Últimas opiniões enviadas
Meu noivo assistiu e achou um filmão, então fez questão de me levar para ver também, e realmente ele estava certo: filmão.
Há muitas coisas para serem discutidas a respeito do filme, como o desejo (a vontade) de ser amado, a ilusão de que algo que não pode se comprar com dinheiro poderia ser comprado com um desejo (o pedido que ele faz), o impacto de achar que está desejando algo para si mesmo quando na verdade está controlando o arbítrio de outra pessoa, o abuso (consciente por parte do Bear ou não) decorrente desses acontecimentos e tudo o mais.
Achei muito interessante os detalhes deixados no filme, principalmente a conversa da Nikki com o Bear sobre gostar de alguém antes do desejo; a questão de a Nikki querer ser escritora e como essa ideia impacta na narrativa; a relação dele com a Sarah; o desejo feito pelo Ian; e o último desejo feito pela Nikki.
Primeiro, a conversa da Nikki com o Bear pode deixar aberta várias interpretações. Enquanto eu achei que ela estava deixando claro que a Sarah gostava dele, meu noivo achou que ela podia estar dando a entender que ela gostava dele mas talvez nunca fosse deixar claro, porque ela diz algo como "se eu estiver a fim de alguém, não vou deixar tão na cara assim". E isso faz sentido com a personalidade dela, até porque ela passou dois anos ficando com o Ian em segredo, tecnicamente sem sentimentos, e nem isso eles deixaram escapar.
Sobre a Nikki querer ser escritora, duas partes são interessantes. A primeira é quando ela está falando com o Bear sobre querer sentir amor (e ela não diz se é um amor romântico ou não, porque ela estava se referindo a não amar o trabalho). Então, ele conclui que "é um romance", mas ela diz que "é uma história de amor", e ela pergunta: "e tem diferença?". A Nikki não responde. Mas (!!!) é uma convenção (EUA/Brasil etc.) que romances têm final feliz, enquanto histórias de amor não necessariamente seguem esse rumo no quesito romântico, casal junto por enquanto ou para sempre e tudo o mais. O que é muito engraçado, porque ele enxerga o que eles têm (depois do pedido, pelo menos a princípio) como um romance; ele quer acreditar que sim. Mas é uma história de amor (e terror).
O segundo ponto é quando ela conta o livro que está escrevendo, como se fosse a vida dela atualmente versão João e Maria. Quando ela está contando, a Nikki ainda é a enfeitiçada, mas dá para ver que quem escreve a história é a Nikki verdadeira, a que está presa dentro dela, o que nos faz pensar: o que colocamos na arte é o que, no nosso interior, tratamos como a verdade? Gosto muito, muito mesmo disso! Porque a Nikki enfeitiçada jamais daria a entender que vê o Bear como um irmãozinho que está estuprando ela todas as noites, mas é basicamente isso o que está acontecendo para a Nikki de verdade, lá no fundo, a que não consegue mais se deixar sair por conta do desejo do Bear.
A relação do Bear com a Sarah é interessante porque é aquela velha história de Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade: Sarah que amava Bear que amava Nikki e assim por diante. E é muito interessante todos os momentos que a Sarah se mostra para o Bear da maneira que ele queria que a Nikki se mostrasse (ela presta atenção no que ele diz, mostra solidariedade quando a gata morre, compartilha coisas pessoais com ele, descansa a cabeça no ombro dele, o chama para conversar e abrir a carta da Luther, se declara para ele), mas ele só passa a dar valor a essas coisas quando sofre a desilusão amorosa por conta da Nikki, quando a Nikki já não está agindo de um jeito que beira o que ele considera aceitável o bastante para ficar com ela, só que essa hora é tarde demais. E aí eu me pergunto: por que as pessoas precisam necessariamente sofrer pelo que querem antes de enxergarem o que poderia ter sido melhor para elas? Não seria mais fácil se ele tivesse aberto o coração (no sentido de abrir passagem para a Sarah entrar) e tentado pelo menos conhecer ela melhor? Porque tipo, ele queria se sentir amado, mas só valia se fosse pela Nikki? Parece que não, porque quando ele estava com a Sarah, parecia que algo podia surgir ali... mas de novo: isso só depois que ele se desiludiu. Enfim, muitos pensamentos! Obviamente, não dá para escolher por quem a gente se apaixona, mas talvez fosse possível ele abrir a possibilidade de isso acontecer, porque me aprece que o problema era que ele estava emocionalmente indisponível por conta de uma pessoa que não necessariamente estava disposta a se abrir emocionalmente para ele também.
Achei o desejo feito pelo Ian super necessário no filme, porque, primeiro, totalmente realista! E segundo, evidencia como o Bear foi otário, já que ele podia ter pedido literalmente qualquer coisa. E mesmo quando se pode pedir literalmente qualquer coisa, quando o céu é o limite, o Ian escolheu dinheiro (achando que não funcionaria, mas funcionou), e o Bear escolheu algo que tecnicamente o dinheiro não pode comprar (nem o desejo dele). Enfim. Teve uma pessoa no fórum que falou que a mãe escolheu ficar linda e ficou. O problema dos desejos só parece aparecer de verdade quando tem uma segunda pessoa envolvida, porque aí você está desejando algo que vai mexer com essa pessoa, o que é simplesmente terrível. Moral da história: não tente controlar o desejo dos outros.
E o desejo final dela eu achei simplesmente genial. Porque tudo faz sentido! Mas assim, se ele não tivesse se matado antes de ela desejar que ele a amasse mais do que tudo no mundo, as coisas teriam ficado bizarras. Um teria ficado preso ao outro por uma ilusão para sempre, os interiores deles querendo se matar. E aí essa ilusão é tão forte que, como meu noivo falou (e agora, pensando melhor, faz muito sentido), é como se fosse uma nova versão de Romeu e Julieta, mas aí quando ela está para se matar, sai dessa ilusão, volta à consciência e sofre por tudo o que aconteceu. E agora, a única pessoa que não teve escolha de nada no filme inteiro é a única que vai ter que lidar com as consequências, porque todos os seus amigos estão mortos.
Para mim, algumas coisas foram extremamente previsíveis, principalmente em relação à Sarah, como o fato de que no jogo com certeza estaria escrito "beije a pessoa à sua esquerda" no bloco do Bear e o fato de ela ter entrado na Luther. Apesar de ser normal ter clichês, ainda mais quando temos um terror com pitadas de comédia e romance, me pegou um pouco desprevenida eu saber exatamente o que aconteceria pelo fato de que todo o restante do filme me pegou de surpresa. Quando há antas quebras de expectativa, é até estranho ter algo tão normal dentro da narrativa, e isso quebrou um pouco para mim, tipo, "é óbvio que aconteceria dessa forma". Ainda assim, foram poucas cenas e, em geral, o filme me surpreendeu bastante.
Acho que ainda tem muita coisa para destrinchar e sobre o que pensar, porque as personagens foram muito bem construídas, em camadas, como seres humanos, principalmente o Bear e a Nikki.
Por isso, não conseguimos saber de fato o que estava se passando na cabeça deles ou prever o que aconteceria se algo tivesse sido diferente (se o Bear tivesse falado o que sentia, se ele tivesse escolhido a honestidade em vez de forçar algo que talvez não fosse para ser, pelo menos não daquela forma). Mas não é isso o que ele escolhe, afinal, ele já é uma pessoa com problemas (vemos isso pelos remédios dele) e solitária, e pode muito bem ter confundido uma simples gentileza com uma paixão. E a Nikki, bom, talvez ela tenha alimentado muito as expectativas do Bear (já que ela sabia que ele gostava dela e podia ter cortado o mal pela raiz antes), mas talvez ela estivesse um pouquinho disposta a sair com ele caso ele tivesse sido honesto (na minha opinião, ela teria falado a real para ela, até mesmo por conta da cena de João e Maria, mas vai saber?!). O fato é que nunca saberemos, e isso é muito interessante porque nos permite ter diversas interpretações a respeito do filme.
Enfim, acho que vale a pena ver de cabeça aberta, ainda mais para pensar a respeito dos temas propostos! Direção excelente, jogadas de câmera muito interessantes, fotografia ótima, música sensacional... E tudo isso com o orçamento de um pão com ovo e um pingado (considerando a indústria cinematográfica) e um diretor e elenco que tem da minha idade para baixo. Que loucura. Sensacional!
Ah, e um último detalhe: eu simplesmente AMEI o fato de o título ser um efeito prático. (E quanto mais eu penso em Obsession, mais eu gosto de tudo o que foi feito no filme.)
Me lembrou Medianeras (2011), É assim que você a perde, do Junot Díaz, e Decisão de Partir (2022) (para este último, a primeira história, especificamente). Não fazia ideia de sobre o que se tratava Chungking Express (título que faz muito sentido por conta do caos apertado visual que é Hong Kong) e me surpreendi de diferentes formas. A fotografia é incrível, o cenário, os enquadramentos, a montagem. Fiquei encantada! Algumas coisas são muito engraçadas e outras nos fazem refletir. Particularmente adorei o fim da segunda história (é exatamente o tipo de final de que eu gosto), então terminei o filme com um sorrisinho no rosto e a sensação de que eu tinha encontrado mais uma obra sobre a qual não fazia ideia do que pensar, mas que tinha me tocado bastante. Valeu muito a pena! Espero revisitar mais algumas vezes no futuro.
Últimos recados
O Oscar 2017 está logo aí e teremos o nosso tradicional BOLÃO DO OSCAR FILMOW!
Serão 3 vencedores no Bolão com prêmios da loja Chico Rei para os três participantes que mais acertarem nas categorias da premiação. (O 1º lugar vai ganhar um kit da Chico Rei com 01 camiseta + 01 caneca + 01 almofada; o 2º lugar 01 camiseta da Chico Rei; e o 3º lugar 01 almofada da Chico Rei.)
Vem participar da brincadeira com a gente, acesse https://filmow.com/bolao-do-oscar/ para votar.
Boa sorte! :)
* Lembrando que faremos uma transmissão ao vivo via Facebook e Youtube da Casa Filmow na noite da cerimônia, dia 26 de fevereiro. Confirme presença no evento https://www.facebook.com/events/250416102068445/
Nenhum filme para mim é mais importante do que La La Land, e revê-lo no cinema depois de quase dez anos foi uma experiência diferente do que eu esperava. Achei que eu fosse chorar ou qualquer coisa do tipo, mas, na verdade, não. Eu só vivi a experiência do começo ao fim com um sorriso no rosto e um aperto no coração, porque é um filme de sentimentos mistos. Reparei em detalhes que nunca tinha percebido, aproveitei cada frame naquela tela gigante, cada detalhe de como eu sabia que o filme tinha sido feito, cada som naquele volume fenomenal da sala de cinema. Acho que entendi melhor a história do que eu entendia antes e me lembrei de por que eu amo tanto tudo isso, tudo o que La La Land representa e apresenta: a história de amor de Mia e Sebastian um pelo outro, por Los Angeles, pela atuação e pelo jazz, pela arte de contar histórias, pela realização dos sonhos e o que deixamos para trás na hora de realizá-los.
E é triste relembrar que o Seb's nunca daria certo se eles estivessem juntos, mas que para o Seb's dar certo ele tinha que deixar a Mia para trás. Que o problema superficialmente podia ser um, mas sempre acabaria batendo na mesma tecla. Que nada é justo, mas que as coisas podem ser boas de diferentes formas.