Na agitada cidade mineira de Tombstone, Ben Carter (John Carradine), proprietário de bar, tenta se livrar do concorrente e contrata um pistoleiro para destruir o local. Uma vez que o xerife se recusa a lidar com o bandido, Wyatt Earp (Randolph Scott) um ex-olheiro do Exercito, é convidado para o cargo. Apesar de sua recusa inicial, Wyatt acaba aceitando o cargo de xerife e começa a limpar a cidade dos bandidos. Enquanto isso, mantém uma amizade/rivalidade com Doc Holliday (Cesar Romero), um jogador tuberculoso.
Sem anúncios
Aproveite o melhor do Filmow sem interrupções
Muito bom tb exemplar do gênero! Muita ação e suspense!
Presença do futuro Coringa da tv, o excelente Cesar Romero!
Mais um filme sobre a famosa amizade entre dois personagens mitos do Oeste Americano, Wyatt Earp (1848-1929) e Doc Holliday (1851-1887). Desta feita, representados pelos atores Randolph Scott e Cesar Romero, respectivamente. Como sempre não poderia faltar o tiroteio no famoso "OK Corral", porém desta vez com apenas um dos integrantes da dupla. Boas performances dos protagonistas, secundados pela bela Birnnie Barnes, a Jerry, vilã do filme. Cesar Romero, anos mais tarde ficaria conhecido internacionalmente por interpretar o vilão "Coringa", no filme Batman, em 1966, e na série para TV exibida entre 1966 e 1968.
"estamos crescendo muito rápido mas a pergunta é.. qual será maior, a cidade ou o cemitério?"
Bem seminal assistir ao filme numa relação de contraste com a versão do Ford. Acaba por elencar as heterogeneidades tanto dos estilos como dos distintos momentos do gênero — o pré e o pós-guerra —, revelando a retitude de Allan Dwan x o humanismo de John Ford.
Se no My Darling Clementine o filme era essencialmente sobre seu quarteto amoroso, diferentes personagens com diferentes motivações colidindo, aqui, o melhor momento da obra é quando ela sequer é sobre algum personagem específico. Pelo contrário, se encontra o pináculo quando a maior personagem é a vaguidão, a cidade em si que, na verdade, poderia ser qualquer outra. Tombstone de Dwan é metáfora, a de Ford metonímia. É a impassividade insistente do ator de Earp que faz com que ele seja um xerife, um exemplo, um símbolo e não o indivíduo.
É admirável como o diretor começa as coisas praticamente como uma ficção científica. Uma ingenuidade muito bem-vinda que apresenta cada pequeno detalhe do seu universo desértico como se fosse uma surpresa alienígena. Parte de um intertítulo explicando a ida massiva pro Oeste em busca de ouro e passa para uma introdução imagética bem lúdica, com intuito de estender seu didatismo a toda a singularidade daquela dimensão. Quando, por exemplo, através da gag, nos mostra um médico tão acostumado a ir de um parto para um tiroteio num mesmo dia, que pergunta de modo casual qual das duas opções seu paciente faz parte.
Daí, ao contrário do que poderia se dizer, a enxugada suprema da jornada de Earp pra se tornar xerife, resolvendo tudo em planos de pouquíssimos minutos, é um dos auges da franqueza. De maneira simplissíma, vai do herói egoísta ao egoísta heroico. Apresenta a "condição ignóbil" da fragilidade do posto de xerife que precisa recrutar alguém justamente no momento crítico e, logo em seguida, a "condição ignóbil" do homem que só decide ser xerife para poder dar o troco, acertar uma pequena vingança. Tudo resolvido em apenas duas sequências consecutivas, sintetizando a velha — e necessária — ambiguidade moral do cowboy.
O que ocorre devido o realizador estar concentrado numa espécie de "novidade informativa", nessa pura mostragem da "factualidade" própria do mito. Sem precisar de qualquer meandro. Sem precisar de qualquer epopéia. Sua melhor característica. No primeiro tiroteio de Wyatt Earp, Dwan não se importa com a construção do duelo, numa elaboração da ação, o pretendente a xerife resolve a questão em um só tiro que o diretor nem mostra, elipsa o disparo se concentrando no rosto do homem (o que funciona menos como mistério do que como observação do destemor e da resolução rápida). É isso, ele está interessado na situação pura, em divulgar o acontecimento em si, se atentar apenas na ética e nos homens próprios desse tempo, ou melhor, desse gênero. Por isso esse close-up, o travelling que apresenta Doc, ou algo bem mais espalhafatoso como a extravagância das imagens iniciais, o autor não recusa efeitos em prol do pragmatismo, pelo contrário, ele os subjuga para alcançar essa retitude.
Um jogo muito direto e único sobre as singuralidades do western. O que atinge o píncaro em dois momentos: o começo citado e o último tiroteio — em que os bandidos anunciam o local do duelo final apenas pro protagonista dar uns 5 passos pra frente e chegar no "lugar marcado". É sobre se atentar a cada acontecimento próprio do gênero como se cada um fosse uma grande descoberta. Novamente, uma "ingenuidade" muito bem-vinda.
A infelicidade é que, para além dessa relação direta, o grande "corpo do filme" se faz por uma dubiedade muito maléfica para a obra. A própria persona do Doc Halliday que macula grande parte da experiência justamente por isso: ser tratado como persona. É até bizarro, 3 dos 4 personagens principais aderem a essa direiteza total, concretizando uma relação antitética com as futuras motivações humanistas de Ford para com o quarteto. Do contrário, Dwan faz o ex-médico trair todo seu esquema enxuto tentando lidar com um drama muito específico, a despeito de seu entorno ecoar em simplicidade explícita.
A impassividade do rosto de Randolph Scott que conflita com o semblante nuançado de Cesar Romero (sim, o Coringa), não de modo positivo, mas numa ausência de coesão que faz com que a dupla comece a se anular simultaneamente. Sobre a atuação de Doc que requere que ele passe do matador cínico para o médico austero ignorando a condição de tudo aquilo que o rodeia, figuras que clamam por uma simbolização mais direta e ampla, isso é, mais arquetípica. Em tese, seu drama não necessitava tomar uma postura de tamanha especificidade. É simples, por trás do verniz, o drama é sobre o contraste do xerife que sabe lidar com o difícil equilibro de estar na intersecção do bem e do mal versus o pistoleiro doente que não sabe — o homem que sofre no meio da mulher puritana e da mulher devassa.
Dwan negligencia a benéfica descomplicação de sua experiência. Acaba até mesmo transfigurando Jerry por aproxima-la progressivamente de Doc. Ela que, até então, era puro artifício da dualidade bem x mal, manequim simbólico que conjugava em oposição à "mocinha de respeito" — tal como a dicotomia vida x funeral que a própria personagem se refere, quando Earp pede que ela deixe Doc, perpetuando essa miríade de polaridades que o diretor instaura desde a gag do começo do filme. Transforma a dançarina numa pretensa ponte para alguma história de amor mais "profunda". Os últimos planos dissimulados, que encerram a obra com o olhar de Jerry sobre a "tombstone", tentando esconder a função de acessório delegada à personagem em toda a metragem.
Por fim, é muito interessante perceber a franqueza do autor em relação ao western, porém, ao mesmo tempo, bem decepcionante vê-lo autossabotar-se, desconcentrar de certas motivações e optar por uma desvirtuação da própria experiência.
Um dos filmes mais famosos e elogiados do Allan Dwan e uma trama seminal para os grandes realizadores norte-americanos, mas que, aqui, apesar da ótima condição e do magistral elenco, sobrepõe muitas subtramas interessantes num curto espaço de tempo. Tanto que o Doc Halliday aparece mais que o próprio Wyatt Earp, isolado, sem a companhia dos irmãos. Incomodei-me um pouco com a disputa demorada entre as duas mulheres pela atenção do médico, mas o roteiro prioriza a dramaticidade inequívoca das situações, atropeladas pela duração extremamente limitada. O duelo final soou rasteiro demais, previsível, sem empolgação. Mas o que interessa ao diretor é a composição de personagens, as entrelinhas emocionais nos diálogos. Neste sentido, um filme interessantíssimo, que justifica muito bem a sua fama. Apesar da sua excelente interpretação, achei o Randolph Scott bem menos contido do que o tipo que consagraria em sua colaboração profícua com o magistral Budd Boetticher... (WPC>)