richardson está deslumbrante no filme. Outro ponto que foi bem exagerado foi a cena em que ele e os filhos emboscam os ingleses, que, com todo respeito, mais parecia ter sido retirada da franquia do "Rambo".
Entre erros e acertos, o filme, em linhas gerais, é um bom drama e uma ótima experiência para quem curte filmes de batalhas históricas e guerras. No entanto, como mencionei antes, antes de assistir, espere uma história fictícia que ocorre em um evento real e não um documentário.
Confesso que, ao ter encerrado o anime e visto que havia um filme do "Cowboy Bebop", pensei que seria somente mais uma daquelas películas que se aproveitam do sucesso de um seriado para, no final das contas, entregar uma história sem graça, inútil e apenas sustentada por puro fan service. No entanto, fui surpreendido por um filme que é genuinamente muito bom, possuindo uma interessante história e entretendo o espectador.
Em linhas gerais, esta obra possui todos os elementos que amamos na série. E, quando digo isso, refiro-me não apenas aos nossos já conhecidos caçadores de recompensa, mas também ao estilo de animação, ao humor, as cenas de ação e, obviamente, a sempre espetacular trilha sonora, que mais uma vez encaixa-se com perfeição.
Além disso, eu também pontuaria que, por se tratar de um filme com quase duas horas de duração, aqui é percebido um melhor desenvolvimento tanto da história quanto dos personagens envolvidos em relação ao que seria possível se essa história fosse resumida em somente um ou dois episódios. E a trama, diga-se de passagem, é bem elaborada, com um vilão interessante, bons personagens secundários e um suspense/mistério que leva o tempo necessário para ser desvendado.
Aliás, essa talvez seja a minha única reclamação acerca da série, que é o fato de algumas tramas, para se encaixarem em um período de vinte minutos, muitas vezes desenvolviam-se de maneira muito apressada e com personagens secundários, que, durando somente um único episódio, surgiam e depois desapareciam sem sequer termos tempo para nos importar com eles. Neste filme, gostei bastante de Vincent e Elektra e das suas histórias de origem. Também é interessante acompanhar os paralelos feitos entre o antagonista da película e Spike, o protagonista do anime, que aqui tem suas motivações e personalidade muito bem exploradas, em especial naquela cena em que conversa com Elektra.
Em resumo: o filme realmente é muito bom e divertido e com uma trama bem elaborada. Se você é fã da série, aqui está presente tudo de positivo que tornou a série um clássico e ainda um pouco além do que isso.
"Cowboy Bebop" é, sem dúvida, um tipo peculiar de anime e talvez por isso - e não somente pela sua qualidade - seja até hoje, quase trinta anos do seu lançamento, lembrado com muito carinho por uma legião de fãs, apesar de ter tido apenas uma única temporada. Curiosamente, é possível até dizer que esse seu aspecto "diferente" - como, por exemplo, a abordagem de temas adultos e complexos - foi a razão do seu cancelamento, tendo em vista que os canais de televisão da época não o consideraram, digamos, muito apropriado ao público infantil.
A trama acompanha, inicialmente, Spike e Jet, dois caçadores de recompensa, com personalidades bastante diferentes, que trabalham juntos atrás de foragidos e de dinheiro para sobreviver na galáxia. Com o tempo, somos também apresentados a Ein, Feye e Edward, cada qual com a sua história de origem, que passam a fazer parte da equipe e ajudar nas missões, formando um time improvável, porém com uma surpreendente sintonia.
É interessante observar como todos esses personagens, não obstante as diferenças entre si, possuem em comum o fato de suas características e ações serem consideravelmente influenciadas por acontecimentos prévios em suas vidas. Não é absurdo dizer que os integrantes da espaçonave Bebop, cada um a sua maneira, vivenciaram experiências traumáticas e possuem forte conexão com os seus respectivos passados, que muitas vezes até tentam esquecer e seguir em frente, mas eventualmente sempre retorna. Aliás, o desvencilhamento em relação ao passado - e a sua recorrência na vida - é tema comum na maioria dos episódios.
Quanto aos episódios, é importante deixar bem claro, para quem quiser acompanhar este anime, que a história aqui não é contada de uma forma tradicional, isto é, com uma continuidade/progressão entre os capítulos em torno de um arco central. Não há um arco central que une a todos os envolvidos na trama, mas cada personagem com o seu arco particular, que vai, aos poucos, sendo explorado a medida em que vão se envolvendo em diferentes missões - e, para o espectador, vamos também gradativamente conhecendo o passado dos integrantes dessa equipe.
Sendo assim, cada episódio tem a sua própria história e, muitas vezes, até personagens que jamais retornam ou situações que não são referenciadas posteriormente. De um lado, isso é bem interessante e agrega um dinamismo ao anime, mas, por outro, isso também pode incomodar quem prefere uma maior continuidade. E, devo ser sincero, alguns episódios são um tanto fracos, possuem tramas absurdas e em nada adicionam ao desenvolvimento das personagens. Além disso, é difícil se conectar com algumas dessas histórias devido ao fato de somente durarem alguns poucos minutos.
Um notório ponto positivo deste anime também é o estilo da animação, que é belíssimo e muito bem feito, apresentando ao espectador um universo futurista "incomum", no qual os humanos possuem avançada tecnologia, exploram inúmeros planetas e, mesmo assim, preservam vários elementos e costumes do passado. E, claro, não poderia deixar de mencionar a espetacular trilha sonora, que não somente é um deleite para quem aprecia jazz e blues, mas também combina extremamente bem com as cenas e agrega muito na ambientação do público a esse interessante e inusitado mundo ao qual somos introduzidos.
Em resumo, "Cowboy Bebop" talvez, sobretudo devido a determinados problemas no roteiro em alguns episódios, não seja essa "obra prima" ou "perfeição" que eu vejo alguns comentando. No entanto, não há como negar que as suas qualidades superam, por larga vantagem, os seus defeitos e falhas, tornando este anime - além de uma animação de muito boa qualidade - uma divertida e prazerosa experiência.
Sendo uma adaptação do livro homônimo escrito por Andy Weir, "Devoradores de Estrelas" - ou simplesmente "Project Hail Mary", em seu título original - é uma grata surpresa não somente no campo da ficção científica, mas no cinema de uma maneira geral. Em uma época marcada, infelizmente, tanto pela falta de criatividade e de ousadia na indústria cinematográfica quanto pelas reiteradas tentativas de impor agendas ideológicas, é refrescante ver um filme que não apenas foge aos clichês e "lugares comuns" da maioria das produções, mas também nos traz uma história leve, divertida e inspiradora dedicada a todos os públicos.
Na obra, acompanhamos Ryland Grace, um professor de biologia brilhante - mas que pouco acredita no próprio potencial - que é selecionado a fazer parte de um projeto com o objetivo de estudar - e, se possível, apresentar uma solução para resolver o problema o quanto antes - microrganismos misteriosos que estão destruindo o Sol e, por consequência, ameaçam toda a vida na Terra. Devido a sua participação nesse projeto, a situação dramática existente e diversas outras circunstâncias explicadas ao longo da película, ele acaba por ser incluído em uma missão espacial que nada mais é do que uma tentativa desesperadora de salvar a humanidade - ou, em outras palavras, um último "Hail Mary".
A decisão do roteirista e dos diretores de iniciar a história quando ele acorda do coma, isto é, quando ele já está há vários anos dentro da nave espacial, e, aos poucos, ir explicando o passado do protagonista e como ele se inseriu nessa situação é bem interessante e acertada. Dessa maneira, passamos a conhecer Ryland "de trás pra frente", assim como também compreender o tamanho da situação em que ele e toda a humanidade encontram-se situados e a importância do seu trabalho, cujo sucesso será decisivo na salvação da vida na Terra.
O ex-professor - e agora astronauta - se vê forçado a encarar os seus medos, explorar o desconhecido e acreditar em seu próprio potencial de encontrar soluções e alternativas em meio a um contexto extremamente desesperador e no qual bilhões de vidas dependem dele. Mesmo dada a dramaticidade envolvida, é fascinante observar como a obra - e isso também tem muito mérito da boa atuação de Ryan Gosling - consegue proporcionar momentos de leveza e humor.
Outro destaque - e também responsável por bastante do humor da película - é Rocky, o inesperado e improvável companheiro de Grace nessa aventura. À princípio, a sua aparência pode causar estranheza, mas, com o passar do tempo, não apenas nos acostumamos com o alienígena, mas igualmente passamos a amá-lo com o seu jeito puro, divertido e corajoso. Para quem não sabe, as cenas envolvendo Rocky, embora tenham um pouco de CGI e animação, foram feitas, em grande parte, com o uso de bonecos e efeitos práticos, o que dá um ar mais "realista" ao personagem.
Em combinação aos méritos no roteiro e na história, "Project Hail Mary" impressiona pelos efeitos visuais deslumbrantes, competente direção e boa trilha sonora, que ajudam a, juntos, constituir uma divertida, apaixonante e visualmente belíssima odisseia no espaço. Além disso, traz mensagens inspiradoras acerca de amizade, esperança e sobre acreditar em si próprio mesmo nos momentos em que tudo parece estar perdido. Grata surpresa e uma boa pedida para assistir com toda a família.
A Odisséia
3.7 193Tendo sido lançada inicialmente sob o formato de uma minissérie, pela NBC, e mais tarde reunida em mídia doméstica como um longa-metragem, "A Odisséia", de Andrei Konchalovsky pode não ser a produção de maior orçamento ou a de maior bilheteria intitulada com o mesmo nome da famosa obra de Homero. No entanto, é, sem dúvida, a melhor - e mais fiel ao material original - adaptação cinematográfica do épico retorno de Odisseu a sua terra natal.
Como em toda adaptação, aqui eventos são alterados, fundidos ou omitidos. Neste caso em particular, isso ocorre não por vontade do cineasta ou porque ele tivesse uma visão diferente, mas por mera necessidade, isto é, para que o filme pudesse durar três horas em vez de dez. Não obstante, o filme - irei chamar de filme, pois foi assim que assisti pela primeira vez - conserva o espírito e os temas do poema épico, com suas mais de 300 páginas, que permanecem intactos.
Apesar do baixo orçamento, o filme prova que mitos podem ser adaptados com sucesso para a tela e para uma audiência moderna sem perverter ou desvirtuar o material original. Graças à competência do experiente cineasta russo, que é responsável pela direção e pelo roteiro, esta obra consegue abordar todos os aspectos que tornam a história grandiosa - o esforço humano de Odisseu, a presença dos deuses e o caráter épico da narrativa - e, ao mesmo tempo, prender a atenção de espectadores de todos os tipos, isto é, tanto aqueles que leram quanto os que não leram o poema.
Dessa maneira, Konchalovsky traz a necessária dose de aventura e guerra, mas sem fazer o filme descarrilhar para uma ação desenfreada. Traz um toque de humor e leveza em algumas cenas, mas sem retirar a seriedade da história. Traz deuses e monstros, mas sem que a sua presença pareça estranha ao público moderno, e sim como parte do mundo no qual somos inseridos. Traz sensualidade, sem apelar à nudez explícita. E, acima de tudo, traz o épico, mas sem se sustentar somente na grandiosidade da narrativa para carregar o filme, e sim desenvolvendo bem os personagens e a trama com consistência.
Graças a um excelente trabalho da equipe técnica, que supera as limitações tecnológicas ainda presentes na época e o orçamento curto, é possível, através de uma completa imersão proporcionada pela obra, quase sentir o cheiro da areia, da magia, da poesia e da beleza de Ítaca e dos mares. Além de impecáveis cenários, fotografia e figurino, vale ressaltar que as criaturas são feitas à mão, sem ou com pouco uso de computação gráfica. Isso ocorre por mérito da Jim Henson Company, que dá vida ao lado sobrenatural da mitologia grega e não tem medo de retratar monstros de forma visceral e aterrorizante - Cila e Caríbdis, por exemplo, estão particularmente magníficas.
Paralelamente, é impossível deixar de mencionar o premiado compositor russo Eduard Artemyev, que cria uma trilha sonora que não apenas harmoniza e realça a atmosfera mediterrânea e mitológica da obra, mas também amplifica a carga emocional de momentos marcantes da história. De certa forma, é como se os eventos se desenrolassem à imagem e semelhança de um sonho, no qual o espectador é um convidado privilegiado na jornada de Odisseu para recuperar suas terras e seu amor.
Falando do elenco, começo por Armand Assante, que entrega-se de corpo e alma ao papel de Odisseu. Inclusive, ele declarou posteriormente que o roteirista e diretor Andrei Konchalovsky foi a única pessoa em quem confiou plenamente, e essa confiança e esse comprometimento resultaram em uma transposição perfeita da obra literária para a tela, capturando toda a imponência, a astúcia e a força física que o personagem exige, mas também não ignorando a sua arrogância e o seu orgulho. E o restante do elenco não fica muito para trás, tanto na aparência quanto na atuação, com os atores incorporando o papel com maestria e capturando a essência dos personagens tal como foram concebidos na obra literária. Menções especiais para as belas e elegantes Greta Scacchi e Isabella Rossellini, nos papéis respectivos de Penélope e Athena.
De fato, o único problema do filme é que as 3 horas de duração, que passam em um piscar de olhos, são muito pouco para uma história dessa magnitude e ficamos, ao término, com um gosto de querer mais ou de ficou faltando alguma coisa. Aliás, falando nisso, devo ser um pouco chato aqui e dizer que, em meio a tantas qualidades da produção, incomodou-me um pouco a ausência das sereias e o total apagamento do fiel cachorro Argos, apesar de, como ressaltei antes, tais alterações, mesmo doendo no coração, foram feitas por mera necessidade, e não por vontade do roteirista.
Não obstante os cortes feitos, o filme mostra respeito aos principais acontecimentos e detalhes do poema. No entanto, mais do que isso, "A Odisséia" de Konchalovsky destaca-se pelo respeito a essência da obra de Homero. Isso é brilhantemente sintetizado pela frase, proferida pelo protagonista, ao final: "Há muito de sagrado e bonito no mundo, mas nada mais bonito que um mundo criado pelo próprio homem. Um mundo a que se pode agarrar, e que sabe que será sempre seu. Você é o meu mundo, Penélope".
Odisseu sobrevive a uma guerra épica, supera inúmeros obstáculos, deuses e monstros e rejeita até a oferta pela própria imortalidade. Tudo isso para poder ter a oportunidade de reencontrar o seu filho, a sua terra e a sua esposa, que seriam exatamente as coisas que mais valorizava. A Odisséia de Homero é não uma crítica a humanidade ou a civilização, como recentemente um certo diretor acabou tendo a infelicidade de interpretar, mas o contrário, sendo um tributo a humanidade, ao homem e a nossa capacidade de vencer as maiores dificuldades para defender e preservar aquilo que temos como mais valioso e consideramos o nosso mundo: a nossa família e o nosso lar.
Uma grande adaptação e um filme de alto nível. Recomendado.
Ulysses
3.6 50 Assista AgoraSendo uma das primeiras adaptações da famosa história de Homero para o cinema, "Ulisses" impressiona pela qualidade técnica apresentada, não obstante às limitações em orçamento e tecnologia da época. Mesmo realizando alterações no enredo, e algumas tendo sido um tanto infelizes, o filme consegue preservar o caráter épico transmitido pelo poema e, dessa maneira, respeitar a essência que torna "A Odisséia" uma obra tão influente até os dias modernos.
Em primeiro lugar, destaco que esta versão de 1954 impressiona, sobretudo, pela escala, e, quando digo isso, refiro-me aos figurinos, a construção dos cenários e a direção de arte. O mundo é rico e impressionante, com as cenas ocorrendo em belas paisagens do Mediterrâneo e que auxiliam na construção da grandiosidade da história.
Na ausência de recursos tecnológicos mais avançados, devido a época em que esta película foi produzida, o filme compensa com uma utilização competente de recursos práticos. O caso mais emblemático é o da cena envolvendo o Ciclope, que, em minha avaliação, foi bem executada.
Outro trunfo é o elenco, com Kirk Douglas transmitindo, com maestria, a imponência, perspicácia e bravura de Odisseu, enquanto Anthony Quinn não fica muito atrás, no papel de Antinoos. No entanto, quem realmente brilha é a belíssima Silvana Mangano, que interpreta um papel duplo: a esposa fiel, Penélope, e a feiticeira sedutora, Circe. Isso traz uma complexidade psicológica interessante à narrativa, indicando que, para Ulisses, a segurança do lar e o perigo da tentação possuem o mesmo rosto.
Os maiores problemas do filme encontram-se nas alterações feitas no roteiro para conseguir encaixar uma história desse tamanho em uma película com menos de duas horas de duração. É notório que o diretor tenta ser o mais fiel possível ao poema e mostrar o máximo de eventos marcantes da obra de Homero, tais quais o encontro com Polifemo, as sereias, a estadia do protagonista em Feácia e o romance com Circe, mas, em dado momento, é obrigado a fazer cortes. E as principais vítimas acabam sendo Athena e Calipso, que são bastante excluídas da trama - a primeira é apenas brevemente mencionada ao final.
A alteração que mais me incomodou, por ser bastante desnecessária e evitável, foi quando os roteiristas, em uma completa mudança quanto à história original, atribuíram as dificuldades da jornada de volta de Odisseu ao saque do templo de Poseidon em Troia. Na realidade, ele não foi amaldiçoado pelos acontecimentos na queda da cidade, e sim por cegar o Ciclope, o filho do deus dos mares.
Em síntese, seria impossível para este filme, com os recursos disponíveis à época e a curta duração, ser inteiramente fiel ao poema de Homero, mas creio que elenco, diretor e produção técnica conseguem entregar um trabalho digno, apesar de longe do ideal, digno. Vale a pena ver.
O Retorno
3.1 38 Assista AgoraDirigido por Uberto Pasolini, "O Retorno" traz somente a última parte da jornada de Odisseu em sua volta à Itaca, iniciando exatamente no momento em que enfim alcança o litoral de sua terra natal. Por esse ser o trecho do poema com a menor presença de deuses, o diretor possui uma maior liberdade para colocar os elementos mitológicos de lado e focar no lado humano e psicológico da história e do protagonista.
Aqui, acompanhamos um comandante militar e rei desprovido de sua imponência e orgulho, retornando ao seu reino, agora entregue à miséria - em decorrência dos saques de invasores e pretendentes ao trono. Nem Odisseu e nem Itaca são mais os mesmos, estando transformados pelo longo período tanto da guerra quanto de seu retorno.
Tendo assistido este filme há um ano atrás e agora reassistindo após a "Odisséia" de Nolan, é impossível não fazer as comparações. Ambos os filmes trazem não apenas uma abordagem mais realista da história, mas também uma representação de um Odisseu traumatizado pela guerra. Apesar dessa abordagem, nos dois casos, ser equivocada e desviar da verdadeira essência do trabalho de Homero, considero que Pasolini executa melhor essa tarefa e, mesmo ainda distante do ideal, se aproxima mais da obra original.
Enquanto, no filme de Nolan, Odisseu sente remorso pela dor que infligiu nos outros, aqui ele sente tristeza pelos companheiros que levou à guerra e não conseguiu trazer de volta, o que é algo mais próximo daquilo presente no poema. Um protagonista, portanto, que retorna ao seu reino e é recebido não com louvor e festa, mas com a missão de expulsar os saqueadores e se mostrar, ao seu povo e a sua família, novamente digno de ocupar o trono.
Um dos motivos pelos quais Pasolini é mais bem sucedido em sua proposta reside no fato de que, como ele aborda apenas o capítulo final e não a Odisséia inteira, o foco no psicológico de Odisseu encaixa-se melhor. Em momento algum quis trazer uma aventura épica e nem vendeu o filme como tal - em outras palavras, deixou bem claro que iria trazer um aspecto específico da história e explorá-lo ao máximo. Nolan, por outro lado, quis realizar uma releitura semelhante da história - mas ainda tentando conservar outros elementos da narrativa - e acabou preso no meio do caminho, nem entregando um épico com grandiosidade e nem um drama psicológico com profundidade.
Outro fator que ajuda é a grande atuação de Ralph Fiennes e Juliette Binoche, que brilham em seus respectivos papéis e carregam o restante do elenco - que, por sua vez, não está a altura dos dois - e o filme inteiro nas costas. As cenas do reencontro com Argos e da prova do arco, por exemplo, são muito bem executadas pelo diretor e pelos atores, trazendo a carga de emoção necessária para esses que são momentos marcantes do poema.
O filme, apesar do êxito em retratar tais cenas, é prejudicado por desvios que faz em outros trechos da história original. Incomodou-me como Telemaco é aqui retratado, não como sendo um filho fiel ao pai e disposto a defender a sua mãe, mas como um adolescente mimado e, muitas vezes, incoerente - também não ajuda o ator escolhido ser bastante fraco. Além disso, considero que faltou emoção ao tão esperado reencontro entre Odisseu e Penélope - que, por sua vez, até parece estar triste, no início, pelo retorno do marido, o que foge muito da característica da personagem.
Entre erros e acertos, é mais uma daquelas obras que não busca realmente adaptar as histórias de Homero, mas reinterpreta-las sob uma óptica moderna. Aqui, pelos menos, devido ao fato de retratar o trecho mais "humano" e menos "mitológico" da Odisséia, pelo fato do diretor ter sido honesto sobre suas intenções e ter ao seu dispor um baixo orçamento, dá para dar um desconto. Como um drama psicológico, funciona muito bem, mas escolhas equivocadas no roteiro e limitações orçamentárias fazem o filme não ter a mesma qualidade em outros aspectos e ficar aquém daquilo que poderia ter sido.
A Odisseia
4.2 583Em "A Odisséia", Christopher Nolan toma a responsabilidade de adaptar aos cinemas aquela que, sem dúvida, é a história de ficção que mais resistiu ao implacável teste do tempo e mais inspirou a literatura ocidental. Aqui, são percebidas algumas das melhores qualidades do diretor, mas também encontram-se presentes, em igual proporção, alguns de seus mais comuns defeitos.
A começar por tudo aquilo que me agradou, é impossível não falar dos efeitos visuais e sonoros, bem como a impecável direção do experiente cineasta. Em termos de fotografia e som, o filme proporciona um verdadeiro espetáculo e uma ainda melhor experiência para quem assistiu nos cinemas - sobretudo, em IMAX. A trilha sonora de Ludwig Goransson se encaixa, com perfeição, com a jornada sofrida e misteriosa do protagonista de volta para casa.
Adendo: apesar dos elogios que faço ao visual, me incomodou um pouco a manutenção, em diversas cenas, da mesma "tonalidade cinzenta" adotada em sua filmografia, ainda mais considerando que a trama se passa no Mediterrâneo. Vale também ressaltar algumas imprecisões históricas no que se refere a armaduras e embarcações, que pareciam ter sido inspiradas mais nos vikings do que propriamente nos gregos, mas isso está longe de ser um grande problema para a maioria do público.
Destaco também alguns acontecimentos marcantes da história que seriam difíceis de representar em uma película, e que, em minha avaliação, os responsáveis desempenharam um competente trabalho. Refiro-me, em especial, as aparições do Ciclope e da bruxa Circe, que foram uns dos momentos que mais apreciei. A sequência que envolve o famoso "monstro de um olho só", por exemplo, é simplesmente aterrorizante, repassando, ao espectador, a aflição vivida pelos soldados que se depararam com ele e tentavam escapar de sua caverna.
As principais falhas deste filme, no entanto, residem naquilo que entendo como o mais importante de qualquer produção: o roteiro. E é aqui também que o meu maior temor pelo fato dessa história ter sido entregue nas mãos de Nolan acabou se confirmando. Como aqueles acostumados com o seu trabalho já sabem, o diretor, para o bem ou para o mal, gosta de adicionar o maior grau de realismo possível às suas obras, aproximando-as do espectador. Se, por um lado, isso pode proporcionar uma maior imersão e conexão por parte do público, igualmente torna-se um problema em se tratando da adaptação de uma narrativa épica e repleta de elementos mágicos e mitológicos.
Em outras palavras, se a grandiosidade da história de Homero - e pendurada por milhares de anos - reside exatamente em aspecto épico, trazê-la mais "para o chão", torná-la mais realista e aproximá-la do público talvez não seja a melhor opção. O filme, logo, encontra-se diante de um problema estabelecido pelo próprio estilo do diretor, sendo um épico que tem medo de ser visto como épico e com deuses que mais parecem humanos do que figuras mitológicas e imponentes.
E isso passa por diversos aspectos da produção do filme, desde a escolha de um elenco quase inteiramente americano até uma representação bastante superficial do submundo e outros eventos - tal qual o encontro com as sereias, que mal são vistas na tela. Presenciamos um espetáculo visual, mas sem a profundidade esperada de uma história dessa magnitude, o que, em grande parte, também deve-se a um roteiro com diálogos fracos e pouco memoráveis.
A "Lei de Zeus" é um termo recorrente na história, e ela está, embora com uma outra nomenclatura, também presente no poema. Apesar de Nolan acertar no significado dessa tradição, que consiste em tratar bem qualquer um como se fosse um deus disfarçado, ele falha ao utilizá-la, de maneira nem sempre coerente, para justificar a mensagem que tenta transmitir neste filme. Em síntese, o diretor traz não somente uma mensagem "anti-guerra", mas uma visão negativa acerca do homem e da civilização de uma maneira geral.
E como a Lei de Zeus se encaixa nisso? Bem, o ponto central da transformação do protagonista, desde a Guerra de Troia até o seu retorno à Itaca, nesta versão de Nolan, é um profundo arrependimento acerca de suas ações no conflito, que teriam violado a "lei", causando um trauma no personagem. Aqui, a guerra é tratada não como algo glorioso ou necessário, mas como algo traumático e melancólico. Mais do que um mero trauma psicológico, esse grande conflito é aqui colocado como a razão do declínio de toda uma civilização, marcando, junto as invasões dos "povos do mar", o fim da Era de Bronze.
Essa, no entanto, é a grande falha de Nolan nesta película e o que mais a distancia do poema de Homero. Na obra original, em momento algum é trazido um sentimento contra a guerra, mas, na realidade, a guerra é vista como um desastre inevitável que a humanidade deveria superar - e o próprio Cavalo de Troia, inclusive, seria um instrumento de superação. E, falando no Cavalo, a ideia de que seria uma violação da Lei de Zeus é simplesmente equivocada, pois, na verdade, seria uma resposta, bem como toda a Guerra de Troia, ao fato dos troianos terem inicialmente violado a "lei" ao sequestrar Helena. Aliás, no poema, o tática adotada por Odisseu é até apoiada por Athena e Poseidon.
É importante ressaltar que é impossível adaptar, ao cinema, qualquer obra literária de maneira completamente fiel. Mesmo nas melhores adaptações, sempre são necessárias alterações, seja adicionando algo novo ou cortando algum trecho que não seria adequado ao filme. Acontece que as melhores adaptações sabem fazer tais mudanças sem alterar a essência da história que estão adaptando, e também evitar inserir mensagens que não estão originalmente presentes, e esse cuidado é o que falta neste filme. Sendo assim, deixa de ser uma adaptação e torna-se quase que uma história diferente ou uma releitura, mas levemente inspirada em outra obra. Esta, de fato, é a Odisséia de Nolan, que pouco lembra a verdadeira Odisséia de Homero.
Outra coisa que me incomodou - e você que está lendo o comentário já percebe que essa lista é extensa - foi a maneira com a qual Odisseu é representado. Ora, estamos falando de alguém que é um comandante militar experiente e elaborou todo o planejamento da invasão à Troia, e, de repente, ao presenciar as consequências naturais da invasão que ele mesmo elaborou, ele está surpreso? Afinal, o que imaginava que iria ocorrer quando os soldados gregos, após uma década de uma guerra desgastante, iriam fazer ao adentrar nos muros da cidade?
Odisseu, no poema, é um indivíduo que, de fato, tem um tanto de arrogância e de orgulho, mas também é inteligente e, acima de tudo, um herói que encara os maiores obstáculos possíveis para reencontrar o seu lar e sua família. Ele é um elogio ao homem e a sua capacidade de superar dificuldades, e é exatamente a sua obstinação em retornar a sua terra que o faz ter o reconhecimento e a ajuda dos deuses - exceto, é claro, Poseidon. No filme, por outro lado, ele é alguém traumatizado pela guerra - algo não presente na obra original - e sem ter a mesma inteligência que deveria ser uma de suas principais qualidades - aliás, a cena em que atira uma flecha no Ciclope, de maneira completamente desnecessária, mesmo após os seus homens já terem saído da caverna, é ridícula.
Para não ficar a impressão de que somente a representação do protagonista foi equivocada, devo dizer que me surpreendeu o fato de Nolan reduzir significativamente a presença de outras mulheres centrais na história, tais quais Penelope, Atena e Cerce, que aparecem pouco. Também são excluídos momentos marcantes da história, como a revelação do nome de Odisseu ao Ciclope, o romance do protagonista com Cerce e a cena em que Penelope testa Odisseu para comprovar que ele é, de fato, o seu marido.
E aquilo que não foi excluído foi mostrado com uma drástica redução de seu significado e peso. A sequência que envolve Menelau, por exemplo, é, devido às alterações feitas, bastante desnecessária e descartável. E a cena do reencontro entre Odisseu e o seu cachorro Argo, que deveria ser um momento de profunda emoção, é limitada a meros segundos e passa em um piscar de olhos. Aliás, se quiserem uma representação realmente emocionante dessa cena, vejam "O Retorno", do diretor Uberto Pasolini - embora tal diferença também ocorra pelo fato de Ralph Fiennes ser um ator muito superior a Matt Damon.
Em conclusão, dá para dizer que, como um mero entretenimento por quase duas horas e meia no cinema, cumpre sua função. Quem for assistir no cinema, terá uma excelente experiência sob o ponto de vista visual e sonoro. Como adaptação de uma das maiores obras de ficção, no entanto, deixa muito a desejar. Quem for assistir esperando um épico mitológico, não irá encontrar nada de épico ou de mitológico.
Tudo Culpa Dela
4.1 322 Assista AgoraMisturando thriller com drama familiar, "Tudo Culpa Dela" cumpre bem a função de manter a tensão de um suspense bem construído e prender bem a atenção do espectador ao longo do decorrer da história. A cada episódio, somos levados, intencionalmente, a aumentar as nossas suspeitas para um personagem diferente e ficamos submersos no mistério que envolve o desaparecimento do pequeno Milo.
Embora o grande foco da trama seja a investigação policial, é também interessante acompanhar o drama familiar. As desconfianças, tensões e segredos entre membros de uma mesma família nos permitem conhecer mais acerca dos personagens, mas também se conectam com a investigação e elevam o clima de suspeita entre aqueles envolvidos na história.
Por outro lado, a minissérie também tem as suas falhas. Em primeiro lugar, o arco envolvendo a Jenny (Dakota Fenning) e sua família é, convenhamos, bem desnecessário e pouco acrescenta ao arco central da trama - não obstante, ocupa bastante tempo dos episódios, que poderiam ter sido melhor aproveitado melhor desenvolvendo outros elementos. Em segundo lugar, à medida em que se aproxima do final, a produção acumula, talvez por mera ânsia dos roteiristas em estabelecer um plot twist, uma sequência de furos de roteiros.
O principal deles é o fato do casal ter se envolvido em um acidente de trânsito que envolveu a morte de uma criança e quase matou uma outra pessoa e tal acontecimento não ter qualquer menção em cenas prévias. Aliás, é tratado antes como se sequer tivesse ocorrido, pois não apenas não houve qualquer investigação contra o casal, mas também ele sequer reconheciam o rosto de Josephine.
Outro exemplo é o fato de Peter ter conseguido levar Milo, sem o pequeno o reconhecer, ao porta-malas do carro e deixa-lo na frente da delegacia sem ser visto por absolutamente ninguém, sequer por uma câmera que facilmente poderia tê-lo detectado. Eu entendo a intenção de querer construir o mistério, mas essa e outras cenas são simplesmente muito inverossímeis para serem aceitas.
Em resumo, a minissérie é boa, prende a atenção e entretém, mas cai um pouco, ao término, na tentativa de entregar um plot twist. Ou seja, a construção do suspense foi melhor do que aquilo que o suspense entregou ao final.
Neon Genesis Evangelion: O Fim do Evangelho
4.3 263 Assista AgoraCerca de um ano após o encerramento do anime, Hideaki Anno trouxe ao mundo aquela que seria a verdadeira e definitiva conclusão da história - e que não pôde ser apresentada no seriado por limitações orçamentárias. Neste filme, são melhor explicados diversos elementos da trama ainda sem respostas e é trazido um desfecho para arcos que haviam sido deixados em aberto.
Em primeiro lugar, é importante ressaltar que "End of Evangelion" é, acima de tudo, uma obra extremamente complexa. Se você assistiu e não entendeu o final, não há o porquê de ter vergonha. E, se você assistiu e diz que entendeu tudo, ou está mentindo ou não entendeu tudo e ainda não sabe, pois esta película não foi feita para ser compreendida em sua totalidade logo depois da primeira assistida, ou mesmo da segunda e da terceira.
Foi feita, afinal para ser digerida lentamente dias, meses e anos após a sua conclusão, sendo repleta de simbolismos e trazendo inúmeras discussões filosóficas. Aliás, apesar de não compartilhar da opinião de que toda obra difícil de se compreender de imediato é necessariamente boa, devo dizer que algumas das grandes obras já feitas são quase que incompreensíveis à primeira vista. Sendo assim, este meu comentário é meramente uma tentativa de ilustrar aquilo que acho que entendi, após assistir e também após ter feito uma boa pesquisa.
E o filme, na realidade, corresponde a dois episódios de cerca de quarenta minutos unidos, com uma breve intermissão no meio, em uma mesma produção. Enquanto o anime encerra, de forma brilhante e inusitada, com uma abordagem mais psicológica, sob a perspectiva dos personagens - sobretudo, Shinji - e sem se preocupar com o restante das outras coisas "do lado de fora", este longa metragem mostra tudo aquilo que está acontecendo no mundo. Em outras palavras, o final do anime foca no destino do protagonista, ao passo em que o final do filme foca no destino do mundo de uma maneira geral.
A película consegue unir, de maneira competente, um visual fascinante com uma história que entrega momentos emocionantes e angustiantes, nos quais as emoções sentidas pelos personagens são bem repassadas ao público. Em muitas cenas, inclusive, simplesmente ficamos "de queixo caído", perplexos e como se estivéssemos em uma experiência psicodélica - e devo dizer que a parte final lembrou-me, de forma positiva, bastante do clássico "2001", de Stanley Kubrick. E não dá para ignorar a espetacular trilha sonora do seriado, que aqui retorna em grande estilo.
Feitas essas considerações, o filme inicia com a organização secreta SEELE, já tendo perdido a paciência com o comandante Gendo, buscando iniciar o misterioso projeto da "Instrumentalização Humana" por conta própria. Porém, com o intuito de alcançar esse objetivo, ordena a invasão do QG da NERV e do supercomputador Magi, pois as unidades Eva são parte essencial de seu plano. Logo no início, os personagens já se encontram encurralados em um beco sem saída.
========== ALERTA DE SPOILERS ==========
Um aspecto positivo, dentre vários, desta película - e que logo de imediato percebemos - é nos trazer mais informações não apenas sobre esse projeto em si, mas também acerca das reais intenções da SEELE. Em resumo, a organização, através das unidades já conhecidas e de outras mantidas escondidas, estaria buscando unir todas as almas e consciências humanas entre si e com os Evangelions/supercomputador Magi.
Os membros dessa organização acreditam que a humanidade, repleta de mal e violência e responsável por diversos problemas no mundo, seria imperfeita. Nesse sentido, seria necessário construir uma nova civilização - mais avançada e perfeita, que apenas poderia ser obtida a partir de uma evolução da própria raça humana como resultado do "Terceiro Impacto".
Em meio a isso, são vários os simbolismos que Hideaki traz para a história, e, apesar do próprio criador ter afirmado que muitos deles foram colocados meramente por uma razão "estética", eu creio que muitos deles possuem um forte significado religioso e filosófico. Por exemplo, considero que a recorrência da imagem de um "crucifixo" em diversas cenas como um desses simbolismos mais fortes.
Em minha interpretação, o projeto da Instrumentalização Humana, na tentativa de "melhorar" a humanidade e torná-la uma espécie de divindade, representaria, em uma grande ironia e tragédia, o verdadeiro fim da humanidade. Unindo todo o conhecimento do mundo em um único ser, este seria capaz de manipular todas as decisões das pessoas. Unindo todas as emoções das pessoas, seria capaz de manipular os seus sonhos.
Em linhas gerais, ao unir todas as pessoas em um único ser, iria acabar com o próprio conceito de ser humano, pois esse depende da convivência com outros indivíduos. O fim da humanidade viria a partir da extinção da individualidade e do livre arbítrio, com as pessoas unidas não em uma divindade, mas em uma monstruosidade artificial.
Sob uma perspectiva cristã, o "Evangelho" remete a uma série de ensinamentos através dos quais, a partir de nossa própria consciência e da liberdade que nos é dada, guiamos, enquanto indivíduos, as nossas decisões e a nossa vida, para o bem ou para o mal. O "Novo Evangelho" referido no título da obra de Hideaki Anno, seria uma mente única e poderosa comandando o coletivo de toda a raça humana, sem qualquer liberdade.
Esse plano dependeria, em última instância, daquele que estaria a bordo da unidade 01, isto é, Shinji. Em decorrência da vida traumática que o jovem teve, repleta de tristeza e decepções, a SEELE acreditava que a oportunidade de pôr fim à humanidade - e, dessa forma, do sofrimento causado pelos humanos - seria aceita por ele.
No entanto, a organização secreta não conseguiu prever a profunda reflexão feita por Shinji, que é mostrada no episódio de encerramento do anime. Tendo mudado a sua visão acerca da vida e de si próprio, ele acaba por decidir que a vida é sobre experimentar tanto dor quanto alegria e que rejeitar, por completo, o sofrimento levaria, no final das contas, a uma vida estéril e artificial.
Da mesma maneira que, como o protagonista descobre ao término do seriado, não vivemos sozinhos e a compreensão de quem somos depende da compreensão que temos acerca dos outros, não há felicidade sem tristeza, que é uma parte natural da existência. Enquanto vivermos em um mundo real com outras pessoas, e não em uma fantasia, e os humanos tiverem livre arbítrio e individualidade, eventualmente sofreremos, bem como também teremos momentos de prazer e felicidade, pois é assim que a vida é. Mudar isso seria acabar com a vida em si.
Sendo assim, Shinji, que tanto havia se acostumado a fugir dos problemas, dos outros e até de si próprio, toma, ao fim, a decisão de não fugir mais e de encarar todo o sofrimento e dores do mundo. Não adianta fugir do sofrimento da vida, pois o sofrimento é inerente à vida. Viver, inevitavelmente, é sofrer, mas, ao aceitar as dores que a vida nos traz, também podemos ter a oportunidade de vivenciar toda a alegria, a felicidade e a liberdade que a vida também traz. E esse é o grande ensinamento do filme.
Tendo isso em mente, Shinji não rejeita a humanidade, mas essa nova versão da humanidade que seria alcançada pela Instrumentalização, que seria, em síntese, não-humana. Ao fazê-lo, liberta as almas do mundo e termina em uma praia com Asuka. Ao tentar estrangular a menina e ela reclamar, Shinji percebe que o mundo voltou a ser o que era antes, pois, em uma "instrumentalidade", ela não seria capaz de expressar dor ou desgosto. Ao ouvir isso, percebe que, enfim, está livre, pois a vida, apesar do sofrimento a ela inerente, merece ser vivida.
Portanto, "The End of Evangelion" é daqueles filmes pesados e complexos que merece não apenas ser assistido, mas igualmente revisto e estudado várias vezes. Belíssimo no aspecto estético, emocionante e profundo nas reflexões que provoca, é um encerramento com chave de ouro para a saga criada por Hideaki Anno.
Neon Genesis Evangelion
4.5 345 Assista AgoraDirigido por Hideaki Anno, "Evangelion" é daqueles animes que marcaram uma geração e, com merecimento, situa-se no panteão dos clássicos dos desenhos japoneses. Aparentando ser, a princípio, um mero seriado de ficção científica situado em um mundo apocalíptico, aos poucos vai se revelando um complexo e muito bem elaborado drama psicológico.
Nesta série, somos apresentados a um mundo futurista em que a humanidade cria robôs - denominados "Evangelions" - para combater criaturas misteriosas conhecidas como "Anjos", que estão trazendo uma grande destruição ao redor do planeta. No entanto, é curioso perceber que os anjos em si não representam o aspecto mais importante da trama, sendo, sob uma certa óptica, somente coadjuvantes perante outras questões que são melhor exploradas na história.
Devidamente inseridos nesse universo, acompanhamos uma narrativa contada sob dois caminhos. No primeiro caminho, o mistério envolvendo a agência NERV, o seu comandante e os segredos por ele guardados, que vão sendo revelados de forma gradativa. No segundo, que considero o mais interessante e o principal do anime, os conflitos internos sentidos pelos personagens, em especial o protagonista, Shinji.
Ao longo da história, o público vai, gradativamente, conhecendo melhor os personagens, sobretudo a partir de flashbacks que nos ajudam a entender o porquê de serem quem são. No caso, são revisitadas experiências traumáticas que tiveram no passado e os moldaram. De uma certa maneira, é até válido pontuar que a verdadeira batalha que cada um trava não é contra os Anjos, e sim contra o seu próprio interior.
Da mesma maneira em que aborda temas complexos como solidão e existencialismo, o seriado também reúne diversos elementos, tais quais drama, comédia e ação. Neste último caso, devo dizer que as cenas de batalha são muito bem representadas, eletrizantes e um dos pontos altos da produção - embora, novamente ressalto, que a batalha em si não é o foco, e sim os personagens nelas inseridos. Uma prova dessa diversidade de elementos é, por exemplo, a diferença de tom entre a primeira e a segunda metades da temporada. Enquanto a primeira possui uma abordagem mais leve, bem humorada e aventuresca, a segunda possui um aspecto mais dramático e psicológico.
========== ALERTA DE SPOILERS ===========
Nos episódios finais, o seriado realiza um excelente trabalho de inserir o espectador na mente dos personagens principais - no caso, refiro-me, sobretudo, a Shinji, Misato, Rey e Asuka - e fazê-lo entender, por completo, os seus anseios, traumas e medos. Ou, em outras palavras, tudo aquilo que define as suas ações, as suas motivações e quem eles, de fato, são.
Shinji, tendo fugido do pai após a morte trágica da mãe, passara a vida inteira se considerando um covarde e um fracasso - e, dessa maneira, odiando a si próprio. Por trás da busca por receber atenção e reconhecimento do pai, o que ele realmente desejava, acima de tudo, era o reconhecimento das pessoas ao seu redor.
Misato, por sua vez, vivenciava sentimentos conflituosos em relação ao seu pai. Tendo o perdido muito jovem durante o Segundo Impacto, havia decidido trabalhar na NERV com o intuito de se vingar dos "Anjos". Por outro lado, quando o seu pai ainda era vivo, ela o odiava por impor restrições a ela, o que a fez adquirir uma personalidade "solta" e disposta a correr riscos na vida. Os seus relacionamentos amorosos e a sua busca por prazeres seriam uma maneira de compensar a ausência da figura paterna.
E, quanto à Asuka, o curioso é que, nos primeiros episódios aos quais somos apresentados a ela, a impressão inicial é a de uma garota temperamental e, em diversos momentos, irritante. Ao conhecermos melhor a sua história de origem - que considero a mais trágica de todas - e entendermos os seus traumas e o estado psicológico decorrente deles, conseguimos ter mais empatia com ela. Por baixo de sua arrogância e comportamento explosivo, encontra-se uma menina completamente quebrada por dentro e desesperada por afeto e atenção.
Nos três casos, os personagens, cada qual a sua maneira, não somente assolados por um tremendo vazio existencial, mas também cujas ações, de maneira inconsciente ou não, buscam exatamente preencher esse vazio. São, logo, escravos de seus medos, de seus passados e de sua própria incompletude. E o anime consegue, com perfeição, transmitir ao público esse conflito interno, em cenas que são, sem dúvida, angustiantes e tensas.
E, a partir daí, é possível perceber o porquê dos pilotos em questão conseguirem ter sucesso ao sincronizar com os Evangelions. Shinji e Asuka, em sua busca por reconhecimento e afeto, enxergam as unidades EVA como o único caminho para alcançarem esse objetivo, tornando-se dependentes dessas máquinas no intuito de preencher os seus respectivos vazios. Sendo dependentes das unidades, são capazes de se tornar "um só" com as mesmas.
Na cena final, temos Shinji vislumbrando o que poderia ser a sua vida em um outro universo, no qual ele seria menos dependente de seus traumas e inseguranças. Ele escuta inúmeras vozes falando que o que somos e o mundo do qual fazemos parte é definido, em síntese, pelas emoções que sentimos, as experiências que vivenciamos e os laços que construímos. Somente existimos de acordo com o que vivemos com os outros e somente conseguimos nos entender ao ter contato com os outros, pois, caso contrário, não teremos referência alguma.
Diante disso, ele entende, enfim, o ciclo em que está inserido. Ao se odiar, não consegue se aproximar dos outros - afinal, se não é capaz de se amar, os outras pessoas também não serão capazes. Ao não se aproximar dos outros, não consegue descobrir quem é. Ao não descobrir quem é, cria um vazio interno. Destruído por esse vazio, odeia aquilo que se tornou. Para se libertar, precisa quebrar o ciclo, e permitir se aproximar daqueles que o amam. Não existimos sozinhos, e essa é a principal lição aprendida pelo protagonista e brilhantemente transmitida pelo anime.
Aliás, Shinji, a julgar por alguns comentários, talvez seja um dos protagonistas de anime mais incompreendidos. Ele pode parecer irritante às vezes, mas o seu comportamento é explicado por um motivo simples e que deveria ser óbvio: ele, além de todas as questões inerentes à adolescência, também é um jovem com depressão. E, para pessoas com essa condição, não é incomum chorar, se fechar para os outros e ter dificuldade em construir relacionamentos.
O criador da série, Hideaki Anno, em diversas ocasiões, disse que a sua batalha contra a depressão foi a principal inspiração para criar a história. E o garoto é o personagem que melhor reflete o estado depressivo vivido pelo autor. Por trás de toda a mitologia, das cenas épicas e das batalhas contra criaturas gigantes, a história é nada mais e nada menos do que a luta de um indivíduo contra a depressão, com a pessoa, após uma série de dificuldades e conflitos, triunfando ao final.
As únicas criticas que faço ao anime é que, em primeiro lugar, ele termina, devido a restrições orçamentárias, sem a verdadeira conclusão da história, que somente é trazida no filme. E, em segundo lugar, existem diversas cenas de teor sexual que, em minha avaliação, foram um tanto desnecessárias. Eu até entendo que muitos dos personagens são adolescentes e estão em uma "fase de descoberta", mas, quando algumas dessas situações ocorrem em contextos inadequados, isso torna-se um problema.
Guerra Mundial Z
3.5 3,3K Assista AgoraBaseado em um livro homônimo escrito por Max Brooks, "Guerra Mundial Z" traz uma interessante mistura entre o terror zumbi clássico, comum a obras do gênero, com um pouco de ficção científica e drama político. Em linhas gerais, o apocalipse zumbi é visto aqui menos sob o aspecto pessoal ou de sobrevivência de um determinado grupo de indivíduos, mas, tal qual o título sugere, como algo mundial - ou, em outras palavras, como uma gigantesca pandemia, tendo como diferença o fato de que, neste caso, a doença transforma as pessoas em mortos vivos.
No lado que envolve o terror em si, é possível dizer que o filme cumpre a tarefa com maestria. Muito por conta da boa direção de Marc Forster, a película consegue, de maneira competente, transmitir ao espectador as mesmas sensações de tensão vivenciadas pelos personagens, seja apenas durante a construção do suspense, seja nos momentos de ação eletrizante. A decisão de representar os zumbis como sendo extremamente velozes e capazes de dar grandes saltos também colabora com o aumento do efeito aterrorizante.
Por outro lado, é na parte associada a ficção científica e a política, que preenchem uma considerável porção da história, que o longa metragem dá as maiores derrapadas. Como não li o livro que inspirou a esta película e, logo, desconheço eventuais mudanças feitas no enredo original, considero que os diversos problemas na produção da película foram os responsáveis por esse processo.
Para quem não sabe, este filme teve sucessivas mudanças nos roteiristas responsáveis por escrever o script, totalizando, ao final, três diferentes pessoas encarregadas, durante a produção, pelo roteiro. E tamanhas mudanças não passam despercebidas, sobretudo ao percebermos uma considerável alteração no tom e na consistência da trama de sua primeira parte ao restante da película.
O ponto que mais me incomodou reside na série de elementos da história que são mal explicados e desenvolvidos de maneira rasa, até como se o roteirista final encarregado tivesse que ter apressado a finalização do roteiro sem a devida revisão. Por exemplo, o fato de Gerry ter "descoberto" uma forma de camuflar as pessoas quanto aos zumbis a partir de uma rápida observação e sem qualquer evidência que suportasse sua teoria é, no mínimo, absurdo. E mais absurdo que um grupo de cientistas renomados tenha aceito isso sem maiores explicações.
E, claro, o roteiro é repleto de outras conveniências. Dentre elas, cito o prisioneiro capturado em uma prisão coreana que, por alguma razão, sabe de inúmeras coisas e informações essenciais, mesmo que estivesse lá preso, por um motivo sem qualquer relação com o apocalipse zumbi, há bastante tempo e antes da pandemia sequer começar. E poderia citar o protagonista sobrevivendo a uma queda fatal de avião, ou a vez em que ele toma um frasco aleatório contendo um vírus e acaba, por sorte, o camuflando contra zumbis. Enfim, a lista de eventos semelhantes que ocorrem no filme é longa.
Em resumo, o filme prende bem a atenção do espectador e é um terror eficiente, mas peca em detalhes cruciais do roteiro, que cai bastante de qualidade do meio para o final.
Demolição
3.7 488 Assista Agora"Eu gostaria de destruir esse relógio e espalhar todas as suas partes pelo chão. Quando eu vejo algo assim, eu quero saber o que tem dentro dele". Essa frase, dita em uma conversa entre Davis e Phil sobre um velho relógio no escritório do segundo, talvez seja o que melhor define o filme, a história e as motivações do protagonista nesta que é uma bem executada obra de drama.
Essa película já inicia com o banqueiro, como é descrito na sinopse, na cena em que perde sua esposa em um acidente trágico. Não conhecemos absolutamente nada sobre ela ou sobre a vida de casal dos dois e, logo no começo da história, a personagem em questão é subitamente retirada e a vida do protagonista alterada por completo.
No entanto, para a nossa surpresa, a vida dele, pelo menos no aspecto externo, não muda tanto assim. Logo após os instantes iniciais, acompanhamos Davis seguindo a sua rotina, seja dentro de casa ou seja no trabalho, como se nada tivesse acontecido. E, também ao longo da trama, descobrimos que o personagem não somente desconhecia muita coisa da sua esposa, como também até sentia que não a amava mais.
A "demolição" ao qual o título do filme se refere começa a partir daí, quando Davis simplesmente passa a destruir coisas. E, ao escrever "coisas", refiro-me a qualquer coisa, desde máquinas de café a portas ou até mesmo uma casa por completo. Aquilo que poderia ser uma mera estranha reação a uma situação de luto pode ser interpretada, de forma mais ampla, como o resultado de uma incapacidade do personagem em lidar com os próprios sentimentos, que agora extravasam e são catalisados a esse processo de destruição, e em ver um sentido em sua vida.
Como ilustrado na frase que mencionei ao início do comentário, essa demolição não seria algo aleatório, mas uma tentativa desordenada de entender aquilo que tem, aquilo que ele quer ao seu futuro e até mesmo aquilo que é. Diante da dificuldade de entender melhor a sua relação com a esposa, acaba destruindo tudo aquilo que, na ausência dela, ainda o ligava a mesma: a relação com a sua família, a sua casa e assim por diante.
Destruir, não pelo mero objetivo de destruir, mas de colocar todas as peças no chão e de, ao sentir alguma coisa perante todo esse processo, tentar ver o que há por dentro, inclusive de si próprio. Davis, por não entender os outros e nem ele mesmo, sente um completo vazio, e tudo aquilo que realiza, desde os meros atos de destruição até o relacionamento com Karen, têm o objetivo de tentar preencher esse vazio.
E é exatamente quando consegue demolir tudo que tinha na vida - o trabalho, a relação com a família da esposa e até a tentativa de relacionamento com Karen - e alcança o fundo do poço, ele enfim entende o que ele quer, o que ele sente e quem ele é. Aos poucos, o próprio amor que sentia pela esposa, que considerava que já havia se exaurido, é redescoberto. Aos poucos, a esposa que antes parecia estranha para ele, é alguém que ele passa a conhecer, mesmo que, para isso, tenha que ter primeiro a perdido.
Apesar de todas as qualidades, das quais também destaco a excepcional performance do elenco de uma maneira geral, o filme tem dois pontos que fazem a qualidade cair um pouco e colocam uma história com potencial de ser "ótima" no patamar de "apenas bom". O primeiro é o arco envolvendo o filho de Karen que parece um pouco "fora de lugar" e não conecta-se tanto com o foco central da trama, e o segundo é uma revelação feita, ao final, sobre a Júlia, que considero desnecessária.
Em resumo, o filme é um dos melhores trabalhos de Jean-Marc Vallée - e, infelizmente o seu último trabalho cinematográfico, em decorrência de sua morte prematura - e uma interessante história sobre luto, vazio e a busca por entendermos nossos sentimentos e o nosso objetivo na vida.
Corações de Ferro
3.9 1,4K Assista AgoraDirigido por David Ayer, "Corações de Ferro" é, sem dúvida, um retrato brutal da Segunda Guerra Mundial, mostrando os duros efeitos que o conflito provocou em civis e militares - não poupando sequer aqueles que estavam do lado vitorioso. Em meio a várias qualidades do filme, creio, no entanto, que a produção pecou, de maneira considerável, na história abordada - que, mesmo inserida em um contexto real, é fictícia - e no desenvolvimento dos personagens.
Irei começar aqui por tudo aquilo que considero que Ayer acertou. A sua direção, em primeiro lugar, bem como todos os aspectos técnicos do longa metragem, é algo que não pode ser ignorado, sobretudo pela sua precisão nas cenas de batalha. O diretor consegue, de maneira competente, retratar os conflitos com realismo e fidelidade histórica e, ao mesmo tempo, transmitir ao espectador a tensão sentida pelos personagens.
Quanto a mensagem repassada pela película, é bem claro que corresponde a uma mensagem contra a guerra de uma maneira geral, mostrando a destruição que provoca no mundo e em cada soldado individualmente. Colocados dentro de uma carnificina, os homens, em sua maioria, ou são extremamente frios e desprovidos de emoções, ou são entregues aos seus instintos mais primitivos, como resultado de traumas sofridos em batalha.
O problema é que, independente da mensagem que alguém queira repassar em um filme, ela deve ser sempre acompanhada de uma história e personagens consistentes e interessantes, e é esse o ponto em que esta obra falha. A começar pelos personagens, confesso que, com exceção do Norman e do Boyd, eu não senti interesse por absolutamente nenhum dos que estão representados na trama. E eu diria que todos os personagens, até mesmo aqueles aos quais tive uma maior conexão, são muito mal desenvolvidos e, em diversos momentos, extremamente genéricos e caricatos.
Aliás, quanto ao personagem interpretado por John Bernthal, ele é tão repugnante que, em dado momento, até me faz torcer para que algum nazista o mate. Como mencionei antes, o objetivo do filme é exatamente mostrar os efeitos da guerra nos soldados, mas, no caso deste personagem em particular, passou-se bastante do ponto. Os roteiristas miraram em alguém traumatizado e transformado pela guerra, mas acabaram acertando em alguém que, convenhamos, mais parece meramente um completo imbecil e sem qualquer característica para ser elogiada.
E, com relação à história em si, o filme é repleto de cenas que ou falham em repassar a mensagem desejada ou pecam pela inconsistência. Por exemplo, existe uma cena em o comandante leva Norman a uma sala repleta de nazistas mortos e diz algo no sentido de que "ideais são pacíficos, mas a realidade é violenta" e depois ambos saem do local sem falar mais alguma palavra, e confesso que não entendi o que uma coisa tem haver com a outra. Pareceu-me uma tentativa do filme ser mais profundo do que realmente os roteiristas são capazes de entregar em profundidade.
Outro momento desses é aquele em, novamente, o comandante e Logan estão juntos, dessa vez com duas mulheres alemãs em um apartamento. A intenção, creio, era procurar trazer uma maior leveza à história para, em seguida, mostrar a perversão sexual dos outros soldados, já completamente afetados pela guerra, que chegaram depois. No entanto, o resultado foi apenas uma cena extremamente desconfortável, grotesca e que prolongou-se mais do que deveria por motivos que desconheço - o comandante, inclusive, poderia ter, logo no começo, impedido os seus subordinados de agir de maneira mal educada com a garota, mas permitiu a situação continuar bem além do aceitável.
E, para completar, a cena final, que é absurda. Apesar do comandante, no começo do filme, dizer que nada mais importava para ele do que manter os seus companheiros vivos, ele não vê problema algum em arriscar a sua própria vida e a dos outros ao enfrentar, apenas com seu tanque atolado, uma tropa de trezentos soldados alemães, quando ele poderia simplesmente recuar e retornar ao combate com reforços. Um comportamento, no mínimo, inconsistente por parte do personagem. E, por incrível que pareça, apesar de toda a desvantagem numérica, os alemães são derrotados no confronto, o que seria impossível na vida real.
Não me levem a mal, o filme tem uma direção, no aspecto técnico, exemplar, além de uma excelente fotografia, boas atuações e cenas de batalha eletrizantes. Porém, o fraco roteiro, bem como o praticamente nulo desenvolvimento dos personagens - com a exceção de Norman, acaba, sem dúvida, atrapalhando a mensagem que a obra queria passar e ofuscando as qualidades apresentadas. Veredito: não é ruim e dá para passar o tempo, mas está longe de ser essa obra prima que vi vários comentando.
Invasores
3.1 430 Assista AgoraÉ raro encontrar uma obra literária que, não sendo muito conhecida e nem aclamada universalmente, tenha sido adaptada tantas vezes, ao cinema, quanto "The Body Snatchers", de Jack Finney. E impressionante o fato da quarta adaptação ser, não obstante o fato de possuir a maior quantidade de material para se inspirar, a mais fraca.
E isso se deve, sobretudo, ao fraco roteiro. O filme até começa de maneira interessante, construindo um suspense acerca da misteriosa doença que está se espalhando e dos efeitos dela nas pessoas. No entanto, dos primeiros quarenta minutos pra frente, a história vai, gradativamente, apagando o lado da ficção-científica e acentuando o lado da ação, o que prejudica bastante a trama.
Não à toa, é a partir daí que o enredo torna-se cada vez mais confuso e, por consequência, desinteressante ao espectador. Além disso, acompanhamos uma série de furos no roteiro, acontecimentos mal explicados e uma história que não sabe no que focar. Mesmo com o filme até possuindo algumas cenas que, fora do contexto, poderiam ser interpretadas como boas, elas se perdem em meio a inúmeros outros momentos que tiveram execução ruim e que parecem ter sido escritos à pressa por algum roteirista.
Por exemplo, a mãe que está desesperada em encontrar o filho, mas esquece de simplesmente ligar ao celular dele. O técnico de laboratório que mal descobre a doença e, dois depois, aparentemente já sabe tudo sobre ela. O fato dos pesquisadores não procurarem outras pessoas imunes e focarem somente na criança. E, claro, a cena em que a doutora tem uma injeção de adrenalina no bolso e, por algum motivo, prefere arriscar cair no sono ao invés de usá-la.
Também não é bem desenvolvido o que esses seres alienígenas realmente querem. Em dado instante, fica parecendo até que essa invasão pode ser benéfica, pois, após o seu início, vemos notícias de fins de guerras, medicamentos gratuitos sendo distribuídos e assim por diante. Se eles possuem alguma má intenção por trás, em momento algum é mostrado.
Sendo assim, o filme, perdido nas próprias incoerências do roteiro e sem saber ao certo se quer ser ficção-científica, ação ou suspense, acaba, no final das contas, não sendo nada disso. Nicole Kidman está deslumbrante na película, mas ela e o restante do elenco apenas podem fazer o que é possível com o script que lhes foi entregue e, convenhamos, não é suficiente para salvar isso aqui. Um desperdício de tempo para o espectador, e um desperdício ainda maior de uma proposta que possuía potencial.
Paul: O Alien Fugitivo
3.4 759 Assista AgoraDos filmes protagonizados pela dupla Simon Pegg e Nick Frost, este talvez seja um dos mais fracos, apesar de também ser aquele que tinha o maior potencial. Em "Paul", temos a história de um alien que encontra dois nerds pelo caminho e pega carona com eles enquanto fogem do governo americano.
O alienígena em si é o melhor personagem do filme. Com a voz do Seth Rogen, que se encaixa muito bem aqui, e um CGI decente, ele, refugiado há bastante tempo na Terra, já adquiriu um grande conhecimento não apenas da cultura terrestre como também dos humanos de uma maneira geral.
A grande sacada da história, inclusive, é a como eles representaram o alienígena. Apesar de ter a aparência mais genérica possível para um extraterrestre, a sua personalidade é completamente distinta daquilo que se imagina de tal criatura. Em síntese, é quase como um humano no corpo de um alien, com um jeito irreverente e algumas boas piadas.
O problema é que, com exceção de alguns momentos que realmente são engraçados e boas referências a clássicos da ficção científica, o filme deixa a desejar durante a maior parte do tempo. Além de várias cenas sem graça e desnecessárias, vale mencionar que, em muitas oportunidades que poderiam ter sido melhor exploradas, os roteiristas se contentaram com piadas baratas, rasas e pouco criativas. E os outros personagens, sinceramente, são bem desinteressantes e mal desenvolvidos.
Sendo assim, a película até traz uma boa proposta, mas não consegue ir muito além do estilo "comédia pastelão" e "besteirol". Ou, em outras palavras, é o tipo de filme "Sessão da Tarde": despretensioso, repleto de altos e baixos e apenas bom mesmo para passar o tempo enquanto desligamos o cérebro por umas duas horas, sem nada de impressionante ou muito inteligente.
Obsessão
3.9 932 Assista AgoraDirigido pelo jovem Curry Barker, "Obsessão" é não somente uma das gratas surpresas deste ano no cinema, mas também um daqueles filmes capazes de ensinar algumas lições à indústria cinematográfica. Primeiro, que é possível entregar um bom produto sem necessariamente gastar centenas de milhões no orçamento e, segundo, que é importante dar oportunidade a novos e desconhecidos talentos ao invés de continuar na mesmice com nomes repetidos.
Para quem não sabe, Barker, antes de se aventurar no mundo da direção, era - e ainda é - youtuber, sendo dono de um canal no qual posta sketchs de comédia. Sendo assim, não é surpresa, àqueles já acostumados ao seu trabalho, a interessante mistura que ele faz aqui - que, é verdade, não é mais exatamente uma grande novidade e até vem se tornando bastante comum nos últimos anos - entre comédia e terror.
No entanto, mais importante do que a junção em si entre esses dois gêneros aparentemente distantes, encontra-se a forma com que esse processo é feito. Aqui, Barker não adota nem um estilo de "comédia pastelão" e nem um terror barato apoiado em jumpscares - embora eles estão presentes e utilizados com competência, mas utiliza os melhores elementos e qualidades desses estilos de forma natural e bem encaixada na história, de forma que o desenrolar dos acontecimentos não parece forçado, mas flui da maneira que se esperaria que os personagens em questão agissem diante dos fatos.
E essa abordagem do diretor é sustentada por um roteiro, também escrito por ele, que, apesar de beber da fonte de outras produções de terror, inova e subverte as expectativas. Digo isso porque o que estamos acostumados a ver em um filme do gênero que envolve um rapaz apaixonado por uma garota é algo no sentido do homem invadindo a privacidade e agindo de maneira esquisita e obcecada em relação a mulher. Pois bem, aqui é exatamente o oposto.
Após o desejo que o protagonista, Baron, faz ao "salgueiro mágico" de que Nikki se apaixone por ele e o ame mais do que tudo no mundo, o desejo é, para a sua surpresa e para o seu posterior arrependimento, atendido. Sendo assim, não se trata de um homem que passa o filme inteiro, como em outras películas do tipo, obcecado ou atraído por um enlouquecido desejo sexual em torno de uma mulher e que nunca é atendido ou retribuído. Aqui, a atração é retribuída, e isso exatamente o que acaba sendo o problema para o homem.
O diretor realiza um excelente trabalho na construção do enredo, que é muito bem estruturado, raramente cai em repetições ou artifícios baratos e mantém bem a atenção do espectador ao longo da trama. O terror e a angústia que Baron sente são, com eficiência, repassados, ao público, a tal ponto que, em muitos momentos, ficamos sufocados e sem ver saída daquela situação que não seja através de alguma tragédia. Logo, o mais forte aspecto do terror, em "Obsessão", não é um susto aqui e acolá, mas no constante estado de tensão e desconforto que o filme nos impõe a partir do desenrolar dos acontecimentos.
Também vale destacar, dentre um elenco que entregou grandes performances, a atuação de Inde Navarrette. A atriz, que provavelmente a partir de agora irá receber mais oportunidades na carreira, presenteia-nos com uma atuação emblemática em produções de terror. Muito sustentada por sua expressividade corporal, ela consegue alterar entre a comédia e o horror, o delicado e o bruto e o amoroso e o aterrorizante com extrema naturalidade, encaixando-se bem na loucura - e nos conflitos - de sua personagem.
Um aspecto que considero interessante, e que pode ter passado batido por alguns, é que a grande e verdadeira "obsessão" ao qual o título se refere não é a que Nikki sente por Baron, mas a que Baron sente por Nikki. Isso porque a primeira age como age devido a uma espécie de feitiço colocado sobre ela, e não por vontade própria. Inclusive, em muitas cenas, vemos a luta da "verdadeira Nikki", que ainda está presente em algum lugar dentro da mente, em tentar fugir dessa situação louca em que está inserida.
O segundo, por sua vez, embora não seja possível dizer que o que está ocorrendo era exatamente o que ele tinha em mente, ainda sente uma forte atração pela garota. Mesmo com todas as loucuras que a sua "namorada possuída" realiza, ele jamais sugere romper o relacionamento, constantemente retorna para a sua casa apesar de todos os perigos imprevisíveis pela frente e insiste em tentar mantê-la como sua até os últimos instantes, quando enfim percebe que tem de pôr fim a tudo.
Logo, quem é o verdadeiro obcecado: a mulher que age, afetada por uma magia sobrenatural, como absurdamente louca de paixão por um homem ou o homem que, por livre vontade, continua com essa mulher mesmo ciente do que está ocorrendo? Baron, logo, está, sim, assustado e aterrorizado pelo comportamento de Nikki, mas prolonga o seu desejo de tê-la ao seu lado até os momentos finais, pois também, durante boa parte do tempo, é incapaz de deixá-la ir embora.
Aliás, eu até acho que o final - que, diga-se de passagem, achei um tanto fraco e bastante apressado - poderia ter sido melhor sem o seu suicídio, com ele simplesmente aceitando a realidade e mantendo a Nikki presa naquela situação. Mais trágico, mas mais coerente com o personagem e com suas inseguranças e obsessões.
No geral, um filme muito bom, que faz juz aos elogios e que vale a pena assistir. Recomendado.
Pluto (1ª Temporada)
4.1 50 Assista AgoraSendo uma adaptação extremamente fiel do mangá homônimo criado por Naoki Urasawa, é possível pontuar "Pluto", assim como mantém as várias qualidades da obra literária, também conserva os poucos - mas perceptíveis - defeitos. Em linhas gerais, no entanto, o seriado tem bem mais pontos positivos do que negativos, sobretudo destacando-se pela animação de qualidade, boa trilha sonora e história bem estruturada.
Em primeiro lugar, é preciso entender o trabalho que serviu de base para a adaptação. Dito isso, o mangá, na verdade, é uma espécie de releitura de uma das histórias mais famosas dentres os quadrinhos japoneses, o "Astro Boy" - mais especificamente, o arco "The Greatest Robot on Earth". Tendo como inspiração esse clássico desenho, Urasawa reutiliza muitos elementos da história original, como os nomes dos personagens, e estrutura, a partir daí, uma trama com um tom bastante diferente.
Tanto no mangá quanto no anime, estamos diante não apenas de uma mera ficção científica futurista, mas de um suspense investigativo - ou, simplesmente, thriller. Nele, acompanhamos o detetive robô Gesicht tentando solucionar um misterioso caso que envolve a morte de humanos e de robôs e que, a medida na qual a investigação avança, vai se tornando cada vez mais complexo.
Nesse sentido, o seriado realiza um excelente trabalho na construção do suspense, dando poucas pistas, mesmo para aquele espectador mais atento, sobre o mistério envolvendo o caso. Episódio por episódio, é apresentada, simultaneamente ao público e aos personagens, mais uma peça do quebra cabeça, que é montado de forma gradativa. Sendo assim, é necessário, para quem decidir assistir ao anime, a devida paciência, pois as respostas não serão dadas de imediato e, em dados momentos, tudo pode parecer extremamente confuso, mas, ao final, as coisas ficam mais claras.
Um outro aspecto que me agradou nessa produção, além do suspense, foram os temas abordados na história. Em vários momentos, o seriado passa uma boa mensagem - que, é verdade, não é exatamente uma novidade, mas, mesmo assim, sempre bem vinda - sobre os males não apenas da guerra, mas do ódio e da vingança de uma maneira geral, apontadas aqui, corretamente, como elementos que alimentam um ciclo vicioso sem fim e jamais trazem bons frutos ao final.
E, em tempos de avanços na área de robótica e de inteligência artificial, o enredo traz uma interessante perspectiva sobre o assunto. Na história, é possível encontrar o melhor lado do uso da tecnologia pelo homem, com robôs que ajudam aos mais necessitados, compreendem as emoções humanas com empatia e afeto e são úteis à sociedade. Do mesmo modo, também encontra-se o pior lado, ao mostrar os impactos negativos do desenvolvimento tecnológico, tal qual o desemprego, a algumas pessoas e a utilização das máquinas como armas de assassinato e até de destruição em massa.
Porém, se eu tivesse que colocar esses dois aspectos na balança, eu diria que a série pende mais ao lado positivo. Aqui, somos apresentados a robôs que têm famílias, têm empregos e possuem uma compreensão de sentimentos e emoções até maior do que muitos humanos. Enquanto isso, muitos dos problemas envolvendo essas máquinas não são provenientes das máquinas em si, mas do mau uso feito, delas, pelo homem ou pela emulação das piores características humanas, como manipulação e ódio.
Logo, um robô, sendo meramente um robô, não seria capaz de ter quaisquer sentimentos, sejam bons ou maus. Um robô bem integrado a sociedade, seria capaz de ter bons sentimentos. Um robô extremamente avançado e excessivamente humano, seria capaz, assim como um humano, de cometer atrocidades. E, nos personagens da trama, vemos cada um desses exemplos.
O único defeito do seriado, curiosamente, é um defeito também presente no mangá, que é o fato da história, na reta final, tornar-se um tanto "apressada". Além disso, apesar da maior parte do mistério ser esclarecida até o término, alguns elementos importantes são deixados sem explicação ou apresentados de maneira muito rasa. Isso, inevitavelmente, deixa a sensação de que ficou faltando alguma coisa.
Conclusão: a série é boa e vale a pena assistir, mas poderia ter sido melhor. O problema é que muitas das respostas que faltam sequer estão presentes no material original, então os roteiristas do anime ficaram de mãos atadas aqui.
Dark (3ª Temporada)
4.3 1,3KApesar de manter o alto nível no que diz respeito a atuações do elenco, fotografia, trilha sonora e direção, creio que esta é a temporada mais fraca das três. A queda de qualidade que já havia sido percebida da primeira para a segunda, aqui é vista de maneira ainda maior e considerável.
E isso se deve, sobretudo, ao roteiro. Nas duas temporadas anteriores, em especial na segunda, existem vários aspectos da história que, de maneira proposital, são complexos e confusos. No entanto, continuamos assistindo na expectativa de que em algum momento, tudo será explicado e fará sentido, bastando apenas ter um pouco de paciência.
Pois bem, chegamos na temporada final e não dá para dizer que tudo foi explicado - ou, pelo menos, não de forma satisfatória. O roteiro, sim, explica diversos elementos do enredo e nos dá uma compreensão melhor sobre as motivações de alguns personagens. Além disso, os primeiros episódios são interessantes e nos prendem bem a atenção. Por outro lado, ao mesmo tempo, o seriado também deixa inúmeras perguntas em aberto e furos no roteiro.
Por exemplo, é revelado que o relojoeiro é a "chave" de tudo, com o seu desejo de evitar a morte de sua família como sendo a origem para a viagem no tempo. No entanto, essa informação está longe de ser um grande "plot twist", pois já é sabido, há muito tempo, que foi ele que literalmente inventou a máquina do tempo. Logo, não seria óbvio desde o começo? E, sendo óbvio desde o começo, como Cláudia, Adam e os outros não perceberam isso antes? E, se sabia, porque simplesmente não viajou ao tempo antes para corrigir isso ao invés de esperar ao último instante para revelar esse fato?
E, se não bastasse, existem dois pontos que me incomodaram bastante. O primeiro foi a adição de novos arcos e personagens, que foram mal desenvolvidos, sem mesmo antes explicar os outros arcos já existentes. O segundo foi o excesso de linhas do tempo diferentes aqui apresentadas, que complicaram ainda mais o que já era complicado.
Como resultado, é tanta informação, tanto personagem e tanta subtrama que não somente é difícil para o espectador verdadeiramente se importar com alguma coisa que está acontecendo, como também faz o seriado tornar-se repetitivo e cansativo. O episódio final é bom, apesar dos furos no roteiro, mas, quando chegamos nele, já estamos cansados da história e queremos que tudo termine logo.
Logo, esta é uma temporada final que não está a altura das temporadas anteriores - sobretudo a primeira - e, sinceramente, foi difícil de terminar. Não diria que foi ruim, pois tiveram alguns bons episódios, mas bem abaixo daquilo que esperava e do que poderia ter sido.
Dark (2ª Temporada)
4.5 906Em linhas gerais, é possível dizer que a segunda temporada mantém muito do estilo "sci-fi noir" apresentado anteriormente na produção. Dessa forma, todas as qualidades do seriado, bem como os temas representados, ambientação e a combinação de suspense com ficção científica estão aqui presentes. E, claro, não falta aquela boa e velha dor de cabeça para entender a complexidade dessa esquisita, porém fascinante, série.
Nesta temporada, "Dark", ao dar prosseguimento na história, trata de responder diversas perguntas deixadas em aberto na temporada anterior. No entanto, destaco que é necessário, por parte, do espectador, um pouco de paciência nos primeiros episódios, que adotam um ritmo mais lento. Do meio pra frente, a temporada "pega no ritmo" e conecta, de uma forma mais dinâmica, as diversas peças da trama.
Além de dar continuidade a arcos previamente apresentados, o seriado introduz novas narrativas e dramas e aprofunda outros que haviam sido apenas brevemente abordados antes. No entanto, em determinados momentos, considero que a série passa um pouco do ponto e torna a trama excessivamente confusa, sobretudo com a adição de mais linhas do tempo e dimensões, que, em minha avaliação, prejudicaram o enredo e provocaram uma certa queda de qualidade - não uma grande queda, mas perceptível.
Por fim, aquilo que mais gostei desta temporada foi o aprofundamento do tema relacionado ao destino e livre arbítrio. Afinal, ao voltarmos ou avançarmos no tempo, é possível mudar o rumo dos acontecimentos ou tudo irái nevitavelmente desencadear no mesmo desfecho? Conseguimos controlar nossas ações e destinos ou somos controlados por forças externas mais poderosas? Em meio a confusão entre as linhas do tempo, é o passado que está definindo o presente e futuro ou vice versa? Essas são as perguntas que fazemos ao acompanhar essa loucura e cujas respostas seguem incertas.
Dark (1ª Temporada)
4.4 1,6KDefinitivamente, uma das séries mais complexas, malucas e criativas que já assisti. Misturando mistério com ficção científica, "Dark" começa como um drama/suspense investigativo, em que somos introduzidos a uma pequena cidade alemã na qual uma criança desapareceu, mas, a medida em que a história prossegue, a trama vai se expandindo para diversas camadas.
Na falta de uma expressão mais apropriada, eu diria que "descer na toca do coelho" é a melhor forma de descrever a experiência de assistir a esse seriado. Ao longo do desenrolar dos acontecimentos, vamos mergulhando na complexidade do enredo e nos arcos dos personagens, tendo, muitas vezes, que ter cuidado para não se perder em meio a tantos nomes e diferentes linhas do tempo.
A série consegue realizar um grande trabalho em prender a atenção do espectador com personagens cujos dramas pessoais são interessantes e, acima de tudo, um suspense bem construído, que mantém o mistério de maneira exímia e leva a trama a caminhos inesperados - porém que se encaixam perfeitamente. Como se estivéssemos juntando peças de um quebra cabeça, aos poucos mais informações acerca dos personagens é revelada e compreendemos melhor, mesmo com direito a uma boa e velha dor de cabeça, diversos elementos da história.
Outra qualidade da produção é o estabelecimento de um drama que, apesar de ter o tema da viagem do tempo como um aspecto central, não se apoia somente nisso para sustentar a história. No caso, a viagem no tempo convive com outras narrativas pessoais dos personagens e reflexões sobre perda, destino e livre arbítrio. Recomendado.
Frieren e a Jornada para o Além (2ª Temporada)
4.4 28 Assista AgoraEm sua segunda temporada, "Frieren" consegue fazer algo difícil, que é manter o alto nível já apresentado anteriormente, dando continuidade à saga da maga élfica e de seus companheiros, Fern e Stark e ainda preparando o terreno para a terceira temporada que será lançada ano que vem. E eu diria que isso ocorre, sobretudo, porque o anime preserva todas as qualidades marcantes apresentadas na primeira temporada e responsáveis pela boa recepção da série: os deslumbrantes efeitos visuais, a excelente trilha sonora, as dinâmicas e divertidas interações entre as personagens e, sobretudo, a atmosfera acolhedora, tranquila e leve da história.
A trilha sonora, inclusive, merece um destaque especial. Com composição feita pelo americano Evan Call, que já trabalhou em outros animes, a trilha incorpora diversos elementos da música folclórica europeia e contribui para a ambientação do espectador no mundo em que se passa a história. E o que é curioso é que, apesar de ser um mundo fictício e repleto de magia, temos, muito graças ao aspecto musical, uma sensação de pertencimento a essas terras e locais que jamais colocamos os pés e de memória a uma casa da qual jamais fizemos parte, o que contribui com a nossa imersão na história.
No entanto, o anime não se limita a simplesmente repetir a fórmula já estabelecida, mas também, dentre outras adições, expande o "lore" de alguns personagens que haviam sido introduzidos no final da temporada anterior - tais quais Methode e Genau, apresenta novas informações sobre o passado de Frieren, Himmel e do antigo grupo e traz uma boa progressão na relação entre Fern e Stark. Neste último caso, eu diria que alguns dos melhores episódios foram aqueles que focaram mais no seu relacionamento/romance, proporcionando não somente cenas bonitas e um aprofundamento em ambos os personagens, mas também momentos engraçados.
Em linhas gerais, os temas abordados no seriado prosseguem o mesmos - e, de fato, não haveria razão alguma para mudar isso - e segue sendo desenvolvido através tanto das aventuras do grupo atual quanto dos flashbacks do grupo antigo. No caso, o seriado nos faz refletir sobre as relações humanas, sobre o impacto que outros fazem em nossas vidas e que nós fazemos nas vidas dos outros e também sobre aproveitar os bons momentos nesta jornada que percorremos, por menores, bobos e até insignificantes que possam parecer inicialmente - como, por exemplo, observar um pôr do sol.
É também sempre fascinante observar como este seriado consegue trazer reflexões sobre temas profundos, nos fazer imergir em um mundo de fantasia e "acalmar a nossa alma" com cenários e sons deslumbrantes e, ao mesmo tempo, apresentar tamanha simplicidade. Assim como na primeira temporada, temos algumas cenas em que simplesmente nada ou pouco acontece - às vezes, são apenas os personagens principais caminhando, ou permanecendo em um quarto, dormindo, conversando ou se alimentando - e, por incrível que pareça, essas são algumas das cenas que mais nos fascinam, prendem a nossa atenção e tornam este anime tão especial. Naturalmente, temos a progressão natural do arco central da história e acontecimentos importantes ocorrendo, mas, mais importante do que isso, são as pequenas missões secundárias nas quais os personagens se envolvem e o desenvolvimento pessoal de cada um.
Logo, a segunda temporada de "Frieren" não decepciona e mantém tudo aquilo que amamos no seriado sem cair na mesmice ou repetição. O seu único defeito, como era de se esperar, é que é muito curta e, sem dúvida, 10 episódios não é suficiente para nos satisfazer, no entanto aceito mesmo assim e já estou no aguardo pela próxima temporada.
Frieren e a Jornada para o Além (1ª Temporada)
4.6 110 Assista AgoraSem dúvida, "Frieren" é daqueles animes que, além de apresentarem uma alta qualidade por si só, proporcionam prazer/conforto ao assistir e nos dá uma sensação boa após terminarmos cada episódio, sobretudo pela beleza tanto do visual quanto da história. Nesta série, acompanhamos uma maga élfica que, várias décadas após ter derrotado, junto aos seus amigos heróis, o "Rei Demônio", agora refaz, com um outro grupo de companheiros, a mesma rota que percorreu outrora. No entanto, nesta nova aventura, a protagonista da série não apenas possui como objetivo derrotar monstros e demônios, mas realizar uma jornada pessoal ao longo de suas próprias emoções, sentimentos e lembranças.
Em primeiro lugar, destaco aqui a qualidade da animação, que é simplesmente belíssima e, em diversas cenas, quase que assemelha-se a uma verdadeira obra de arte, com cores e tons que trazem vida ao mundo mágico que é aqui representado. E, se não bastassem os deslumbrantes efeitos visuais, o anime igualmente nos traz uma incrível trilha sonora, que possui traços medievais, seja em tons mais relaxantes, seja em tons mais imponentes, que encaixam-se, com perfeição, ao universo fictício no qual a história encontra-se inserida - que, embora fictício, claramente é inspirado em antigas narrativas medievais.
Em seguida, não posso deixar de mencionar as personagens, que, inclusive pelo caráter fortemente intimista do anime, são um aspecto até mais importante do que os próprios elementos mágicos existentes. Frieren, a protagonista, é uma elfa com poderes mágicos e cuja expectativa de vida beira a eternidade, logo, mesmo já tendo vivido mais de um milênio, possui a aparência, e em várias vezes também a personalidade, de uma criança - ou de uma adolescente, se preferir. Para ela, séculos passam como se fossem apenas alguns meses, o que a faz ter uma percepção do tempo completamente diferente da maioria das pessoas e, na mesma proporção, impacta a forma como a mesma enxerga relações pessoais, tais quais amizade e afeto.
Isso ocorre por que, sendo ela capaz de viver por milhares de anos e de ultrapassar a expectativa de vida de praticamente todos com quem convive, jamais teve a vontade de ter amigos ou aprendizes e de constituir relações amorosas ou quaisquer laços com quem quer que seja, pois já teria o conhecimento de que tais relacionamentos teriam duração ínfima se comparado à totalidade de sua vida, surgindo e depois desaparecendo naquilo que para ela seria um mero piscar de olhos. Sendo assim, várias de suas atitudes que poderiam soar como "frieza" são naturalmente explicadas por uma mera incapacidade de compreender as emoções alheias, e tal incapacidade sendo derivada da sua extensa longevidade, que nesse caso, serve, ao mesmo tempo, como benção e maldição. Afinal, se todos aqueles que ama e com que se relaciona irão morrer antes dela, então qual a necessidade de estabelecer qualquer relacionamento?
Isso, obviamente, começa a mudar quando conhece Himmel, Heiter e Eisen, que a convidam para fazer parte do famoso grupo de heróis que eventualmente iria derrotar o Rei Demônio e trazer paz e prosperidade para aquelas terras. Com eles, passa a vivenciar experiências e sentimentos e a construir laços que antes jamais havia tido, em diversas cenas que são sempre trazidas ao espectador através de "flashbacks". No entanto, mesmo depois de tudo e até mesmo da morte da maioria dos seus antigos companheiros de aventura, ela percebia que ainda conhecia pouco dos seus amigos e das emoções humanas de uma maneira geral, o que é exatamente o motivo que a faz embarcar em uma nova jornada, refazendo a mesma rota previamente percorrida pelo grupo.
Ao reavivar as memórias de suas aventuras, passaria a, enfim, compreender o impacto que os seus amigos verdadeiramente tiveram em sua vida e na vida dos outros ao redor, o qual ela não havia percebido antes. E é por isso que o constante uso de "flashbacks" encaixa-se tão bem aqui, pois trata-se de uma jornada, deixando de lado os duelos com outros magos, demônios e monstros, essencialmente pessoal da protagonista em redescobrir o seu próprio passado e, ao fazê-lo, conectá-lo com o seu presente. Ao longo da história, é possível acompanhar Frieren, na companhia dos seus novos colegas Fern e Stark, aprendendo importantes lições sobre laços, memórias, a valorização dos momentos que vivemos e as marcas que os outros deixam em nossas vidas, o que também é uma reflexão que o anime traz ao espectador.
Esse último aspecto, inclusive, considero como sendo um dos mais recorrentes e importantes ao longo da série. Na maioria dos episódios, é, frequentemente, mostrado como uma boa ação - seja ela grandiosa tal qual vencer um Rei Demônio ou pequena como aplicar um mero feitiço de fazer surgir flores a uma criança - pode fazer a diferença na vida de uma ou mais pessoas. E, ao realizar uma boa ação que faça a diferença na vida do outro, a pessoa que realizou a ação, de certa maneira, tornar-se-ia "imortal", pois viveria eternamente através da memória de quem ajudou e do reconhecimento de suas boas ações. Ironicamente, Frieren, mesmo sendo a única verdadeiramente imortal no grupo original de heróis, não era a única que havia sido imortalizada, pois todos os seus outros companheiros possuíam estátuas erguidas e histórias escritas em sua homenagem - e Himmel, aquele que mais dedicou a sua vida a ajudar os outros, naturalmente iria ser o mais lembrado. Em outras palavras, a verdadeira imortalidade não passa por uma habilidade mágica ou vida eterna propriamente dita, mas pelos atos que realizamos nesta terra.
E não apenas Frieren é uma excelente personagem, mas também os próprios Fern e Stark destacam-se na história. E, falando nisso, destaco que um dos aspectos que mais me agradou na construção - e no desenvolvimento - das personagens é a forma como o anime retrata a sua, digamos, dualidade, retratando bem tanto suas qualidades quanto os seus defeitos e facilitando a identificação/conexão do público com essas figuras. Frieren é uma maga poderosa e milenar, mas muitas vezes age de forma infantil. Fern possui grande força e controle sobre magia, mas possui um temperamento volátil e facilmente se irrita mesmo com pequenas coisas. Stark é um forte e valente guerreiro, mas em diversos momentos simplesmente tem dificuldade de encontrar a coragem necessária dentro de si. Eles não são, portanto, perfeitos, imbatíveis e apenas repleto de virtudes, mas possuem as suas fraquezas e defeitos - e o fato de tentarem superá-los durante a jornada que percorrem é o que dá mais peso às suas respectivas trajetórias.
Vale também ressaltar que, ao longo dos 28 episódios desta primeira temporada, é possível dividir a história em duas partes, com a segunda deixando o tom intimista um pouco de lado e dando um maior foco aos testes pelos quais Frieren e Fern passam a fim de obter o título de "Mago Nível 1". Nesses episódios, presenciamos várias batalhas e disputas entre magos, que aqui foram muito bem executadas, e somos apresentados a diversos novos personagens. Quanto a essa segunda parte, devo admitir que considero que, em linhas gerais, houve uma certa queda - não muito grande, mas, de qualquer maneira, uma queda - em relação a primeira parte. E isso deve-se, sobretudo, ao elevado número de personagens novos que foram introduzidos e que, naturalmente, também não puderam ser, salvo uma exceção ou outra, propriamente desenvolvidos - bem como as suas histórias de origem e personalidades não tiveram o tempo e espaço para que o espectador desenvolvesse algum forte interesse.
Aliás, todo aquele arco envolvendo o segundo teste, que ocorre nas masmorra, apesar de ter os seus bons momentos, não me agradou muito. Em diversas cenas, a história acaba se perdendo, em minha avaliação, no excesso de diálogos e inúmeras e incansáveis explicações sobre detalhes envolvendo as técnicas de magias utilizadas. Além disso, todo aquele conflito em que os personagens debatem o que fazer para enfrentar a "réplica da Frieren" é bem estúpido, pois todos os magos poderiam simplesmente enfrentá-la ao mesmo tempo e depois destruir o demônio da masmorra, o que iria também destruir as outras réplicas - ao invés disso, preferem enfrentar as outras réplicas separadamente e deixar Frieren e Fern encarar, sem qualquer assistência, a réplica principal.
Em síntese, "Frieren", apesar dos problemas na segunda parte, é, sem sombra de dúvida, um anime muito bom, de alta qualidade e que vale muito a pena assistir. Bela, agradável e divertida, a série animada traz personagens principais bem desenvolvidos e fáceis de nos apegarmos, uma história interessante, deslumbrantes efeitos visuais e sonoros e pertinentes reflexões sobre a vida e relações humanas. E tudo isso com boas doses de humor, ação e aventura, que tornam a experiência extremamente prazerosa. Agora é rumo à segunda temporada, que irei começar em breve.
Berserk
4.5 204 Assista AgoraSendo baseado no mangá homônimo escrito cerca de uma década antes, "Berserk", de 1997, é a primeira - e, até, hoje, a mais elogiada - adaptação da aclamada obra de Kentaro Miura. O anime, é importante ressaltar logo no início, não busca retratar toda a história do mangá, que possui mais de trezentos capítulos e continuou sendo produzido até muitos anos após o lançamento da série televisiva, mas somente uma parte da história, denominada de "arco da Era Dourada". Assim como a obra literária que o inspirou, o anime corresponde a uma "dark fantasy", isto é, uma produção que mescla fantasia - e, aqui, também aventuras e batalhas - com uma atmosfera sombria, provocando, em diversas ocasiões, uma sensação de horror e medo no espectador.
Em primeiro lugar, destaco aqui o estilo da animação. Apesar das críticas recebidas e de diversos comentários alegando que a qualidade da animação é ruim, eu não poderia discordar mais. É verdade que algumas cenas apresentam uma animação, digamos, mais simples ou até mesmo "rígida", mas também é verdade que, em uma quantidade ainda maior de cenas, este anime consegue apresentar uma enorme riqueza de detalhes e momentos belíssimos - e, quando necessário, também momentos aterrorizantes - que mais parecem ter sido retirados de uma pintura. É sempre importante ressaltar que esta série foi feita nos anos 90, quando a animação, embora seja nostálgica para mim, não era tão avançada e detinha de menos recursos.
Além disso, também vale destacar que o próprio Kentaro Miura, em adição às colaborações que fez ao roteiro do seriado, igualmente contribuiu, diretamente, no design artístico que foi aqui apresentando, o que fez com que esta adaptação apresentasse inúmeras semelhanças, em termos de estilo, ao mangá. Um desses elementos diz respeito aos momentos em que a cena "congela" e imita a arte que o autor desenhou na obra original, captando bem as emoções dos personagens envolvidos e dando profundidade - e peso - a algumas cenas importantes da narrativa.
E, mesmo nas oportunidades no qual o anime possui uma faceta mais "rústica" ou que aparenta ser "mal feita", considero que encaixa-se perfeitamente na natureza da história aqui retratada. Em outras palavras, "Berserk", tanto no anime quanto no mangá, não é uma obra que foi feita para ser agradável, mas, na realidade, exatamente o contrário, isto é, para causar desconforto e perturbar o mental de qualquer um que ler ou assistir a essa produção. Sendo assim, um estilo de animação mais "limpo" e com maior qualidade talvez não provocasse o mesmo efeito que essa série de 1997 provoca. No final das contas, o estilo adotado nesta adaptação, quer alguns gostem ou não, acaba contribuindo para estabelecer uma sensação de terror e para construir uma atmosfera sombria.
O segundo aspecto que pontuo é a trilha sonora, que, sem dúvida, considero como outro fator que faz com que esta versão seja tão aclamada. Para além das músicas de abertura e de encerramento, que são ótimas e se encaixam perfeitamente, cada qual de uma forma diferente, respectivamente no espírito do protagonista e do seriado, é impossível não mencionar a trilha assinada por Susumu Hirasawa, que contribui para amplificar todas as sensações e sentimentos proporcionados pela história. O tema do Guts, por exemplo, é algo deslumbrante, sobretudo pelo fato de ser uma música, mesmo sem ter qualquer letra, capaz de expressar cada emoção do personagem principal, sendo repleta de esperança, tristeza e solidão. Não apenas há algo de especial nisso, mas até transcendental.
E o terceiro ponto que menciono, por fim, é a história, que, reafirmo, é apenas uma fração da história completa escrita no mangá e, mesmo, assim, é espetacular e muito bem estruturada. É interessante analisar que o anime toma a decisão, que agradou a uns e desagradou a outros, de deixar diversos elementos fantasiosos e mágicos de lado. Porém, um olhar mais atento é capaz de perceber que tal decisão, para o bem ou para o mal, é feita tendo como alvo algo bem claro: focar nos personagens. Mais especificamente, nas interações entre os personagens principais Guts, Griffith, Casca entre si e em relação ao restante do Bando. Nesse sentido, uma das maiores qualidades da série é, além da retratação e leitura psicológica perfeitas dos personagens, a evolução que tais personagens vão tendo no decorrer do enredo, sendo influenciados e afetados pelas decisões que tomam e por outros acontecimentos que ocorrem em suas vidas e ao redor.
A trama inicia com Guts, já no primeiro episódio, apresentado como um guerreiro sem coração e um anti-herói indiferente a matar, que, no primeiro capítulo, está batalhando contra um demônio. Conforme a história avança, vamos descobrindo, gradativamente, tudo aquilo que o tornou nesse monstro, ou seja, somos introduzidos aos seus profundos conflitos internos e o seu passado trágico, o que acaba por revelar um personagem mais complexo. No entanto, um dos poucos defeitos que aponto nesta série é o fato de não ter ido um pouco mais além na infância do protagonista e deixado alguns interessantes aspectos de lado.
Quando criança, Guts já empunhava uma espada e lutava dentro de um grupo de mercenários, tendo Gambino como o seu mentor, amigo e quase como uma figura paterna. Nesse contexto, passa por uma experiência traumática quando esse mesmo companheiro o trai ao tentar assassiná-lo de forma repentina, o que o faz matar Gambino e fugir do grupo. Agora vagando sozinho pelo desconhecido e sem objetivos ou sonhos na vida, Guts, tendo perdido a confiança nas pessoas e adotado uma vida solitária, vive agora de um trabalho a outro.
E tudo isso começar a mudar quando descobre o Bando do Falcão, liderado por um dos personagens mais fascinantes que eu já vi não somente em um anime/mangá, mas também na ficção de uma maneira geral: Griffith. Inteligente, sereno e ambicioso, é um excepcional duelista e um líder nato, que, desde as primeiras conversas com Guts, mostra-se diferente dos demais e interessado em alçar uma posição de destaque no mundo. Ao longo da série e após se juntar a esse novo bando de mercenários, Guts passa a desenvolver uma relação de confiança com Griffith e torna-se um dos seus principais capitães.
Casca também é outro ótimo personagem, que vai crescendo no decorrer da história. Um dos pontos centrais dos seus primeiro episódios - e isso se estende até a metade da temporada - é o ciúmes que nutre quanto a Guts, que é muito bem explicado, com a personagem até mesmo desejando, no início, que o protagonista morra. Desde a sua história de origem, é detalhado que ela, após ter sido salva por Griffith, junta-se ao seu bando e, com o tempo, passa a admirá-lo, não apenas pelo que fez por ela, mas por reconhecer a sua determinação em buscar um sonho ambicioso e quase inalcançável. Ela, logo, deseja ser a espada de Griffith para que ele consiga tornar o seu sonho uma realidade, o que, de certa maneira, acaba tornando o sonho dele o mesmo que o dela: o de ver o líder do Bando no topo.
Diante disso , é natural que, quando Guts aparece e rapidamente passa a ser o "braço direito" de Griffith, ela sente-se deixada para trás e esquecida. E isso agrava-se quando ela, sendo conhecida pelas suas habilidades em duelo, vai percebendo algumas limitações naturais que o seu corpo, por ser mulher, apresenta, distanciando-a ainda mais do seu objetivo de auxiliar o seu líder a trilhar o seu caminho rumo à vitória. Isso não afeta a sua lealdade quanto à Griffith, mas a deixa triste e com raiva. Porém, depois de ter sido resgatada por Guts de uma situação de quase morte, ela passa a se abrir mais com ele e, lentamente vai construindo, com o protagonista, uma relação de confiança, ternura e amizade que, depois, dá origem a um belo romance.
No entanto, por mais que goste da personagem da Casca, é inegável que a trama gira, verdadeiramente, em torno de Guts e Griffith e do relacionamento que estabelecem. Quanto a isso, é interessante notar o contraste, estabelecido com competência no anime, entre ambos. Por exemplo, a primeira impressão que temos de Guts é de um guerreiro com aspecto sombrio e sujo, que mais parece ter sido retirado das profundezas do inferno, enquanto a primeira cena com Griffith nos apresenta a alguém que, por outro lado, mais lembra a um anjo, com cabelos brancos, olhar acolhedor, voz suave e perfeito em absolutamente tudo.
Um episódio após o outro, não apenas vamos descobrindo mais do passado de Guts e dos motivos pelo qual se tornou essa pessoa fria e com dificuldades de confiar nos outros, mas, na mesma proporção, passamos a perceber que Griffith não é esse anjo que inicialmente imaginávamos. Além disso, percebemos uma evolução de Guts, que torna-se mais maduro, sensato e estabelece laços de amizade com os outros membros do grupo, enquanto Griffith vai se distanciando cada vez mais dos seus companheiros - que, apesar disso, continuam extremamente leais a ele - e ultrapassando barreiras morais para alcançar os seus objetivos.
Nos episódios finais, também é possível acompanhar as diferenças nos rumos que as respectivas trajetórias desses personagens vão tomando, em especial após Guts deixar o Bando do Falcão. Enquanto ele, na busca por um sonho próprio, consegue, enfim, encontrar o caminho que deseja trilhar pela sua vida e passa a elevar as suas ambições e anseios, Griffith, por outro lado, vê o seu grande sonho desmoronar de maneira vertiginosa. Em um período de um ano entre a sua prisão e posterior resgate, presencia a destruição de sua posição e reputação no reino, a deformação de seu corpo e, ainda por cima, a destituição de sua posição de líder do bando, que agora passa a ser ocupada por Guts - não porque os membros do grupo não o respeitam mais, mas porque ele está completamente debilitado e incapacitado de liderar.
Se, antes, Guts vivia de uma trabalho a outro enquanto mercenário, caminhando sozinho pelo mundo e sem perspectiva, agora ele teria uma mulher, Casca, ao seu lado, como a sua companheira, e passaria a liderar um grupo de guerreiros. Se, antes, Griffith, almejava ter um reino para si e controlar grandes exércitos, agora teria sorte se conseguisse se manter vivo por algum tempo, dado o estado de saúde precário em que se encontrava, e deveria se contentar com uma vida mais simples. Enquanto um estava em seu momento mais feliz, o outro estava no fundo do poço. E, no seu momento mais desesperador, eis que Griffith escolhe sacrificar todos os seus subordinados em troca de poder, pois essa seria a única forma de ocupar a posição que almejava, mesmo que, para isso, tivesse que se tornar um verdadeiro demônio.
Ao estuprar Casca em frente à Guts, em uma cena aterrorizante, Griffith estava nada mais do que, em sua deturpada visão, reestabelecendo, sob ambos, o poder que antes detinha quanto a eles. Esse personagem, desde os primeiros momentos em que é introduzido ao espectador, demonstra o desejo de controlar outras pessoas, às vezes de maneira sutil e, outras vezes, de forma bem evidente. Ele controla Casca ao mantê-la sempre por perto e nutrindo, dentro dela, uma espécie de amor platônico. Ele controla Guts e todos os outros do Bando a dar a eles um sonho e possibilidades que jamais teriam sozinhos. Quando perde esse poder, utiliza o amuleto demoníaco para não somente restabelecê-lo, mas amplificá-lo.
Um outro aspecto que o anime faz extremamente bem é mostrar os dois lados de Griffith: a figura que todo mundo vê - angelical e perfeita - e a figura que ele realmente é, ou seja, humana, fraca, e consumida por traumas e sentimentos reprimidos. A humana é mostrada no passado e em algumas cenas em que está sozinho, mostrando alguém que está tão obcecado por seu sonho e por ocupar um lugar de destaque no mundo que está apto não somente a até sacrificar crianças ou o seu o próprio corpo, mas também a realizar os atos mais imorais, terríveis e nojentos. Ele representa, logo, a figura mais podre humana: aquela que se esconde em uma farsa. Por fora, é perfeito, lindo e sem falhas, mas, por dentro, sua mentalidade é a de um demônio, embora talvez nem perceba.
O que torna Griffith um personagem tão fascinante, tanto no anime quanto no mangá, é que ele é uma representação realista e profunda do mal em sua forma mais pura. Ele acredita que suas ações são justificadas não apenas por seus erros, mas também por interpretações equivocadas, enxergando, por exemplo, que o amor era algo que só podia ser obtido com poder e admiração - e sua solidão apenas alimentava essa narrativa. E o que o torna mais assustador é que seus anseios são compreensíveis a tal ponto de crermos que muitas pessoas, talvez até nós mesmos, poderiam fazer o mesmo se estivessem em sua posição.
A dura realidade é: você tem o potencial dentro de si para ser tão ruim quanto Griffith. Só porque você ama alguém não o impede de cometer grandes males contra essa pessoa. Só porque você acredita na bondade não significa que você seja bom. Só porque você é forte não o torna inquebrável. Nunca se esqueça de questionar o que você pensa ser verdade e certo, pois, em diversas oportunidades, podemos cometer as maiores atrocidades com as melhores das intenções e cometer os atos mais sujos tendo os sonhos mais nobres e belos por trás.
E o motivo pelo qual odiamos tanto Griffith, ao término da história, não é somente por tudo aquilo que ele faz em si, mas porque, em algum momento, o amamos. A traição que ele comete contra os outros personagens, logo, também é sentida por nós, pois, de certa maneira, também fomos traídos, pois torcemos por ele e celebramos as suas vitórias para depois recebermos uma dolorosa facada nas costas. Um homem que trocou aqueles que o admiravam e o consideravam um verdadeiro amigo por poder. E agora que realizou seu sonho, não há ninguém para celebrá-lo, porque ele sacrificou justamente aqueles que mais o admiravam para alcançá-lo.
O episódio final de Berserk é uma das coisas mais perturbadoras e aterrorizantes que já vi em qualquer obra de ficção, mas consolida a grande tragédia das histórias de Guts, Griffith e de todo o Bando do Falcão. Aqueles que fizeram o sonho de Griffith ser também o seu sonho são, ao término, jogados em um verdadeiro pesadelo. Também admiro aqui a coragem de terem encerrado o anime no momento mais triste e traumático possível. Isso, é verdade, proporciona um tremendo soco no estômago do espectador, mas combina perfeitamente com o aspecto trágico que a história deseja mostrar. E tragédias, apesar de tristes, também possuem a sua estranha beleza.
Em resumo, "Berserk" é não somente uma adaptação fiel à essência da obra de Kentaro Miura, mas um dos grandes animes já feitos, tendo como maior pecado o fato de ter durado apenas uma única temporada de vinte e cinco episódios, quando, na realidade, merecia bem mais dada a sua qualidade. Além disso, trata-se de uma série profunda, que aborda temas, tal qual o mangá, como a natureza humana, moralidade, amizade, traição, destino e a busca por poder. Extremamente recomendado, mas alerto: prepare-se mentalmente antes de assistir.
O Patriota
3.7 511 Assista AgoraEm "O Patriota", acompanhamos o personagem fictício Benjamin Martin, que já foi um grande e feroz soldado em guerras prévias, mas que, com sete filhos para cuidar e viúvo, opta por deixar o seu passado violento para trás e viver uma vida tranquila e pacífica. Isso muda, no entanto, com o início da Revolução Americana, que, em meio à promessa por independência e a luta contra os impostos, acaba também, como efeito colateral, levando a um sangrento conflito entre EUA e Inglaterra. Com essa guerra não ficando limitada aos campos de batalha e também atingindo civis, o protagonista se vê obrigado a pegar novamente em armas para salvar a sua família.
É interessante observar que o filme tem, sem dúvidas, os seus exageros e imprecisões históricas, mas isso não necessariamente impacta, de maneira muito negativa, a produção. E isso ocorre pelo simples fato de que esta película não se propõe a ser um documentário ou uma representação fiel dos fatos, mas um drama sobre um homem que luta contra um passado do qual se envergonha enquanto, ao mesmo tempo, busca usar sua natureza violenta para proteger a quem ama. Como mencionado antes, nem o personagem existiu na vida real e nem a história retratada de fato ocorreu, o que fornece mais liberdade criativa ao diretor e roteiristas, mas a trama meramente se passa durante um evento real - a Guerra de Independência.
Além disso, claramente o filme busca retratar esse período histórico sob a perspectiva americana, o que é natural considerando que o protagonista é americano, o que explica a caracterização extremamente negativa dada aos ingleses, pois é assim que os americanos, à época, viam-nos em meio as tentativas de aumentar o poder real e os impostos e reduzir a autonomia à colônia. No entanto, vale também destacar que a obra acerta em diversos aspectos históricos, como, por exemplo, ao mostrar que nem todos os americanos concordaram com a Independência e que alguns até lutaram ao lado dos ingleses.
Outro aspecto positivo foram as cenas de batalha, que não somente foi bem retratadas do ponto de vista histórico, como, na mesma medida, foram eletrizantes e emocionantes, prendendo a atenção do espectador e sendo um dos pontos altos do filme. A execução impecável dos confrontos entre ingleses e americanos, em combinação à sempre brilhante trilha sonora de John Williams, contribuíram para fornecer um forte impacto emocional à história.
Pessoalmente, incomodou-me um pouco a tentativa de estabelecer um romance para Benjamin e mais ainda com tal tentativa ter sido feita com uma personagem que, em tese, é da família. Mesmo sabendo que, naquele período, isso era mais comum, ainda assim fiquei com um certo desconforto e considerei um tanto desnecessário, apesar de reconhecer que Joely Richardson está deslumbrante no filme. Outro ponto que foi bem exagerado foi a cena em que ele e os filhos emboscam os ingleses, que, com todo respeito, mais parecia ter sido retirada da franquia do "Rambo".
Entre erros e acertos, o filme, em linhas gerais, é um bom drama e uma ótima experiência para quem curte filmes de batalhas históricas e guerras. No entanto, como mencionei antes, antes de assistir, espere uma história fictícia que ocorre em um evento real e não um documentário.
Cowboy Bebop: O Filme
4.1 115Confesso que, ao ter encerrado o anime e visto que havia um filme do "Cowboy Bebop", pensei que seria somente mais uma daquelas películas que se aproveitam do sucesso de um seriado para, no final das contas, entregar uma história sem graça, inútil e apenas sustentada por puro fan service. No entanto, fui surpreendido por um filme que é genuinamente muito bom, possuindo uma interessante história e entretendo o espectador.
Em linhas gerais, esta obra possui todos os elementos que amamos na série. E, quando digo isso, refiro-me não apenas aos nossos já conhecidos caçadores de recompensa, mas também ao estilo de animação, ao humor, as cenas de ação e, obviamente, a sempre espetacular trilha sonora, que mais uma vez encaixa-se com perfeição.
Além disso, eu também pontuaria que, por se tratar de um filme com quase duas horas de duração, aqui é percebido um melhor desenvolvimento tanto da história quanto dos personagens envolvidos em relação ao que seria possível se essa história fosse resumida em somente um ou dois episódios. E a trama, diga-se de passagem, é bem elaborada, com um vilão interessante, bons personagens secundários e um suspense/mistério que leva o tempo necessário para ser desvendado.
Aliás, essa talvez seja a minha única reclamação acerca da série, que é o fato de algumas tramas, para se encaixarem em um período de vinte minutos, muitas vezes desenvolviam-se de maneira muito apressada e com personagens secundários, que, durando somente um único episódio, surgiam e depois desapareciam sem sequer termos tempo para nos importar com eles. Neste filme, gostei bastante de Vincent e Elektra e das suas histórias de origem. Também é interessante acompanhar os paralelos feitos entre o antagonista da película e Spike, o protagonista do anime, que aqui tem suas motivações e personalidade muito bem exploradas, em especial naquela cena em que conversa com Elektra.
Em resumo: o filme realmente é muito bom e divertido e com uma trama bem elaborada. Se você é fã da série, aqui está presente tudo de positivo que tornou a série um clássico e ainda um pouco além do que isso.
Cowboy Bebop
4.6 274 Assista Agora"Cowboy Bebop" é, sem dúvida, um tipo peculiar de anime e talvez por isso - e não somente pela sua qualidade - seja até hoje, quase trinta anos do seu lançamento, lembrado com muito carinho por uma legião de fãs, apesar de ter tido apenas uma única temporada. Curiosamente, é possível até dizer que esse seu aspecto "diferente" - como, por exemplo, a abordagem de temas adultos e complexos - foi a razão do seu cancelamento, tendo em vista que os canais de televisão da época não o consideraram, digamos, muito apropriado ao público infantil.
A trama acompanha, inicialmente, Spike e Jet, dois caçadores de recompensa, com personalidades bastante diferentes, que trabalham juntos atrás de foragidos e de dinheiro para sobreviver na galáxia. Com o tempo, somos também apresentados a Ein, Feye e Edward, cada qual com a sua história de origem, que passam a fazer parte da equipe e ajudar nas missões, formando um time improvável, porém com uma surpreendente sintonia.
É interessante observar como todos esses personagens, não obstante as diferenças entre si, possuem em comum o fato de suas características e ações serem consideravelmente influenciadas por acontecimentos prévios em suas vidas. Não é absurdo dizer que os integrantes da espaçonave Bebop, cada um a sua maneira, vivenciaram experiências traumáticas e possuem forte conexão com os seus respectivos passados, que muitas vezes até tentam esquecer e seguir em frente, mas eventualmente sempre retorna. Aliás, o desvencilhamento em relação ao passado - e a sua recorrência na vida - é tema comum na maioria dos episódios.
Quanto aos episódios, é importante deixar bem claro, para quem quiser acompanhar este anime, que a história aqui não é contada de uma forma tradicional, isto é, com uma continuidade/progressão entre os capítulos em torno de um arco central. Não há um arco central que une a todos os envolvidos na trama, mas cada personagem com o seu arco particular, que vai, aos poucos, sendo explorado a medida em que vão se envolvendo em diferentes missões - e, para o espectador, vamos também gradativamente conhecendo o passado dos integrantes dessa equipe.
Sendo assim, cada episódio tem a sua própria história e, muitas vezes, até personagens que jamais retornam ou situações que não são referenciadas posteriormente. De um lado, isso é bem interessante e agrega um dinamismo ao anime, mas, por outro, isso também pode incomodar quem prefere uma maior continuidade. E, devo ser sincero, alguns episódios são um tanto fracos, possuem tramas absurdas e em nada adicionam ao desenvolvimento das personagens. Além disso, é difícil se conectar com algumas dessas histórias devido ao fato de somente durarem alguns poucos minutos.
Um notório ponto positivo deste anime também é o estilo da animação, que é belíssimo e muito bem feito, apresentando ao espectador um universo futurista "incomum", no qual os humanos possuem avançada tecnologia, exploram inúmeros planetas e, mesmo assim, preservam vários elementos e costumes do passado. E, claro, não poderia deixar de mencionar a espetacular trilha sonora, que não somente é um deleite para quem aprecia jazz e blues, mas também combina extremamente bem com as cenas e agrega muito na ambientação do público a esse interessante e inusitado mundo ao qual somos introduzidos.
Em resumo, "Cowboy Bebop" talvez, sobretudo devido a determinados problemas no roteiro em alguns episódios, não seja essa "obra prima" ou "perfeição" que eu vejo alguns comentando. No entanto, não há como negar que as suas qualidades superam, por larga vantagem, os seus defeitos e falhas, tornando este anime - além de uma animação de muito boa qualidade - uma divertida e prazerosa experiência.
Devoradores de Estrelas
4.0 798 Assista AgoraSendo uma adaptação do livro homônimo escrito por Andy Weir, "Devoradores de Estrelas" - ou simplesmente "Project Hail Mary", em seu título original - é uma grata surpresa não somente no campo da ficção científica, mas no cinema de uma maneira geral. Em uma época marcada, infelizmente, tanto pela falta de criatividade e de ousadia na indústria cinematográfica quanto pelas reiteradas tentativas de impor agendas ideológicas, é refrescante ver um filme que não apenas foge aos clichês e "lugares comuns" da maioria das produções, mas também nos traz uma história leve, divertida e inspiradora dedicada a todos os públicos.
Na obra, acompanhamos Ryland Grace, um professor de biologia brilhante - mas que pouco acredita no próprio potencial - que é selecionado a fazer parte de um projeto com o objetivo de estudar - e, se possível, apresentar uma solução para resolver o problema o quanto antes - microrganismos misteriosos que estão destruindo o Sol e, por consequência, ameaçam toda a vida na Terra. Devido a sua participação nesse projeto, a situação dramática existente e diversas outras circunstâncias explicadas ao longo da película, ele acaba por ser incluído em uma missão espacial que nada mais é do que uma tentativa desesperadora de salvar a humanidade - ou, em outras palavras, um último "Hail Mary".
A decisão do roteirista e dos diretores de iniciar a história quando ele acorda do coma, isto é, quando ele já está há vários anos dentro da nave espacial, e, aos poucos, ir explicando o passado do protagonista e como ele se inseriu nessa situação é bem interessante e acertada. Dessa maneira, passamos a conhecer Ryland "de trás pra frente", assim como também compreender o tamanho da situação em que ele e toda a humanidade encontram-se situados e a importância do seu trabalho, cujo sucesso será decisivo na salvação da vida na Terra.
O ex-professor - e agora astronauta - se vê forçado a encarar os seus medos, explorar o desconhecido e acreditar em seu próprio potencial de encontrar soluções e alternativas em meio a um contexto extremamente desesperador e no qual bilhões de vidas dependem dele. Mesmo dada a dramaticidade envolvida, é fascinante observar como a obra - e isso também tem muito mérito da boa atuação de Ryan Gosling - consegue proporcionar momentos de leveza e humor.
Outro destaque - e também responsável por bastante do humor da película - é Rocky, o inesperado e improvável companheiro de Grace nessa aventura. À princípio, a sua aparência pode causar estranheza, mas, com o passar do tempo, não apenas nos acostumamos com o alienígena, mas igualmente passamos a amá-lo com o seu jeito puro, divertido e corajoso. Para quem não sabe, as cenas envolvendo Rocky, embora tenham um pouco de CGI e animação, foram feitas, em grande parte, com o uso de bonecos e efeitos práticos, o que dá um ar mais "realista" ao personagem.
Em combinação aos méritos no roteiro e na história, "Project Hail Mary" impressiona pelos efeitos visuais deslumbrantes, competente direção e boa trilha sonora, que ajudam a, juntos, constituir uma divertida, apaixonante e visualmente belíssima odisseia no espaço. Além disso, traz mensagens inspiradoras acerca de amizade, esperança e sobre acreditar em si próprio mesmo nos momentos em que tudo parece estar perdido. Grata surpresa e uma boa pedida para assistir com toda a família.