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Gente, eu vou ter que problematizar. Foi mal.
“Guerreiras do K‑Pop” tenta se vender como uma aventura empoderadora, mas por trás do brilho neon e das coreografias estilizadas existe uma narrativa surpreendentemente desconfortável. O filme constrói um mundo onde um povo decide realizar uma limpeza étnica contra outro grupo considerado ‘essencialmente mau’. A justificativa é simples e perigosa: se eles nascem monstros, então merecem ser exterminados.
A protagonista, ao descobrir que é “meio monstra”, embarca numa jornada de autodescoberta que poderia ter sido uma crítica ao próprio sistema opressor. Ela encontra outro personagem monstro, que se sacrifica por ela, e isso a leva a compreender que sua natureza não determina sua moralidade. Até aqui, tudo aponta para uma virada ética: se ela não é má por nascer diferente, então o genocídio é injustificável.
Mas o filme vira de cabeça para baixo justamente nesse ponto. Em vez de questionar o sistema, ela o reforça. Em vez de romper com a lógica genocida, ela a executa até o fim — eliminando toda uma população. A mensagem final, portanto, não é sobre empatia, coexistência ou superação de preconceitos, mas sobre justificar violência extrema quando convenientemente enquadrada como “heroica”.
É uma inversão moral estranha, típica de certas narrativas hollywoodianas que confundem catarse com extermínio. O filme tenta nos fazer torcer por uma protagonista que, ao aceitar sua identidade, decide que o caminho é destruir o outro lado por completo. É uma conclusão que soa vazia, apressada e, no fundo, contraditória com o próprio arco emocional que o filme parecia construir.
No fim, “Guerreiras do K‑Pop” é visualmente chamativo, mas eticamente raso. Ele desperdiça a chance de explorar nuances e cai na solução mais fácil; e mais problemática. Sai-se do filme com a sensação de que a história queria dizer algo sobre identidade e aceitação, mas acabou entregando apenas mais um espetáculo de destruição embalado como triunfo moral.
Tinha que ser estado-unidense.
A grande questão aqui não é se o filme é bom. Tecnicamente, a atuação de Timothée Chalamet é sólida e a montagem é impecável. O problema é o que o filme escolhe celebrar.
Marty Mauser não é apenas um anti-herói; ele é praticamente o arquétipo do narcisista contemporâneo: um homem impossível de torcer, que atropela leis, ética e pessoas em nome de uma obsessão cega pelo topo.
O filme parece operar sob a lógica de que, se você for implacável o suficiente, o mundo eventualmente se curvará aos seus pés. Nesse sentido, ele reflete perfeitamente o nosso tempo: uma era em que ego, autoconfiança performática e brutalidade competitiva frequentemente parecem valer mais do que competência real ou caráter. Ao transformar Marty em uma figura aceitável (ou até digna de um épico) Safdie flerta perigosamente com a ideia de que o sucesso justifica os meios.
Talvez a intenção seja crítica, claro. Mas aí lembro de como muita gente abraçou o Capitão Nascimento como herói absoluto, ignorando que Tropa de Elite também pretendia ser uma reflexão sobre violência e autoritarismo. Quando um personagem é apresentado com tanta aura de grandeza, até que ponto a crítica realmente chega ao público?
Marty Supreme acaba sendo um estudo de personagem fascinante, mas que deixa um gosto amargo. No fim, Marty não é só um indivíduo, ele é o espelho de uma sociedade que parou de questionar a moral dos vencedores e passou apenas a aplaudir seus troféus.
Se o cinema também serve como registro do seu tempo, esse filme parece capturar com precisão um mundo que premia o pior da humanidade, desde que venha acompanhado de uma vitória esmagadora.
Últimos recados
Pessoal…
O Oscar 2012 está chegando, e nós do Filmow resolvemos fazer um bolão para vocês usuários. E é claro que o vencedor não irá sair de mãos abanando, iremos dar um iPad 2 para o primeiro colocado.
Então não perca essa chance, é só entrar na pagina do bolão, fazer o seu cadastro e já começar a dar os seus palpites.
http://filmow.com/bolao-do-oscar/
Participe e boa sorte.
Thanks, :)
Obg querido!^^ beijos
O conto do Ivan é simples: dois homens competem cantando em um bar. Um tem técnica, o outro é um camponês. No final, o camponês vence porque canta com a alma.
Acho que o diretor tentou trazer essa ideia de “camponeses” para hoje; pessoas comuns, descobertas nas redes sociais, colocadas dentro de um filme com produção de Hollywood. E isso, por si só, é interessante. Até porque todos eles são talentosos.
O problema é que ele não trouxe só as pessoas, trouxe também a linguagem. A estética do TikTok aparece o tempo todo: há cenas de dancinha, quase não há diálogo, e até os momentos dramáticos são construídos em gestos rápidos, pensados para impacto imediato.
No fim, em vez de transformar essa linguagem em cinema, o curta parece apenas reproduzi-la em um formato mais sofisticado. Fica como se ele tivesse filmado sua timeline.