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No final da sessão de Hamnet, nova obra da talentosa Chloé Zhao, dentre suspiros e lágrimas do público que ali estava, enquanto os créditos finais rolavam, precisei de um tempo sentado, sentindo e respirando, deixando fluir pelo corpo toda aquela catarse emocional que havia tomado conta da minha mente e coração.
Fazia um tempo em que eu não me emocionava tanto. Quando eu falo que cinema é minha religião, me refiro a experiências cinematográficas como essa, o que Chloé Zhao faz aqui é de um nível espiritual.
São duas as mulheres presentes aqui, que se tornam verdadeiras forças da natureza.
A primeira é a própria diretora Chloé Zhao, que filma Hamnet com uma força e convicção ímpares. A viscelaridade da dor e angústia, apesar de nada sutis, funcionam com a intensidade certa. O que poderia facilmente ser um dramalhão, acaba na verdade sendo um aberto estudo da dor, do luto, da devastação da perda e seus ciclos, passando da negação e culpa, até a busca de formas de lidar com esse turbilhão de sentimentos.
Zhao traz esse vínculo entre a natureza, a vida e a morte, e a melancolia que habita nesses meios. A fotografia, aliada a direção, traz texturas, enquadramentos e momentos de contemplação, que exploram muito bem a beleza e a dor de se estar vivo. E o medo da iminência da morte, principalmente se envolver um filho. No meio disso tudo, há o amor.
A outra mulher que faz desse ser um filme memorável é a maravilhosa Jessie Buckley, que entrega uma atuação visceral e devastadora. A entonação da voz, o movimento corporal, o olhar, é uma entrega total, impactante e magnética. Para muito além da "esposa do Shakespeare", Buckley imprime uma personagem forte, difícil, quase uma wicka ou bruxa, nesse elo íntimo que tem com o ambiente ao redor, especialmente a natureza.
Paul Mescal e Emily Watson também estão muito bem, embora o filme de fato seja de Buckley. A trilha sonora é outro ponto extremamente positivo, em um dos melhores trabalhos sonoros de 2025.
Mas para muito além do luto, Hamnet é sobre a arte, e como o ser humano a usa para lidar com as malezas da vida, para canalizar a dor e descarregar a tristeza de forma poética. Arte é sobrevivência, é tentar entender a ambiguidade de se estar vivo, e o principal, saber seguir vivo. Eis o grande desafio. Ou parafraseando Shakespeare, "eis a questão".
Hamnet te devasta, te quebra em pedacinhos. Para então, naquele final arrebatador, você ter alguns dos pedaços recolocados. A arte abranda, a arte trata e cura. É como um caloroso abraço apertado de alguém que amamos. Bravo, e obrigado, Chloé Zhao.
É amor, capitalismo ou pragmatismo?
Eu gostei de Amores Materialistas, com algumas ressalvas. Preciso dizer que apesar de amar o cinema como um todo, da obra infantil até o terror, são os romances e as comédias românticas os gêneros que menos assisto ou aprecio. Especialmente os clichês e "água com açúcar". Acredito que essa premissa de amor açucarado que supera tudo é irrealista, além de superficial, muito fantasiosa, me afastando de criar elo com as obras.
Há sim bons romances épicos e clichês, mas são raros os que me conecto. Prefiro romances mais dramáticos e realistas, geralmente agridoces ou amargos, tal qual a vida real. Aprecio muito Vidas Passadas, obra anterior de Celine Song, que com imensa sensibilidade, disserta muito bem sobre encontro de almas, hora errada, saudades e a não ressignificação nas relações. Então haviam expectativas em cima do seu novo longa.
Primeiramente, Amores Materialistas se vende mal, o marketing traz toda uma noção de romance tradicional ou comédia romântica leve, o que não é verdade, o que vai frustrar muita gente. Bem verdade, eu gosto de um filme "clickbait", que vende uma ideia tradicional, uma multidão vai ao cinema assistir e leva uma rasteira, um bom tapa na cara. Barbie é um belo exemplo. Materialists meio que faz isso, sendo bem mais "cabeça", maduro e realista do que a média do gênero, enganando muita gente, o que é legal.
Por outro lado, eu não gostei tanto do final, meio que quebrando a matemática da coisa toda. É quase um anticlímax pra crítica que vinha sendo construída. É interessante querer se discutir o papel do capitalismo nas relações, pena que é feito de forma superficial. A discussão é válida, havia espaço para explorar melhor isso, porém os arquétipos ficam no raso, tinha base para filosofar de forma mais profunda.
A direção de Celine Song é elegante, tem alguns enquadramentos sutilmente bonitos. É mais afastada, fria, impessoal, ampla, quando Dakota Johnson está com Pedro Pascal, nessa falta de sentimentos reais. E quando Dakota está com Chris Evans, os enquadramentos são mais fechados, closes nos rostos, é mais quente, mais solto e orgânico, há ritmo ali.
Visualmente é uma obra toda simplista, mas elegante. Até a fotografia, nunca chamativa, mas sempre naturalista.
Eu não gostava de Dakota Johnson logo que surgiu, principalmente pelos problemáticos Cinquenta Tons de Cinza, mas do remake de Suspiria em diante, vez por outra ela entrega um papel muito interessante. Acho que aqui ela está muito bem, lindíssima aliás, numa personagem contida, mas bem desenhada, ela sabe o que quer, é ambiciosa, mas humana, reconhece as falhas.
Eu compreendo o personagem de Chris Evans, quebrado financeiramente e como isso também o quebra emocionalmente, inclusive na vida, já me vi nessa situação (sem os atributos físicos, é óbvio hahaha). Mas confesso que compreendo mais a persona da Dakota e sua visão mais matemática e pragmática (prática).
Vamos lá: por um lado o capitalismo atrapalha sim uma relação, digo nessa coisa de se comprar o sonho americano, as propagandas, os estilos de vida que influencers e selfies vendem, restaurantes, ter uma vida acima do confortável, viagens e todas as possibilidades que o dinheiro adquire. Se você anseia uma vida assim e quer dividir com alguém, a falta de grana irá te consumir.
Se fosse só isso, facilmente cairíamos no campo do interesse, mas tudo é mais complexo do que isso. Sim, há muitas pessoas interesseiras, materialistas por dinheiro e corpos perfeitos. Mas no caso da protagonista (Johnson), ela é ao mesmo tempo pragmática. Note que ela acredita no amor, no encanto. Mas ela não deixa a matemática de lado, os cálculos, as probabilidades e os periféricos que acompanham uma relação. A falta de dinheiro impede sonhos, o que causa frustração, o que levará à discussões, o que desgasta a relação.
Como qualquer "boa pessoa" realista/pessimista, ela enxerga lá adiante os resultados dos seus cálculos matemáticos de agora. Eu me identifico muito com isso, particularmente.
"Tudo na vida é sobre sexo, exceto o sexo, que é sobre poder", escreveu Oscar Wilde.
Acho muito interessante essa protagonista compreender o cinismo de um mundo capitalista, medir o amor com status, carteiras, estatísticas, nesses negócios comerciais chamados de casamento. É assim desde que o mundo é mundo, corpos e sonhos sendo vendidos e comprados, a gente só finge que não, até porque o amor envolve sentimentos belos no meio de toda essa "praticidade" feia.
Dinheiro não é tudo, não compra amor, mas não se romantiza pobreza, e a falta de grana corrói relações. Tente equilibrar isso no mundo de hoje, e boa sorte (rsrs).
Pena que o roteiro não termina a discussão que levanta, deixando o debate apenas jogado no campo das ideias, concluindo o filme de forma mais clichê e menos corajosa. Ok, seria muita polêmica.
Amores Materialistas é na sua maior parte bonito, tem uma protagonista intrigante, tem boas intenções na sua desconstrução de um romance, indo inicialmente na contramão do tradicional, para depois tentar uma reconciliação com a fantasia romântica. Poderia ser melhor desenvolvido e vendido.
Com Vidas Passadas e Materialists, Celine Song se revela uma romântica realista, que acredita sim no amor, mas em um amor que vem acompanhado de vários "mas" e "poréns", tal qual a vida real. Eu compreendo, me identifico com tudo isso.
Nota: 7
Obs: acredito que com o tempo, é um filme que vai crescer e se tornar um cult.
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