Diego Ferreira
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Últimas opiniões enviadas

Diego Ferreira
1 semana atrás

Eli Roth, mais conhecido por sua atuação em Bastardos Inglórios, claramente cresceu como fã de cinema, e suas influências permeiam toda a sua carreira. Seu estilo transborda uma energia cruel e típica de futuros clássicos cult, e isso fica mais evidente do que nunca em seu filme mais recente, uma abordagem fascinante do subgênero de "crianças assassinas", repleta de maldade e níveis criativos de violência. Infelizmente, a obra sofre com um roteiro carente de desenvolvimento de personagens e de confiança no próprio material.

A trama, agradavelmente simples, acaba perdendo um pouco o ritmo na metade do filme com uma exposição cômica excessiva, feita sob medida para conduzir a história em direção ao desfecho. Mas, mesmo nesse momento, os realizadores parecem estar totalmente cientes da brincadeira, e o roteiro se deleita com o ridículo, reservando uma grande parte da duração do filme para uma explosão caótica e exagerada de violência gráfica, ambientada na escola de ensino fundamental da cidade. A premissa já traz o absurdo em sua essência, e Roth resgata suas próprias referências, na forma como o humor distorcido se mistura a uma violência caricata, abraçando conscientemente os elementos que o público certamente vai adorar, em vez de tentar construir uma narrativa profunda.

Transformar crianças em lunáticos zumbificados, cobertos de granulado e calda, dá a O Sorveteiro uma vantagem sobre outros filmes de terror lançados em 2026. Sempre há espaço para um entretenimento que pede apenas para você desligar o cérebro (ou arrancá-lo com uma colher de sorvete) por uma hora e meia e curtir a experiência. A brutalidade excessiva certamente não é para todos, mas o filme pende mais para a comédia de terror do que para o terror puro, mesmo em meio a corpos destroçados e cabeças decepadas. Muitos personagens não passam de caricaturas, e seu protagonista não demonstra a esperteza necessária para se firmar como um arquétipo convincente de "final boy". O estilo de direção de Roth sempre encontra formas de elevar o material: seus planos demoram-se em uma casquinha de sorvete com um sorriso bizarro no topo do caminhão, e até mesmo no próprio Sorveteiro, à medida que ele se transforma em uma espécie de versão distorcida do Flautista de Hamelin. Uma decapitação na reta final resulta também em uma reviravolta surpreendentemente perfeita e bastante inspirada.

Ainda assim, sinto que O Sorveteiro tem potencial para ser o próximo grande filme cult de sessões da madrugada. Afinal, a maior parte da atenção recai sobre os efeitos de gore, que são excelentes. Tive a sensação de ter descoberto o filme em algum canal de madrugada quando eu era criança, aquele tipo de filme que não é necessariamente bom, mas que também não me fazia querer mudar de canal. O humor é grosseiro, mas às vezes bastante engraçado, e o vilão que dá título ao filme é assustador, silencioso e constantemente perturbador.

No fim das contas, gostar ou não de O Sorveteiro é uma questão de gosto pessoal. O filme de Roth não se preocupa com o chamado "terror elevado", com slashers metalinguísticos de mistério ou com suspenses cerebrais subversivos. Em vez disso, constrói uma história insana em torno de efeitos práticos, talvez criando um ícone do terror para a próxima geração. Roth criou um filme de madrugada razoável, mas que tinha potencial para ser um clássico absoluto.

Diego Ferreira
3 semanas atrás

O que aconteceria se, de um dia para o outro, o bairro inteiro onde você mora deixasse de existir enquanto você ainda dorme dentro dele? É dessa pergunta simples e aterrorizante que o realizador norte-americano, David Robert Mitchell, parte para construir O Fim da Rua, um blockbuster de dinossauros que esconde, por trás dos monstros e da poeira pré-histórica, uma reflexão afiada sobre família e sobre tudo aquilo que achamos garantido.

David Robert Mitchell está interessado em temas íntimos: o casal esgotado, os vícios, as crenças, o desejo de escapar e a fragilidade dos laços familiares. O subúrbio residencial, símbolo de segurança, sucesso social e comunidade, é brutalmente arrancado de seu ambiente para ser confrontado com um mundo antigo, selvagem e imprevisível, uma metáfora eficaz para o que construímos (casa, bairro, hábitos, certezas) e que pode desaparecer da noite para o dia. O filme também fala sobre o lugar de cada um dentro da família e da sociedade, sobretudo através de personagens que buscam se emancipar ou escapar de uma vida que se tornou estreita demais. O realizador prefere fazer perguntas a dar respostas, deixando ao espectador vários níveis de interpretação.

Anne Hathaway, no papel de Denise, carrega o filme com uma mistura de fragilidade e instinto de sobrevivência que dá substância emocional à mãe que tenta manter a família de pé, tanto contra os dinossauros quanto contra a própria crise do casamento. É um papel que exige fisicalidade assim que o modo sobrevivência é ativado, mas que nunca perde o lado humano da personagem. Ewan McGregor, como Greg, equilibra bem o peso de um pai dividido entre a ameaça externa e os próprios erros dentro de casa, sem cair no clichê do marido ausente redimido às pressas. Juntos, sustentam o drama familiar que dá liga ao espetáculo, segurando o filme nos momentos em que o roteiro flerta com o piegas.

Esse tema rico é, ao mesmo tempo, a força e o limite do filme. As muitas ideias abordadas tornam a análise empolgante, mas também deixam uma certa impressão de dispersão, e algumas passagens soam longas ou repetitivas demais. Ainda assim, O Fim da Rua segue sendo um trabalho original, por vezes confuso, por vezes brincalhão, que usa o fantástico para falar de assuntos muito humanos. Não é apenas um filme de dinossauros ou de ficção científica, mas um drama familiar tingido de aventura e de metáforas sobre o tempo e a sociedade. Quem busca puro entretenimento pode se frustrar diante de tantas camadas, mas quem se interessa por esse tipo de leitura, sobre o amadurecimento forçado dos personagens e a ameaça que ronda o bairro, tende a sair satisfeito.

Essa filiação a uma certa tradição do grande espetáculo fantástico americano fica ainda mais evidente com J. J. Abrams e a Bad Robot na produção. O Fim da Rua não descobre a roda: não revoluciona o cinema de desastre, o filme de dinossauros ou a narrativa familiar. Seu mérito é mais simples, e talvez seja o maior de todos: ele sabe exatamente o que quer ser. Um entretenimento familiar muito bom, generoso, lindamente fotografado e carregado por uma trilha sonora orquestral soberba, que recupera com felicidade aquele maravilhamento espetacular no estilo Spielberg dos grandes blockbusters dos anos 1980 e 1990.

Diego Ferreira
½
1 mês atrás

Há algo de irônico em um filme sobre o retorno para casa que, ele mesmo, nunca parece encontrar o próprio rumo. "O Retorno" que retoma o capítulo final da Odisseia de Homero, o regresso de Odysseus a Ítaca, não como aventura mítica, mas como estudo de caso sobre um homem partido pela guerra. É uma proposta ambiciosa, e por vezes ela funciona; na maior parte do tempo, porém, o filme parece tão à deriva quanto seu protagonista antes de finalmente avistar terra firme.

As maiores fragilidades do filme aparecem no roteiro: os diálogos soam artificiais, o ritmo é desigual e a trama inteira parece sem impulso ou tensão, presa em silêncios que, na maioria das vezes, se estendem além da conta. E o elenco de apoio não ajuda a disfarçar isso, ainda que o problema não seja de atuação. Juliette Binoche é completamente subutilizada como Penélope, mas mesmo assim faz muito com muito pouco. Já Ángela Molina, como a velha ama Eurycleia, é uma das poucas a se destacar mesmo com pouco tempo de tela, entregando um dos momentos mais genuínos do elenco de apoio. Os jovens que interpretam os homens de Ítaca, por outro lado, parecem escalados pelos músculos, não pela capacidade de atuação, da qual, aliás, não têm nenhuma.

É na composição do protagonista, porém, que o filme acerta a mão. Ao retratar Odysseus sofrendo com o TEPT, o transtorno de estresse pós-traumático que deixa suas marcas em flashbacks, hipervigilância e na dificuldade de se reconectar com quem ficou em casa, e com a culpa do sobrevivente após seus anos de guerra em Troia, o roteiro constrói uma leitura moderna da lenda, de lesão moral, de realismo psicológico, que permanece fiel à profundidade emocional da obra original de Homero e ainda ressoa com um público familiarizado com os desafios enfrentados por veteranos de guerra. É essa ponte entre a lenda antiga e a realidade contemporânea que torna a jornada de Odysseus relacionável e pungente, evidenciando a natureza atemporal do impacto da guerra sobre a psique humana.

A fotografia não decepciona: captura a beleza estonteante da paisagem, reforçando seu poder simbólico. Por mais bonito que seja tudo na ilha, das árvores ao castelo de Odysseus, há algo frio, hostil, implacável ali.

No entanto, em seu coração, o filme tem um elemento que segura tudo sozinho: Ralph Fiennes. Um dos maiores atores de sua geração, ele entrega aqui uma performance contida e devastadora, incorporando o trauma subjacente de Odysseus com uma sutileza quase dolorosa de assistir. Dá pra ver o peso das experiências do personagem se curvando sobre seus ombros, a dor da culpa do sobrevivente entalhada em cada olhar, em cada silêncio. Fiennes transmite as lutas físicas e emocionais de Odysseus com um desabafo visceral, mas nem mesmo ele consegue disfarçar as rachaduras ao seu redor.

No fim, "O Retorno" é um filme sobre voltar para casa que parece esquecer o próprio caminho. Fica a sensação de um épico reduzido a retrato individual: a atuação de Fiennes é grande o bastante para comover, mas pequena demais para preencher a ilha inteira ao seu redor, e é exatamente essa desproporção entre o brilho do protagonista e o vazio ao seu redor que deixa o filme devendo.

  • Filmow 2 dias atrás

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    Bons filmes!
    Equipe Filmow

  • Jordison 1 ano atrás

    Dica de serie de TV que é Fantástico: HOMELAND (2011-2020). Assista que você vai viciar.

  • Edkalume 3 anos atrás

    Tudo certo Diego?
    Escrevendo pra saber se você teria interesse de participar de um grupo de whatsapp sobre cinema.
    Se sim, me dá um toque e a gente conversa.