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Um filme que se propõe a apresentar um rito ancestral da Igreja Católica Apostólica Romana precisa, acima de tudo, entregar cuntness e estética — e Edward Berger entrega tudo isso com maestria. Conclave é uma experiência cinematográfica que supera, para mim, o impacto de All Quiet on the Western Front, porque aqui a tensão narrativa é construída com uma precisão quase cirúrgica, acompanhada por uma trilha sonora impecável assinada por Volker Bertelmann. Cada detalhe sonoro, incluindo a captação das respirações em momentos cruciais, contribui para uma imersão digna de estatuetas. É um trabalho primoroso em termos técnicos e artísticos.
Além disso, embora Ralph Fiennes entregue uma atuação sólida, sua escolha para interpretar o condutor do conclave, pertencente à ala mais "progressista", soa paradoxal diante do contexto final do filme. É impossível ignorar sua postura vocal em apoio à transfobia de J.K. Rowling, o que entra em conflito com os valores que seu personagem simboliza na narrativa. O argumento de separar o autor da obra encontra aqui um limite ético: o discurso deve se alinhar com o que, onde e como se representa. Quer se redimir? Peça perdão pela defesa do que é indefensável.
Através da realização do documentário "Incompatível com a Vida" (2023), a diretora Eliza Capai transforma um relato íntimo sobre a interrupção de sua gestação de um feto anencéfalo em um filme-protesto, amplificando as vozes de outras genitoras de diferentes credos, classes sociais e ideologias que enfrentaram o mesmo luto. Buscando provocar uma resposta emocional do público acerca dos direitos reprodutivos e da garantia do atendimento médico adequado e humano.
Acredito que o simbolismo do corpo imerso no mar, frequentemente retratado ao longo do filme, marca, em uma interpretação pessoal, o sentimento de solidão e isolamento vivido não apenas pela diretora (intensificado em um cenário pandêmico), mas também os desafios emocionais e sociais que tantas pessoas enfrentam ao lidar com a questão do aborto. Mesmo com a parceria de outrem, o corpo que vivencia a gravidez tem sua experiência emocional intensificada. Nada no documentário me marca mais do que o grito quase gutural de Eliza, sentada embaixo da água que cai do chuveiro, e o corte seco para ela segurando seu feto, ainda pequeno o suficiente para caber quase na palma de uma mão, numa cama de hospital.
Para além das entrevistas, "Incompatível com a Vida" aborda algumas vezes o episódio da criança de 10 anos, residente do Espírito Santo, que foi estuprada pelo tio, engravidou e foi alvo de uma série de debates no Brasil em 2020. O motim de grupos fundamentalistas religiosos, potencializado por Damares Alves, na época ministra do governo Bolsonaro, concentrou-se em frente ao hospital no qual a menina seria atendida, gerando um ambiente hostil e pressionando a equipe médica envolvida a não realizar o aborto.
O Brasil segue uma legislação restritiva em relação ao aborto, permitindo-o apenas em casos de estupro, risco de vida para a mãe e anencefalia do feto, conforme a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) em 2012.
Os créditos do filme sobem em uma adaptação sensível da música "Alumiou", cantiga do ritual Baião de Princesas da Casa Fanti Ashanti, de São Luís, Maranhão, interpretada por Juçara Marçal e Décio 7.
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Obrigado mesmo pela sua mensagem. Te entendo muito bem e sei como é foda. Eu tinha 17 anos na época e a pessoa 26. Me ferrou muito e criou muitos traumas, mas a vida passa e a gente vai tentando superar (com muita terapia) haha. Fique bem!
Deus é mais rsrs
Clímax ta amarrado em nome de jesus! haha
Uma coisa bem pobrinha de tudo