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Data de lançamento
5 Fev. 1988Duração
Nos anos 60 em Praga, Tchecoslováquia, Tomas (Daniel Day-Lewis), um médico totalmente apolítico, tem como hobby ter diversas parceiras sexuais, mas evitando sempre um maior envolvimento. Mas duas mulheres: Sabina (Lena Olin), uma artista plástica, e Tereza (Juliette Binoche), uma garçonete que sonha em ser fotógrafa, vão estar muito presentes na vida dele. Mas ao serem atingidos pelos acontecimentos de 1968, conhecido como "A Primavera de Praga", quando tanques soviéticos invadiram a capital tcheca para pôr fim a uma série de protestos, a vida deste triângulo amoroso é afetada, pois seus sonhos foram destruídos e suas vidas mudariam para sempre.
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O filme é bom, mas falha em alcançar a profundidade e magnificência do impecável livro.
A beleza de Juliette Binoche e Daniel Day-Lewis é tanta que chega a ser agressiva.
A tensão sexual entre Sabina e Tereza na sequência do ensaio fotográfico combina beleza e erotismo de forma realmente impressionante, sobretudo por se tratar de uma produção dos anos 1980 dirigida por um homem. Aliás, um dos pontos altos do filme é justamente o modo como explora as imagens de mulheres nuas, muito presentes no romance, sem jamais permitir que o erotismo resvale no pornográfico.
É conhecida a aversão de Kundera a essa adaptação, que inclusive o levou a nunca mais autorizar versões cinematográficas de seus romances. Assistindo ao filme, é fácil compreender o motivo. No livro, o autor se perde em inúmeras divagações: a ideia do eterno retorno em Nietzsche e o provérbio alemão "einmal ist keinmal" ("uma vez é nunca"); o léxico das palavras incompreendidas dentro de uma relação; o sentido de responsabilidade no mito de Édipo; o memorável debate teológico em torno da merda entre os séculos II e IV; o kitsch enquanto negação que sustenta um "acordo categórico com o ser" (a crença de que o mundo foi criado como devia ser, ou a busca desse ideal), etc. O filme, como esperado, elimina a maior parte dessas discussões em função da narrativa, e acerta muito nesse sentido. Ele erra, na verdade, quando tenta colocar algumas delas na boca das personagens, o que não apenas rebaixa a argumentação, como também produz diálogos inverossímeis.
Também por exigências narrativas, a adaptação precisou suprimir uma série de subtramas do romance. Franz, por exemplo, o protagonista do capítulo sobre a "Grande Marcha", é reduzido a um breve caso na vida de Sabina, cuja trajetória também é fragmentada em favor do casal Tomas e Tereza. Embora essa decisão me pareça compreensível (não seria possível abordar todas as subtramas em apenas três horas), ela não impede que o filme apresente um número considerável de sequências "apressadas", nas quais os acontecimentos se encadeiam apenas para garantir inteligibilidade à trama, sem maior aprofundamento.
Por fim, não posso deixar de comentar o modo como o anticomunismo latente do romance é reforçado pelo filme, o que talvez tenha sido inevitável. Ao reproduzir as imagens da invasão da Tchecoslováquia e apresentar os exilados como sujeitos engajados na luta contra o comunismo, a adaptação reforça a noção arendtiana de totalitarismo (o velho "kitsch liberal", para evocar a reflexão de Kundera). O romance, por sua vez, ao elaborar a memória em torno do episódio de 1968, ajuda-nos a apreender o sentido do ressentimento de muitos países do Bloco do Leste em relação ao imperialismo russo, bem como o renascimento dos nacionalismos no Leste Europeu após a dissolução da URSS e do Pacto de Varsóvia. A liberdade sexual defendida e vivida por Tomas também é muito mais bem explorada no livro, permitindo-nos refletir sobre o impacto de Maio de 68 e dos ideais libertários (ou de "leveza", se preferirem) nas ex-repúblicas socialistas.
Ainda assim, creio que gosto mais do filme do que do romance. Acredito que ambos foram alçados ao cânone ocidental por servirem à causa anticomunista, mas o modo como Philip Kaufman transpõe em imagens a vulnerabilidade de Tereza realmente alcança momentos de grande cinema. Com todas as ressalvas que tratei de elencar, ainda penso que vale a pena conferi-lo.
Tem Alguns Spoilers...
Amor, liberdade e existencialismo. "A Insustentável Leveza do Ser", deve ser um puta livro! Daqueles que você cai pra dentro da história e não quer sair mais. Porque esse filme do Philip Kaufman, nos leva pra longe, pra uma história de amor complexa na efervescente cidade de Praga nos anos 60, que culmina na terrível invasão soviética e sua cortina metálica que aprisionou a vidas de todos.
Tomas (Daniel Day-Lewis) é um médico libertino, que vive sua vida sob o princípio da "leveza", o desapego e a busca incessante por novas experiências amorosas, sem se preocupar a ter compromissos. Sua vida vira de ponta cabeça quando ele se envolve com Tereza (Juliette Binoche), uma atendente de café e fotógrafa sensível, idealista que anseia por uma conexão profunda e duradoura, que simboliza a "pesadez" da relação da alma, que se prende a carne para viver as experiências desse mundo. E no meio dessa relação amorosa, Sabina (Lena Olin), era amante de Tomas, bem antes de sua união com Tereza. Artista, boêmia, vida loca, Sabina vivia sob o manto da leveza, num paraíso oculto e apócrifo, igual a de Adão com Lilith, antes de Eva.
O filme tece de forma magnifica as vidas dos três personagens, explorando suas paixões, dilemas morais e escolhas que moldam suas ações e seus destinos. Kaufman consegue traduzir para a tela a rica tapeçaria das ideias filosóficas de Kundera, expondo de forma visual a dicotomia entre a leveza da existência, com sua imaterialidade irresponsável, que não pesa definitivamente, da pesadez do mundo, da responsabilidade, do amor e destino.
O filme é uma dança vulgar da liberdade com o apego, da paixão com o amor. Opostos que se unem, representando um drama conjugal comum a vida de muitos. Tomas vive num mundo onde as instituições do compromisso não existem. Ele deita na noite, sai com as Minas, não toma nem banho e nem sequer lavar as mãos quando volta. Tanto que o faro "peccatum xoxoctum" de Tereza, não é nada fora do comum. Mano, não vai ser eu que vai explicar isso não rsrsrs...
As atuações são magistrais, Daniel Day-Lewis entrega uma performance hipnotizante com seu Tomas, incorporando a complexidade de suas ações, com charme e sedução bem mundanos, coisa de bar e puteiro. Mas ao mesmo tempo, numa luta interna entre o desejo de liberdade e o amor por Tereza. A atuação da Juliette Binoche é comovente, a Tereza transmite a vulnerabilidade de uma mulher que quer ter uma relação tradicional, estável, com amor e lealdade, mas acaba não tendo. Seu parceiro encarna praticamente a rua Augusta oitentista. Lena Olin é magnetiza nossos olhares com sua Sabina, exalando uma sensualidade cerebral e uma compreensão única da liberdade e da traição.
A produção é incrível, as locações do filme são um colírio pros olhos, onde a fotografia capturou a beleza romântica de Praga em imagens de dar orgulho de ser oitentista. A direção de Kaufman é segura, ele navega pela complexa relação de Tomas, Tereza e Sabina, expondo suas belezas e suas imperfeições, mas não como um juiz, e sim como um observador distante, que assiste do alto as tolices e as ilusões humana.
A invasão soviética em Praga é um horror, a desculpa de "Nós viemos libertar vocês" e o "Nós viemos salvar vocês", são os mesmo de ontem, de hoje e de amanhã, em que o comunismo dá em seus palanques, acolhendo causas dolorosas, dizendo que é do povo. A frase do comandante russo para Tereza, é algo assustador "Vocês não percebem que nós amamos vocês", é o fundo do poço humano da engenharia social da esquerda. O governo do amor aqui do Brasil, desenha bem isso.
O filme ganha um preto e branco fascista, com tanques e exércitos nas ruas, contra uma população desarmada. Em imagens tão reais que parecem ser de arquivos oficiais da época. Mas as escolhas dos personagens, dão um tom mais leve e feliz pra história, onde a relação de Tomaz e Teresa, ganham um equilíbrio de quem cede seus paradigmas para conseguir viver com a pessoa que quer. Já Sabina, tem uma leveza estratosférica, essa vai longe, com asas de foguete pra suas paixões.
A imagem da curva da estrada bucólica e caipira do fim do filme, não saem das minhas lembranças. Finalmente felizes...
"A Insustentável Leveza do Ser" é uma dança, um verdadeiro balé das relações humanas, onde o equilíbrio parece entre a leveza e a pesadez, parece ser o único para se ser feliz.
Philip Kaufman e o escritor Milan Kundera, mostram Tomas, com sua leveza irresponsável sem compromisso e em estado fuga. Tereza, com sua ânsia pelo compromisso e lealdade, buscando uma ancora num mundo instável. E Sabina, com uma personagem ambígua, que transita entre os dois lados, apreciando a leveza, mas não sendo imune ao peso do mundo e suas consequências.
Não li o livro, mas o filme é foda. É um história conflitante, humana, com dramas pessoais sufocantes, num ambiente propicio as paixões, mas que se transforma num inferno politico claustrofóbico, onde a fuga e abandono do lugar e se si, parecem ser a única escolha para os personagens serem realmente livres e felizes..
Clássico cult.
uma das melhores adaptações de livro que já assisti. realmente, quem não leu o perfeito "a insustentável leveza do ser", de milan kundera, não vai saber da profundida filosófica que o quarteto (franz é relevante no romance - mas nem tanto no filme) traduz em suas relações.
muito fiel ao livro, embora ainda falte algumas partes do livro - mas são quase 3h de adaptação!
um dos meus favoritos da vida. e, de quebra, daniel day lewis sendo um dos homens mais lindos do cinema.
25.07.1993