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Data de lançamento
7 Set. 2024Duração
Vinte anos depois de ser levado às margens de Ítaca, Odisseu finalmente volta para casa, abatido e irreconhecível. Mas muita coisa mudou no reino desde que ele partiu para lutar na Guerra de Tróia. Sua amada esposa Penelope é agora prisioneira em sua própria casa, perseguida por muitos pretendentes ambiciosos.
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O filme só aborda a partir do momento em que Odisseu chega em Itaca. Não tem elenco estrelado (tirando Ralph e Juliette), não tem orçamento, tem alguns atores bem meia boca. E mesmo assim poderia ter ensinado Nolan a como fazer um filme sobre a Odisseia. É muito superior, mesmo sendo um pouco mais parado, ainda sim consegue parecer muito mais com a obra original, sem desrespeita-la nem um pouco.
Nao esperava mt ate pq é um filme B, mas é legalzinho, porém tem uns pontos meio pombo.
O problema maior para mim é os atores, enquanto Fiennes e Binoche seguram o filme nas costas e entregam uma atuação exemplar, o resto está no segundo semestre de artes cênicas, pois Jesus, fazia tempo que não via um filme com tanta gente ruim atuando em um só lugar.
Ponto alto pra cena do Argos.
Há algo de irônico em um filme sobre o retorno para casa que, ele mesmo, nunca parece encontrar o próprio rumo. "O Retorno" que retoma o capítulo final da Odisseia de Homero, o regresso de Odysseus a Ítaca, não como aventura mítica, mas como estudo de caso sobre um homem partido pela guerra. É uma proposta ambiciosa, e por vezes ela funciona; na maior parte do tempo, porém, o filme parece tão à deriva quanto seu protagonista antes de finalmente avistar terra firme.
As maiores fragilidades do filme aparecem no roteiro: os diálogos soam artificiais, o ritmo é desigual e a trama inteira parece sem impulso ou tensão, presa em silêncios que, na maioria das vezes, se estendem além da conta. E o elenco de apoio não ajuda a disfarçar isso, ainda que o problema não seja de atuação. Juliette Binoche é completamente subutilizada como Penélope, mas mesmo assim faz muito com muito pouco. Já Ángela Molina, como a velha ama Eurycleia, é uma das poucas a se destacar mesmo com pouco tempo de tela, entregando um dos momentos mais genuínos do elenco de apoio. Os jovens que interpretam os homens de Ítaca, por outro lado, parecem escalados pelos músculos, não pela capacidade de atuação, da qual, aliás, não têm nenhuma.
É na composição do protagonista, porém, que o filme acerta a mão. Ao retratar Odysseus sofrendo com o TEPT, o transtorno de estresse pós-traumático que deixa suas marcas em flashbacks, hipervigilância e na dificuldade de se reconectar com quem ficou em casa, e com a culpa do sobrevivente após seus anos de guerra em Troia, o roteiro constrói uma leitura moderna da lenda, de lesão moral, de realismo psicológico, que permanece fiel à profundidade emocional da obra original de Homero e ainda ressoa com um público familiarizado com os desafios enfrentados por veteranos de guerra. É essa ponte entre a lenda antiga e a realidade contemporânea que torna a jornada de Odysseus relacionável e pungente, evidenciando a natureza atemporal do impacto da guerra sobre a psique humana.
A fotografia não decepciona: captura a beleza estonteante da paisagem, reforçando seu poder simbólico. Por mais bonito que seja tudo na ilha, das árvores ao castelo de Odysseus, há algo frio, hostil, implacável ali.
No entanto, em seu coração, o filme tem um elemento que segura tudo sozinho: Ralph Fiennes. Um dos maiores atores de sua geração, ele entrega aqui uma performance contida e devastadora, incorporando o trauma subjacente de Odysseus com uma sutileza quase dolorosa de assistir. Dá pra ver o peso das experiências do personagem se curvando sobre seus ombros, a dor da culpa do sobrevivente entalhada em cada olhar, em cada silêncio. Fiennes transmite as lutas físicas e emocionais de Odysseus com um desabafo visceral, mas nem mesmo ele consegue disfarçar as rachaduras ao seu redor.
No fim, "O Retorno" é um filme sobre voltar para casa que parece esquecer o próprio caminho. Fica a sensação de um épico reduzido a retrato individual: a atuação de Fiennes é grande o bastante para comover, mas pequena demais para preencher a ilha inteira ao seu redor, e é exatamente essa desproporção entre o brilho do protagonista e o vazio ao seu redor que deixa o filme devendo.
13-08-2026
Dirigido por Uberto Pasolini, "O Retorno" traz somente a última parte da jornada de Odisseu em sua volta à Itaca, iniciando exatamente no momento em que enfim alcança o litoral de sua terra natal. Por esse ser o trecho do poema com a menor presença de deuses, o diretor possui uma maior liberdade para colocar os elementos mitológicos de lado e focar no lado humano e psicológico da história e do protagonista.
Aqui, acompanhamos um comandante militar e rei desprovido de sua imponência e orgulho, retornando ao seu reino, agora entregue à miséria - em decorrência dos saques de invasores e pretendentes ao trono. Nem Odisseu e nem Itaca são mais os mesmos, estando transformados pelo longo período tanto da guerra quanto de seu retorno.
Tendo assistido este filme há um ano atrás e agora reassistindo após a "Odisséia" de Nolan, é impossível não fazer as comparações. Ambos os filmes trazem não apenas uma abordagem mais realista da história, mas também uma representação de um Odisseu traumatizado pela guerra. Apesar dessa abordagem, nos dois casos, ser equivocada e desviar da verdadeira essência do trabalho de Homero, considero que Pasolini executa melhor essa tarefa e, mesmo ainda distante do ideal, se aproxima mais da obra original.
Enquanto, no filme de Nolan, Odisseu sente remorso pela dor que infligiu nos outros, aqui ele sente tristeza pelos companheiros que levou à guerra e não conseguiu trazer de volta, o que é algo mais próximo daquilo presente no poema. Um protagonista, portanto, que retorna ao seu reino e é recebido não com louvor e festa, mas com a missão de expulsar os saqueadores e se mostrar, ao seu povo e a sua família, novamente digno de ocupar o trono.
Um dos motivos pelos quais Pasolini é mais bem sucedido em sua proposta reside no fato de que, como ele aborda apenas o capítulo final e não a Odisséia inteira, o foco no psicológico de Odisseu encaixa-se melhor. Em momento algum quis trazer uma aventura épica e nem vendeu o filme como tal - em outras palavras, deixou bem claro que iria trazer um aspecto específico da história e explorá-lo ao máximo. Nolan, por outro lado, quis realizar uma releitura semelhante da história - mas ainda tentando conservar outros elementos da narrativa - e acabou preso no meio do caminho, nem entregando um épico com grandiosidade e nem um drama psicológico com profundidade.
Outro fator que ajuda é a grande atuação de Ralph Fiennes e Juliette Binoche, que brilham em seus respectivos papéis e carregam o restante do elenco - que, por sua vez, não está a altura dos dois - e o filme inteiro nas costas. As cenas do reencontro com Argos e da prova do arco, por exemplo, são muito bem executadas pelo diretor e pelos atores, trazendo a carga de emoção necessária para esses que são momentos marcantes do poema.
O filme, apesar do êxito em retratar tais cenas, é prejudicado por desvios que faz em outros trechos da história original. Incomodou-me como Telemaco é aqui retratado, não como sendo um filho fiel ao pai e disposto a defender a sua mãe, mas como um adolescente mimado e, muitas vezes, incoerente - também não ajuda o ator escolhido ser bastante fraco. Além disso, considero que faltou emoção ao tão esperado reencontro entre Odisseu e Penélope - que, por sua vez, até parece estar triste, no início, pelo retorno do marido, o que foge muito da característica da personagem.
Entre erros e acertos, é mais uma daquelas obras que não busca realmente adaptar as histórias de Homero, mas reinterpreta-las sob uma óptica moderna. Aqui, pelos menos, devido ao fato de retratar o trecho mais "humano" e menos "mitológico" da Odisséia, pelo fato do diretor ter sido honesto sobre suas intenções e ter ao seu dispor um baixo orçamento, dá para dar um desconto. Como um drama psicológico, funciona muito bem, mas escolhas equivocadas no roteiro e limitações orçamentárias fazem o filme não ter a mesma qualidade em outros aspectos e ficar aquém daquilo que poderia ter sido.