Misturando thriller com drama familiar, "Tudo Culpa Dela" cumpre bem a função de manter a tensão de um suspense bem construído e prender bem a atenção do espectador ao longo do decorrer da história. A cada episódio, somos levados, intencionalmente, a aumentar as nossas suspeitas para um personagem diferente e ficamos submersos no mistério que envolve o desaparecimento do pequeno Milo.
Embora o grande foco da trama seja a investigação policial, é também interessante acompanhar o drama familiar. As desconfianças, tensões e segredos entre membros de uma mesma família nos permitem conhecer mais acerca dos personagens, mas também se conectam com a investigação e elevam o clima de suspeita entre aqueles envolvidos na história.
Por outro lado, a minissérie também tem as suas falhas. Em primeiro lugar, o arco envolvendo a Jenny (Dakota Fenning) e sua família é, convenhamos, bem desnecessário e pouco acrescenta ao arco central da trama - não obstante, ocupa bastante tempo dos episódios, que poderiam ter sido melhor aproveitado melhor desenvolvendo outros elementos. Em segundo lugar, à medida em que se aproxima do final, a produção acumula, talvez por mera ânsia dos roteiristas em estabelecer um plot twist, uma sequência de furos de roteiros.
O principal deles é o fato do casal ter se envolvido em um acidente de trânsito que envolveu a morte de uma criança e quase matou uma outra pessoa e tal acontecimento não ter qualquer menção em cenas prévias. Aliás, é tratado antes como se sequer tivesse ocorrido, pois não apenas não houve qualquer investigação contra o casal, mas também ele sequer reconheciam o rosto de Josephine.
Outro exemplo é o fato de Peter ter conseguido levar Milo, sem o pequeno o reconhecer, ao porta-malas do carro e deixa-lo na frente da delegacia sem ser visto por absolutamente ninguém, sequer por uma câmera que facilmente poderia tê-lo detectado. Eu entendo a intenção de querer construir o mistério, mas essa e outras cenas são simplesmente muito inverossímeis para serem aceitas.
Em resumo, a minissérie é boa, prende a atenção e entretém, mas cai um pouco, ao término, na tentativa de entregar um plot twist. Ou seja, a construção do suspense foi melhor do que aquilo que o suspense entregou ao final.
Dirigido por Hideaki Anno, "Evangelion" é daqueles animes que marcaram uma geração e, com merecimento, situa-se no panteão dos clássicos dos desenhos japoneses. Aparentando ser, a princípio, um mero seriado de ficção científica situado em um mundo apocalíptico, aos poucos vai se revelando um complexo e muito bem elaborado drama psicológico.
Nesta série, somos apresentados a um mundo futurista em que a humanidade cria robôs - denominados "Evangelions" - para combater criaturas misteriosas conhecidas como "Anjos", que estão trazendo uma grande destruição ao redor do planeta. No entanto, é curioso perceber que os anjos em si não representam o aspecto mais importante da trama, sendo, sob uma certa óptica, somente coadjuvantes perante outras questões que são melhor exploradas na história.
Devidamente inseridos nesse universo, acompanhamos uma narrativa contada sob dois caminhos. No primeiro caminho, o mistério envolvendo a agência NERV, o seu comandante e os segredos por ele guardados, que vão sendo revelados de forma gradativa. No segundo, que considero o mais interessante e o principal do anime, os conflitos internos sentidos pelos personagens, em especial o protagonista, Shinji.
Ao longo da história, o público vai, gradativamente, conhecendo melhor os personagens, sobretudo a partir de flashbacks que nos ajudam a entender o porquê de serem quem são. No caso, são revisitadas experiências traumáticas que tiveram no passado e os moldaram. De uma certa maneira, é até válido pontuar que a verdadeira batalha que cada um trava não é contra os Anjos, e sim contra o seu próprio interior.
Da mesma maneira em que aborda temas complexos como solidão e existencialismo, o seriado também reúne diversos elementos, tais quais drama, comédia e ação. Neste último caso, devo dizer que as cenas de batalha são muito bem representadas, eletrizantes e um dos pontos altos da produção - embora, novamente ressalto, que a batalha em si não é o foco, e sim os personagens nelas inseridos. Uma prova dessa diversidade de elementos é, por exemplo, a diferença de tom entre a primeira e a segunda metades da temporada. Enquanto a primeira possui uma abordagem mais leve, bem humorada e aventuresca, a segunda possui um aspecto mais dramático e psicológico.
========== ALERTA DE SPOILERS ===========
Nos episódios finais, o seriado realiza um excelente trabalho de inserir o espectador na mente dos personagens principais - no caso, refiro-me, sobretudo, a Shinji, Misato, Rey e Asuka - e fazê-lo entender, por completo, os seus anseios, traumas e medos. Ou, em outras palavras, tudo aquilo que define as suas ações, as suas motivações e quem eles, de fato, são.
Shinji, tendo fugido do pai após a morte trágica da mãe, passara a vida inteira se considerando um covarde e um fracasso - e, dessa maneira, odiando a si próprio. Por trás da busca por receber atenção e reconhecimento do pai, o que ele realmente desejava, acima de tudo, era o reconhecimento das pessoas ao seu redor.
Misato, por sua vez, vivenciava sentimentos conflituosos em relação ao seu pai. Tendo o perdido muito jovem durante o Segundo Impacto, havia decidido trabalhar na NERV com o intuito de se vingar dos "Anjos". Por outro lado, quando o seu pai ainda era vivo, ela o odiava por impor restrições a ela, o que a fez adquirir uma personalidade "solta" e disposta a correr riscos na vida. Os seus relacionamentos amorosos e a sua busca por prazeres seriam uma maneira de compensar a ausência da figura paterna.
E, quanto à Asuka, o curioso é que, nos primeiros episódios aos quais somos apresentados a ela, a impressão inicial é a de uma garota temperamental e, em diversos momentos, irritante. Ao conhecermos melhor a sua história de origem - que considero a mais trágica de todas - e entendermos os seus traumas e o estado psicológico decorrente deles, conseguimos ter mais empatia com ela. Por baixo de sua arrogância e comportamento explosivo, encontra-se uma menina completamente quebrada por dentro e desesperada por afeto e atenção.
Nos três casos, os personagens, cada qual a sua maneira, não somente assolados por um tremendo vazio existencial, mas também cujas ações, de maneira inconsciente ou não, buscam exatamente preencher esse vazio. São, logo, escravos de seus medos, de seus passados e de sua própria incompletude. E o anime consegue, com perfeição, transmitir ao público esse conflito interno, em cenas que são, sem dúvida, angustiantes e tensas.
E, a partir daí, é possível perceber o porquê dos pilotos em questão conseguirem ter sucesso ao sincronizar com os Evangelions. Shinji e Asuka, em sua busca por reconhecimento e afeto, enxergam as unidades EVA como o único caminho para alcançarem esse objetivo, tornando-se dependentes dessas máquinas no intuito de preencher os seus respectivos vazios. Sendo dependentes das unidades, são capazes de se tornar "um só" com as mesmas.
Na cena final, temos Shinji vislumbrando o que poderia ser a sua vida em um outro universo, no qual ele seria menos dependente de seus traumas e inseguranças. Ele escuta inúmeras vozes falando que o que somos e o mundo do qual fazemos parte é definido, em síntese, pelas emoções que sentimos, as experiências que vivenciamos e os laços que construímos. Somente existimos de acordo com o que vivemos com os outros e somente conseguimos nos entender ao ter contato com os outros, pois, caso contrário, não teremos referência alguma.
Diante disso, ele entende, enfim, o ciclo em que está inserido. Ao se odiar, não consegue se aproximar dos outros - afinal, se não é capaz de se amar, os outras pessoas também não serão capazes. Ao não se aproximar dos outros, não consegue descobrir quem é. Ao não descobrir quem é, cria um vazio interno. Destruído por esse vazio, odeia aquilo que se tornou. Para se libertar, precisa quebrar o ciclo, e permitir se aproximar daqueles que o amam. Não existimos sozinhos, e essa é a principal lição aprendida pelo protagonista e brilhantemente transmitida pelo anime.
Aliás, Shinji, a julgar por alguns comentários, talvez seja um dos protagonistas de anime mais incompreendidos. Ele pode parecer irritante às vezes, mas o seu comportamento é explicado por um motivo simples e que deveria ser óbvio: ele, além de todas as questões inerentes à adolescência, também é um jovem com depressão. E, para pessoas com essa condição, não é incomum chorar, se fechar para os outros e ter dificuldade em construir relacionamentos.
O criador da série, Hideaki Anno, em diversas ocasiões, disse que a sua batalha contra a depressão foi a principal inspiração para criar a história. E o garoto é o personagem que melhor reflete o estado depressivo vivido pelo autor. Por trás de toda a mitologia, das cenas épicas e das batalhas contra criaturas gigantes, a história é nada mais e nada menos do que a luta de um indivíduo contra a depressão, com a pessoa, após uma série de dificuldades e conflitos, triunfando ao final.
As únicas criticas que faço ao anime é que, em primeiro lugar, ele termina, devido a restrições orçamentárias, sem a verdadeira conclusão da história, que somente é trazida no filme. E, em segundo lugar, existem diversas cenas de teor sexual que, em minha avaliação, foram um tanto desnecessárias. Eu até entendo que muitos dos personagens são adolescentes e estão em uma "fase de descoberta", mas, quando algumas dessas situações ocorrem em contextos inadequados, isso torna-se um problema.
Sendo uma adaptação extremamente fiel do mangá homônimo criado por Naoki Urasawa, é possível pontuar "Pluto", assim como mantém as várias qualidades da obra literária, também conserva os poucos - mas perceptíveis - defeitos. Em linhas gerais, no entanto, o seriado tem bem mais pontos positivos do que negativos, sobretudo destacando-se pela animação de qualidade, boa trilha sonora e história bem estruturada.
Em primeiro lugar, é preciso entender o trabalho que serviu de base para a adaptação. Dito isso, o mangá, na verdade, é uma espécie de releitura de uma das histórias mais famosas dentres os quadrinhos japoneses, o "Astro Boy" - mais especificamente, o arco "The Greatest Robot on Earth". Tendo como inspiração esse clássico desenho, Urasawa reutiliza muitos elementos da história original, como os nomes dos personagens, e estrutura, a partir daí, uma trama com um tom bastante diferente.
Tanto no mangá quanto no anime, estamos diante não apenas de uma mera ficção científica futurista, mas de um suspense investigativo - ou, simplesmente, thriller. Nele, acompanhamos o detetive robô Gesicht tentando solucionar um misterioso caso que envolve a morte de humanos e de robôs e que, a medida na qual a investigação avança, vai se tornando cada vez mais complexo.
Nesse sentido, o seriado realiza um excelente trabalho na construção do suspense, dando poucas pistas, mesmo para aquele espectador mais atento, sobre o mistério envolvendo o caso. Episódio por episódio, é apresentada, simultaneamente ao público e aos personagens, mais uma peça do quebra cabeça, que é montado de forma gradativa. Sendo assim, é necessário, para quem decidir assistir ao anime, a devida paciência, pois as respostas não serão dadas de imediato e, em dados momentos, tudo pode parecer extremamente confuso, mas, ao final, as coisas ficam mais claras.
Um outro aspecto que me agradou nessa produção, além do suspense, foram os temas abordados na história. Em vários momentos, o seriado passa uma boa mensagem - que, é verdade, não é exatamente uma novidade, mas, mesmo assim, sempre bem vinda - sobre os males não apenas da guerra, mas do ódio e da vingança de uma maneira geral, apontadas aqui, corretamente, como elementos que alimentam um ciclo vicioso sem fim e jamais trazem bons frutos ao final.
E, em tempos de avanços na área de robótica e de inteligência artificial, o enredo traz uma interessante perspectiva sobre o assunto. Na história, é possível encontrar o melhor lado do uso da tecnologia pelo homem, com robôs que ajudam aos mais necessitados, compreendem as emoções humanas com empatia e afeto e são úteis à sociedade. Do mesmo modo, também encontra-se o pior lado, ao mostrar os impactos negativos do desenvolvimento tecnológico, tal qual o desemprego, a algumas pessoas e a utilização das máquinas como armas de assassinato e até de destruição em massa.
Porém, se eu tivesse que colocar esses dois aspectos na balança, eu diria que a série pende mais ao lado positivo. Aqui, somos apresentados a robôs que têm famílias, têm empregos e possuem uma compreensão de sentimentos e emoções até maior do que muitos humanos. Enquanto isso, muitos dos problemas envolvendo essas máquinas não são provenientes das máquinas em si, mas do mau uso feito, delas, pelo homem ou pela emulação das piores características humanas, como manipulação e ódio.
Logo, um robô, sendo meramente um robô, não seria capaz de ter quaisquer sentimentos, sejam bons ou maus. Um robô bem integrado a sociedade, seria capaz de ter bons sentimentos. Um robô extremamente avançado e excessivamente humano, seria capaz, assim como um humano, de cometer atrocidades. E, nos personagens da trama, vemos cada um desses exemplos.
O único defeito do seriado, curiosamente, é um defeito também presente no mangá, que é o fato da história, na reta final, tornar-se um tanto "apressada". Além disso, apesar da maior parte do mistério ser esclarecida até o término, alguns elementos importantes são deixados sem explicação ou apresentados de maneira muito rasa. Isso, inevitavelmente, deixa a sensação de que ficou faltando alguma coisa.
Conclusão: a série é boa e vale a pena assistir, mas poderia ter sido melhor. O problema é que muitas das respostas que faltam sequer estão presentes no material original, então os roteiristas do anime ficaram de mãos atadas aqui.
Apesar de manter o alto nível no que diz respeito a atuações do elenco, fotografia, trilha sonora e direção, creio que esta é a temporada mais fraca das três. A queda de qualidade que já havia sido percebida da primeira para a segunda, aqui é vista de maneira ainda maior e considerável.
E isso se deve, sobretudo, ao roteiro. Nas duas temporadas anteriores, em especial na segunda, existem vários aspectos da história que, de maneira proposital, são complexos e confusos. No entanto, continuamos assistindo na expectativa de que em algum momento, tudo será explicado e fará sentido, bastando apenas ter um pouco de paciência.
Pois bem, chegamos na temporada final e não dá para dizer que tudo foi explicado - ou, pelo menos, não de forma satisfatória. O roteiro, sim, explica diversos elementos do enredo e nos dá uma compreensão melhor sobre as motivações de alguns personagens. Além disso, os primeiros episódios são interessantes e nos prendem bem a atenção. Por outro lado, ao mesmo tempo, o seriado também deixa inúmeras perguntas em aberto e furos no roteiro.
Por exemplo, é revelado que o relojoeiro é a "chave" de tudo, com o seu desejo de evitar a morte de sua família como sendo a origem para a viagem no tempo. No entanto, essa informação está longe de ser um grande "plot twist", pois já é sabido, há muito tempo, que foi ele que literalmente inventou a máquina do tempo. Logo, não seria óbvio desde o começo? E, sendo óbvio desde o começo, como Cláudia, Adam e os outros não perceberam isso antes? E, se sabia, porque simplesmente não viajou ao tempo antes para corrigir isso ao invés de esperar ao último instante para revelar esse fato?
E, se não bastasse, existem dois pontos que me incomodaram bastante. O primeiro foi a adição de novos arcos e personagens, que foram mal desenvolvidos, sem mesmo antes explicar os outros arcos já existentes. O segundo foi o excesso de linhas do tempo diferentes aqui apresentadas, que complicaram ainda mais o que já era complicado.
Como resultado, é tanta informação, tanto personagem e tanta subtrama que não somente é difícil para o espectador verdadeiramente se importar com alguma coisa que está acontecendo, como também faz o seriado tornar-se repetitivo e cansativo. O episódio final é bom, apesar dos furos no roteiro, mas, quando chegamos nele, já estamos cansados da história e queremos que tudo termine logo.
Logo, esta é uma temporada final que não está a altura das temporadas anteriores - sobretudo a primeira - e, sinceramente, foi difícil de terminar. Não diria que foi ruim, pois tiveram alguns bons episódios, mas bem abaixo daquilo que esperava e do que poderia ter sido.
Em linhas gerais, é possível dizer que a segunda temporada mantém muito do estilo "sci-fi noir" apresentado anteriormente na produção. Dessa forma, todas as qualidades do seriado, bem como os temas representados, ambientação e a combinação de suspense com ficção científica estão aqui presentes. E, claro, não falta aquela boa e velha dor de cabeça para entender a complexidade dessa esquisita, porém fascinante, série.
Nesta temporada, "Dark", ao dar prosseguimento na história, trata de responder diversas perguntas deixadas em aberto na temporada anterior. No entanto, destaco que é necessário, por parte, do espectador, um pouco de paciência nos primeiros episódios, que adotam um ritmo mais lento. Do meio pra frente, a temporada "pega no ritmo" e conecta, de uma forma mais dinâmica, as diversas peças da trama.
Além de dar continuidade a arcos previamente apresentados, o seriado introduz novas narrativas e dramas e aprofunda outros que haviam sido apenas brevemente abordados antes. No entanto, em determinados momentos, considero que a série passa um pouco do ponto e torna a trama excessivamente confusa, sobretudo com a adição de mais linhas do tempo e dimensões, que, em minha avaliação, prejudicaram o enredo e provocaram uma certa queda de qualidade - não uma grande queda, mas perceptível.
Por fim, aquilo que mais gostei desta temporada foi o aprofundamento do tema relacionado ao destino e livre arbítrio. Afinal, ao voltarmos ou avançarmos no tempo, é possível mudar o rumo dos acontecimentos ou tudo irái nevitavelmente desencadear no mesmo desfecho? Conseguimos controlar nossas ações e destinos ou somos controlados por forças externas mais poderosas? Em meio a confusão entre as linhas do tempo, é o passado que está definindo o presente e futuro ou vice versa? Essas são as perguntas que fazemos ao acompanhar essa loucura e cujas respostas seguem incertas.
Definitivamente, uma das séries mais complexas, malucas e criativas que já assisti. Misturando mistério com ficção científica, "Dark" começa como um drama/suspense investigativo, em que somos introduzidos a uma pequena cidade alemã na qual uma criança desapareceu, mas, a medida em que a história prossegue, a trama vai se expandindo para diversas camadas.
Na falta de uma expressão mais apropriada, eu diria que "descer na toca do coelho" é a melhor forma de descrever a experiência de assistir a esse seriado. Ao longo do desenrolar dos acontecimentos, vamos mergulhando na complexidade do enredo e nos arcos dos personagens, tendo, muitas vezes, que ter cuidado para não se perder em meio a tantos nomes e diferentes linhas do tempo.
A série consegue realizar um grande trabalho em prender a atenção do espectador com personagens cujos dramas pessoais são interessantes e, acima de tudo, um suspense bem construído, que mantém o mistério de maneira exímia e leva a trama a caminhos inesperados - porém que se encaixam perfeitamente. Como se estivéssemos juntando peças de um quebra cabeça, aos poucos mais informações acerca dos personagens é revelada e compreendemos melhor, mesmo com direito a uma boa e velha dor de cabeça, diversos elementos da história.
Outra qualidade da produção é o estabelecimento de um drama que, apesar de ter o tema da viagem do tempo como um aspecto central, não se apoia somente nisso para sustentar a história. No caso, a viagem no tempo convive com outras narrativas pessoais dos personagens e reflexões sobre perda, destino e livre arbítrio. Recomendado.
Em sua segunda temporada, "Frieren" consegue fazer algo difícil, que é manter o alto nível já apresentado anteriormente, dando continuidade à saga da maga élfica e de seus companheiros, Fern e Stark e ainda preparando o terreno para a terceira temporada que será lançada ano que vem. E eu diria que isso ocorre, sobretudo, porque o anime preserva todas as qualidades marcantes apresentadas na primeira temporada e responsáveis pela boa recepção da série: os deslumbrantes efeitos visuais, a excelente trilha sonora, as dinâmicas e divertidas interações entre as personagens e, sobretudo, a atmosfera acolhedora, tranquila e leve da história.
A trilha sonora, inclusive, merece um destaque especial. Com composição feita pelo americano Evan Call, que já trabalhou em outros animes, a trilha incorpora diversos elementos da música folclórica europeia e contribui para a ambientação do espectador no mundo em que se passa a história. E o que é curioso é que, apesar de ser um mundo fictício e repleto de magia, temos, muito graças ao aspecto musical, uma sensação de pertencimento a essas terras e locais que jamais colocamos os pés e de memória a uma casa da qual jamais fizemos parte, o que contribui com a nossa imersão na história.
No entanto, o anime não se limita a simplesmente repetir a fórmula já estabelecida, mas também, dentre outras adições, expande o "lore" de alguns personagens que haviam sido introduzidos no final da temporada anterior - tais quais Methode e Genau, apresenta novas informações sobre o passado de Frieren, Himmel e do antigo grupo e traz uma boa progressão na relação entre Fern e Stark. Neste último caso, eu diria que alguns dos melhores episódios foram aqueles que focaram mais no seu relacionamento/romance, proporcionando não somente cenas bonitas e um aprofundamento em ambos os personagens, mas também momentos engraçados.
Em linhas gerais, os temas abordados no seriado prosseguem o mesmos - e, de fato, não haveria razão alguma para mudar isso - e segue sendo desenvolvido através tanto das aventuras do grupo atual quanto dos flashbacks do grupo antigo. No caso, o seriado nos faz refletir sobre as relações humanas, sobre o impacto que outros fazem em nossas vidas e que nós fazemos nas vidas dos outros e também sobre aproveitar os bons momentos nesta jornada que percorremos, por menores, bobos e até insignificantes que possam parecer inicialmente - como, por exemplo, observar um pôr do sol.
É também sempre fascinante observar como este seriado consegue trazer reflexões sobre temas profundos, nos fazer imergir em um mundo de fantasia e "acalmar a nossa alma" com cenários e sons deslumbrantes e, ao mesmo tempo, apresentar tamanha simplicidade. Assim como na primeira temporada, temos algumas cenas em que simplesmente nada ou pouco acontece - às vezes, são apenas os personagens principais caminhando, ou permanecendo em um quarto, dormindo, conversando ou se alimentando - e, por incrível que pareça, essas são algumas das cenas que mais nos fascinam, prendem a nossa atenção e tornam este anime tão especial. Naturalmente, temos a progressão natural do arco central da história e acontecimentos importantes ocorrendo, mas, mais importante do que isso, são as pequenas missões secundárias nas quais os personagens se envolvem e o desenvolvimento pessoal de cada um.
Logo, a segunda temporada de "Frieren" não decepciona e mantém tudo aquilo que amamos no seriado sem cair na mesmice ou repetição. O seu único defeito, como era de se esperar, é que é muito curta e, sem dúvida, 10 episódios não é suficiente para nos satisfazer, no entanto aceito mesmo assim e já estou no aguardo pela próxima temporada.
Sem dúvida, "Frieren" é daqueles animes que, além de apresentarem uma alta qualidade por si só, proporcionam prazer/conforto ao assistir e nos dá uma sensação boa após terminarmos cada episódio, sobretudo pela beleza tanto do visual quanto da história. Nesta série, acompanhamos uma maga élfica que, várias décadas após ter derrotado, junto aos seus amigos heróis, o "Rei Demônio", agora refaz, com um outro grupo de companheiros, a mesma rota que percorreu outrora. No entanto, nesta nova aventura, a protagonista da série não apenas possui como objetivo derrotar monstros e demônios, mas realizar uma jornada pessoal ao longo de suas próprias emoções, sentimentos e lembranças.
Em primeiro lugar, destaco aqui a qualidade da animação, que é simplesmente belíssima e, em diversas cenas, quase que assemelha-se a uma verdadeira obra de arte, com cores e tons que trazem vida ao mundo mágico que é aqui representado. E, se não bastassem os deslumbrantes efeitos visuais, o anime igualmente nos traz uma incrível trilha sonora, que possui traços medievais, seja em tons mais relaxantes, seja em tons mais imponentes, que encaixam-se, com perfeição, ao universo fictício no qual a história encontra-se inserida - que, embora fictício, claramente é inspirado em antigas narrativas medievais.
Em seguida, não posso deixar de mencionar as personagens, que, inclusive pelo caráter fortemente intimista do anime, são um aspecto até mais importante do que os próprios elementos mágicos existentes. Frieren, a protagonista, é uma elfa com poderes mágicos e cuja expectativa de vida beira a eternidade, logo, mesmo já tendo vivido mais de um milênio, possui a aparência, e em várias vezes também a personalidade, de uma criança - ou de uma adolescente, se preferir. Para ela, séculos passam como se fossem apenas alguns meses, o que a faz ter uma percepção do tempo completamente diferente da maioria das pessoas e, na mesma proporção, impacta a forma como a mesma enxerga relações pessoais, tais quais amizade e afeto.
Isso ocorre por que, sendo ela capaz de viver por milhares de anos e de ultrapassar a expectativa de vida de praticamente todos com quem convive, jamais teve a vontade de ter amigos ou aprendizes e de constituir relações amorosas ou quaisquer laços com quem quer que seja, pois já teria o conhecimento de que tais relacionamentos teriam duração ínfima se comparado à totalidade de sua vida, surgindo e depois desaparecendo naquilo que para ela seria um mero piscar de olhos. Sendo assim, várias de suas atitudes que poderiam soar como "frieza" são naturalmente explicadas por uma mera incapacidade de compreender as emoções alheias, e tal incapacidade sendo derivada da sua extensa longevidade, que nesse caso, serve, ao mesmo tempo, como benção e maldição. Afinal, se todos aqueles que ama e com que se relaciona irão morrer antes dela, então qual a necessidade de estabelecer qualquer relacionamento?
Isso, obviamente, começa a mudar quando conhece Himmel, Heiter e Eisen, que a convidam para fazer parte do famoso grupo de heróis que eventualmente iria derrotar o Rei Demônio e trazer paz e prosperidade para aquelas terras. Com eles, passa a vivenciar experiências e sentimentos e a construir laços que antes jamais havia tido, em diversas cenas que são sempre trazidas ao espectador através de "flashbacks". No entanto, mesmo depois de tudo e até mesmo da morte da maioria dos seus antigos companheiros de aventura, ela percebia que ainda conhecia pouco dos seus amigos e das emoções humanas de uma maneira geral, o que é exatamente o motivo que a faz embarcar em uma nova jornada, refazendo a mesma rota previamente percorrida pelo grupo.
Ao reavivar as memórias de suas aventuras, passaria a, enfim, compreender o impacto que os seus amigos verdadeiramente tiveram em sua vida e na vida dos outros ao redor, o qual ela não havia percebido antes. E é por isso que o constante uso de "flashbacks" encaixa-se tão bem aqui, pois trata-se de uma jornada, deixando de lado os duelos com outros magos, demônios e monstros, essencialmente pessoal da protagonista em redescobrir o seu próprio passado e, ao fazê-lo, conectá-lo com o seu presente. Ao longo da história, é possível acompanhar Frieren, na companhia dos seus novos colegas Fern e Stark, aprendendo importantes lições sobre laços, memórias, a valorização dos momentos que vivemos e as marcas que os outros deixam em nossas vidas, o que também é uma reflexão que o anime traz ao espectador.
Esse último aspecto, inclusive, considero como sendo um dos mais recorrentes e importantes ao longo da série. Na maioria dos episódios, é, frequentemente, mostrado como uma boa ação - seja ela grandiosa tal qual vencer um Rei Demônio ou pequena como aplicar um mero feitiço de fazer surgir flores a uma criança - pode fazer a diferença na vida de uma ou mais pessoas. E, ao realizar uma boa ação que faça a diferença na vida do outro, a pessoa que realizou a ação, de certa maneira, tornar-se-ia "imortal", pois viveria eternamente através da memória de quem ajudou e do reconhecimento de suas boas ações. Ironicamente, Frieren, mesmo sendo a única verdadeiramente imortal no grupo original de heróis, não era a única que havia sido imortalizada, pois todos os seus outros companheiros possuíam estátuas erguidas e histórias escritas em sua homenagem - e Himmel, aquele que mais dedicou a sua vida a ajudar os outros, naturalmente iria ser o mais lembrado. Em outras palavras, a verdadeira imortalidade não passa por uma habilidade mágica ou vida eterna propriamente dita, mas pelos atos que realizamos nesta terra.
E não apenas Frieren é uma excelente personagem, mas também os próprios Fern e Stark destacam-se na história. E, falando nisso, destaco que um dos aspectos que mais me agradou na construção - e no desenvolvimento - das personagens é a forma como o anime retrata a sua, digamos, dualidade, retratando bem tanto suas qualidades quanto os seus defeitos e facilitando a identificação/conexão do público com essas figuras. Frieren é uma maga poderosa e milenar, mas muitas vezes age de forma infantil. Fern possui grande força e controle sobre magia, mas possui um temperamento volátil e facilmente se irrita mesmo com pequenas coisas. Stark é um forte e valente guerreiro, mas em diversos momentos simplesmente tem dificuldade de encontrar a coragem necessária dentro de si. Eles não são, portanto, perfeitos, imbatíveis e apenas repleto de virtudes, mas possuem as suas fraquezas e defeitos - e o fato de tentarem superá-los durante a jornada que percorrem é o que dá mais peso às suas respectivas trajetórias.
Vale também ressaltar que, ao longo dos 28 episódios desta primeira temporada, é possível dividir a história em duas partes, com a segunda deixando o tom intimista um pouco de lado e dando um maior foco aos testes pelos quais Frieren e Fern passam a fim de obter o título de "Mago Nível 1". Nesses episódios, presenciamos várias batalhas e disputas entre magos, que aqui foram muito bem executadas, e somos apresentados a diversos novos personagens. Quanto a essa segunda parte, devo admitir que considero que, em linhas gerais, houve uma certa queda - não muito grande, mas, de qualquer maneira, uma queda - em relação a primeira parte. E isso deve-se, sobretudo, ao elevado número de personagens novos que foram introduzidos e que, naturalmente, também não puderam ser, salvo uma exceção ou outra, propriamente desenvolvidos - bem como as suas histórias de origem e personalidades não tiveram o tempo e espaço para que o espectador desenvolvesse algum forte interesse.
Aliás, todo aquele arco envolvendo o segundo teste, que ocorre nas masmorra, apesar de ter os seus bons momentos, não me agradou muito. Em diversas cenas, a história acaba se perdendo, em minha avaliação, no excesso de diálogos e inúmeras e incansáveis explicações sobre detalhes envolvendo as técnicas de magias utilizadas. Além disso, todo aquele conflito em que os personagens debatem o que fazer para enfrentar a "réplica da Frieren" é bem estúpido, pois todos os magos poderiam simplesmente enfrentá-la ao mesmo tempo e depois destruir o demônio da masmorra, o que iria também destruir as outras réplicas - ao invés disso, preferem enfrentar as outras réplicas separadamente e deixar Frieren e Fern encarar, sem qualquer assistência, a réplica principal.
Em síntese, "Frieren", apesar dos problemas na segunda parte, é, sem sombra de dúvida, um anime muito bom, de alta qualidade e que vale muito a pena assistir. Bela, agradável e divertida, a série animada traz personagens principais bem desenvolvidos e fáceis de nos apegarmos, uma história interessante, deslumbrantes efeitos visuais e sonoros e pertinentes reflexões sobre a vida e relações humanas. E tudo isso com boas doses de humor, ação e aventura, que tornam a experiência extremamente prazerosa. Agora é rumo à segunda temporada, que irei começar em breve.
Sendo baseado no mangá homônimo escrito cerca de uma década antes, "Berserk", de 1997, é a primeira - e, até, hoje, a mais elogiada - adaptação da aclamada obra de Kentaro Miura. O anime, é importante ressaltar logo no início, não busca retratar toda a história do mangá, que possui mais de trezentos capítulos e continuou sendo produzido até muitos anos após o lançamento da série televisiva, mas somente uma parte da história, denominada de "arco da Era Dourada". Assim como a obra literária que o inspirou, o anime corresponde a uma "dark fantasy", isto é, uma produção que mescla fantasia - e, aqui, também aventuras e batalhas - com uma atmosfera sombria, provocando, em diversas ocasiões, uma sensação de horror e medo no espectador.
Em primeiro lugar, destaco aqui o estilo da animação. Apesar das críticas recebidas e de diversos comentários alegando que a qualidade da animação é ruim, eu não poderia discordar mais. É verdade que algumas cenas apresentam uma animação, digamos, mais simples ou até mesmo "rígida", mas também é verdade que, em uma quantidade ainda maior de cenas, este anime consegue apresentar uma enorme riqueza de detalhes e momentos belíssimos - e, quando necessário, também momentos aterrorizantes - que mais parecem ter sido retirados de uma pintura. É sempre importante ressaltar que esta série foi feita nos anos 90, quando a animação, embora seja nostálgica para mim, não era tão avançada e detinha de menos recursos.
Além disso, também vale destacar que o próprio Kentaro Miura, em adição às colaborações que fez ao roteiro do seriado, igualmente contribuiu, diretamente, no design artístico que foi aqui apresentando, o que fez com que esta adaptação apresentasse inúmeras semelhanças, em termos de estilo, ao mangá. Um desses elementos diz respeito aos momentos em que a cena "congela" e imita a arte que o autor desenhou na obra original, captando bem as emoções dos personagens envolvidos e dando profundidade - e peso - a algumas cenas importantes da narrativa.
E, mesmo nas oportunidades no qual o anime possui uma faceta mais "rústica" ou que aparenta ser "mal feita", considero que encaixa-se perfeitamente na natureza da história aqui retratada. Em outras palavras, "Berserk", tanto no anime quanto no mangá, não é uma obra que foi feita para ser agradável, mas, na realidade, exatamente o contrário, isto é, para causar desconforto e perturbar o mental de qualquer um que ler ou assistir a essa produção. Sendo assim, um estilo de animação mais "limpo" e com maior qualidade talvez não provocasse o mesmo efeito que essa série de 1997 provoca. No final das contas, o estilo adotado nesta adaptação, quer alguns gostem ou não, acaba contribuindo para estabelecer uma sensação de terror e para construir uma atmosfera sombria.
O segundo aspecto que pontuo é a trilha sonora, que, sem dúvida, considero como outro fator que faz com que esta versão seja tão aclamada. Para além das músicas de abertura e de encerramento, que são ótimas e se encaixam perfeitamente, cada qual de uma forma diferente, respectivamente no espírito do protagonista e do seriado, é impossível não mencionar a trilha assinada por Susumu Hirasawa, que contribui para amplificar todas as sensações e sentimentos proporcionados pela história. O tema do Guts, por exemplo, é algo deslumbrante, sobretudo pelo fato de ser uma música, mesmo sem ter qualquer letra, capaz de expressar cada emoção do personagem principal, sendo repleta de esperança, tristeza e solidão. Não apenas há algo de especial nisso, mas até transcendental.
E o terceiro ponto que menciono, por fim, é a história, que, reafirmo, é apenas uma fração da história completa escrita no mangá e, mesmo, assim, é espetacular e muito bem estruturada. É interessante analisar que o anime toma a decisão, que agradou a uns e desagradou a outros, de deixar diversos elementos fantasiosos e mágicos de lado. Porém, um olhar mais atento é capaz de perceber que tal decisão, para o bem ou para o mal, é feita tendo como alvo algo bem claro: focar nos personagens. Mais especificamente, nas interações entre os personagens principais Guts, Griffith, Casca entre si e em relação ao restante do Bando. Nesse sentido, uma das maiores qualidades da série é, além da retratação e leitura psicológica perfeitas dos personagens, a evolução que tais personagens vão tendo no decorrer do enredo, sendo influenciados e afetados pelas decisões que tomam e por outros acontecimentos que ocorrem em suas vidas e ao redor.
A trama inicia com Guts, já no primeiro episódio, apresentado como um guerreiro sem coração e um anti-herói indiferente a matar, que, no primeiro capítulo, está batalhando contra um demônio. Conforme a história avança, vamos descobrindo, gradativamente, tudo aquilo que o tornou nesse monstro, ou seja, somos introduzidos aos seus profundos conflitos internos e o seu passado trágico, o que acaba por revelar um personagem mais complexo. No entanto, um dos poucos defeitos que aponto nesta série é o fato de não ter ido um pouco mais além na infância do protagonista e deixado alguns interessantes aspectos de lado.
Quando criança, Guts já empunhava uma espada e lutava dentro de um grupo de mercenários, tendo Gambino como o seu mentor, amigo e quase como uma figura paterna. Nesse contexto, passa por uma experiência traumática quando esse mesmo companheiro o trai ao tentar assassiná-lo de forma repentina, o que o faz matar Gambino e fugir do grupo. Agora vagando sozinho pelo desconhecido e sem objetivos ou sonhos na vida, Guts, tendo perdido a confiança nas pessoas e adotado uma vida solitária, vive agora de um trabalho a outro.
E tudo isso começar a mudar quando descobre o Bando do Falcão, liderado por um dos personagens mais fascinantes que eu já vi não somente em um anime/mangá, mas também na ficção de uma maneira geral: Griffith. Inteligente, sereno e ambicioso, é um excepcional duelista e um líder nato, que, desde as primeiras conversas com Guts, mostra-se diferente dos demais e interessado em alçar uma posição de destaque no mundo. Ao longo da série e após se juntar a esse novo bando de mercenários, Guts passa a desenvolver uma relação de confiança com Griffith e torna-se um dos seus principais capitães.
Casca também é outro ótimo personagem, que vai crescendo no decorrer da história. Um dos pontos centrais dos seus primeiro episódios - e isso se estende até a metade da temporada - é o ciúmes que nutre quanto a Guts, que é muito bem explicado, com a personagem até mesmo desejando, no início, que o protagonista morra. Desde a sua história de origem, é detalhado que ela, após ter sido salva por Griffith, junta-se ao seu bando e, com o tempo, passa a admirá-lo, não apenas pelo que fez por ela, mas por reconhecer a sua determinação em buscar um sonho ambicioso e quase inalcançável. Ela, logo, deseja ser a espada de Griffith para que ele consiga tornar o seu sonho uma realidade, o que, de certa maneira, acaba tornando o sonho dele o mesmo que o dela: o de ver o líder do Bando no topo.
Diante disso , é natural que, quando Guts aparece e rapidamente passa a ser o "braço direito" de Griffith, ela sente-se deixada para trás e esquecida. E isso agrava-se quando ela, sendo conhecida pelas suas habilidades em duelo, vai percebendo algumas limitações naturais que o seu corpo, por ser mulher, apresenta, distanciando-a ainda mais do seu objetivo de auxiliar o seu líder a trilhar o seu caminho rumo à vitória. Isso não afeta a sua lealdade quanto à Griffith, mas a deixa triste e com raiva. Porém, depois de ter sido resgatada por Guts de uma situação de quase morte, ela passa a se abrir mais com ele e, lentamente vai construindo, com o protagonista, uma relação de confiança, ternura e amizade que, depois, dá origem a um belo romance.
No entanto, por mais que goste da personagem da Casca, é inegável que a trama gira, verdadeiramente, em torno de Guts e Griffith e do relacionamento que estabelecem. Quanto a isso, é interessante notar o contraste, estabelecido com competência no anime, entre ambos. Por exemplo, a primeira impressão que temos de Guts é de um guerreiro com aspecto sombrio e sujo, que mais parece ter sido retirado das profundezas do inferno, enquanto a primeira cena com Griffith nos apresenta a alguém que, por outro lado, mais lembra a um anjo, com cabelos brancos, olhar acolhedor, voz suave e perfeito em absolutamente tudo.
Um episódio após o outro, não apenas vamos descobrindo mais do passado de Guts e dos motivos pelo qual se tornou essa pessoa fria e com dificuldades de confiar nos outros, mas, na mesma proporção, passamos a perceber que Griffith não é esse anjo que inicialmente imaginávamos. Além disso, percebemos uma evolução de Guts, que torna-se mais maduro, sensato e estabelece laços de amizade com os outros membros do grupo, enquanto Griffith vai se distanciando cada vez mais dos seus companheiros - que, apesar disso, continuam extremamente leais a ele - e ultrapassando barreiras morais para alcançar os seus objetivos.
Nos episódios finais, também é possível acompanhar as diferenças nos rumos que as respectivas trajetórias desses personagens vão tomando, em especial após Guts deixar o Bando do Falcão. Enquanto ele, na busca por um sonho próprio, consegue, enfim, encontrar o caminho que deseja trilhar pela sua vida e passa a elevar as suas ambições e anseios, Griffith, por outro lado, vê o seu grande sonho desmoronar de maneira vertiginosa. Em um período de um ano entre a sua prisão e posterior resgate, presencia a destruição de sua posição e reputação no reino, a deformação de seu corpo e, ainda por cima, a destituição de sua posição de líder do bando, que agora passa a ser ocupada por Guts - não porque os membros do grupo não o respeitam mais, mas porque ele está completamente debilitado e incapacitado de liderar.
Se, antes, Guts vivia de uma trabalho a outro enquanto mercenário, caminhando sozinho pelo mundo e sem perspectiva, agora ele teria uma mulher, Casca, ao seu lado, como a sua companheira, e passaria a liderar um grupo de guerreiros. Se, antes, Griffith, almejava ter um reino para si e controlar grandes exércitos, agora teria sorte se conseguisse se manter vivo por algum tempo, dado o estado de saúde precário em que se encontrava, e deveria se contentar com uma vida mais simples. Enquanto um estava em seu momento mais feliz, o outro estava no fundo do poço. E, no seu momento mais desesperador, eis que Griffith escolhe sacrificar todos os seus subordinados em troca de poder, pois essa seria a única forma de ocupar a posição que almejava, mesmo que, para isso, tivesse que se tornar um verdadeiro demônio.
Ao estuprar Casca em frente à Guts, em uma cena aterrorizante, Griffith estava nada mais do que, em sua deturpada visão, reestabelecendo, sob ambos, o poder que antes detinha quanto a eles. Esse personagem, desde os primeiros momentos em que é introduzido ao espectador, demonstra o desejo de controlar outras pessoas, às vezes de maneira sutil e, outras vezes, de forma bem evidente. Ele controla Casca ao mantê-la sempre por perto e nutrindo, dentro dela, uma espécie de amor platônico. Ele controla Guts e todos os outros do Bando a dar a eles um sonho e possibilidades que jamais teriam sozinhos. Quando perde esse poder, utiliza o amuleto demoníaco para não somente restabelecê-lo, mas amplificá-lo.
Um outro aspecto que o anime faz extremamente bem é mostrar os dois lados de Griffith: a figura que todo mundo vê - angelical e perfeita - e a figura que ele realmente é, ou seja, humana, fraca, e consumida por traumas e sentimentos reprimidos. A humana é mostrada no passado e em algumas cenas em que está sozinho, mostrando alguém que está tão obcecado por seu sonho e por ocupar um lugar de destaque no mundo que está apto não somente a até sacrificar crianças ou o seu o próprio corpo, mas também a realizar os atos mais imorais, terríveis e nojentos. Ele representa, logo, a figura mais podre humana: aquela que se esconde em uma farsa. Por fora, é perfeito, lindo e sem falhas, mas, por dentro, sua mentalidade é a de um demônio, embora talvez nem perceba.
O que torna Griffith um personagem tão fascinante, tanto no anime quanto no mangá, é que ele é uma representação realista e profunda do mal em sua forma mais pura. Ele acredita que suas ações são justificadas não apenas por seus erros, mas também por interpretações equivocadas, enxergando, por exemplo, que o amor era algo que só podia ser obtido com poder e admiração - e sua solidão apenas alimentava essa narrativa. E o que o torna mais assustador é que seus anseios são compreensíveis a tal ponto de crermos que muitas pessoas, talvez até nós mesmos, poderiam fazer o mesmo se estivessem em sua posição.
A dura realidade é: você tem o potencial dentro de si para ser tão ruim quanto Griffith. Só porque você ama alguém não o impede de cometer grandes males contra essa pessoa. Só porque você acredita na bondade não significa que você seja bom. Só porque você é forte não o torna inquebrável. Nunca se esqueça de questionar o que você pensa ser verdade e certo, pois, em diversas oportunidades, podemos cometer as maiores atrocidades com as melhores das intenções e cometer os atos mais sujos tendo os sonhos mais nobres e belos por trás.
E o motivo pelo qual odiamos tanto Griffith, ao término da história, não é somente por tudo aquilo que ele faz em si, mas porque, em algum momento, o amamos. A traição que ele comete contra os outros personagens, logo, também é sentida por nós, pois, de certa maneira, também fomos traídos, pois torcemos por ele e celebramos as suas vitórias para depois recebermos uma dolorosa facada nas costas. Um homem que trocou aqueles que o admiravam e o consideravam um verdadeiro amigo por poder. E agora que realizou seu sonho, não há ninguém para celebrá-lo, porque ele sacrificou justamente aqueles que mais o admiravam para alcançá-lo.
O episódio final de Berserk é uma das coisas mais perturbadoras e aterrorizantes que já vi em qualquer obra de ficção, mas consolida a grande tragédia das histórias de Guts, Griffith e de todo o Bando do Falcão. Aqueles que fizeram o sonho de Griffith ser também o seu sonho são, ao término, jogados em um verdadeiro pesadelo. Também admiro aqui a coragem de terem encerrado o anime no momento mais triste e traumático possível. Isso, é verdade, proporciona um tremendo soco no estômago do espectador, mas combina perfeitamente com o aspecto trágico que a história deseja mostrar. E tragédias, apesar de tristes, também possuem a sua estranha beleza.
Em resumo, "Berserk" é não somente uma adaptação fiel à essência da obra de Kentaro Miura, mas um dos grandes animes já feitos, tendo como maior pecado o fato de ter durado apenas uma única temporada de vinte e cinco episódios, quando, na realidade, merecia bem mais dada a sua qualidade. Além disso, trata-se de uma série profunda, que aborda temas, tal qual o mangá, como a natureza humana, moralidade, amizade, traição, destino e a busca por poder. Extremamente recomendado, mas alerto: prepare-se mentalmente antes de assistir.
"Cowboy Bebop" é, sem dúvida, um tipo peculiar de anime e talvez por isso - e não somente pela sua qualidade - seja até hoje, quase trinta anos do seu lançamento, lembrado com muito carinho por uma legião de fãs, apesar de ter tido apenas uma única temporada. Curiosamente, é possível até dizer que esse seu aspecto "diferente" - como, por exemplo, a abordagem de temas adultos e complexos - foi a razão do seu cancelamento, tendo em vista que os canais de televisão da época não o consideraram, digamos, muito apropriado ao público infantil.
A trama acompanha, inicialmente, Spike e Jet, dois caçadores de recompensa, com personalidades bastante diferentes, que trabalham juntos atrás de foragidos e de dinheiro para sobreviver na galáxia. Com o tempo, somos também apresentados a Ein, Feye e Edward, cada qual com a sua história de origem, que passam a fazer parte da equipe e ajudar nas missões, formando um time improvável, porém com uma surpreendente sintonia.
É interessante observar como todos esses personagens, não obstante as diferenças entre si, possuem em comum o fato de suas características e ações serem consideravelmente influenciadas por acontecimentos prévios em suas vidas. Não é absurdo dizer que os integrantes da espaçonave Bebop, cada um a sua maneira, vivenciaram experiências traumáticas e possuem forte conexão com os seus respectivos passados, que muitas vezes até tentam esquecer e seguir em frente, mas eventualmente sempre retorna. Aliás, o desvencilhamento em relação ao passado - e a sua recorrência na vida - é tema comum na maioria dos episódios.
Quanto aos episódios, é importante deixar bem claro, para quem quiser acompanhar este anime, que a história aqui não é contada de uma forma tradicional, isto é, com uma continuidade/progressão entre os capítulos em torno de um arco central. Não há um arco central que une a todos os envolvidos na trama, mas cada personagem com o seu arco particular, que vai, aos poucos, sendo explorado a medida em que vão se envolvendo em diferentes missões - e, para o espectador, vamos também gradativamente conhecendo o passado dos integrantes dessa equipe.
Sendo assim, cada episódio tem a sua própria história e, muitas vezes, até personagens que jamais retornam ou situações que não são referenciadas posteriormente. De um lado, isso é bem interessante e agrega um dinamismo ao anime, mas, por outro, isso também pode incomodar quem prefere uma maior continuidade. E, devo ser sincero, alguns episódios são um tanto fracos, possuem tramas absurdas e em nada adicionam ao desenvolvimento das personagens. Além disso, é difícil se conectar com algumas dessas histórias devido ao fato de somente durarem alguns poucos minutos.
Um notório ponto positivo deste anime também é o estilo da animação, que é belíssimo e muito bem feito, apresentando ao espectador um universo futurista "incomum", no qual os humanos possuem avançada tecnologia, exploram inúmeros planetas e, mesmo assim, preservam vários elementos e costumes do passado. E, claro, não poderia deixar de mencionar a espetacular trilha sonora, que não somente é um deleite para quem aprecia jazz e blues, mas também combina extremamente bem com as cenas e agrega muito na ambientação do público a esse interessante e inusitado mundo ao qual somos introduzidos.
Em resumo, "Cowboy Bebop" talvez, sobretudo devido a determinados problemas no roteiro em alguns episódios, não seja essa "obra prima" ou "perfeição" que eu vejo alguns comentando. No entanto, não há como negar que as suas qualidades superam, por larga vantagem, os seus defeitos e falhas, tornando este anime - além de uma animação de muito boa qualidade - uma divertida e prazerosa experiência.
Em sua segunda temporada, "Vinland Saga" inicia, verdadeiramente, a história de Thorffin, que, enfim, assume o real protagonismo da trama. Adotando um tom diferente, o seriado pode desagradar aqueles que gostariam de ver mais ação, e novamente, em diversos momentos, adota um ritmo lento que exige paciência do público. Porém, assim como na primeira temporada, a série cresce bastante no decorrer dos episódios e entrega um produto final muito bom, desta vez aprofundando o desenvolvimento do protagonista e até elevando o nível outrora atingido.
De início, somos apresentados a Thorffin, de fato, somente no segundo episódio, com o personagem, em um estado visualmente perceptível, ainda abalado pelos eventos ocorridos anteriormente. Após a perda de seu pai, ele transformou o desejo por vingança contra Askeladd no único motor de sua vida e em uma verdadeira obsessão. No entanto, com a morte do pirata pelas mãos de um outro homem, a sua vingança jamais seria completa e o desejo por ela, dentro de seu coração, seria substituído pelo mais completo vazio. Deprimido e agora na condição de escravo, ele encontra-se incapaz de sentir qualquer emoção ou de ter alguma motivação. Sendo assim, aquele que antes era um guerreiro persistente e repleto de energia, não possuía mais sequer a vontade em viver e resumia-se a um homem vazio e assombrado pelo passado.
Esse cenário, todavia, lentamente começa a mudar com a chegada de Einar, um fazendeiro que se tornou escravo após a invasão de seu vilarejo. Diferente de Thorffin, que já havia perdido qualquer esperança, o novo integrante da história ainda cultivava, de maneira latente, o sonho da liberdade e de um futuro melhor. Tamanho é o "fogo", dentro de Einar, por reconquistar uma vida livre, que, junto a sua bondade e amizade, irradiou no protagonista, servindo como o pontapé inicial para um despertar que parecia impossível.
Sendo assim, Thorffin, aos poucos, passa a vislumbrar a possibilidade de um recomeço, mas com a noção de que tal processo somente poderá acontecer se acompanhado por uma mudança em seu espírito e na conquista de um estado de paz interior. Enquanto, na temporada prévia, nos acostumamos a vê-lo em constantes duelos e batalhas físicas, aqui, na primeira metade da história, acompanhamos uma luta interna do protagonista, que vive um conflito psicológico e espiritual.
Diante disso, o seriado realiza um bom trabalho em dar o tempo necessário, mesmo que tendo que adotar um ritmo mais lento, à transformação sofrida pelo personagem principal. Afinal, levando em consideração a dor por ele vivenciada, não faria sentido que deixasse isso para trás de forma rápida e fácil. Tendo que enfrentar todos os seus "fantasmas" e traumas do passado, Thorffin passa por um processo dolorido, difícil e tortuoso até que, finalmente, não apenas conseguisse superar a sua tragédia pessoal, mas também encontrasse um novo sentido a sua vida, que seria agora dedicada a salvar outras pessoas em condição igual a sua.
É fundamental pontuar que "Vinland Saga" não busca vangloriar a guerra, mas, na realidade, mostrar como ela pode ser cruel, brutal e destrutiva para a grande maioria das pessoas que a vivenciam. Por trás da glória dos guerreiros vikings e da mitologia criada ao seu redor, existe um rastro de vilarejos incendiados, mulheres estupradas e homens mortos ou gravemente feridos, isto é, um rastro de vida arruinadas e condenadas à morte ou à escravidão. Quanto a isso, basta relembrar que Thorffin, quando criança, sonhava em ser um soldado, porém ele, agora já tendo participado de várias batalhas e matado incontáveis pessoais, não sentia qualquer orgulho de suas ações, restando apenas pesadelos e arrependimentos.
Inclusive, esse talvez seja o ponto de grande discordância entre os espectadores da série. Aqueles maiores apreciadores das cenas de ação e das batalhas poderão achar essa primeira metade da temporada "chata" ou monótona, no entanto é importante ressaltar que estes episódios são os mais importantes para a compreensão da história e daquilo que ela se propõe a apresentar. É um processo lento, mas essa lentidão é o que dá a noção do seu peso, bem como do tamanho dos traumas carregados pelo protagonista.
Da mesma maneira, é a crueldade do mundo mostrada no seriado que torna a escolha de Thorffin por fazer o bem tão especial, pois ele, como um habilidoso guerreiro, poderia simplesmente continuar matando e tendo sucesso nesse trabalho, mas rejeita tudo isso e opta por um caminho diferente, em que a violência será somente o último recurso. O roteiro, novamente muito bem escrito, é competente em fazer uso desses contrastes e das diferenças entre as personagens, aliado aos ótimos aspectos visuais e sonoros, para dar a dimensão daquilo que é mostrado na trama.
Paralelamente, também temos a continuidade do arco de Canuto, um dos personagens mais interessantes, que aqui torna-se o rei de um vasto e crescente império, abrangendo a Dinamarca e a Inglaterra. O jovem monarca, uma figura extremamente complexa, persiste em seus planos de estabelecer um "paraíso na terra", no entanto, à medida em que torna-se evidente que tal utopia dependerá de mais territórios conquistados, mais guerras travadas e, por consequência, de mais destruição, ele se vê na inevitável reflexão acerca dos fins justificarem os meios ou não.
Mesmo com objetivos "nobres", Canuto vai praticando métodos que vão o assemelhando cada vez mais ao pai, o que gera um conflito interno, com a "cabeça imaginária" do rei Sweyn sendo o ótimo artifício utilizado para representar isso. Canuto prossegue com as conquistas de terra, porém proíbe a pilhagem. Planeja confiscar fazendas, mas também procura evitar conflitos armados desnecessários. É impiedoso contra quem precisa matar, mas misericordioso contra inocentes. Em outras palavras, torna-se mais cruel e frio, mas ainda se mantém agarrado a princípios, visando não sofrer da mesma corrupção de seu pai.
Além disso, é também fascinante analisar as semelhanças e diferenças entre os objetivos de Thorffin e Canuto, com ambos buscando salvar pessoas, obter paz e construir utopias de prosperidade, porém com meios completamente distintos e que, eventualmente, entram em rota de colisão em uma eletrizante segunda metade de temporada. O primeiro busca estabelecer um refúgio para aqueles desamparados na Terra, como escravos e refugiados, que fogem da destruição da guerra. O segundo busca construir um paraíso para aqueles proibidos de entrar no céu, como os guerreiros vikings, cuja salvação divina é inalcançável devido aos seus terríveis pecados.
Em linhas gerais, a segunda temporada de "Vinland Saga" eleva o já bom nível mostrado anteriormente e traz um dos melhores desenvolvimentos de personagem apresentados em um anime, com o arco do protagonista Thorffin se aprofundando de maneira excelente. Se isso não bastasse, também propõe ótimas reflexões sobre redenção e recomeços e acerca dos males da guerra, bem como traz diversos momentos de leveza e humor, algo pouco presente na primeira temporada, que ajudam a suavizar o cruel mundo em que a história se passa. Recomendado.
Sendo situado durante a Era Viking, a série retrata os conflitos entre os nórdicos e os ingleses, e a posterior expansão desse povo em terras britânicas. Além dos fatos históricos representados, a animação também aborda diversas questões filosóficas, existenciais e, inclusive, religiosas, em um roteiro bem elaborado. No entanto, sem dúvida, "Vinland Saga" é o tipo de anime que "não é para qualquer um", pois possui um tom sombrio e um ritmo, em determinados momentos, um tanto lento, exigindo paciência do espectador, que, nos episódios finais, é mais do que recompensado.
À princípio, vale ressaltar que esta primeira temporada deve ser vista como um prólogo, isto é, como uma espécie de história anterior à trama que, verdadeiramente, irá corresponder a principal e que será mostrada nos capítulos seguintes. Sendo assim, o protagonista, Thorffin, com a exceção dos episódios iniciais, acaba assumindo, na maioria das ocasiões, uma posição até secundária em meio a acontecimentos muito maiores do que o seu arco particular. Prova disso é como, em muitos episódios, ele mal possui falas e pouco aparece - e, quando o faz, geralmente encontra-se duelando ou gritando.
Nesse sentido, quem ocupa a posição de destaque, de fato, é Askeladd, que, não à toa, também é o personagem mais interessante e fascinante de toda a temporada. Calculista, frio e misterioso, o pirata sempre tem um plano em mente e deixa claro ao seu grupo de fiéis seguidores que possui controle até das situações mais complicadas, porém sempre toma cuidado para não ter as suas intenções reveladas, bem como o seu secreto passado. Diferente de outros nórdicos, ele não vê prazer na guerra, na luta ou na matança, mas apenas faz uso de tais artifícios quando realmente precisa. Por outro lado, se necessário, é capaz de exterminar um vilarejo inteiro para atingir os seus objetivos, demonstrando absoluta crueldade.
Estando sempre vários passos à frente de seus adversários, ele, apesar de ser muito forte, não possui a força física como a sua principal qualidade, mas a inteligência, a paciência e uma incrível capacidade de traçar estratégias e prever as ações dos outros. Em outras palavras, equivale ao exato oposto de Thorffin, que é, devido a sua juventude, teimosia e desejo de vingança, extremamente impaciente e emotivo, o que prejudica as suas habilidades de combate e o leva a tomar decisões inconsequentes e previsíveis.
No entanto, quando nos é mostrado o trágico passado de Askeladd, fica evidente como esses dois personagens, que não poderiam parecer mais diferentes, possuem origens tão semelhantes. Sendo assim, é impressionante como o desejo de vingança de Thorffin o acaba unindo, de maneira firme, ao homem que matou o seu pai, que, ironicamente, acaba servindo como uma segunda figura paterna a ele, o ensinando até mais do que Thors, que teve pouco tempo para isso. A sua sede em se vingar é o que faz aquela doce criança que viu o pai ser assassinado continuar viva e, ao mesmo tempo, o que completamente "mata" aquele jovem garoto e coloca, no lugar, um feroz assassino que possui a vingança como o seu único objetivo. É a sua chama e o seu veneno.
Enquanto isso, temos uma grande disputa política pelo trono da Dinamarca, travada entre os filhos do rei, Canute e Harald, e as facções que os apoiam e buscam poder, em meio a longa guerra entre nórdicos e ingleses. Esta parte também é uma das mais interessantes, pois, se o arco envolvendo os protagonistas é fictício, aqui, por outro lado, estamos diante de eventos que verdadeiramente aconteceram - ou, pelo menos, em maior parte. Assim, acompanhamos o jogo de xadrez pela coroa e como os personagens da saga são encaixados na trama, preenchendo partes da história cujos detalhes até hoje são incertos, como, por exemplo, a morte do monarca.
Aliás, Canute é também uma das figuras mais complexas desta saga, estando apenas atrás de Askeladd. Sendo inicialmente apresentado como um príncipe frágil e despreparado, ele, após passar por eventos traumáticos durante a guerra, rapidamente se torna um líder forte, corajoso e capaz de juntar seguidores, elevando a sua estatura na luta pelo trono. Ao encarar os horrores e crueldades de um mundo que não conhecia, tem sua fé abalada e percebe que não adianta se esconder dos problemas, sendo necessário lutar para corrigí-los em um meio de homens que travam guerras e derramam sangue sem um sentido maior por trás. O seu objetivo será lutar para trazer uma paz longa ao seu povo e garantir um paraíso na terra, mesmo que tenha que sujar as mãos para tal, ao invés de seguir o que seu pai vem fazendo, que é travar batalhas intermináveis.
O roteiro, muito bem elaborado, realiza um excelente papel em unir o arco de Canute com os que haviam sido previamente mostrados, detalhando, com competência, as motivações e origens de cada um dos personagens, não para justificar as suas ações, mas para explicar por que eles são quem realmente são e deixando o julgamento ao espectador. O único problema é o ritmo do seriado, que, sobretudo durante a metade, realmente torna a trama bastante arrastada e, às vezes, até um tanto repetitiva. A reta final da temporada, no entanto, compensa, trazendo um encerramento eletrizante e surpreendente, com todas as peças se encaixando e a conclusão do prólogo da saga de Thorffin, e de tudo o que o moldou, sendo alcançada.
De todas as temporadas, esta é, sem dúvida, a que coloca o seriado em um outro patamar dentre tantas produções do gênero. Em seu capítulo final, "Avatar" reúne todos os ingredientes que já haviam se destacado antes, com humor, ação, romance e drama na medida certa. No entanto, aqui presenciamos a história indo além, com o aprofundamento da trama, que vai se tornando até mais complexa do que aquilo que se esperaria de uma obra ao público infantil, o excelente desenvolvimento das personagens e uma conclusão à altura da qualidade da série.
No "Livro do Fogo", é possível acompanhar Aang tendo que apressar o encerramento do seu treinamento, à medida em que o momento do seu confronto com o Ozai se aproxima. Ainda não tendo dominado, com perfeição, todos os elementos e triste devido a sua derrota no "season finale" passado, o protagonista deve, custe o que custar, encarar todos os seus medos, inseguranças e aflições de modo a salvar o mundo. O peso de ser o Avatar, com toda a grande responsabilidade que isso carrega, vai o afetando cada vez mais.
Em paralelo, temos a continuação de um dos arcos mais interessantes e complexos do seriado, que é o do príncipe Zuko. Após finalmente ser aceito de volta a sua terra natal e de ter "reconquistado" a honra perante o seu pai, ele logo percebe que as coisas não se tornam tão boas quanto gostaria. O seu retorno ao reino não o traz felicidade ou cura os seus problemas interiores, com ele prosseguindo insatisfeito e com raiva.
Dessa maneira, Zuko, enfim, percebe que o seu tio estava certo o tempo todo. A sua raiva não era contra o avatar, ou mesmo contra o seu pai, mas contra ele mesmo, pois não conseguia encontrar um rumo na vida. O seu destino não era aquele que o impuseram - no caso, a captura do Avatar - e sim um que ainda teria que descobrir por conta própria, e que seria exatamente o oposto daquilo que originalmente tanto procurava. A jornada do dobrador de fogo em busca de sua paz interior viria após muitos fracassos, sofrimento e arrependimento, mas seria um processo necessário e, ao final, recompensador, marcando uma grande e bela trajetória de redenção e perseverança.
Aliás, os caminhos percorridos por Aang e Zuko, dois personagens com tantas diferenças e que iniciaram essa saga em lados tão opostos, apresentam inúmeras semelhanças. Tendo que carregar, nas costas, grandes cobranças e responsabilidades, apesar de serem extremamente jovens, ambos tem de lutar bastante para alcançarem os seus objetivos e definirem quem são, colocando-se, ao final, em uma posição na qual, mesmo escutando conselhos e sabedorias alheias, decidem o seu destino e suas ações por conta própria. No caso de Aang, o protagonista encara o temido líder do Fogo de forma a respeitar as suas convicções e princípios, porém cumprindo a sua missão de encerrar a guerra, em uma cena surpreendente e impressionante.
Embora a temporada, de uma forma geral, seja bem mais consistente e densa que as anteriores, que vale destacar que já haviam sido boas, são os seis episódios finais que, sem dúvida, alçam esta série ao panteão das grandes obras de animação, com uma forte combinação de efeitos visuais, trilha sonora e um enredo bem elaborado e que conclui todos os arcos com maestria. Seu encerramento entrega tudo aquilo que os fãs desejavam sem ter que forçar a barra, mas sim com naturalidade. O único problema de "Avatar" é que os episódios são muito curtos e as temporadas são poucas, pois, com certeza, ficamos com uma sensação de "quero mais" após assistir o último episódio.
Retratando a saga do guerreiro trácio que se tornou gladiador e liderou a maior - e mais famosa - revolta de escravos da República romana, "Spartacus" realiza, ao contrário de outras obras inspiradas nessa rebelião, uma representação mais moderna dos acontecimentos. Com uma trilha sonora eletrizante e abusando do sangue, nudez e câmera lenta, o seriado, que em muitos momentos lembra o filme "300" de Snyder, toma as suas liberdades artísticas. Porém, mantém-se fiel à história original e garante entretenimento e emoção ao espectador, que aqui jamais poderá reclamar de tédio.
A trama acompanha o personagem principal, cujo nome verdadeiro não conhecemos, desde as suas origens em território trácio até a sua escravidão, após ter recusado ordens de tropas romanas que traíram a ele e aos outros membros de sua tribo. Repleto de raiva contra Roma e o comandante Glauber, que o traiu, porém também triste pelo ocorrido com os seus companheiros, o guerreiro não deseja lutar como gladiador ou entreter os romanos que o apunhalaram nas costas, mas apenas anseia por reencontrar sua amada esposa e se vingar dos responsáveis pelo seu sofrimento.
Após um certo tempo e sendo agora conhecido como "Spartacus", ele logo percebe que o único caminho para concretizar os seus desejos é conquistando vitórias na arena de batalha, na expectativa de que Lentulus Batiatus, o dono da escola de gladiadores a qual pertence, irá, como recompensa, o reunir novamente a sua esposa e ajudar em sua liberdade. Este, por sua vez, manipula o gladiador com mentiras e falsas promessas, em uma tentativa de fazê-lo ganhar a sua confiança e continuar lutando e trazendo dinheiro.
Vale destacar que Batiatus, brilhantemente interpretado por John Hannah, é talvez um dos personagens mais interessantes do seriado. Carregando o nome de uma família com tradição no ramo, ele administra uma Casa de gladiadores afundada em dívidas. Em uma tentativa desesperada de reerguer os seus negócios, Lentulus utiliza de todos os artifícios para subir na sociedade romana, seja por meio de seus melhores lutadores ou seja por meio dos contatos de sua insaciável esposa Lucrétia na elite. À medida em que ele vai galgando o seu lugar no topo, vai se revelando cada vez mais brutal e ambicioso.
O seriado realiza um excelente papel ao retratar as intrigas, desconfianças e traições que marcavam a alta sociedade de Roma e como a busca por um lugar de destaque nesse meio pode ser tão sanguinária quanto as batalhas que ocorrem na arena. As falsidades e disputas por poder que marcam a elite são contrastadas pela irmandade, que também não é imune às suas intrigas, entre os gladiadores. Mesmo lutando pelo topo na Casa de Batiatus e não escondendo suas diferenças, os guerreiros ainda nutrem um mínimo de respeito entre si, enquanto, nas classes mais altas e supostamente mais "nobres", é onde a carnificina verdadeiramente impera e as pessoas fingem ser amigas somente para tirar proveito umas das outras.
O roteiro, mesmo com alguns elementos que poderiam ter sido melhor elaborados no início, é escrito com boa qualidade, com o desenvolvimento de cada personagem sendo mostrado com competência e as suas respectivas motivações sendo bem definidas ao longo da série. Na primeira metade, isso pode até não ser o caso, com a trama demorando para engatar, mas, do meio pra frente, o seriado cresce bastante em todos os aspectos e surpreende o espectador com uma trama mais complexa e emocionante do que parecia ser.
A direção, porém, é o ponto fraco da produção, com a parte técnica, talvez pelo baixo orçamento disponível, deixando a desejar em alguns momentos. E, apesar de ser ridículo reclamar da presença de nudez e de violência em uma obra sobre gladiadores romanos, é fato que determinadas cenas desse tipo foram um tanto desnecessárias.
Em linhas gerais, os pontos positivos superam os negativos, com "Spartacus" entregando uma história envolvente e eletrizante, sobretudo na reta final. A série surpreende, entrega bem mais do que somente sexo e sangue e deixa o espectador na expectativa pela continuação.
Em sua segunda temporada, "Roma" dá continuidade às disputas de poder e às intrigas que marcaram o fim da República Romana, tendo início no momento exatamente posterior ao assassinato de César e mostrando como tal acontecimento impactou a todos. Tal qual esperado, a série mostra-se novamente impecável nos aspectos técnicos e na representação da época, porém, desta vez, com um roteiro melhor amarrado, o que, sem dúvida, fez a produção elevar do já bom nível previamente apresentado.
Devido ao fato de ter menos episódios, porém retratar um período ainda mais abrangente e repleto de importantes eventos, o seriado foi obrigado a ter um maior foco no arco principal - envolvendo a política romana - e menor em histórias secundárias e de inferior relevância, o que me agradou. O clima "novelesco" e as imprecisões históricas persistem, porém em reduzida quantidade quando comparado ao visto na primeira temporada.
Naturalmente, se, por um lado, o número menor de episódios obriga o enredo a ser mais enxuto, direto e sem tramas desnecessárias, é fato que, por outro, alguns elementos da história não foram tão bem explorados, como a guerra final entre Otávio e Marco Aurélio, que aqui é limitada a poucas cenas. Em compensação, a série, enfim, dá mais espaço às cenas de batalha, que são dirigidas com qualidade, e proporciona, mais uma vez, ótimas performances por parte do elenco.
Em linhas gerais, é possível dizer que o seriado melhora em relação ao mostrado na primeira temporada, ampliando os aspectos que já haviam dado certo anteriormente e reduzindo os pontos negativos, sobretudo quanto ao roteiro. Um belo encerramento a essa produção, deixando o gosto, no espectador, de que a HBO poderia ter renovado a série para mais temporadas.
Retratando o fim da decadente República romana e o início da fase imperial, "Roma" claramente não se dispõe, em seu roteiro, a ser um documentário ou um retrato fiel dos acontecimentos, mas sim uma dramatização de um dos períodos mais conturbados da história dessa grande civilização, com foco, sobretudo, nas disputas políticas. Nos aspectos técnicos, no entanto, o seriado praticamente nos faz voltar no tempo, com excelente produção de figurino, cenários e fotografia, que aqui se destacam.
Ao longo desta primeira temporada, acompanhamos uma verdadeira guerra civil, com a disputa entre os outrora amigos Pompeu Magno e Júlio César pelo poder, culminando na ascensão do último à posição de ditador e deixando marcas na sociedade romana, que começava a ver a República, um dos seus grandes símbolos, aos poucos ruir. Os roteiristas optam, como mencionei antes, por focar no aspecto político, o que não é necessariamente algo negativo, mas ter ignorado, por completo, as batalhas e embates militares me pareceu uma escolha equivocada.
Aliás, o enredo toma, em minha avaliação, alguns caminhos um tanto questionáveis. Por exemplo, ter explorado pouco a relação de César com Cleópatra e, no lugar disso, ter ocupado tempo significativo com tramas secundárias irrelevantes e excessivas cenas de nudez foi, definitivamente, um caminho que eu não teria trilhado.
Por outro lado, a série compensa com brilhantes aspectos técnicos, grande atuação do elenco, uma representação fidedigna de diversos eventos históricos importantes e várias cenas icônicas e bem dirigidas. Em linhas gerais, tem mais acertos do que erros e vale a pena assistir.
O último capítulo de "Better Call Saul" encerra, em grande estilo e alto nível, a saga do icônico Saul Goodman, completando um dos arcos mais bem desenvolvidos e bem escritos da história da televisão. Apresentando um tom mais dramático, esta temporada traz os eventos que puseram fim a sua vida passada como Jimmy, a conexão direta com a trama de "Breaking Bad" - trazendo mais personagens da série original - e a tão aguardada conclusão da história do protagonista.
Os primeiros episódios dão continuidade aos acontecimentos da temporada anterior, com foco no conflito entre os cartéis de Los Pollos e dos Salamanca, e nos impactos dessa guerra nas vidas das personagens. Enquanto Lalo finge estar morto e prepara, minuciosamente, a sua vingança, Nacho se esconde e luta pela sua próprio vida ao perceber que está sendo usado como bode expiatório, com a responsabilidade pelo atentado sendo atribuída exclusivamente a ele.
Se todos dão a morte de Lalo como certa, Gus, perspicaz como sempre, consegue enxergar que algo não está certo e levanta suspeitas acerca do destino do adversário. Neste momento, acompanhamos uma situação incomum nas duas séries, com Fring em um estado de paranoia, medo e tensão do eventual retorno de quem havia mandado matar e da possibilidade dos seus segredos serem revelados. O membro do clã Salamanca é aquele que consegue deixá-lo na posição mais vulnerável já vista pelos espectadores.
Quanto a Jimmy e Kim, presenciamos uma relação extremamente complexa. Se, por um lado, ambos se amam, também é possível afirmar que essas duas pessoas, juntas, acabam trilhando um caminho perigoso para si e para quem está próximo, com os seus golpes e atitudes imorais. É curioso, mas, ao mesmo tempo em que são perfeitos um para o outro, igualmente são tóxicos, com um relacionamento que acaba incentivando os seus vícios e mentiras, em um processo quase que autodestrutivo e que é intensificado com o envolvimento do protagonista com o cartel mexicano.
Na reta final da temporada, temos algumas das cenas mais intensas e emocionantes de todo o seriado, na medida em que somos apresentados ao que ocorre com Saul após os eventos de "Breaking Bad" e como a sua saga irá se encerrar. Mesmo tendo que se esconder das autoridades, ele, como é recorrente em sua vida, não consegue "se ajudar" e retorna a se envolver com atividades criminosas, que acabam, por fim, revelando a sua verdadeira identidade e o deixando exposto. É como se o protagonista fosse incapaz de viver uma vida normal e abandonar, por completo, a sua rotina de golpista.
Então, quando encontra-se encurralado e não tem mais para onde correr, Saul decide, pela primeira vez, agir com honestidade e, passando a limpo todos os seus erros e pecados cometidos durante a vida, confessa tudo. E não por que gostaria de, por conta disso, ser um herói, mas para fazer as pazes com a única pessoa viva que ainda verdadeiramente amava: Kim. Após uma vida inteira de atalhos e tirando vantagens dos outros, ele, enfim, arrepende-se de suas ações e encara as consequências de suas escolhas.
O roteiro, nesse sentido, é muito bem elaborado, ao longo do último episódio, para justificar as escolhas finais do protagonista, em especial os flashbacks de conversas com Mike, Chuck e até Walter e da reflexão acerca de arrependimentos e viagens no tempo. Enquanto uma viagem no tempo realmente é impossível, como bem descreveu Walter, nunca é tarde para se arrepender dos seus erros, se reconciliar com quem ama e mudar de rumo, e é isso que Jimmy faz.
Em linhas gerais, considero que "Better Call Saul" não está no mesmo patamar que "Breaking Bad", mas, sem dúvida, está bem próxima e, com certeza, é uma série muito boa e de alta qualidade, estando no rol das melhores já produzidas. O seu "series finale", no entanto, eu julgo como sendo até superior em comparação ao do seriado original, com um encerramento digno do elevado nível de direção, roteiro e atuação apresentados pelo show ao longo de suas seis temporadas e um ponto final ao brilhante universo construído por Vince Gilligan.
O quinto capítulo de "Better Call Saul" começa exatamente no momento em que se encerra a temporada anterior, isto é, com Jimmy iniciando uma nova trajetória enquanto advogado, desta vez com o nome "Saul Goodman". Apesar de, a princípio, parecer algo muito semelhante com o ponto de onde o seriado parte, com o protagonista aceitando pequenos casos "pro bono", logo percebemos que não é bem assim. Aqui, ele não vai mais tentar vencer obedecendo as regras do jogo e irá completamente abraçar o uso de suas artimanhas no mundo jurídico, sem qualquer pudor ou moralidade.
No entanto, se a ideia original era trabalhar com clientes que não tivessem mais ninguém para recorrer, como viciados e pequenos criminosos, Saul rapidamente se vê envolvido com velhos e novos conhecidos do meio do tráfico. Dentre eles, estão Nacho e Lalo, respectivamente, que, em meio a uma guerra com o Cartel de Los Pollos ,vão tendo problemas com as autoridades americanas. Ao solicitarem o auxílio legal do advogado, também mandam a ele realizar outros serviços à margem do lei, o envolvendo definitivamente nos negócios do cartel e o colocando no "olho do furacão" de uma disputa muito maior do que ele sequer imaginava.
Enquanto a vida de Jimmy muda por completo e além do que ele gostaria quando mudou de nome, acompanhamos Kim não apenas ainda em dúvidas em relação ao seu futuro profisional, mas agora também refletindo acerca de sua vida pessoal. No início, apesar de tolerar os seus truques e até gostar de alguns dos seus métodos, ela não vê com bons olhos a mudança de identidade do namorado e considera que também ele esteja indo longe demais. Em dado instante, ela se vê em uma encruzilhada entre o seu relacionamento com Jimmy, que vai se distanciando em meio a mentiras e desconfianças, e aquilo que ela tenta encontrar para a sua carreira. Quando a rotina de ambos se transforma devido a uma série de eventos, ela terá de decidir qual caminho seguir.
No arco da guerra entre os cartéis de Los Pollos e de Salamanca, vemos Mike questionando a continuidade de seus serviços e se tudo aquilo ainda vale a pena, ao mesmo tempo em que compreende que o seu trabalho, mesmo que imoral e sujo, é necessário para ajudar a sua família. Por outro lado, também é possível observar Nacho lutando para manter a confiança por parte dos dois cartéis e ainda costurar uma eventual saída para si e para o seu pai. Ambos os personagens têm muito em comum e trabalham juntos em busca de sobreviver nesse mundo.
Nesse contexto, Gus sente, os seus negócios "sangrando", de maneira crescente, em meio a essa barulhenta guerra do tráfico, o que o leva a tomar atitudes cada vez mais extremas e arriscadas a fim de proteger os seus interesses e manter os Salamancas distantes de seu território. Quanto a Lalo, um dos mais interessantes personagens desta temporada, vemos um homem que é, sem dúvida, muito mais inteligente do que aparenta ser e extremamente determinado a defender o nome e poder de sua família.
Essa é a parte do seriado que, até o momento, mais se assemelha a "Breaking Bad", inclusive com mais personagens da série original fazendo aparições. Pessoalmente, achei a quarta temporada um pouco melhor, mas esta também é muito boa e de altíssimo nível e, por enquanto, apenas atrás da temporada anterior em termos de qualidade. Ansioso para continuar assistindo.
A quarta temporada de "Better Call Saul" é mais uma amostra da capacidade do seriado em continuar elevando o seu nível. Iniciando exatamente do ponto em que a história parou, a série nos apresenta um roteiro, como sempre, muito bem amarrado, com os personagens sendo impactados pelos acontecimentos outrora mostrados e o arcos desenvolvidos, ao longo da trama, com competência. De maneira simultânea, acompanhamos tanto Mike mergulhando a fundo na organização de Gus quanto a transformação de Jimmy em Saul sendo, enfim, completa.
Já a partir dos primeiros episódios, a história começa de forma frenética e impactante, com Jimmy tendo que lidar com a trágica perda do irmão. No entanto, enganou-se quem imaginava que tal evento poderia levá-lo a uma mudança de comportamento ou a um sentimento de culpa, pois, na realidade, apenas fez com que prosseguisse, ainda mais, com seus esquemas e artimanhas. Com Chuck fora de cena, não somente desaparecia o seu parente mais próximo ainda vivo, mas também os últimos obstáculos remanescentes em seu caminho de trapaças e mentiras.
Nesse sentido, o protagonista, cada vez mais, vai abrindo mão dos poucos resquícios de moralidade e vergonha que ainda existiam em sua consciência. Se antes era apenas um advogado que usava de "atalhos", agora se tornava um verdadeiro criminoso e se relacionava com outros bandidos, sequer fazendo muito esforço para esconder isso de Kim. Ao criar conexões no mundo do crime, Jimmy estabelecia, sem perceber, a primeira clientela da sua futura identidade, Saul Goodman.
Quanto a Kim, é interessante acompanhar como ela, inicialmente devido ao seu amor por Jimmy, não apenas "passa pano" para as atitudes do namorado, mas também até o ajuda a "limpar a sujeira" das ações ilegais do namorado, mesmo sabendo, no fundo, que são erradas e arriscadas. Porém, se no começo a advogada fazia isso por motivos amorosos, aos poucos vemos ela começando a gostar de participar dessas artimanhas, sobretudo devido ao tédio que sentia com o seu trabalho regular e por conta de uma "crise existencial" que desenvolvida quanto a sua profissão.
A realidade é que Kim, por mais inteligente e determinada que fosse, sempre se sentiu atraída, mesmo que desaprovasse publicamente, pelo estilo "rebelde" de Jimmy e muitas vezes minimizava as atitudes ilegais do namorado. Nas temporadas anteriores, inclusive, ela, em determinadas ocasiões, até agia, junto com ele, em alguns golpes. Nesta temporada, entretanto, o que antes era apenas uma diversão momentânea passa a se tornar algo frequente, aprofundando a relação entre ambos - embora o último episódio dê a entender que isso não durará muito.
No arco envolvendo Mike/Gus, vemos os esforços do cartel de Los Pollos na ampliação da operação estabelecida por Fring, mais especificamente com a construção do laboratório. No caso, acompanhamos Mike tendo que tomar atitudes cada vez mais extremas e questionáveis para prosseguir trabalhando nesse meio. Além disso, também é parte importante da trama o cenário de adaptações ocorridas na Família Salamanca em decorrência do quadro de saúde de Hector, com a temporária ascensão de Nacho e o surgimento de um novo, e já bastante interessante, personagem, Lalo.
Esta temporada, portanto, realmente é melhor que as anteriores em termos de qualidade, o que confirma a tendência de subida de nível do seriado, com drama e humor na medida certa e um roteiro que desenvolve bem cada história sem deixar pontas soltas e encaixando todos os elementos na reta final. Aos poucos, o universo de "Breaking Bad" vai começando a aparecer e se montar cada vez mais, mas sem abandonar a identidade única construída por "Better Call Saul".
Em sua terceira temporada, "Better Call Saul" aprofunda não apenas a transformação de Jimmy em Saul, que vai se tornando cada vez mais evidente, mas também as disputas entre os irmãos McGill, que aqui chega ao seu ápice. Além disso, o seriado introduz, de maneira eficiente, vários personagens conhecidos de "Breaking Bad", sendo Gus Fring o principal deles. Com todos esses elementos, a produção dá uma melhora de qualidade em relação às temporadas anteriores e eleva o seu nível.
O arco principal segue sendo o conflito entre Chuck e Jimmy, que deixa de ser exclusivamente uma briga entre irmãos, de caráter pessoal, para se tornar uma disputa jurídica, que terá ramificações e impactos significativos tanto para a gigante HHM quanto para a carreira de ambos os advogados. O conflito será mais um momento em que o passado dos dois irmãos virá novamente à tona, assim como o complexo e difícil relacionamento existente entre eles. No quinto episódio, um dos melhores da série até o momento, presenciamos essa guerra familiar no seu ponto mais intenso.
As consequências da disputa jurídica com o seu irmão levam Jimmy a buscar outras formas de ganhar dinheiro e sobreviver, com o intuito de não deixar todas as despesas nas costas de Kim. No entanto, ao mesmo tempo, também o fazem retornar, um pouco mais, em sua antiga vida de bicos, golpes e artimanhas, que agora voltarão a ser o seu ganha pão.
Enquanto isso, também é muito bem desenvolvido o arco de Mike, que vê as suas desavenças com Hector Salamanca o colocando no meio de uma antiga rixa entre o traficante mexicano e Gus Fring. Este deseja prejudicar, discretamente, os negócios do rival, mas reserva um eventual assassinato a um momento oportuno e da forma mais cruel possível, pois entende, como ele mesmo diz, que meramente uma bala na cabeça seria muito humano. Nesse caso, é essencial relembrar o flashback mostrado em "Breaking Bad", que explica a razão do ódio de um em relação ao outro. Nesse sentido, Mike e Gus, com interesses em comum e um respeito mútuo, se ajudam e pavimentam o caminho para o que será uma longa parceria.
De forma geral, como dito antes, a série, que já vinha de duas boas temporadas, aqui, apesar de um início um tanto lento, sobe um degrau em termos de qualidade e proporciona grandes cenas em um roteiro novamente coeso e bem desenvolvido. Vale também destacar a atuação do elenco, que se destaca em meio a um seriado com já tantas qualidades.
Em sua segunda temporada, "Better Call Saul" mantém o bom nível de qualidade apresentado em sua estréia e prossegue a saga da transformação de Jimmy McGill em Saul Goodman. Com um roteiro bem amarrado, boa direção e mais uma grande performance do elenco, o seriado aprofunda, sobretudo, a relação entre Jimmy e o seu irmão, fazendo o espectador compreender melhor o passado de ambos e o complexo relacionamento que estabelecem entre si, que é um dos pontos centrais da história.
Seja por cenas de flashback ou simplesmente por falas das personagens, Vince Gilligan explica a mágoa que Chuck sente por Jimmy, apesar de ainda nutrir amor por ele, o que nos ajuda a entender a dificuldade que possui em aceitar que o irmão mais novo pode mudar. Essa marca que o passado lhe deixou é forte e faz com que ele não consiga enxergar os esforços de Jimmy em ser diferente, o que, ironicamente, acaba sendo o motivo pelo qual o irmão mais novo acaba desistindo de ter qualquer mudança e mergulha de vez em uma vida de trapaças e artimanhas.
Nesta temporada, inclusive, temos Saul aparecendo com cada vez mais força, seja nas vestimentas ou nas atitudes de Jimmy, que, tendo a sua tentativa de mudança rejeitada pelo irmão, busca ser aquilo que realmente quer ser, independente do que os outros desejam. Os poucos princípios morais, éticos e legais que restavam no protagonista, e que eram mantidos para tentar agradar a Chuck, vão sumindo aos poucos, à medida em que ele vai procurando percorrer o seu próprio caminho na vida, e não o caminho que traçaram para ele.
O arco de Mike também vai se tornando cada vez mais interessante, com ele começando a se envolver com o Cartel de Salamanca. Isso, junto a necessidade de obter mais dinheiro e de proteger a sua família, o força a ter de entrar cada vez mais no submundo do crime e a ter, com maior frequência, que agir de forma drástica e arriscada.
Aliás, a moralidade por trás das escolhas que os personagens fazem prossegue sendo um dos pontos fascinantes da série. Ao longo da trama, presenciamos indivíduos consideravelmente imperfeitos, mas com bom coração e boas intenções, sendo levados a caminhos obscuros devido a escolhas moralmente complexas e questionáveis e aproximando, por exemplo, Jimmy e Mike a quem eles são em "Breaking Bad". Dessa forma, somos levados a refletir até quão longe vale a pena ir para tentar fazer a coisa certa.
O encerramento da temporada, em particular, é muito bom, o que deixa o espectador ansioso para continuar a história.
São raros os casos em que um personagem de uma série consegue inspirar um outro seriado inteiro baseado em si e, além disso, com a obra derivada apresentando qualidade e sucesso semelhantes à produção original. No entanto, em "Better Call Saul" essa rara situação ocorre graças, sobretudo, ao carisma do excêntrico e icônico advogado Saul Goodman, que aqui ainda não se tornou completamente aquele personagem que conhecemos, mais uma vez interpretado com excelência por Bob Odenkirk, e ao roteiro bem elaborado por Vince Gilligan.
Na série, acompanhamos Jimmy McGill antes de se tornar o Saul Goodman, em uma época em que o protagonista, com o intuito de se desvencilhar de seu conturbado passado e de cumprir uma promessa feita ao irmão Chuck, ainda procurava ser um advogado bem sucedido seguindo a lei e trabalhando de forma relativamente honesta - ou, pelo menos, com o máximo de honestidade que conseguia ter. Caminhando na linha tênue que separa aquilo que é permitido e o que não é, Jimmy vai sobrevivendo com dificuldades e lutando para subir na profissão.
No caso, percebemos que o seu charme, lábia e excentricidade, tão úteis quando era um mero golpista em sua terra natal, não apresentam a mesma eficácia no meio jurídico do Novo México. Aqui, McGill, trabalhando sozinho na defensoria pública, limita-se a casos fadados ao fracasso e clientes claramente criminosos, o que o faz ganhar a fama de "advogado de porta de cadeia", não sendo, dessa forma, devidamente reconhecido ou levado à sério pelos colegas de profissão.
Mesmo vez ou outra ainda apelando para antigas artimanhas e estratégias performativas, o sonhador advogado persiste em agir conforme a lei e, repleto de boas intenções, fazer a coisa certa. A sua atitude somente muda ao final da temporada, ao perceber que a promessa que havia feito a Chuck e todo o seu esforço não mudariam a forma como era visto e demorariam muito para lhe trazer algum retorno, com as suas ações passadas ainda fortemente impregnando a sua reputação. A escolha que fez foi tomada por si, mas, em parte, foi levado a tomá-la pela falta de reconhecimento que ele recebia, o que provoca uma forte empatia pelo espectador e fornece uma maior complexidade a um personagem que outrora poderia parecer apenas um mero alívio cômico.
A gradativa transformação de Jimmy em Saul é muito bem executada pelos roteiristas, ocorrendo gradualmente ao longo dos episódios. Outro mérito de Gilligan e companhia reside no fato de não tentarem imitar "Breaking Bad" ou sustentar este seriado em referências à história original, mas fornecerem, à "Better Call Saul", a sua própria identidade, com os seus próprios personagens - com exceção, por ora, de Jimmy e Mike - e arcos e um estilo que mescla, com competência, a comédia e o drama.
Uma boa primeira temporada para uma série que promete. Recomendado.
Em seu capítulo final, "Breaking Bad" encerra a história em grande forma, mantendo o alto nível de qualidade apresentado nas temporadas anteriores e, em diversos episódios, indo além. Aqui presenciamos a ganância de Walter White alcançando o seu ápice, com o protagonista em busca de construir o seu próprio império da metanfetamina. Tal cobiça contribui para sedimentar a sua completa transformação em Heisenberg - restando poucos traços de quem Walt outrora era, corroer a relação com as pessoas que amava e trazer as consequências máximas de suas ações a si e a sua família.
Nos primeiros episódios, acompanhamos as personagens principais - Walt, Jesse e Mike -tentando juntar os cacos após os eventos que encerraram a temporada passada. Ao mesmo tempo em que procuram se livrar de eventuais investigações policiais associadas às atividades de Gus Fring, o trio também busca reconstruir a operação estabelecida por seu antigo chefe. Nesse contexto, Walter, em um cenário de "vácuo de poder" no tráfico, vislumbra a possibilidade de enfim ter um império para chamar de seu, ainda guardando rusgas do seu passado e da fortuna que deixou de ter na Gray Matter, companhia que havia ajudado a fundar.
Neste momento, torna-se cada vez mais claro que, se a motivação inicial de Walt para entrar nesse negócio era simplesmente deixar dinheiro para a sua família, agora ele não fazia mais isso pelos seus filhos e esposa, ou pelo dinheiro, mas para si próprio e o seu ego. No entanto, quando aqueles ao seu redor começam a ter dúvidas se querem continuar com aquilo - Mike devido a sua neta, Jesse por um evento traumático envolvendo um garoto e Skyler pelo que houve com Ted e o que poderá ocorrer com sua família - e pretendem se afastar de Walt, este entra em colisão com as pessoas que se colocam entre ele e seus objetivos.
A ruína total - tanto de sua vida pessoal quanto de seus negócios - somente chega, porém, na segunda metade da quinta temporada, mais especificamente em um dos melhores, mais tensos e mais bem escritos episódios da série: "Ozymandias". Aqui, enfim vemos as consequências das escolhas de Walter batendo na porta de sua família da maneira mais intensa possível, o colocando em uma posição sem caminho de retorno e destruindo tudo aquilo que ele havia construído e buscado proteger.
Ao término, no "season finale", acompanhamos o protagonista, meses após o "furacão" que demoliu a sua vida, em uma trajetória para não deixar qualquer ponta solta, despendido-se das pessoas que amava e se vingando daqueles que contribuíram para a sua queda. Pessoalmente, acho que os dois últimos episódios poderiam ter explorado mais os impactos desses acontecimentos na vida de sua esposa e filhos, e acredito que essa foi uma oportunidade perdida. Além disso, a forma como ele se vingou de Lydia foi um pouco "forçada", pois, sejamos justos, seria impossível para ele colocar ricina em seu adoçante sem ser percebido. Isso sem falar da ameaça a Gretchen e Elliot, com Walt entregando todo o seu dinheiro a duas pessoas em que ele não confiava.
No entanto, se, por um lado, eu considero que algumas escolhas dos roteiristas não foram exatamente bem feitas ou à altura da qualidade da série, vale destacar que o episódio final apresenta um tom extremamente triste e melancólico, o que é correto para demonstrar o efeito das ações de Walt em sua vida. A cena final também carrega um forte simbolismo, com o protagonista encerrando em um laboratório, cercado por aquilo que havia se transformado em sua paixão e, ao mesmo tempo, na causa de sua destruição. Ironicamente, a pessoa mais viciada em metanfetamina nunca a consumiu, mas apenas produzia.
Logo em seu primeiro episódio, a quarta temporada de "Breaking Bad" inicia de forma eletrizante, com a continuidade dos eventos que encerraram a temporada anterior e da tensão entre Walter/Jesse e Gus, que será tema recorrente ao longo da trama. Nos episódios seguintes, a série, pelo menos ao meu ver, adota uma velocidade mais lenta e, em diversos momentos, excessivamente "arrastada", o que pode desagradar alguns. No entanto, em sua segunda metade, o seriado compensa, pois, daí até o final, a história engata em um ritmo frenético e eletrizante e se torna um verdadeiro furacão.
Um dos aspectos mais positivos desta temporada reside em Jesse, cujo desenvolvimento de sua personagem, que tanto faltou/estagnou em momentos anteriores, é aqui construído de maneira espetacular. Ao invés de simplesmente "se aceitar" como um drogado, ele enfim adquire definitivamente, após muita dificuldade e ajuda externa, foco em sua vida e busca, inclusive, realizar uma boa ação, ao ajudar Andrea e seu filho. Além do roteiro bem escrito, isso se deve também a excelente performance de Aaron Paul, que se destaca em meio a um elenco estrelado.
No entanto, à medida em que Jesse vai se tornando mais competente e importante, a situação de Walter, por outro lado, vai, gradativamente, se deteriorando. Sabendo que agora é o único químico e cozinheiro que Gus possui, Walt abusa desse privilégio e testa, ao máximo, os limites de sua liberdade perante Fring. Este, por sua vez, mostra novamente estar sempre "dois passos à frente" dos demais e compreende que o único caminho para resolver tal problema é afastando a dupla, minando a amizade que ambos haviam construído e tornando Walt cada vez menos insubstituível.
Em meio a tudo isso, Walter, que parecia finalmente ter tudo sob relativo controle e imaginava estar, devido ao seu importante status na organização, longe de qualquer perigo, aos poucos vai se vendo encurralado. As dificuldades com Jesse, a perda de prestígio perante Gus e a investigação conduzida por Hank colocam-no dentro de uma situação em que ele tem de escolher entre a sua sobrevivência e de sua família e a continuação do seu trabalho. No episódio "Fim dos Tempos", temos o protagonista situado nessa tensa e quase irremediável posição e, em minha opinião, o melhor episódio, até aqui, de todo o seriado, com um final de arrepiar os cabelos e de tensão absoluta.
Por sinal, finalmente somos apresentados ao passado de Gus Fring. Ao conhecer melhor a sua história de origem, também conseguimos compreender a psicologia por trás desse fascinante e enigmático personagem, bem como as suas motivações e a rivalidade contra o Cartel de Salamanca, que, nesta temporada, alcança o ápice.
Se não fosse pelos primeiros episódios, que realmente são um pouco mais "fracos", daria uma avaliação maior. Apesar disso, é importante ressaltar que a quarta temporada é, sem dúvida, de alto nível e entrega, em sua reta final, alguns dos grandes e mais marcantes momentos da série.
Tudo Culpa Dela
4.1 322 Assista AgoraMisturando thriller com drama familiar, "Tudo Culpa Dela" cumpre bem a função de manter a tensão de um suspense bem construído e prender bem a atenção do espectador ao longo do decorrer da história. A cada episódio, somos levados, intencionalmente, a aumentar as nossas suspeitas para um personagem diferente e ficamos submersos no mistério que envolve o desaparecimento do pequeno Milo.
Embora o grande foco da trama seja a investigação policial, é também interessante acompanhar o drama familiar. As desconfianças, tensões e segredos entre membros de uma mesma família nos permitem conhecer mais acerca dos personagens, mas também se conectam com a investigação e elevam o clima de suspeita entre aqueles envolvidos na história.
Por outro lado, a minissérie também tem as suas falhas. Em primeiro lugar, o arco envolvendo a Jenny (Dakota Fenning) e sua família é, convenhamos, bem desnecessário e pouco acrescenta ao arco central da trama - não obstante, ocupa bastante tempo dos episódios, que poderiam ter sido melhor aproveitado melhor desenvolvendo outros elementos. Em segundo lugar, à medida em que se aproxima do final, a produção acumula, talvez por mera ânsia dos roteiristas em estabelecer um plot twist, uma sequência de furos de roteiros.
O principal deles é o fato do casal ter se envolvido em um acidente de trânsito que envolveu a morte de uma criança e quase matou uma outra pessoa e tal acontecimento não ter qualquer menção em cenas prévias. Aliás, é tratado antes como se sequer tivesse ocorrido, pois não apenas não houve qualquer investigação contra o casal, mas também ele sequer reconheciam o rosto de Josephine.
Outro exemplo é o fato de Peter ter conseguido levar Milo, sem o pequeno o reconhecer, ao porta-malas do carro e deixa-lo na frente da delegacia sem ser visto por absolutamente ninguém, sequer por uma câmera que facilmente poderia tê-lo detectado. Eu entendo a intenção de querer construir o mistério, mas essa e outras cenas são simplesmente muito inverossímeis para serem aceitas.
Em resumo, a minissérie é boa, prende a atenção e entretém, mas cai um pouco, ao término, na tentativa de entregar um plot twist. Ou seja, a construção do suspense foi melhor do que aquilo que o suspense entregou ao final.
Neon Genesis Evangelion
4.5 345 Assista AgoraDirigido por Hideaki Anno, "Evangelion" é daqueles animes que marcaram uma geração e, com merecimento, situa-se no panteão dos clássicos dos desenhos japoneses. Aparentando ser, a princípio, um mero seriado de ficção científica situado em um mundo apocalíptico, aos poucos vai se revelando um complexo e muito bem elaborado drama psicológico.
Nesta série, somos apresentados a um mundo futurista em que a humanidade cria robôs - denominados "Evangelions" - para combater criaturas misteriosas conhecidas como "Anjos", que estão trazendo uma grande destruição ao redor do planeta. No entanto, é curioso perceber que os anjos em si não representam o aspecto mais importante da trama, sendo, sob uma certa óptica, somente coadjuvantes perante outras questões que são melhor exploradas na história.
Devidamente inseridos nesse universo, acompanhamos uma narrativa contada sob dois caminhos. No primeiro caminho, o mistério envolvendo a agência NERV, o seu comandante e os segredos por ele guardados, que vão sendo revelados de forma gradativa. No segundo, que considero o mais interessante e o principal do anime, os conflitos internos sentidos pelos personagens, em especial o protagonista, Shinji.
Ao longo da história, o público vai, gradativamente, conhecendo melhor os personagens, sobretudo a partir de flashbacks que nos ajudam a entender o porquê de serem quem são. No caso, são revisitadas experiências traumáticas que tiveram no passado e os moldaram. De uma certa maneira, é até válido pontuar que a verdadeira batalha que cada um trava não é contra os Anjos, e sim contra o seu próprio interior.
Da mesma maneira em que aborda temas complexos como solidão e existencialismo, o seriado também reúne diversos elementos, tais quais drama, comédia e ação. Neste último caso, devo dizer que as cenas de batalha são muito bem representadas, eletrizantes e um dos pontos altos da produção - embora, novamente ressalto, que a batalha em si não é o foco, e sim os personagens nelas inseridos. Uma prova dessa diversidade de elementos é, por exemplo, a diferença de tom entre a primeira e a segunda metades da temporada. Enquanto a primeira possui uma abordagem mais leve, bem humorada e aventuresca, a segunda possui um aspecto mais dramático e psicológico.
========== ALERTA DE SPOILERS ===========
Nos episódios finais, o seriado realiza um excelente trabalho de inserir o espectador na mente dos personagens principais - no caso, refiro-me, sobretudo, a Shinji, Misato, Rey e Asuka - e fazê-lo entender, por completo, os seus anseios, traumas e medos. Ou, em outras palavras, tudo aquilo que define as suas ações, as suas motivações e quem eles, de fato, são.
Shinji, tendo fugido do pai após a morte trágica da mãe, passara a vida inteira se considerando um covarde e um fracasso - e, dessa maneira, odiando a si próprio. Por trás da busca por receber atenção e reconhecimento do pai, o que ele realmente desejava, acima de tudo, era o reconhecimento das pessoas ao seu redor.
Misato, por sua vez, vivenciava sentimentos conflituosos em relação ao seu pai. Tendo o perdido muito jovem durante o Segundo Impacto, havia decidido trabalhar na NERV com o intuito de se vingar dos "Anjos". Por outro lado, quando o seu pai ainda era vivo, ela o odiava por impor restrições a ela, o que a fez adquirir uma personalidade "solta" e disposta a correr riscos na vida. Os seus relacionamentos amorosos e a sua busca por prazeres seriam uma maneira de compensar a ausência da figura paterna.
E, quanto à Asuka, o curioso é que, nos primeiros episódios aos quais somos apresentados a ela, a impressão inicial é a de uma garota temperamental e, em diversos momentos, irritante. Ao conhecermos melhor a sua história de origem - que considero a mais trágica de todas - e entendermos os seus traumas e o estado psicológico decorrente deles, conseguimos ter mais empatia com ela. Por baixo de sua arrogância e comportamento explosivo, encontra-se uma menina completamente quebrada por dentro e desesperada por afeto e atenção.
Nos três casos, os personagens, cada qual a sua maneira, não somente assolados por um tremendo vazio existencial, mas também cujas ações, de maneira inconsciente ou não, buscam exatamente preencher esse vazio. São, logo, escravos de seus medos, de seus passados e de sua própria incompletude. E o anime consegue, com perfeição, transmitir ao público esse conflito interno, em cenas que são, sem dúvida, angustiantes e tensas.
E, a partir daí, é possível perceber o porquê dos pilotos em questão conseguirem ter sucesso ao sincronizar com os Evangelions. Shinji e Asuka, em sua busca por reconhecimento e afeto, enxergam as unidades EVA como o único caminho para alcançarem esse objetivo, tornando-se dependentes dessas máquinas no intuito de preencher os seus respectivos vazios. Sendo dependentes das unidades, são capazes de se tornar "um só" com as mesmas.
Na cena final, temos Shinji vislumbrando o que poderia ser a sua vida em um outro universo, no qual ele seria menos dependente de seus traumas e inseguranças. Ele escuta inúmeras vozes falando que o que somos e o mundo do qual fazemos parte é definido, em síntese, pelas emoções que sentimos, as experiências que vivenciamos e os laços que construímos. Somente existimos de acordo com o que vivemos com os outros e somente conseguimos nos entender ao ter contato com os outros, pois, caso contrário, não teremos referência alguma.
Diante disso, ele entende, enfim, o ciclo em que está inserido. Ao se odiar, não consegue se aproximar dos outros - afinal, se não é capaz de se amar, os outras pessoas também não serão capazes. Ao não se aproximar dos outros, não consegue descobrir quem é. Ao não descobrir quem é, cria um vazio interno. Destruído por esse vazio, odeia aquilo que se tornou. Para se libertar, precisa quebrar o ciclo, e permitir se aproximar daqueles que o amam. Não existimos sozinhos, e essa é a principal lição aprendida pelo protagonista e brilhantemente transmitida pelo anime.
Aliás, Shinji, a julgar por alguns comentários, talvez seja um dos protagonistas de anime mais incompreendidos. Ele pode parecer irritante às vezes, mas o seu comportamento é explicado por um motivo simples e que deveria ser óbvio: ele, além de todas as questões inerentes à adolescência, também é um jovem com depressão. E, para pessoas com essa condição, não é incomum chorar, se fechar para os outros e ter dificuldade em construir relacionamentos.
O criador da série, Hideaki Anno, em diversas ocasiões, disse que a sua batalha contra a depressão foi a principal inspiração para criar a história. E o garoto é o personagem que melhor reflete o estado depressivo vivido pelo autor. Por trás de toda a mitologia, das cenas épicas e das batalhas contra criaturas gigantes, a história é nada mais e nada menos do que a luta de um indivíduo contra a depressão, com a pessoa, após uma série de dificuldades e conflitos, triunfando ao final.
As únicas criticas que faço ao anime é que, em primeiro lugar, ele termina, devido a restrições orçamentárias, sem a verdadeira conclusão da história, que somente é trazida no filme. E, em segundo lugar, existem diversas cenas de teor sexual que, em minha avaliação, foram um tanto desnecessárias. Eu até entendo que muitos dos personagens são adolescentes e estão em uma "fase de descoberta", mas, quando algumas dessas situações ocorrem em contextos inadequados, isso torna-se um problema.
Pluto (1ª Temporada)
4.1 50 Assista AgoraSendo uma adaptação extremamente fiel do mangá homônimo criado por Naoki Urasawa, é possível pontuar "Pluto", assim como mantém as várias qualidades da obra literária, também conserva os poucos - mas perceptíveis - defeitos. Em linhas gerais, no entanto, o seriado tem bem mais pontos positivos do que negativos, sobretudo destacando-se pela animação de qualidade, boa trilha sonora e história bem estruturada.
Em primeiro lugar, é preciso entender o trabalho que serviu de base para a adaptação. Dito isso, o mangá, na verdade, é uma espécie de releitura de uma das histórias mais famosas dentres os quadrinhos japoneses, o "Astro Boy" - mais especificamente, o arco "The Greatest Robot on Earth". Tendo como inspiração esse clássico desenho, Urasawa reutiliza muitos elementos da história original, como os nomes dos personagens, e estrutura, a partir daí, uma trama com um tom bastante diferente.
Tanto no mangá quanto no anime, estamos diante não apenas de uma mera ficção científica futurista, mas de um suspense investigativo - ou, simplesmente, thriller. Nele, acompanhamos o detetive robô Gesicht tentando solucionar um misterioso caso que envolve a morte de humanos e de robôs e que, a medida na qual a investigação avança, vai se tornando cada vez mais complexo.
Nesse sentido, o seriado realiza um excelente trabalho na construção do suspense, dando poucas pistas, mesmo para aquele espectador mais atento, sobre o mistério envolvendo o caso. Episódio por episódio, é apresentada, simultaneamente ao público e aos personagens, mais uma peça do quebra cabeça, que é montado de forma gradativa. Sendo assim, é necessário, para quem decidir assistir ao anime, a devida paciência, pois as respostas não serão dadas de imediato e, em dados momentos, tudo pode parecer extremamente confuso, mas, ao final, as coisas ficam mais claras.
Um outro aspecto que me agradou nessa produção, além do suspense, foram os temas abordados na história. Em vários momentos, o seriado passa uma boa mensagem - que, é verdade, não é exatamente uma novidade, mas, mesmo assim, sempre bem vinda - sobre os males não apenas da guerra, mas do ódio e da vingança de uma maneira geral, apontadas aqui, corretamente, como elementos que alimentam um ciclo vicioso sem fim e jamais trazem bons frutos ao final.
E, em tempos de avanços na área de robótica e de inteligência artificial, o enredo traz uma interessante perspectiva sobre o assunto. Na história, é possível encontrar o melhor lado do uso da tecnologia pelo homem, com robôs que ajudam aos mais necessitados, compreendem as emoções humanas com empatia e afeto e são úteis à sociedade. Do mesmo modo, também encontra-se o pior lado, ao mostrar os impactos negativos do desenvolvimento tecnológico, tal qual o desemprego, a algumas pessoas e a utilização das máquinas como armas de assassinato e até de destruição em massa.
Porém, se eu tivesse que colocar esses dois aspectos na balança, eu diria que a série pende mais ao lado positivo. Aqui, somos apresentados a robôs que têm famílias, têm empregos e possuem uma compreensão de sentimentos e emoções até maior do que muitos humanos. Enquanto isso, muitos dos problemas envolvendo essas máquinas não são provenientes das máquinas em si, mas do mau uso feito, delas, pelo homem ou pela emulação das piores características humanas, como manipulação e ódio.
Logo, um robô, sendo meramente um robô, não seria capaz de ter quaisquer sentimentos, sejam bons ou maus. Um robô bem integrado a sociedade, seria capaz de ter bons sentimentos. Um robô extremamente avançado e excessivamente humano, seria capaz, assim como um humano, de cometer atrocidades. E, nos personagens da trama, vemos cada um desses exemplos.
O único defeito do seriado, curiosamente, é um defeito também presente no mangá, que é o fato da história, na reta final, tornar-se um tanto "apressada". Além disso, apesar da maior parte do mistério ser esclarecida até o término, alguns elementos importantes são deixados sem explicação ou apresentados de maneira muito rasa. Isso, inevitavelmente, deixa a sensação de que ficou faltando alguma coisa.
Conclusão: a série é boa e vale a pena assistir, mas poderia ter sido melhor. O problema é que muitas das respostas que faltam sequer estão presentes no material original, então os roteiristas do anime ficaram de mãos atadas aqui.
Dark (3ª Temporada)
4.3 1,3KApesar de manter o alto nível no que diz respeito a atuações do elenco, fotografia, trilha sonora e direção, creio que esta é a temporada mais fraca das três. A queda de qualidade que já havia sido percebida da primeira para a segunda, aqui é vista de maneira ainda maior e considerável.
E isso se deve, sobretudo, ao roteiro. Nas duas temporadas anteriores, em especial na segunda, existem vários aspectos da história que, de maneira proposital, são complexos e confusos. No entanto, continuamos assistindo na expectativa de que em algum momento, tudo será explicado e fará sentido, bastando apenas ter um pouco de paciência.
Pois bem, chegamos na temporada final e não dá para dizer que tudo foi explicado - ou, pelo menos, não de forma satisfatória. O roteiro, sim, explica diversos elementos do enredo e nos dá uma compreensão melhor sobre as motivações de alguns personagens. Além disso, os primeiros episódios são interessantes e nos prendem bem a atenção. Por outro lado, ao mesmo tempo, o seriado também deixa inúmeras perguntas em aberto e furos no roteiro.
Por exemplo, é revelado que o relojoeiro é a "chave" de tudo, com o seu desejo de evitar a morte de sua família como sendo a origem para a viagem no tempo. No entanto, essa informação está longe de ser um grande "plot twist", pois já é sabido, há muito tempo, que foi ele que literalmente inventou a máquina do tempo. Logo, não seria óbvio desde o começo? E, sendo óbvio desde o começo, como Cláudia, Adam e os outros não perceberam isso antes? E, se sabia, porque simplesmente não viajou ao tempo antes para corrigir isso ao invés de esperar ao último instante para revelar esse fato?
E, se não bastasse, existem dois pontos que me incomodaram bastante. O primeiro foi a adição de novos arcos e personagens, que foram mal desenvolvidos, sem mesmo antes explicar os outros arcos já existentes. O segundo foi o excesso de linhas do tempo diferentes aqui apresentadas, que complicaram ainda mais o que já era complicado.
Como resultado, é tanta informação, tanto personagem e tanta subtrama que não somente é difícil para o espectador verdadeiramente se importar com alguma coisa que está acontecendo, como também faz o seriado tornar-se repetitivo e cansativo. O episódio final é bom, apesar dos furos no roteiro, mas, quando chegamos nele, já estamos cansados da história e queremos que tudo termine logo.
Logo, esta é uma temporada final que não está a altura das temporadas anteriores - sobretudo a primeira - e, sinceramente, foi difícil de terminar. Não diria que foi ruim, pois tiveram alguns bons episódios, mas bem abaixo daquilo que esperava e do que poderia ter sido.
Dark (2ª Temporada)
4.5 906Em linhas gerais, é possível dizer que a segunda temporada mantém muito do estilo "sci-fi noir" apresentado anteriormente na produção. Dessa forma, todas as qualidades do seriado, bem como os temas representados, ambientação e a combinação de suspense com ficção científica estão aqui presentes. E, claro, não falta aquela boa e velha dor de cabeça para entender a complexidade dessa esquisita, porém fascinante, série.
Nesta temporada, "Dark", ao dar prosseguimento na história, trata de responder diversas perguntas deixadas em aberto na temporada anterior. No entanto, destaco que é necessário, por parte, do espectador, um pouco de paciência nos primeiros episódios, que adotam um ritmo mais lento. Do meio pra frente, a temporada "pega no ritmo" e conecta, de uma forma mais dinâmica, as diversas peças da trama.
Além de dar continuidade a arcos previamente apresentados, o seriado introduz novas narrativas e dramas e aprofunda outros que haviam sido apenas brevemente abordados antes. No entanto, em determinados momentos, considero que a série passa um pouco do ponto e torna a trama excessivamente confusa, sobretudo com a adição de mais linhas do tempo e dimensões, que, em minha avaliação, prejudicaram o enredo e provocaram uma certa queda de qualidade - não uma grande queda, mas perceptível.
Por fim, aquilo que mais gostei desta temporada foi o aprofundamento do tema relacionado ao destino e livre arbítrio. Afinal, ao voltarmos ou avançarmos no tempo, é possível mudar o rumo dos acontecimentos ou tudo irái nevitavelmente desencadear no mesmo desfecho? Conseguimos controlar nossas ações e destinos ou somos controlados por forças externas mais poderosas? Em meio a confusão entre as linhas do tempo, é o passado que está definindo o presente e futuro ou vice versa? Essas são as perguntas que fazemos ao acompanhar essa loucura e cujas respostas seguem incertas.
Dark (1ª Temporada)
4.4 1,6KDefinitivamente, uma das séries mais complexas, malucas e criativas que já assisti. Misturando mistério com ficção científica, "Dark" começa como um drama/suspense investigativo, em que somos introduzidos a uma pequena cidade alemã na qual uma criança desapareceu, mas, a medida em que a história prossegue, a trama vai se expandindo para diversas camadas.
Na falta de uma expressão mais apropriada, eu diria que "descer na toca do coelho" é a melhor forma de descrever a experiência de assistir a esse seriado. Ao longo do desenrolar dos acontecimentos, vamos mergulhando na complexidade do enredo e nos arcos dos personagens, tendo, muitas vezes, que ter cuidado para não se perder em meio a tantos nomes e diferentes linhas do tempo.
A série consegue realizar um grande trabalho em prender a atenção do espectador com personagens cujos dramas pessoais são interessantes e, acima de tudo, um suspense bem construído, que mantém o mistério de maneira exímia e leva a trama a caminhos inesperados - porém que se encaixam perfeitamente. Como se estivéssemos juntando peças de um quebra cabeça, aos poucos mais informações acerca dos personagens é revelada e compreendemos melhor, mesmo com direito a uma boa e velha dor de cabeça, diversos elementos da história.
Outra qualidade da produção é o estabelecimento de um drama que, apesar de ter o tema da viagem do tempo como um aspecto central, não se apoia somente nisso para sustentar a história. No caso, a viagem no tempo convive com outras narrativas pessoais dos personagens e reflexões sobre perda, destino e livre arbítrio. Recomendado.
Frieren e a Jornada para o Além (2ª Temporada)
4.4 28 Assista AgoraEm sua segunda temporada, "Frieren" consegue fazer algo difícil, que é manter o alto nível já apresentado anteriormente, dando continuidade à saga da maga élfica e de seus companheiros, Fern e Stark e ainda preparando o terreno para a terceira temporada que será lançada ano que vem. E eu diria que isso ocorre, sobretudo, porque o anime preserva todas as qualidades marcantes apresentadas na primeira temporada e responsáveis pela boa recepção da série: os deslumbrantes efeitos visuais, a excelente trilha sonora, as dinâmicas e divertidas interações entre as personagens e, sobretudo, a atmosfera acolhedora, tranquila e leve da história.
A trilha sonora, inclusive, merece um destaque especial. Com composição feita pelo americano Evan Call, que já trabalhou em outros animes, a trilha incorpora diversos elementos da música folclórica europeia e contribui para a ambientação do espectador no mundo em que se passa a história. E o que é curioso é que, apesar de ser um mundo fictício e repleto de magia, temos, muito graças ao aspecto musical, uma sensação de pertencimento a essas terras e locais que jamais colocamos os pés e de memória a uma casa da qual jamais fizemos parte, o que contribui com a nossa imersão na história.
No entanto, o anime não se limita a simplesmente repetir a fórmula já estabelecida, mas também, dentre outras adições, expande o "lore" de alguns personagens que haviam sido introduzidos no final da temporada anterior - tais quais Methode e Genau, apresenta novas informações sobre o passado de Frieren, Himmel e do antigo grupo e traz uma boa progressão na relação entre Fern e Stark. Neste último caso, eu diria que alguns dos melhores episódios foram aqueles que focaram mais no seu relacionamento/romance, proporcionando não somente cenas bonitas e um aprofundamento em ambos os personagens, mas também momentos engraçados.
Em linhas gerais, os temas abordados no seriado prosseguem o mesmos - e, de fato, não haveria razão alguma para mudar isso - e segue sendo desenvolvido através tanto das aventuras do grupo atual quanto dos flashbacks do grupo antigo. No caso, o seriado nos faz refletir sobre as relações humanas, sobre o impacto que outros fazem em nossas vidas e que nós fazemos nas vidas dos outros e também sobre aproveitar os bons momentos nesta jornada que percorremos, por menores, bobos e até insignificantes que possam parecer inicialmente - como, por exemplo, observar um pôr do sol.
É também sempre fascinante observar como este seriado consegue trazer reflexões sobre temas profundos, nos fazer imergir em um mundo de fantasia e "acalmar a nossa alma" com cenários e sons deslumbrantes e, ao mesmo tempo, apresentar tamanha simplicidade. Assim como na primeira temporada, temos algumas cenas em que simplesmente nada ou pouco acontece - às vezes, são apenas os personagens principais caminhando, ou permanecendo em um quarto, dormindo, conversando ou se alimentando - e, por incrível que pareça, essas são algumas das cenas que mais nos fascinam, prendem a nossa atenção e tornam este anime tão especial. Naturalmente, temos a progressão natural do arco central da história e acontecimentos importantes ocorrendo, mas, mais importante do que isso, são as pequenas missões secundárias nas quais os personagens se envolvem e o desenvolvimento pessoal de cada um.
Logo, a segunda temporada de "Frieren" não decepciona e mantém tudo aquilo que amamos no seriado sem cair na mesmice ou repetição. O seu único defeito, como era de se esperar, é que é muito curta e, sem dúvida, 10 episódios não é suficiente para nos satisfazer, no entanto aceito mesmo assim e já estou no aguardo pela próxima temporada.
Frieren e a Jornada para o Além (1ª Temporada)
4.6 110 Assista AgoraSem dúvida, "Frieren" é daqueles animes que, além de apresentarem uma alta qualidade por si só, proporcionam prazer/conforto ao assistir e nos dá uma sensação boa após terminarmos cada episódio, sobretudo pela beleza tanto do visual quanto da história. Nesta série, acompanhamos uma maga élfica que, várias décadas após ter derrotado, junto aos seus amigos heróis, o "Rei Demônio", agora refaz, com um outro grupo de companheiros, a mesma rota que percorreu outrora. No entanto, nesta nova aventura, a protagonista da série não apenas possui como objetivo derrotar monstros e demônios, mas realizar uma jornada pessoal ao longo de suas próprias emoções, sentimentos e lembranças.
Em primeiro lugar, destaco aqui a qualidade da animação, que é simplesmente belíssima e, em diversas cenas, quase que assemelha-se a uma verdadeira obra de arte, com cores e tons que trazem vida ao mundo mágico que é aqui representado. E, se não bastassem os deslumbrantes efeitos visuais, o anime igualmente nos traz uma incrível trilha sonora, que possui traços medievais, seja em tons mais relaxantes, seja em tons mais imponentes, que encaixam-se, com perfeição, ao universo fictício no qual a história encontra-se inserida - que, embora fictício, claramente é inspirado em antigas narrativas medievais.
Em seguida, não posso deixar de mencionar as personagens, que, inclusive pelo caráter fortemente intimista do anime, são um aspecto até mais importante do que os próprios elementos mágicos existentes. Frieren, a protagonista, é uma elfa com poderes mágicos e cuja expectativa de vida beira a eternidade, logo, mesmo já tendo vivido mais de um milênio, possui a aparência, e em várias vezes também a personalidade, de uma criança - ou de uma adolescente, se preferir. Para ela, séculos passam como se fossem apenas alguns meses, o que a faz ter uma percepção do tempo completamente diferente da maioria das pessoas e, na mesma proporção, impacta a forma como a mesma enxerga relações pessoais, tais quais amizade e afeto.
Isso ocorre por que, sendo ela capaz de viver por milhares de anos e de ultrapassar a expectativa de vida de praticamente todos com quem convive, jamais teve a vontade de ter amigos ou aprendizes e de constituir relações amorosas ou quaisquer laços com quem quer que seja, pois já teria o conhecimento de que tais relacionamentos teriam duração ínfima se comparado à totalidade de sua vida, surgindo e depois desaparecendo naquilo que para ela seria um mero piscar de olhos. Sendo assim, várias de suas atitudes que poderiam soar como "frieza" são naturalmente explicadas por uma mera incapacidade de compreender as emoções alheias, e tal incapacidade sendo derivada da sua extensa longevidade, que nesse caso, serve, ao mesmo tempo, como benção e maldição. Afinal, se todos aqueles que ama e com que se relaciona irão morrer antes dela, então qual a necessidade de estabelecer qualquer relacionamento?
Isso, obviamente, começa a mudar quando conhece Himmel, Heiter e Eisen, que a convidam para fazer parte do famoso grupo de heróis que eventualmente iria derrotar o Rei Demônio e trazer paz e prosperidade para aquelas terras. Com eles, passa a vivenciar experiências e sentimentos e a construir laços que antes jamais havia tido, em diversas cenas que são sempre trazidas ao espectador através de "flashbacks". No entanto, mesmo depois de tudo e até mesmo da morte da maioria dos seus antigos companheiros de aventura, ela percebia que ainda conhecia pouco dos seus amigos e das emoções humanas de uma maneira geral, o que é exatamente o motivo que a faz embarcar em uma nova jornada, refazendo a mesma rota previamente percorrida pelo grupo.
Ao reavivar as memórias de suas aventuras, passaria a, enfim, compreender o impacto que os seus amigos verdadeiramente tiveram em sua vida e na vida dos outros ao redor, o qual ela não havia percebido antes. E é por isso que o constante uso de "flashbacks" encaixa-se tão bem aqui, pois trata-se de uma jornada, deixando de lado os duelos com outros magos, demônios e monstros, essencialmente pessoal da protagonista em redescobrir o seu próprio passado e, ao fazê-lo, conectá-lo com o seu presente. Ao longo da história, é possível acompanhar Frieren, na companhia dos seus novos colegas Fern e Stark, aprendendo importantes lições sobre laços, memórias, a valorização dos momentos que vivemos e as marcas que os outros deixam em nossas vidas, o que também é uma reflexão que o anime traz ao espectador.
Esse último aspecto, inclusive, considero como sendo um dos mais recorrentes e importantes ao longo da série. Na maioria dos episódios, é, frequentemente, mostrado como uma boa ação - seja ela grandiosa tal qual vencer um Rei Demônio ou pequena como aplicar um mero feitiço de fazer surgir flores a uma criança - pode fazer a diferença na vida de uma ou mais pessoas. E, ao realizar uma boa ação que faça a diferença na vida do outro, a pessoa que realizou a ação, de certa maneira, tornar-se-ia "imortal", pois viveria eternamente através da memória de quem ajudou e do reconhecimento de suas boas ações. Ironicamente, Frieren, mesmo sendo a única verdadeiramente imortal no grupo original de heróis, não era a única que havia sido imortalizada, pois todos os seus outros companheiros possuíam estátuas erguidas e histórias escritas em sua homenagem - e Himmel, aquele que mais dedicou a sua vida a ajudar os outros, naturalmente iria ser o mais lembrado. Em outras palavras, a verdadeira imortalidade não passa por uma habilidade mágica ou vida eterna propriamente dita, mas pelos atos que realizamos nesta terra.
E não apenas Frieren é uma excelente personagem, mas também os próprios Fern e Stark destacam-se na história. E, falando nisso, destaco que um dos aspectos que mais me agradou na construção - e no desenvolvimento - das personagens é a forma como o anime retrata a sua, digamos, dualidade, retratando bem tanto suas qualidades quanto os seus defeitos e facilitando a identificação/conexão do público com essas figuras. Frieren é uma maga poderosa e milenar, mas muitas vezes age de forma infantil. Fern possui grande força e controle sobre magia, mas possui um temperamento volátil e facilmente se irrita mesmo com pequenas coisas. Stark é um forte e valente guerreiro, mas em diversos momentos simplesmente tem dificuldade de encontrar a coragem necessária dentro de si. Eles não são, portanto, perfeitos, imbatíveis e apenas repleto de virtudes, mas possuem as suas fraquezas e defeitos - e o fato de tentarem superá-los durante a jornada que percorrem é o que dá mais peso às suas respectivas trajetórias.
Vale também ressaltar que, ao longo dos 28 episódios desta primeira temporada, é possível dividir a história em duas partes, com a segunda deixando o tom intimista um pouco de lado e dando um maior foco aos testes pelos quais Frieren e Fern passam a fim de obter o título de "Mago Nível 1". Nesses episódios, presenciamos várias batalhas e disputas entre magos, que aqui foram muito bem executadas, e somos apresentados a diversos novos personagens. Quanto a essa segunda parte, devo admitir que considero que, em linhas gerais, houve uma certa queda - não muito grande, mas, de qualquer maneira, uma queda - em relação a primeira parte. E isso deve-se, sobretudo, ao elevado número de personagens novos que foram introduzidos e que, naturalmente, também não puderam ser, salvo uma exceção ou outra, propriamente desenvolvidos - bem como as suas histórias de origem e personalidades não tiveram o tempo e espaço para que o espectador desenvolvesse algum forte interesse.
Aliás, todo aquele arco envolvendo o segundo teste, que ocorre nas masmorra, apesar de ter os seus bons momentos, não me agradou muito. Em diversas cenas, a história acaba se perdendo, em minha avaliação, no excesso de diálogos e inúmeras e incansáveis explicações sobre detalhes envolvendo as técnicas de magias utilizadas. Além disso, todo aquele conflito em que os personagens debatem o que fazer para enfrentar a "réplica da Frieren" é bem estúpido, pois todos os magos poderiam simplesmente enfrentá-la ao mesmo tempo e depois destruir o demônio da masmorra, o que iria também destruir as outras réplicas - ao invés disso, preferem enfrentar as outras réplicas separadamente e deixar Frieren e Fern encarar, sem qualquer assistência, a réplica principal.
Em síntese, "Frieren", apesar dos problemas na segunda parte, é, sem sombra de dúvida, um anime muito bom, de alta qualidade e que vale muito a pena assistir. Bela, agradável e divertida, a série animada traz personagens principais bem desenvolvidos e fáceis de nos apegarmos, uma história interessante, deslumbrantes efeitos visuais e sonoros e pertinentes reflexões sobre a vida e relações humanas. E tudo isso com boas doses de humor, ação e aventura, que tornam a experiência extremamente prazerosa. Agora é rumo à segunda temporada, que irei começar em breve.
Berserk
4.5 204 Assista AgoraSendo baseado no mangá homônimo escrito cerca de uma década antes, "Berserk", de 1997, é a primeira - e, até, hoje, a mais elogiada - adaptação da aclamada obra de Kentaro Miura. O anime, é importante ressaltar logo no início, não busca retratar toda a história do mangá, que possui mais de trezentos capítulos e continuou sendo produzido até muitos anos após o lançamento da série televisiva, mas somente uma parte da história, denominada de "arco da Era Dourada". Assim como a obra literária que o inspirou, o anime corresponde a uma "dark fantasy", isto é, uma produção que mescla fantasia - e, aqui, também aventuras e batalhas - com uma atmosfera sombria, provocando, em diversas ocasiões, uma sensação de horror e medo no espectador.
Em primeiro lugar, destaco aqui o estilo da animação. Apesar das críticas recebidas e de diversos comentários alegando que a qualidade da animação é ruim, eu não poderia discordar mais. É verdade que algumas cenas apresentam uma animação, digamos, mais simples ou até mesmo "rígida", mas também é verdade que, em uma quantidade ainda maior de cenas, este anime consegue apresentar uma enorme riqueza de detalhes e momentos belíssimos - e, quando necessário, também momentos aterrorizantes - que mais parecem ter sido retirados de uma pintura. É sempre importante ressaltar que esta série foi feita nos anos 90, quando a animação, embora seja nostálgica para mim, não era tão avançada e detinha de menos recursos.
Além disso, também vale destacar que o próprio Kentaro Miura, em adição às colaborações que fez ao roteiro do seriado, igualmente contribuiu, diretamente, no design artístico que foi aqui apresentando, o que fez com que esta adaptação apresentasse inúmeras semelhanças, em termos de estilo, ao mangá. Um desses elementos diz respeito aos momentos em que a cena "congela" e imita a arte que o autor desenhou na obra original, captando bem as emoções dos personagens envolvidos e dando profundidade - e peso - a algumas cenas importantes da narrativa.
E, mesmo nas oportunidades no qual o anime possui uma faceta mais "rústica" ou que aparenta ser "mal feita", considero que encaixa-se perfeitamente na natureza da história aqui retratada. Em outras palavras, "Berserk", tanto no anime quanto no mangá, não é uma obra que foi feita para ser agradável, mas, na realidade, exatamente o contrário, isto é, para causar desconforto e perturbar o mental de qualquer um que ler ou assistir a essa produção. Sendo assim, um estilo de animação mais "limpo" e com maior qualidade talvez não provocasse o mesmo efeito que essa série de 1997 provoca. No final das contas, o estilo adotado nesta adaptação, quer alguns gostem ou não, acaba contribuindo para estabelecer uma sensação de terror e para construir uma atmosfera sombria.
O segundo aspecto que pontuo é a trilha sonora, que, sem dúvida, considero como outro fator que faz com que esta versão seja tão aclamada. Para além das músicas de abertura e de encerramento, que são ótimas e se encaixam perfeitamente, cada qual de uma forma diferente, respectivamente no espírito do protagonista e do seriado, é impossível não mencionar a trilha assinada por Susumu Hirasawa, que contribui para amplificar todas as sensações e sentimentos proporcionados pela história. O tema do Guts, por exemplo, é algo deslumbrante, sobretudo pelo fato de ser uma música, mesmo sem ter qualquer letra, capaz de expressar cada emoção do personagem principal, sendo repleta de esperança, tristeza e solidão. Não apenas há algo de especial nisso, mas até transcendental.
E o terceiro ponto que menciono, por fim, é a história, que, reafirmo, é apenas uma fração da história completa escrita no mangá e, mesmo, assim, é espetacular e muito bem estruturada. É interessante analisar que o anime toma a decisão, que agradou a uns e desagradou a outros, de deixar diversos elementos fantasiosos e mágicos de lado. Porém, um olhar mais atento é capaz de perceber que tal decisão, para o bem ou para o mal, é feita tendo como alvo algo bem claro: focar nos personagens. Mais especificamente, nas interações entre os personagens principais Guts, Griffith, Casca entre si e em relação ao restante do Bando. Nesse sentido, uma das maiores qualidades da série é, além da retratação e leitura psicológica perfeitas dos personagens, a evolução que tais personagens vão tendo no decorrer do enredo, sendo influenciados e afetados pelas decisões que tomam e por outros acontecimentos que ocorrem em suas vidas e ao redor.
A trama inicia com Guts, já no primeiro episódio, apresentado como um guerreiro sem coração e um anti-herói indiferente a matar, que, no primeiro capítulo, está batalhando contra um demônio. Conforme a história avança, vamos descobrindo, gradativamente, tudo aquilo que o tornou nesse monstro, ou seja, somos introduzidos aos seus profundos conflitos internos e o seu passado trágico, o que acaba por revelar um personagem mais complexo. No entanto, um dos poucos defeitos que aponto nesta série é o fato de não ter ido um pouco mais além na infância do protagonista e deixado alguns interessantes aspectos de lado.
Quando criança, Guts já empunhava uma espada e lutava dentro de um grupo de mercenários, tendo Gambino como o seu mentor, amigo e quase como uma figura paterna. Nesse contexto, passa por uma experiência traumática quando esse mesmo companheiro o trai ao tentar assassiná-lo de forma repentina, o que o faz matar Gambino e fugir do grupo. Agora vagando sozinho pelo desconhecido e sem objetivos ou sonhos na vida, Guts, tendo perdido a confiança nas pessoas e adotado uma vida solitária, vive agora de um trabalho a outro.
E tudo isso começar a mudar quando descobre o Bando do Falcão, liderado por um dos personagens mais fascinantes que eu já vi não somente em um anime/mangá, mas também na ficção de uma maneira geral: Griffith. Inteligente, sereno e ambicioso, é um excepcional duelista e um líder nato, que, desde as primeiras conversas com Guts, mostra-se diferente dos demais e interessado em alçar uma posição de destaque no mundo. Ao longo da série e após se juntar a esse novo bando de mercenários, Guts passa a desenvolver uma relação de confiança com Griffith e torna-se um dos seus principais capitães.
Casca também é outro ótimo personagem, que vai crescendo no decorrer da história. Um dos pontos centrais dos seus primeiro episódios - e isso se estende até a metade da temporada - é o ciúmes que nutre quanto a Guts, que é muito bem explicado, com a personagem até mesmo desejando, no início, que o protagonista morra. Desde a sua história de origem, é detalhado que ela, após ter sido salva por Griffith, junta-se ao seu bando e, com o tempo, passa a admirá-lo, não apenas pelo que fez por ela, mas por reconhecer a sua determinação em buscar um sonho ambicioso e quase inalcançável. Ela, logo, deseja ser a espada de Griffith para que ele consiga tornar o seu sonho uma realidade, o que, de certa maneira, acaba tornando o sonho dele o mesmo que o dela: o de ver o líder do Bando no topo.
Diante disso , é natural que, quando Guts aparece e rapidamente passa a ser o "braço direito" de Griffith, ela sente-se deixada para trás e esquecida. E isso agrava-se quando ela, sendo conhecida pelas suas habilidades em duelo, vai percebendo algumas limitações naturais que o seu corpo, por ser mulher, apresenta, distanciando-a ainda mais do seu objetivo de auxiliar o seu líder a trilhar o seu caminho rumo à vitória. Isso não afeta a sua lealdade quanto à Griffith, mas a deixa triste e com raiva. Porém, depois de ter sido resgatada por Guts de uma situação de quase morte, ela passa a se abrir mais com ele e, lentamente vai construindo, com o protagonista, uma relação de confiança, ternura e amizade que, depois, dá origem a um belo romance.
No entanto, por mais que goste da personagem da Casca, é inegável que a trama gira, verdadeiramente, em torno de Guts e Griffith e do relacionamento que estabelecem. Quanto a isso, é interessante notar o contraste, estabelecido com competência no anime, entre ambos. Por exemplo, a primeira impressão que temos de Guts é de um guerreiro com aspecto sombrio e sujo, que mais parece ter sido retirado das profundezas do inferno, enquanto a primeira cena com Griffith nos apresenta a alguém que, por outro lado, mais lembra a um anjo, com cabelos brancos, olhar acolhedor, voz suave e perfeito em absolutamente tudo.
Um episódio após o outro, não apenas vamos descobrindo mais do passado de Guts e dos motivos pelo qual se tornou essa pessoa fria e com dificuldades de confiar nos outros, mas, na mesma proporção, passamos a perceber que Griffith não é esse anjo que inicialmente imaginávamos. Além disso, percebemos uma evolução de Guts, que torna-se mais maduro, sensato e estabelece laços de amizade com os outros membros do grupo, enquanto Griffith vai se distanciando cada vez mais dos seus companheiros - que, apesar disso, continuam extremamente leais a ele - e ultrapassando barreiras morais para alcançar os seus objetivos.
Nos episódios finais, também é possível acompanhar as diferenças nos rumos que as respectivas trajetórias desses personagens vão tomando, em especial após Guts deixar o Bando do Falcão. Enquanto ele, na busca por um sonho próprio, consegue, enfim, encontrar o caminho que deseja trilhar pela sua vida e passa a elevar as suas ambições e anseios, Griffith, por outro lado, vê o seu grande sonho desmoronar de maneira vertiginosa. Em um período de um ano entre a sua prisão e posterior resgate, presencia a destruição de sua posição e reputação no reino, a deformação de seu corpo e, ainda por cima, a destituição de sua posição de líder do bando, que agora passa a ser ocupada por Guts - não porque os membros do grupo não o respeitam mais, mas porque ele está completamente debilitado e incapacitado de liderar.
Se, antes, Guts vivia de uma trabalho a outro enquanto mercenário, caminhando sozinho pelo mundo e sem perspectiva, agora ele teria uma mulher, Casca, ao seu lado, como a sua companheira, e passaria a liderar um grupo de guerreiros. Se, antes, Griffith, almejava ter um reino para si e controlar grandes exércitos, agora teria sorte se conseguisse se manter vivo por algum tempo, dado o estado de saúde precário em que se encontrava, e deveria se contentar com uma vida mais simples. Enquanto um estava em seu momento mais feliz, o outro estava no fundo do poço. E, no seu momento mais desesperador, eis que Griffith escolhe sacrificar todos os seus subordinados em troca de poder, pois essa seria a única forma de ocupar a posição que almejava, mesmo que, para isso, tivesse que se tornar um verdadeiro demônio.
Ao estuprar Casca em frente à Guts, em uma cena aterrorizante, Griffith estava nada mais do que, em sua deturpada visão, reestabelecendo, sob ambos, o poder que antes detinha quanto a eles. Esse personagem, desde os primeiros momentos em que é introduzido ao espectador, demonstra o desejo de controlar outras pessoas, às vezes de maneira sutil e, outras vezes, de forma bem evidente. Ele controla Casca ao mantê-la sempre por perto e nutrindo, dentro dela, uma espécie de amor platônico. Ele controla Guts e todos os outros do Bando a dar a eles um sonho e possibilidades que jamais teriam sozinhos. Quando perde esse poder, utiliza o amuleto demoníaco para não somente restabelecê-lo, mas amplificá-lo.
Um outro aspecto que o anime faz extremamente bem é mostrar os dois lados de Griffith: a figura que todo mundo vê - angelical e perfeita - e a figura que ele realmente é, ou seja, humana, fraca, e consumida por traumas e sentimentos reprimidos. A humana é mostrada no passado e em algumas cenas em que está sozinho, mostrando alguém que está tão obcecado por seu sonho e por ocupar um lugar de destaque no mundo que está apto não somente a até sacrificar crianças ou o seu o próprio corpo, mas também a realizar os atos mais imorais, terríveis e nojentos. Ele representa, logo, a figura mais podre humana: aquela que se esconde em uma farsa. Por fora, é perfeito, lindo e sem falhas, mas, por dentro, sua mentalidade é a de um demônio, embora talvez nem perceba.
O que torna Griffith um personagem tão fascinante, tanto no anime quanto no mangá, é que ele é uma representação realista e profunda do mal em sua forma mais pura. Ele acredita que suas ações são justificadas não apenas por seus erros, mas também por interpretações equivocadas, enxergando, por exemplo, que o amor era algo que só podia ser obtido com poder e admiração - e sua solidão apenas alimentava essa narrativa. E o que o torna mais assustador é que seus anseios são compreensíveis a tal ponto de crermos que muitas pessoas, talvez até nós mesmos, poderiam fazer o mesmo se estivessem em sua posição.
A dura realidade é: você tem o potencial dentro de si para ser tão ruim quanto Griffith. Só porque você ama alguém não o impede de cometer grandes males contra essa pessoa. Só porque você acredita na bondade não significa que você seja bom. Só porque você é forte não o torna inquebrável. Nunca se esqueça de questionar o que você pensa ser verdade e certo, pois, em diversas oportunidades, podemos cometer as maiores atrocidades com as melhores das intenções e cometer os atos mais sujos tendo os sonhos mais nobres e belos por trás.
E o motivo pelo qual odiamos tanto Griffith, ao término da história, não é somente por tudo aquilo que ele faz em si, mas porque, em algum momento, o amamos. A traição que ele comete contra os outros personagens, logo, também é sentida por nós, pois, de certa maneira, também fomos traídos, pois torcemos por ele e celebramos as suas vitórias para depois recebermos uma dolorosa facada nas costas. Um homem que trocou aqueles que o admiravam e o consideravam um verdadeiro amigo por poder. E agora que realizou seu sonho, não há ninguém para celebrá-lo, porque ele sacrificou justamente aqueles que mais o admiravam para alcançá-lo.
O episódio final de Berserk é uma das coisas mais perturbadoras e aterrorizantes que já vi em qualquer obra de ficção, mas consolida a grande tragédia das histórias de Guts, Griffith e de todo o Bando do Falcão. Aqueles que fizeram o sonho de Griffith ser também o seu sonho são, ao término, jogados em um verdadeiro pesadelo. Também admiro aqui a coragem de terem encerrado o anime no momento mais triste e traumático possível. Isso, é verdade, proporciona um tremendo soco no estômago do espectador, mas combina perfeitamente com o aspecto trágico que a história deseja mostrar. E tragédias, apesar de tristes, também possuem a sua estranha beleza.
Em resumo, "Berserk" é não somente uma adaptação fiel à essência da obra de Kentaro Miura, mas um dos grandes animes já feitos, tendo como maior pecado o fato de ter durado apenas uma única temporada de vinte e cinco episódios, quando, na realidade, merecia bem mais dada a sua qualidade. Além disso, trata-se de uma série profunda, que aborda temas, tal qual o mangá, como a natureza humana, moralidade, amizade, traição, destino e a busca por poder. Extremamente recomendado, mas alerto: prepare-se mentalmente antes de assistir.
Cowboy Bebop
4.6 274 Assista Agora"Cowboy Bebop" é, sem dúvida, um tipo peculiar de anime e talvez por isso - e não somente pela sua qualidade - seja até hoje, quase trinta anos do seu lançamento, lembrado com muito carinho por uma legião de fãs, apesar de ter tido apenas uma única temporada. Curiosamente, é possível até dizer que esse seu aspecto "diferente" - como, por exemplo, a abordagem de temas adultos e complexos - foi a razão do seu cancelamento, tendo em vista que os canais de televisão da época não o consideraram, digamos, muito apropriado ao público infantil.
A trama acompanha, inicialmente, Spike e Jet, dois caçadores de recompensa, com personalidades bastante diferentes, que trabalham juntos atrás de foragidos e de dinheiro para sobreviver na galáxia. Com o tempo, somos também apresentados a Ein, Feye e Edward, cada qual com a sua história de origem, que passam a fazer parte da equipe e ajudar nas missões, formando um time improvável, porém com uma surpreendente sintonia.
É interessante observar como todos esses personagens, não obstante as diferenças entre si, possuem em comum o fato de suas características e ações serem consideravelmente influenciadas por acontecimentos prévios em suas vidas. Não é absurdo dizer que os integrantes da espaçonave Bebop, cada um a sua maneira, vivenciaram experiências traumáticas e possuem forte conexão com os seus respectivos passados, que muitas vezes até tentam esquecer e seguir em frente, mas eventualmente sempre retorna. Aliás, o desvencilhamento em relação ao passado - e a sua recorrência na vida - é tema comum na maioria dos episódios.
Quanto aos episódios, é importante deixar bem claro, para quem quiser acompanhar este anime, que a história aqui não é contada de uma forma tradicional, isto é, com uma continuidade/progressão entre os capítulos em torno de um arco central. Não há um arco central que une a todos os envolvidos na trama, mas cada personagem com o seu arco particular, que vai, aos poucos, sendo explorado a medida em que vão se envolvendo em diferentes missões - e, para o espectador, vamos também gradativamente conhecendo o passado dos integrantes dessa equipe.
Sendo assim, cada episódio tem a sua própria história e, muitas vezes, até personagens que jamais retornam ou situações que não são referenciadas posteriormente. De um lado, isso é bem interessante e agrega um dinamismo ao anime, mas, por outro, isso também pode incomodar quem prefere uma maior continuidade. E, devo ser sincero, alguns episódios são um tanto fracos, possuem tramas absurdas e em nada adicionam ao desenvolvimento das personagens. Além disso, é difícil se conectar com algumas dessas histórias devido ao fato de somente durarem alguns poucos minutos.
Um notório ponto positivo deste anime também é o estilo da animação, que é belíssimo e muito bem feito, apresentando ao espectador um universo futurista "incomum", no qual os humanos possuem avançada tecnologia, exploram inúmeros planetas e, mesmo assim, preservam vários elementos e costumes do passado. E, claro, não poderia deixar de mencionar a espetacular trilha sonora, que não somente é um deleite para quem aprecia jazz e blues, mas também combina extremamente bem com as cenas e agrega muito na ambientação do público a esse interessante e inusitado mundo ao qual somos introduzidos.
Em resumo, "Cowboy Bebop" talvez, sobretudo devido a determinados problemas no roteiro em alguns episódios, não seja essa "obra prima" ou "perfeição" que eu vejo alguns comentando. No entanto, não há como negar que as suas qualidades superam, por larga vantagem, os seus defeitos e falhas, tornando este anime - além de uma animação de muito boa qualidade - uma divertida e prazerosa experiência.
Vinland Saga (2ª Temporada)
4.3 48Em sua segunda temporada, "Vinland Saga" inicia, verdadeiramente, a história de Thorffin, que, enfim, assume o real protagonismo da trama. Adotando um tom diferente, o seriado pode desagradar aqueles que gostariam de ver mais ação, e novamente, em diversos momentos, adota um ritmo lento que exige paciência do público. Porém, assim como na primeira temporada, a série cresce bastante no decorrer dos episódios e entrega um produto final muito bom, desta vez aprofundando o desenvolvimento do protagonista e até elevando o nível outrora atingido.
De início, somos apresentados a Thorffin, de fato, somente no segundo episódio, com o personagem, em um estado visualmente perceptível, ainda abalado pelos eventos ocorridos anteriormente. Após a perda de seu pai, ele transformou o desejo por vingança contra Askeladd no único motor de sua vida e em uma verdadeira obsessão. No entanto, com a morte do pirata pelas mãos de um outro homem, a sua vingança jamais seria completa e o desejo por ela, dentro de seu coração, seria substituído pelo mais completo vazio. Deprimido e agora na condição de escravo, ele encontra-se incapaz de sentir qualquer emoção ou de ter alguma motivação. Sendo assim, aquele que antes era um guerreiro persistente e repleto de energia, não possuía mais sequer a vontade em viver e resumia-se a um homem vazio e assombrado pelo passado.
Esse cenário, todavia, lentamente começa a mudar com a chegada de Einar, um fazendeiro que se tornou escravo após a invasão de seu vilarejo. Diferente de Thorffin, que já havia perdido qualquer esperança, o novo integrante da história ainda cultivava, de maneira latente, o sonho da liberdade e de um futuro melhor. Tamanho é o "fogo", dentro de Einar, por reconquistar uma vida livre, que, junto a sua bondade e amizade, irradiou no protagonista, servindo como o pontapé inicial para um despertar que parecia impossível.
Sendo assim, Thorffin, aos poucos, passa a vislumbrar a possibilidade de um recomeço, mas com a noção de que tal processo somente poderá acontecer se acompanhado por uma mudança em seu espírito e na conquista de um estado de paz interior. Enquanto, na temporada prévia, nos acostumamos a vê-lo em constantes duelos e batalhas físicas, aqui, na primeira metade da história, acompanhamos uma luta interna do protagonista, que vive um conflito psicológico e espiritual.
Diante disso, o seriado realiza um bom trabalho em dar o tempo necessário, mesmo que tendo que adotar um ritmo mais lento, à transformação sofrida pelo personagem principal. Afinal, levando em consideração a dor por ele vivenciada, não faria sentido que deixasse isso para trás de forma rápida e fácil. Tendo que enfrentar todos os seus "fantasmas" e traumas do passado, Thorffin passa por um processo dolorido, difícil e tortuoso até que, finalmente, não apenas conseguisse superar a sua tragédia pessoal, mas também encontrasse um novo sentido a sua vida, que seria agora dedicada a salvar outras pessoas em condição igual a sua.
É fundamental pontuar que "Vinland Saga" não busca vangloriar a guerra, mas, na realidade, mostrar como ela pode ser cruel, brutal e destrutiva para a grande maioria das pessoas que a vivenciam. Por trás da glória dos guerreiros vikings e da mitologia criada ao seu redor, existe um rastro de vilarejos incendiados, mulheres estupradas e homens mortos ou gravemente feridos, isto é, um rastro de vida arruinadas e condenadas à morte ou à escravidão. Quanto a isso, basta relembrar que Thorffin, quando criança, sonhava em ser um soldado, porém ele, agora já tendo participado de várias batalhas e matado incontáveis pessoais, não sentia qualquer orgulho de suas ações, restando apenas pesadelos e arrependimentos.
Inclusive, esse talvez seja o ponto de grande discordância entre os espectadores da série. Aqueles maiores apreciadores das cenas de ação e das batalhas poderão achar essa primeira metade da temporada "chata" ou monótona, no entanto é importante ressaltar que estes episódios são os mais importantes para a compreensão da história e daquilo que ela se propõe a apresentar. É um processo lento, mas essa lentidão é o que dá a noção do seu peso, bem como do tamanho dos traumas carregados pelo protagonista.
Da mesma maneira, é a crueldade do mundo mostrada no seriado que torna a escolha de Thorffin por fazer o bem tão especial, pois ele, como um habilidoso guerreiro, poderia simplesmente continuar matando e tendo sucesso nesse trabalho, mas rejeita tudo isso e opta por um caminho diferente, em que a violência será somente o último recurso. O roteiro, novamente muito bem escrito, é competente em fazer uso desses contrastes e das diferenças entre as personagens, aliado aos ótimos aspectos visuais e sonoros, para dar a dimensão daquilo que é mostrado na trama.
Paralelamente, também temos a continuidade do arco de Canuto, um dos personagens mais interessantes, que aqui torna-se o rei de um vasto e crescente império, abrangendo a Dinamarca e a Inglaterra. O jovem monarca, uma figura extremamente complexa, persiste em seus planos de estabelecer um "paraíso na terra", no entanto, à medida em que torna-se evidente que tal utopia dependerá de mais territórios conquistados, mais guerras travadas e, por consequência, de mais destruição, ele se vê na inevitável reflexão acerca dos fins justificarem os meios ou não.
Mesmo com objetivos "nobres", Canuto vai praticando métodos que vão o assemelhando cada vez mais ao pai, o que gera um conflito interno, com a "cabeça imaginária" do rei Sweyn sendo o ótimo artifício utilizado para representar isso. Canuto prossegue com as conquistas de terra, porém proíbe a pilhagem. Planeja confiscar fazendas, mas também procura evitar conflitos armados desnecessários. É impiedoso contra quem precisa matar, mas misericordioso contra inocentes. Em outras palavras, torna-se mais cruel e frio, mas ainda se mantém agarrado a princípios, visando não sofrer da mesma corrupção de seu pai.
Além disso, é também fascinante analisar as semelhanças e diferenças entre os objetivos de Thorffin e Canuto, com ambos buscando salvar pessoas, obter paz e construir utopias de prosperidade, porém com meios completamente distintos e que, eventualmente, entram em rota de colisão em uma eletrizante segunda metade de temporada. O primeiro busca estabelecer um refúgio para aqueles desamparados na Terra, como escravos e refugiados, que fogem da destruição da guerra. O segundo busca construir um paraíso para aqueles proibidos de entrar no céu, como os guerreiros vikings, cuja salvação divina é inalcançável devido aos seus terríveis pecados.
Em linhas gerais, a segunda temporada de "Vinland Saga" eleva o já bom nível mostrado anteriormente e traz um dos melhores desenvolvimentos de personagem apresentados em um anime, com o arco do protagonista Thorffin se aprofundando de maneira excelente. Se isso não bastasse, também propõe ótimas reflexões sobre redenção e recomeços e acerca dos males da guerra, bem como traz diversos momentos de leveza e humor, algo pouco presente na primeira temporada, que ajudam a suavizar o cruel mundo em que a história se passa. Recomendado.
Vinland Saga (1ª Temporada)
4.3 69 Assista AgoraSendo situado durante a Era Viking, a série retrata os conflitos entre os nórdicos e os ingleses, e a posterior expansão desse povo em terras britânicas. Além dos fatos históricos representados, a animação também aborda diversas questões filosóficas, existenciais e, inclusive, religiosas, em um roteiro bem elaborado. No entanto, sem dúvida, "Vinland Saga" é o tipo de anime que "não é para qualquer um", pois possui um tom sombrio e um ritmo, em determinados momentos, um tanto lento, exigindo paciência do espectador, que, nos episódios finais, é mais do que recompensado.
À princípio, vale ressaltar que esta primeira temporada deve ser vista como um prólogo, isto é, como uma espécie de história anterior à trama que, verdadeiramente, irá corresponder a principal e que será mostrada nos capítulos seguintes. Sendo assim, o protagonista, Thorffin, com a exceção dos episódios iniciais, acaba assumindo, na maioria das ocasiões, uma posição até secundária em meio a acontecimentos muito maiores do que o seu arco particular. Prova disso é como, em muitos episódios, ele mal possui falas e pouco aparece - e, quando o faz, geralmente encontra-se duelando ou gritando.
Nesse sentido, quem ocupa a posição de destaque, de fato, é Askeladd, que, não à toa, também é o personagem mais interessante e fascinante de toda a temporada. Calculista, frio e misterioso, o pirata sempre tem um plano em mente e deixa claro ao seu grupo de fiéis seguidores que possui controle até das situações mais complicadas, porém sempre toma cuidado para não ter as suas intenções reveladas, bem como o seu secreto passado. Diferente de outros nórdicos, ele não vê prazer na guerra, na luta ou na matança, mas apenas faz uso de tais artifícios quando realmente precisa. Por outro lado, se necessário, é capaz de exterminar um vilarejo inteiro para atingir os seus objetivos, demonstrando absoluta crueldade.
Estando sempre vários passos à frente de seus adversários, ele, apesar de ser muito forte, não possui a força física como a sua principal qualidade, mas a inteligência, a paciência e uma incrível capacidade de traçar estratégias e prever as ações dos outros. Em outras palavras, equivale ao exato oposto de Thorffin, que é, devido a sua juventude, teimosia e desejo de vingança, extremamente impaciente e emotivo, o que prejudica as suas habilidades de combate e o leva a tomar decisões inconsequentes e previsíveis.
No entanto, quando nos é mostrado o trágico passado de Askeladd, fica evidente como esses dois personagens, que não poderiam parecer mais diferentes, possuem origens tão semelhantes. Sendo assim, é impressionante como o desejo de vingança de Thorffin o acaba unindo, de maneira firme, ao homem que matou o seu pai, que, ironicamente, acaba servindo como uma segunda figura paterna a ele, o ensinando até mais do que Thors, que teve pouco tempo para isso. A sua sede em se vingar é o que faz aquela doce criança que viu o pai ser assassinado continuar viva e, ao mesmo tempo, o que completamente "mata" aquele jovem garoto e coloca, no lugar, um feroz assassino que possui a vingança como o seu único objetivo. É a sua chama e o seu veneno.
Enquanto isso, temos uma grande disputa política pelo trono da Dinamarca, travada entre os filhos do rei, Canute e Harald, e as facções que os apoiam e buscam poder, em meio a longa guerra entre nórdicos e ingleses. Esta parte também é uma das mais interessantes, pois, se o arco envolvendo os protagonistas é fictício, aqui, por outro lado, estamos diante de eventos que verdadeiramente aconteceram - ou, pelo menos, em maior parte. Assim, acompanhamos o jogo de xadrez pela coroa e como os personagens da saga são encaixados na trama, preenchendo partes da história cujos detalhes até hoje são incertos, como, por exemplo, a morte do monarca.
Aliás, Canute é também uma das figuras mais complexas desta saga, estando apenas atrás de Askeladd. Sendo inicialmente apresentado como um príncipe frágil e despreparado, ele, após passar por eventos traumáticos durante a guerra, rapidamente se torna um líder forte, corajoso e capaz de juntar seguidores, elevando a sua estatura na luta pelo trono. Ao encarar os horrores e crueldades de um mundo que não conhecia, tem sua fé abalada e percebe que não adianta se esconder dos problemas, sendo necessário lutar para corrigí-los em um meio de homens que travam guerras e derramam sangue sem um sentido maior por trás. O seu objetivo será lutar para trazer uma paz longa ao seu povo e garantir um paraíso na terra, mesmo que tenha que sujar as mãos para tal, ao invés de seguir o que seu pai vem fazendo, que é travar batalhas intermináveis.
O roteiro, muito bem elaborado, realiza um excelente papel em unir o arco de Canute com os que haviam sido previamente mostrados, detalhando, com competência, as motivações e origens de cada um dos personagens, não para justificar as suas ações, mas para explicar por que eles são quem realmente são e deixando o julgamento ao espectador. O único problema é o ritmo do seriado, que, sobretudo durante a metade, realmente torna a trama bastante arrastada e, às vezes, até um tanto repetitiva. A reta final da temporada, no entanto, compensa, trazendo um encerramento eletrizante e surpreendente, com todas as peças se encaixando e a conclusão do prólogo da saga de Thorffin, e de tudo o que o moldou, sendo alcançada.
Avatar: A Lenda de Aang (3ª Temporada)
4.7 329 Assista AgoraDe todas as temporadas, esta é, sem dúvida, a que coloca o seriado em um outro patamar dentre tantas produções do gênero. Em seu capítulo final, "Avatar" reúne todos os ingredientes que já haviam se destacado antes, com humor, ação, romance e drama na medida certa. No entanto, aqui presenciamos a história indo além, com o aprofundamento da trama, que vai se tornando até mais complexa do que aquilo que se esperaria de uma obra ao público infantil, o excelente desenvolvimento das personagens e uma conclusão à altura da qualidade da série.
No "Livro do Fogo", é possível acompanhar Aang tendo que apressar o encerramento do seu treinamento, à medida em que o momento do seu confronto com o Ozai se aproxima. Ainda não tendo dominado, com perfeição, todos os elementos e triste devido a sua derrota no "season finale" passado, o protagonista deve, custe o que custar, encarar todos os seus medos, inseguranças e aflições de modo a salvar o mundo. O peso de ser o Avatar, com toda a grande responsabilidade que isso carrega, vai o afetando cada vez mais.
Em paralelo, temos a continuação de um dos arcos mais interessantes e complexos do seriado, que é o do príncipe Zuko. Após finalmente ser aceito de volta a sua terra natal e de ter "reconquistado" a honra perante o seu pai, ele logo percebe que as coisas não se tornam tão boas quanto gostaria. O seu retorno ao reino não o traz felicidade ou cura os seus problemas interiores, com ele prosseguindo insatisfeito e com raiva.
Dessa maneira, Zuko, enfim, percebe que o seu tio estava certo o tempo todo. A sua raiva não era contra o avatar, ou mesmo contra o seu pai, mas contra ele mesmo, pois não conseguia encontrar um rumo na vida. O seu destino não era aquele que o impuseram - no caso, a captura do Avatar - e sim um que ainda teria que descobrir por conta própria, e que seria exatamente o oposto daquilo que originalmente tanto procurava. A jornada do dobrador de fogo em busca de sua paz interior viria após muitos fracassos, sofrimento e arrependimento, mas seria um processo necessário e, ao final, recompensador, marcando uma grande e bela trajetória de redenção e perseverança.
Aliás, os caminhos percorridos por Aang e Zuko, dois personagens com tantas diferenças e que iniciaram essa saga em lados tão opostos, apresentam inúmeras semelhanças. Tendo que carregar, nas costas, grandes cobranças e responsabilidades, apesar de serem extremamente jovens, ambos tem de lutar bastante para alcançarem os seus objetivos e definirem quem são, colocando-se, ao final, em uma posição na qual, mesmo escutando conselhos e sabedorias alheias, decidem o seu destino e suas ações por conta própria. No caso de Aang, o protagonista encara o temido líder do Fogo de forma a respeitar as suas convicções e princípios, porém cumprindo a sua missão de encerrar a guerra, em uma cena surpreendente e impressionante.
Embora a temporada, de uma forma geral, seja bem mais consistente e densa que as anteriores, que vale destacar que já haviam sido boas, são os seis episódios finais que, sem dúvida, alçam esta série ao panteão das grandes obras de animação, com uma forte combinação de efeitos visuais, trilha sonora e um enredo bem elaborado e que conclui todos os arcos com maestria. Seu encerramento entrega tudo aquilo que os fãs desejavam sem ter que forçar a barra, mas sim com naturalidade. O único problema de "Avatar" é que os episódios são muito curtos e as temporadas são poucas, pois, com certeza, ficamos com uma sensação de "quero mais" após assistir o último episódio.
Recomendado para todas as idades.
Spartacus: Sangue e Areia (1ª Temporada)
4.5 647 Assista AgoraRetratando a saga do guerreiro trácio que se tornou gladiador e liderou a maior - e mais famosa - revolta de escravos da República romana, "Spartacus" realiza, ao contrário de outras obras inspiradas nessa rebelião, uma representação mais moderna dos acontecimentos. Com uma trilha sonora eletrizante e abusando do sangue, nudez e câmera lenta, o seriado, que em muitos momentos lembra o filme "300" de Snyder, toma as suas liberdades artísticas. Porém, mantém-se fiel à história original e garante entretenimento e emoção ao espectador, que aqui jamais poderá reclamar de tédio.
A trama acompanha o personagem principal, cujo nome verdadeiro não conhecemos, desde as suas origens em território trácio até a sua escravidão, após ter recusado ordens de tropas romanas que traíram a ele e aos outros membros de sua tribo. Repleto de raiva contra Roma e o comandante Glauber, que o traiu, porém também triste pelo ocorrido com os seus companheiros, o guerreiro não deseja lutar como gladiador ou entreter os romanos que o apunhalaram nas costas, mas apenas anseia por reencontrar sua amada esposa e se vingar dos responsáveis pelo seu sofrimento.
Após um certo tempo e sendo agora conhecido como "Spartacus", ele logo percebe que o único caminho para concretizar os seus desejos é conquistando vitórias na arena de batalha, na expectativa de que Lentulus Batiatus, o dono da escola de gladiadores a qual pertence, irá, como recompensa, o reunir novamente a sua esposa e ajudar em sua liberdade. Este, por sua vez, manipula o gladiador com mentiras e falsas promessas, em uma tentativa de fazê-lo ganhar a sua confiança e continuar lutando e trazendo dinheiro.
Vale destacar que Batiatus, brilhantemente interpretado por John Hannah, é talvez um dos personagens mais interessantes do seriado. Carregando o nome de uma família com tradição no ramo, ele administra uma Casa de gladiadores afundada em dívidas. Em uma tentativa desesperada de reerguer os seus negócios, Lentulus utiliza de todos os artifícios para subir na sociedade romana, seja por meio de seus melhores lutadores ou seja por meio dos contatos de sua insaciável esposa Lucrétia na elite. À medida em que ele vai galgando o seu lugar no topo, vai se revelando cada vez mais brutal e ambicioso.
O seriado realiza um excelente papel ao retratar as intrigas, desconfianças e traições que marcavam a alta sociedade de Roma e como a busca por um lugar de destaque nesse meio pode ser tão sanguinária quanto as batalhas que ocorrem na arena. As falsidades e disputas por poder que marcam a elite são contrastadas pela irmandade, que também não é imune às suas intrigas, entre os gladiadores. Mesmo lutando pelo topo na Casa de Batiatus e não escondendo suas diferenças, os guerreiros ainda nutrem um mínimo de respeito entre si, enquanto, nas classes mais altas e supostamente mais "nobres", é onde a carnificina verdadeiramente impera e as pessoas fingem ser amigas somente para tirar proveito umas das outras.
O roteiro, mesmo com alguns elementos que poderiam ter sido melhor elaborados no início, é escrito com boa qualidade, com o desenvolvimento de cada personagem sendo mostrado com competência e as suas respectivas motivações sendo bem definidas ao longo da série. Na primeira metade, isso pode até não ser o caso, com a trama demorando para engatar, mas, do meio pra frente, o seriado cresce bastante em todos os aspectos e surpreende o espectador com uma trama mais complexa e emocionante do que parecia ser.
A direção, porém, é o ponto fraco da produção, com a parte técnica, talvez pelo baixo orçamento disponível, deixando a desejar em alguns momentos. E, apesar de ser ridículo reclamar da presença de nudez e de violência em uma obra sobre gladiadores romanos, é fato que determinadas cenas desse tipo foram um tanto desnecessárias.
Em linhas gerais, os pontos positivos superam os negativos, com "Spartacus" entregando uma história envolvente e eletrizante, sobretudo na reta final. A série surpreende, entrega bem mais do que somente sexo e sangue e deixa o espectador na expectativa pela continuação.
Roma (2ª Temporada)
4.4 103 Assista AgoraEm sua segunda temporada, "Roma" dá continuidade às disputas de poder e às intrigas que marcaram o fim da República Romana, tendo início no momento exatamente posterior ao assassinato de César e mostrando como tal acontecimento impactou a todos. Tal qual esperado, a série mostra-se novamente impecável nos aspectos técnicos e na representação da época, porém, desta vez, com um roteiro melhor amarrado, o que, sem dúvida, fez a produção elevar do já bom nível previamente apresentado.
Devido ao fato de ter menos episódios, porém retratar um período ainda mais abrangente e repleto de importantes eventos, o seriado foi obrigado a ter um maior foco no arco principal - envolvendo a política romana - e menor em histórias secundárias e de inferior relevância, o que me agradou. O clima "novelesco" e as imprecisões históricas persistem, porém em reduzida quantidade quando comparado ao visto na primeira temporada.
Naturalmente, se, por um lado, o número menor de episódios obriga o enredo a ser mais enxuto, direto e sem tramas desnecessárias, é fato que, por outro, alguns elementos da história não foram tão bem explorados, como a guerra final entre Otávio e Marco Aurélio, que aqui é limitada a poucas cenas. Em compensação, a série, enfim, dá mais espaço às cenas de batalha, que são dirigidas com qualidade, e proporciona, mais uma vez, ótimas performances por parte do elenco.
Em linhas gerais, é possível dizer que o seriado melhora em relação ao mostrado na primeira temporada, ampliando os aspectos que já haviam dado certo anteriormente e reduzindo os pontos negativos, sobretudo quanto ao roteiro. Um belo encerramento a essa produção, deixando o gosto, no espectador, de que a HBO poderia ter renovado a série para mais temporadas.
Roma (1ª Temporada)
4.4 154 Assista AgoraRetratando o fim da decadente República romana e o início da fase imperial, "Roma" claramente não se dispõe, em seu roteiro, a ser um documentário ou um retrato fiel dos acontecimentos, mas sim uma dramatização de um dos períodos mais conturbados da história dessa grande civilização, com foco, sobretudo, nas disputas políticas. Nos aspectos técnicos, no entanto, o seriado praticamente nos faz voltar no tempo, com excelente produção de figurino, cenários e fotografia, que aqui se destacam.
Ao longo desta primeira temporada, acompanhamos uma verdadeira guerra civil, com a disputa entre os outrora amigos Pompeu Magno e Júlio César pelo poder, culminando na ascensão do último à posição de ditador e deixando marcas na sociedade romana, que começava a ver a República, um dos seus grandes símbolos, aos poucos ruir. Os roteiristas optam, como mencionei antes, por focar no aspecto político, o que não é necessariamente algo negativo, mas ter ignorado, por completo, as batalhas e embates militares me pareceu uma escolha equivocada.
Aliás, o enredo toma, em minha avaliação, alguns caminhos um tanto questionáveis. Por exemplo, ter explorado pouco a relação de César com Cleópatra e, no lugar disso, ter ocupado tempo significativo com tramas secundárias irrelevantes e excessivas cenas de nudez foi, definitivamente, um caminho que eu não teria trilhado.
Por outro lado, a série compensa com brilhantes aspectos técnicos, grande atuação do elenco, uma representação fidedigna de diversos eventos históricos importantes e várias cenas icônicas e bem dirigidas. Em linhas gerais, tem mais acertos do que erros e vale a pena assistir.
Better Call Saul (6ª Temporada)
4.6 435 Assista AgoraO último capítulo de "Better Call Saul" encerra, em grande estilo e alto nível, a saga do icônico Saul Goodman, completando um dos arcos mais bem desenvolvidos e bem escritos da história da televisão. Apresentando um tom mais dramático, esta temporada traz os eventos que puseram fim a sua vida passada como Jimmy, a conexão direta com a trama de "Breaking Bad" - trazendo mais personagens da série original - e a tão aguardada conclusão da história do protagonista.
Os primeiros episódios dão continuidade aos acontecimentos da temporada anterior, com foco no conflito entre os cartéis de Los Pollos e dos Salamanca, e nos impactos dessa guerra nas vidas das personagens. Enquanto Lalo finge estar morto e prepara, minuciosamente, a sua vingança, Nacho se esconde e luta pela sua próprio vida ao perceber que está sendo usado como bode expiatório, com a responsabilidade pelo atentado sendo atribuída exclusivamente a ele.
Se todos dão a morte de Lalo como certa, Gus, perspicaz como sempre, consegue enxergar que algo não está certo e levanta suspeitas acerca do destino do adversário. Neste momento, acompanhamos uma situação incomum nas duas séries, com Fring em um estado de paranoia, medo e tensão do eventual retorno de quem havia mandado matar e da possibilidade dos seus segredos serem revelados. O membro do clã Salamanca é aquele que consegue deixá-lo na posição mais vulnerável já vista pelos espectadores.
Quanto a Jimmy e Kim, presenciamos uma relação extremamente complexa. Se, por um lado, ambos se amam, também é possível afirmar que essas duas pessoas, juntas, acabam trilhando um caminho perigoso para si e para quem está próximo, com os seus golpes e atitudes imorais. É curioso, mas, ao mesmo tempo em que são perfeitos um para o outro, igualmente são tóxicos, com um relacionamento que acaba incentivando os seus vícios e mentiras, em um processo quase que autodestrutivo e que é intensificado com o envolvimento do protagonista com o cartel mexicano.
Na reta final da temporada, temos algumas das cenas mais intensas e emocionantes de todo o seriado, na medida em que somos apresentados ao que ocorre com Saul após os eventos de "Breaking Bad" e como a sua saga irá se encerrar. Mesmo tendo que se esconder das autoridades, ele, como é recorrente em sua vida, não consegue "se ajudar" e retorna a se envolver com atividades criminosas, que acabam, por fim, revelando a sua verdadeira identidade e o deixando exposto. É como se o protagonista fosse incapaz de viver uma vida normal e abandonar, por completo, a sua rotina de golpista.
Então, quando encontra-se encurralado e não tem mais para onde correr, Saul decide, pela primeira vez, agir com honestidade e, passando a limpo todos os seus erros e pecados cometidos durante a vida, confessa tudo. E não por que gostaria de, por conta disso, ser um herói, mas para fazer as pazes com a única pessoa viva que ainda verdadeiramente amava: Kim. Após uma vida inteira de atalhos e tirando vantagens dos outros, ele, enfim, arrepende-se de suas ações e encara as consequências de suas escolhas.
O roteiro, nesse sentido, é muito bem elaborado, ao longo do último episódio, para justificar as escolhas finais do protagonista, em especial os flashbacks de conversas com Mike, Chuck e até Walter e da reflexão acerca de arrependimentos e viagens no tempo. Enquanto uma viagem no tempo realmente é impossível, como bem descreveu Walter, nunca é tarde para se arrepender dos seus erros, se reconciliar com quem ama e mudar de rumo, e é isso que Jimmy faz.
Em linhas gerais, considero que "Better Call Saul" não está no mesmo patamar que "Breaking Bad", mas, sem dúvida, está bem próxima e, com certeza, é uma série muito boa e de alta qualidade, estando no rol das melhores já produzidas. O seu "series finale", no entanto, eu julgo como sendo até superior em comparação ao do seriado original, com um encerramento digno do elevado nível de direção, roteiro e atuação apresentados pelo show ao longo de suas seis temporadas e um ponto final ao brilhante universo construído por Vince Gilligan.
Better Call Saul (5ª Temporada)
4.6 333 Assista AgoraO quinto capítulo de "Better Call Saul" começa exatamente no momento em que se encerra a temporada anterior, isto é, com Jimmy iniciando uma nova trajetória enquanto advogado, desta vez com o nome "Saul Goodman". Apesar de, a princípio, parecer algo muito semelhante com o ponto de onde o seriado parte, com o protagonista aceitando pequenos casos "pro bono", logo percebemos que não é bem assim. Aqui, ele não vai mais tentar vencer obedecendo as regras do jogo e irá completamente abraçar o uso de suas artimanhas no mundo jurídico, sem qualquer pudor ou moralidade.
No entanto, se a ideia original era trabalhar com clientes que não tivessem mais ninguém para recorrer, como viciados e pequenos criminosos, Saul rapidamente se vê envolvido com velhos e novos conhecidos do meio do tráfico. Dentre eles, estão Nacho e Lalo, respectivamente, que, em meio a uma guerra com o Cartel de Los Pollos ,vão tendo problemas com as autoridades americanas. Ao solicitarem o auxílio legal do advogado, também mandam a ele realizar outros serviços à margem do lei, o envolvendo definitivamente nos negócios do cartel e o colocando no "olho do furacão" de uma disputa muito maior do que ele sequer imaginava.
Enquanto a vida de Jimmy muda por completo e além do que ele gostaria quando mudou de nome, acompanhamos Kim não apenas ainda em dúvidas em relação ao seu futuro profisional, mas agora também refletindo acerca de sua vida pessoal. No início, apesar de tolerar os seus truques e até gostar de alguns dos seus métodos, ela não vê com bons olhos a mudança de identidade do namorado e considera que também ele esteja indo longe demais. Em dado instante, ela se vê em uma encruzilhada entre o seu relacionamento com Jimmy, que vai se distanciando em meio a mentiras e desconfianças, e aquilo que ela tenta encontrar para a sua carreira. Quando a rotina de ambos se transforma devido a uma série de eventos, ela terá de decidir qual caminho seguir.
No arco da guerra entre os cartéis de Los Pollos e de Salamanca, vemos Mike questionando a continuidade de seus serviços e se tudo aquilo ainda vale a pena, ao mesmo tempo em que compreende que o seu trabalho, mesmo que imoral e sujo, é necessário para ajudar a sua família. Por outro lado, também é possível observar Nacho lutando para manter a confiança por parte dos dois cartéis e ainda costurar uma eventual saída para si e para o seu pai. Ambos os personagens têm muito em comum e trabalham juntos em busca de sobreviver nesse mundo.
Nesse contexto, Gus sente, os seus negócios "sangrando", de maneira crescente, em meio a essa barulhenta guerra do tráfico, o que o leva a tomar atitudes cada vez mais extremas e arriscadas a fim de proteger os seus interesses e manter os Salamancas distantes de seu território. Quanto a Lalo, um dos mais interessantes personagens desta temporada, vemos um homem que é, sem dúvida, muito mais inteligente do que aparenta ser e extremamente determinado a defender o nome e poder de sua família.
Essa é a parte do seriado que, até o momento, mais se assemelha a "Breaking Bad", inclusive com mais personagens da série original fazendo aparições. Pessoalmente, achei a quarta temporada um pouco melhor, mas esta também é muito boa e de altíssimo nível e, por enquanto, apenas atrás da temporada anterior em termos de qualidade. Ansioso para continuar assistindo.
Better Call Saul (4ª Temporada)
4.4 238 Assista AgoraA quarta temporada de "Better Call Saul" é mais uma amostra da capacidade do seriado em continuar elevando o seu nível. Iniciando exatamente do ponto em que a história parou, a série nos apresenta um roteiro, como sempre, muito bem amarrado, com os personagens sendo impactados pelos acontecimentos outrora mostrados e o arcos desenvolvidos, ao longo da trama, com competência. De maneira simultânea, acompanhamos tanto Mike mergulhando a fundo na organização de Gus quanto a transformação de Jimmy em Saul sendo, enfim, completa.
Já a partir dos primeiros episódios, a história começa de forma frenética e impactante, com Jimmy tendo que lidar com a trágica perda do irmão. No entanto, enganou-se quem imaginava que tal evento poderia levá-lo a uma mudança de comportamento ou a um sentimento de culpa, pois, na realidade, apenas fez com que prosseguisse, ainda mais, com seus esquemas e artimanhas. Com Chuck fora de cena, não somente desaparecia o seu parente mais próximo ainda vivo, mas também os últimos obstáculos remanescentes em seu caminho de trapaças e mentiras.
Nesse sentido, o protagonista, cada vez mais, vai abrindo mão dos poucos resquícios de moralidade e vergonha que ainda existiam em sua consciência. Se antes era apenas um advogado que usava de "atalhos", agora se tornava um verdadeiro criminoso e se relacionava com outros bandidos, sequer fazendo muito esforço para esconder isso de Kim. Ao criar conexões no mundo do crime, Jimmy estabelecia, sem perceber, a primeira clientela da sua futura identidade, Saul Goodman.
Quanto a Kim, é interessante acompanhar como ela, inicialmente devido ao seu amor por Jimmy, não apenas "passa pano" para as atitudes do namorado, mas também até o ajuda a "limpar a sujeira" das ações ilegais do namorado, mesmo sabendo, no fundo, que são erradas e arriscadas. Porém, se no começo a advogada fazia isso por motivos amorosos, aos poucos vemos ela começando a gostar de participar dessas artimanhas, sobretudo devido ao tédio que sentia com o seu trabalho regular e por conta de uma "crise existencial" que desenvolvida quanto a sua profissão.
A realidade é que Kim, por mais inteligente e determinada que fosse, sempre se sentiu atraída, mesmo que desaprovasse publicamente, pelo estilo "rebelde" de Jimmy e muitas vezes minimizava as atitudes ilegais do namorado. Nas temporadas anteriores, inclusive, ela, em determinadas ocasiões, até agia, junto com ele, em alguns golpes. Nesta temporada, entretanto, o que antes era apenas uma diversão momentânea passa a se tornar algo frequente, aprofundando a relação entre ambos - embora o último episódio dê a entender que isso não durará muito.
No arco envolvendo Mike/Gus, vemos os esforços do cartel de Los Pollos na ampliação da operação estabelecida por Fring, mais especificamente com a construção do laboratório. No caso, acompanhamos Mike tendo que tomar atitudes cada vez mais extremas e questionáveis para prosseguir trabalhando nesse meio. Além disso, também é parte importante da trama o cenário de adaptações ocorridas na Família Salamanca em decorrência do quadro de saúde de Hector, com a temporária ascensão de Nacho e o surgimento de um novo, e já bastante interessante, personagem, Lalo.
Esta temporada, portanto, realmente é melhor que as anteriores em termos de qualidade, o que confirma a tendência de subida de nível do seriado, com drama e humor na medida certa e um roteiro que desenvolve bem cada história sem deixar pontas soltas e encaixando todos os elementos na reta final. Aos poucos, o universo de "Breaking Bad" vai começando a aparecer e se montar cada vez mais, mas sem abandonar a identidade única construída por "Better Call Saul".
Better Call Saul (3ª Temporada)
4.4 318 Assista AgoraEm sua terceira temporada, "Better Call Saul" aprofunda não apenas a transformação de Jimmy em Saul, que vai se tornando cada vez mais evidente, mas também as disputas entre os irmãos McGill, que aqui chega ao seu ápice. Além disso, o seriado introduz, de maneira eficiente, vários personagens conhecidos de "Breaking Bad", sendo Gus Fring o principal deles. Com todos esses elementos, a produção dá uma melhora de qualidade em relação às temporadas anteriores e eleva o seu nível.
O arco principal segue sendo o conflito entre Chuck e Jimmy, que deixa de ser exclusivamente uma briga entre irmãos, de caráter pessoal, para se tornar uma disputa jurídica, que terá ramificações e impactos significativos tanto para a gigante HHM quanto para a carreira de ambos os advogados. O conflito será mais um momento em que o passado dos dois irmãos virá novamente à tona, assim como o complexo e difícil relacionamento existente entre eles. No quinto episódio, um dos melhores da série até o momento, presenciamos essa guerra familiar no seu ponto mais intenso.
As consequências da disputa jurídica com o seu irmão levam Jimmy a buscar outras formas de ganhar dinheiro e sobreviver, com o intuito de não deixar todas as despesas nas costas de Kim. No entanto, ao mesmo tempo, também o fazem retornar, um pouco mais, em sua antiga vida de bicos, golpes e artimanhas, que agora voltarão a ser o seu ganha pão.
Enquanto isso, também é muito bem desenvolvido o arco de Mike, que vê as suas desavenças com Hector Salamanca o colocando no meio de uma antiga rixa entre o traficante mexicano e Gus Fring. Este deseja prejudicar, discretamente, os negócios do rival, mas reserva um eventual assassinato a um momento oportuno e da forma mais cruel possível, pois entende, como ele mesmo diz, que meramente uma bala na cabeça seria muito humano. Nesse caso, é essencial relembrar o flashback mostrado em "Breaking Bad", que explica a razão do ódio de um em relação ao outro. Nesse sentido, Mike e Gus, com interesses em comum e um respeito mútuo, se ajudam e pavimentam o caminho para o que será uma longa parceria.
De forma geral, como dito antes, a série, que já vinha de duas boas temporadas, aqui, apesar de um início um tanto lento, sobe um degrau em termos de qualidade e proporciona grandes cenas em um roteiro novamente coeso e bem desenvolvido. Vale também destacar a atuação do elenco, que se destaca em meio a um seriado com já tantas qualidades.
Better Call Saul (2ª Temporada)
4.3 363 Assista AgoraEm sua segunda temporada, "Better Call Saul" mantém o bom nível de qualidade apresentado em sua estréia e prossegue a saga da transformação de Jimmy McGill em Saul Goodman. Com um roteiro bem amarrado, boa direção e mais uma grande performance do elenco, o seriado aprofunda, sobretudo, a relação entre Jimmy e o seu irmão, fazendo o espectador compreender melhor o passado de ambos e o complexo relacionamento que estabelecem entre si, que é um dos pontos centrais da história.
Seja por cenas de flashback ou simplesmente por falas das personagens, Vince Gilligan explica a mágoa que Chuck sente por Jimmy, apesar de ainda nutrir amor por ele, o que nos ajuda a entender a dificuldade que possui em aceitar que o irmão mais novo pode mudar. Essa marca que o passado lhe deixou é forte e faz com que ele não consiga enxergar os esforços de Jimmy em ser diferente, o que, ironicamente, acaba sendo o motivo pelo qual o irmão mais novo acaba desistindo de ter qualquer mudança e mergulha de vez em uma vida de trapaças e artimanhas.
Nesta temporada, inclusive, temos Saul aparecendo com cada vez mais força, seja nas vestimentas ou nas atitudes de Jimmy, que, tendo a sua tentativa de mudança rejeitada pelo irmão, busca ser aquilo que realmente quer ser, independente do que os outros desejam. Os poucos princípios morais, éticos e legais que restavam no protagonista, e que eram mantidos para tentar agradar a Chuck, vão sumindo aos poucos, à medida em que ele vai procurando percorrer o seu próprio caminho na vida, e não o caminho que traçaram para ele.
O arco de Mike também vai se tornando cada vez mais interessante, com ele começando a se envolver com o Cartel de Salamanca. Isso, junto a necessidade de obter mais dinheiro e de proteger a sua família, o força a ter de entrar cada vez mais no submundo do crime e a ter, com maior frequência, que agir de forma drástica e arriscada.
Aliás, a moralidade por trás das escolhas que os personagens fazem prossegue sendo um dos pontos fascinantes da série. Ao longo da trama, presenciamos indivíduos consideravelmente imperfeitos, mas com bom coração e boas intenções, sendo levados a caminhos obscuros devido a escolhas moralmente complexas e questionáveis e aproximando, por exemplo, Jimmy e Mike a quem eles são em "Breaking Bad". Dessa forma, somos levados a refletir até quão longe vale a pena ir para tentar fazer a coisa certa.
O encerramento da temporada, em particular, é muito bom, o que deixa o espectador ansioso para continuar a história.
Better Call Saul (1ª Temporada)
4.3 835 Assista AgoraSão raros os casos em que um personagem de uma série consegue inspirar um outro seriado inteiro baseado em si e, além disso, com a obra derivada apresentando qualidade e sucesso semelhantes à produção original. No entanto, em "Better Call Saul" essa rara situação ocorre graças, sobretudo, ao carisma do excêntrico e icônico advogado Saul Goodman, que aqui ainda não se tornou completamente aquele personagem que conhecemos, mais uma vez interpretado com excelência por Bob Odenkirk, e ao roteiro bem elaborado por Vince Gilligan.
Na série, acompanhamos Jimmy McGill antes de se tornar o Saul Goodman, em uma época em que o protagonista, com o intuito de se desvencilhar de seu conturbado passado e de cumprir uma promessa feita ao irmão Chuck, ainda procurava ser um advogado bem sucedido seguindo a lei e trabalhando de forma relativamente honesta - ou, pelo menos, com o máximo de honestidade que conseguia ter. Caminhando na linha tênue que separa aquilo que é permitido e o que não é, Jimmy vai sobrevivendo com dificuldades e lutando para subir na profissão.
No caso, percebemos que o seu charme, lábia e excentricidade, tão úteis quando era um mero golpista em sua terra natal, não apresentam a mesma eficácia no meio jurídico do Novo México. Aqui, McGill, trabalhando sozinho na defensoria pública, limita-se a casos fadados ao fracasso e clientes claramente criminosos, o que o faz ganhar a fama de "advogado de porta de cadeia", não sendo, dessa forma, devidamente reconhecido ou levado à sério pelos colegas de profissão.
Mesmo vez ou outra ainda apelando para antigas artimanhas e estratégias performativas, o sonhador advogado persiste em agir conforme a lei e, repleto de boas intenções, fazer a coisa certa. A sua atitude somente muda ao final da temporada, ao perceber que a promessa que havia feito a Chuck e todo o seu esforço não mudariam a forma como era visto e demorariam muito para lhe trazer algum retorno, com as suas ações passadas ainda fortemente impregnando a sua reputação. A escolha que fez foi tomada por si, mas, em parte, foi levado a tomá-la pela falta de reconhecimento que ele recebia, o que provoca uma forte empatia pelo espectador e fornece uma maior complexidade a um personagem que outrora poderia parecer apenas um mero alívio cômico.
A gradativa transformação de Jimmy em Saul é muito bem executada pelos roteiristas, ocorrendo gradualmente ao longo dos episódios. Outro mérito de Gilligan e companhia reside no fato de não tentarem imitar "Breaking Bad" ou sustentar este seriado em referências à história original, mas fornecerem, à "Better Call Saul", a sua própria identidade, com os seus próprios personagens - com exceção, por ora, de Jimmy e Mike - e arcos e um estilo que mescla, com competência, a comédia e o drama.
Uma boa primeira temporada para uma série que promete. Recomendado.
Breaking Bad (5ª Temporada)
4.8 3,1K Assista AgoraEm seu capítulo final, "Breaking Bad" encerra a história em grande forma, mantendo o alto nível de qualidade apresentado nas temporadas anteriores e, em diversos episódios, indo além. Aqui presenciamos a ganância de Walter White alcançando o seu ápice, com o protagonista em busca de construir o seu próprio império da metanfetamina. Tal cobiça contribui para sedimentar a sua completa transformação em Heisenberg - restando poucos traços de quem Walt outrora era, corroer a relação com as pessoas que amava e trazer as consequências máximas de suas ações a si e a sua família.
Nos primeiros episódios, acompanhamos as personagens principais - Walt, Jesse e Mike -tentando juntar os cacos após os eventos que encerraram a temporada passada. Ao mesmo tempo em que procuram se livrar de eventuais investigações policiais associadas às atividades de Gus Fring, o trio também busca reconstruir a operação estabelecida por seu antigo chefe. Nesse contexto, Walter, em um cenário de "vácuo de poder" no tráfico, vislumbra a possibilidade de enfim ter um império para chamar de seu, ainda guardando rusgas do seu passado e da fortuna que deixou de ter na Gray Matter, companhia que havia ajudado a fundar.
Neste momento, torna-se cada vez mais claro que, se a motivação inicial de Walt para entrar nesse negócio era simplesmente deixar dinheiro para a sua família, agora ele não fazia mais isso pelos seus filhos e esposa, ou pelo dinheiro, mas para si próprio e o seu ego. No entanto, quando aqueles ao seu redor começam a ter dúvidas se querem continuar com aquilo - Mike devido a sua neta, Jesse por um evento traumático envolvendo um garoto e Skyler pelo que houve com Ted e o que poderá ocorrer com sua família - e pretendem se afastar de Walt, este entra em colisão com as pessoas que se colocam entre ele e seus objetivos.
A ruína total - tanto de sua vida pessoal quanto de seus negócios - somente chega, porém, na segunda metade da quinta temporada, mais especificamente em um dos melhores, mais tensos e mais bem escritos episódios da série: "Ozymandias". Aqui, enfim vemos as consequências das escolhas de Walter batendo na porta de sua família da maneira mais intensa possível, o colocando em uma posição sem caminho de retorno e destruindo tudo aquilo que ele havia construído e buscado proteger.
Ao término, no "season finale", acompanhamos o protagonista, meses após o "furacão" que demoliu a sua vida, em uma trajetória para não deixar qualquer ponta solta, despendido-se das pessoas que amava e se vingando daqueles que contribuíram para a sua queda. Pessoalmente, acho que os dois últimos episódios poderiam ter explorado mais os impactos desses acontecimentos na vida de sua esposa e filhos, e acredito que essa foi uma oportunidade perdida. Além disso, a forma como ele se vingou de Lydia foi um pouco "forçada", pois, sejamos justos, seria impossível para ele colocar ricina em seu adoçante sem ser percebido. Isso sem falar da ameaça a Gretchen e Elliot, com Walt entregando todo o seu dinheiro a duas pessoas em que ele não confiava.
No entanto, se, por um lado, eu considero que algumas escolhas dos roteiristas não foram exatamente bem feitas ou à altura da qualidade da série, vale destacar que o episódio final apresenta um tom extremamente triste e melancólico, o que é correto para demonstrar o efeito das ações de Walt em sua vida. A cena final também carrega um forte simbolismo, com o protagonista encerrando em um laboratório, cercado por aquilo que havia se transformado em sua paixão e, ao mesmo tempo, na causa de sua destruição. Ironicamente, a pessoa mais viciada em metanfetamina nunca a consumiu, mas apenas produzia.
Breaking Bad (4ª Temporada)
4.7 1,2K Assista AgoraLogo em seu primeiro episódio, a quarta temporada de "Breaking Bad" inicia de forma eletrizante, com a continuidade dos eventos que encerraram a temporada anterior e da tensão entre Walter/Jesse e Gus, que será tema recorrente ao longo da trama. Nos episódios seguintes, a série, pelo menos ao meu ver, adota uma velocidade mais lenta e, em diversos momentos, excessivamente "arrastada", o que pode desagradar alguns. No entanto, em sua segunda metade, o seriado compensa, pois, daí até o final, a história engata em um ritmo frenético e eletrizante e se torna um verdadeiro furacão.
Um dos aspectos mais positivos desta temporada reside em Jesse, cujo desenvolvimento de sua personagem, que tanto faltou/estagnou em momentos anteriores, é aqui construído de maneira espetacular. Ao invés de simplesmente "se aceitar" como um drogado, ele enfim adquire definitivamente, após muita dificuldade e ajuda externa, foco em sua vida e busca, inclusive, realizar uma boa ação, ao ajudar Andrea e seu filho. Além do roteiro bem escrito, isso se deve também a excelente performance de Aaron Paul, que se destaca em meio a um elenco estrelado.
No entanto, à medida em que Jesse vai se tornando mais competente e importante, a situação de Walter, por outro lado, vai, gradativamente, se deteriorando. Sabendo que agora é o único químico e cozinheiro que Gus possui, Walt abusa desse privilégio e testa, ao máximo, os limites de sua liberdade perante Fring. Este, por sua vez, mostra novamente estar sempre "dois passos à frente" dos demais e compreende que o único caminho para resolver tal problema é afastando a dupla, minando a amizade que ambos haviam construído e tornando Walt cada vez menos insubstituível.
Em meio a tudo isso, Walter, que parecia finalmente ter tudo sob relativo controle e imaginava estar, devido ao seu importante status na organização, longe de qualquer perigo, aos poucos vai se vendo encurralado. As dificuldades com Jesse, a perda de prestígio perante Gus e a investigação conduzida por Hank colocam-no dentro de uma situação em que ele tem de escolher entre a sua sobrevivência e de sua família e a continuação do seu trabalho. No episódio "Fim dos Tempos", temos o protagonista situado nessa tensa e quase irremediável posição e, em minha opinião, o melhor episódio, até aqui, de todo o seriado, com um final de arrepiar os cabelos e de tensão absoluta.
Por sinal, finalmente somos apresentados ao passado de Gus Fring. Ao conhecer melhor a sua história de origem, também conseguimos compreender a psicologia por trás desse fascinante e enigmático personagem, bem como as suas motivações e a rivalidade contra o Cartel de Salamanca, que, nesta temporada, alcança o ápice.
Se não fosse pelos primeiros episódios, que realmente são um pouco mais "fracos", daria uma avaliação maior. Apesar disso, é importante ressaltar que a quarta temporada é, sem dúvida, de alto nível e entrega, em sua reta final, alguns dos grandes e mais marcantes momentos da série.