Últimas opiniões enviadas
"O Agente Secreto" me arrebatou, logo de cara, pelo apreço estético do filme. Que retrato de época incrível! Para quem como eu, nasceu e cresceu em cidade pequena em meio aos anos 90 (e numa cidade pequena as mudanças acontecem muito mais lentamente), ainda se via na vida cotidiana os diversos tipos que enchem a tela: seja na estética ou no comportamento. Só aí o filme já mostra ao que veio - a importância dada aos pequenos detalhes.
Talvez seja isso também o que o "auteur" Kleber Mendonça Filho espera de seu público: a atenção dada às minucias de uma obra tão multifacetada, que brinca com vários gêneros, mas sempre com aquela pegada thriller, de fazer o espectador imaginar o que vem pela frente e aonde aquilo tudo vai dar. Embora, pela primeira cena, já possamos imaginar o que possa acontecer ao fugitivo protagonista do monstruoso Wagner Moura!
Para um jornalista que adora história, o filme é um prato cheio. Diferentemente de "Ainda Estou Aqui", que é um filme-denúncia, um ataque direto à política massacrante de estado que é um ditadura (ou um estado totalitário), "O Agente Secreto" apresenta uma micro história do período, o que para mim é ainda mais poderoso, pois mostra como a presença de um estado que banaliza a violência, o abuso de autoridade e de poder se dilui na sociedade, no cotidiano, e faz com que muito do que é perverso não seja percebido pela sociedade, quanto menos (re)lembrado até por quem sofreu diretamente por conta dela.
Os promíscuos interesses público/privados enviesados por quem tem o poder da grana. Matadores com origem militar. Histórias caladas pelo medo de serem (re)descobertas. Mas talvez venha daí a grandiosidade da obra, já que não retrata isso de modo caricato ou para fazer chorar. O seu autor apresenta até questões regionalistas, como a perna cabeluda, retratando a forma como a imprensa pernambucana abordava a violência policial/militar ou perpetrada por quem agia através deles pela permissividade garantido pelo suborno, pela corrupção.
Tudo isso é apresentado por personagens complexos, nada unidimensionais. E que elenco, puxa vida! Independentemente do tempo de tela, todos brilham. Esse é filme para assistir mais de uma vez e pegar cada entrelinha apresentada pelo dito e no não-dito desta verdadeira obra-prima do nosso cinema! É CINEMA EM CAIXA ALTA!
P.S.: Como obra de arte que é, ela se constrói e se ressignifica pelo viés de seu espectador, então longa a vida a todos que possam vê-lo com olhos além do entretenimento tiktoker.
Últimos recados
O Oscar 2017 está logo aí e teremos o nosso tradicional BOLÃO DO OSCAR FILMOW!
Serão 3 vencedores no Bolão com prêmios da loja Chico Rei para os três participantes que mais acertarem nas categorias da premiação. (O 1º lugar vai ganhar um kit da Chico Rei com 01 camiseta + 01 caneca + 01 almofada; o 2º lugar 01 camiseta da Chico Rei; e o 3º lugar 01 almofada da Chico Rei.)
Vem participar da brincadeira com a gente, acesse https://filmow.com/bolao-do-oscar/ para votar.
Boa sorte! :)
* Lembrando que faremos uma transmissão ao vivo via Facebook e Youtube da Casa Filmow na noite da cerimônia, dia 26 de fevereiro. Confirme presença no evento https://www.facebook.com/events/250416102068445/
Seria "Touro Indomável" a resposta de Scorcese à derrota imposta pela Academia ao seu Taxi Driver diante de Rocky? Bem, se querem um filme sobre um boxeador, toma! Até quebrar o nariz! Com toda a fúria do rapaz - e já um genial diretor - nos anos 70.<br/><br/>Depois de mais de uma década, revi-o ontem e para um desmemoriado como eu, o filme seguia vivíssimo em minha mente. Sobretudo em relação à atuação maior-do-que-a-vida do De Niro. Ainda estava lá, no inconsciente, os rompantes de fúria do Jake La Motta. Mas não é só isso, é a complexidade do mundo inteiro encapsulado em um ser. Um lutador vitorioso e derrotado. Egocêntrico, paranóico, violento, sanguíneo. De Niro está completamente assustador no papel e sua famosa transformação física é o sinal do comprometimento para com o ofício. Merecidamente premiada e reconhecida como uma das grandes atuações da história.<br/><br/>Já chamava a atenção, claro, tanto que concorreu ao Oscar de Coadjuvante, mas é preciso reconhecer o quão imenso é o pequenino Joe Pesci! Sua atuação é tão cheia de magnetismo que ele não fica eclipsado pela presença de tela do De Niro. A interação de ambos é ABSOLUTE CINEMA!<br/><br/>Direção, montagem, edição, fotografia, efeitos sonoros. Cada um destes aspectos está entre os momentos de maior esmero que já vi representado em tela. Há um plano sequência que apresenta a saída do Jake do vestiário até o ringue que é de explodir o cérebro, coisa de raro talento. O italianinho sabe das coisas!<br/><br/>Na outra ocasião havia atribuído 4,5 e penso que tenha sido pela falta de identificação com o protagonista. É sempre algo que puxa o espectador, você busca algo que te aproxime, que te marque emocionalmente na figura condutora do filme. Mas, de fato, não tem como gostar do La Motta (embora, reconheçamos, ele representa ainda hoje boa parte da parcela masculina desta esfera cósmica em que habitamos). A despeito disso, não há como não dar nota máxima à técnica apresentada e a qualidade dos envolvidos. O filme é perfeito!