Ao som da musica sublime de Bach Pasolini nos apresenta a miserável periferia de Roma, onde vive Vittorio, mais conhecido como Accattone, um jovem cafetão que explora a prostituta Maddalena. Quando ela é presa, ele fica sem rumo até se apaixonar pela ingênua Stella, que tenta fazê-lo mudar de vida.
Sem anúncios
Aproveite o melhor do Filmow sem interrupções
O desajuste social de Vittorio se transforma em uma trágica e lírica via crúcis urbana, onde cercado por toda aquela violência, preconceito e pela implacável perseguição policial, ele descobre que a sociedade não guarda espaço para a regeneração dos marginalizados perante este contexto social exposto por Pasolini.
Em uma fuga desesperada por becos sombrios, o protagonista se depara com um desfecho brutal e inevitável. Sem direito a finais felizes & moralistas aqui,a morte se consolida na tela não apenas como uma tragédia física, mas como a única e definitiva redenção possível para a alma de um homem condenado pela sarjeta.
"Não vê que estou caído? Tenho nojo de mim mesmo."
O caffettone de Pasolini é realmente um anjo pecador, carregando seu coração sujo e sua culpa pelas ruas miseráveis de Roma. Stella não é sua redenção, mas o abismo que o encara de volta, expondo suas fragilidades.
É praticamente inconcebível a ideia de que "Accattone" – uma verdadeira obra-prima pós-realista – seja a obra inaugural do Pasolini no cinema, o que apenas é explicável em virtude de todas as atividades com as quais esse grande artista em formação já estava envolvido: poeta, escritor, arguto observador social, além de ter trabalhado com Fellini nos roteiros de "Le notte di Cabiria" e "La dolce vita". No entanto, há algo de distinto neste filme, uma inovação temática que o diferencia dos seus antecessores neorrealistas e que remete diretamente à sua experiência poética.
Embora Pasolini tivesse se tornado uma figura controversa e transgressora, sobretudo por suas críticas veementes à burguesia, ao consumismo capitalista e às contradições da esquerda, há um aspecto central de sua obra que frequentemente passa despercebido: a dimensão espiritual, o elemento transcendental e sagrado, a presença de Cristo como pilar moral intransponível, e, paradoxalmente, a ausência de Deus. O fato de que era um profundo admirador do Evangelho – conquanto ateu, homossexual, crítico da Igreja e séquito da obra marxiana – conferia à sua idiossincrática personalidade um aspecto mítico: Pasolini era, em certo sentido, uma quimera, carregando dentro de si forças e tensões antagônicas. Em uma de suas mais sinceras entrevistas, afirmou que sua visão do mundo e das coisas cotidianas não era secular ou laica, mas sagrada, milagrosa. Para ele, o Evangelho era um grande trabalho intelectual que edificava o pensamento, integrava, regenerava e impulsionava à ação, nunca uma fonte vazia e irrefletida de consolo. Assustava-o que, na Itália do pós-guerra, muitos sequer o conhecessem – um dos motivos que o levou a realizar "Il Vangelo Secondo Matteo".
É nesse contexto que se insere "Accattone", a história de um cafetão esmagado pela pobreza, que tenta, entre pequenos delitos e outros atos imorais, escapar de sua condição. Franco Citti encarna, com vigor e brutal honestidade, a um dos “ragazzi di vita” pasolinianos. O filme, embora ambientado nas ruas de Roma, carrega uma densidade humana e moral tão forte que me vi imediatamente pensando em Dostoiévski. Tendo recentemente lido Crime e Castigo, Gente Pobre e Recordações da Casa dos Mortos , vi-me traçando inúmeros paralelos entre a obra do grande escritor russo e essa obra estreante do diretor italiano.
Ambos exploram as tensões entre o progresso racionalista e a irracionalidade humana, entre a fé Cristã e a razão, entre a moralidade e a miséria. Em suas obras, percebe-se uma preocupação genuína – e não um fetiche autocongratulatório – com as classes mais desfavorecidas, mostrando toda a sorte de humilhações que a pobreza e a exploração impõem ao indivíduo, esmagando-lhe. Prostitutas, agiotas, cafetões, assassinos, ladrões e mendigos estão no centro dessas narrativas. Essa leitura social humanista e cristã era o que distinguia Dostoiévski de Gógol, Turguêniev ou do socialismo ateu do Belinski; da mesma forma, é o que afastava Pasolini do Fellini, do Rossellini e da intelligentsia de esquerda comunista e revolucionária, com a qual frequentemente digladiava.
Ambos partilham da mesma intuição: que os fundamentos da condição humana – o sofrimento, a redenção, a graça, a culpa – são mais visíveis nas fraturas da sociedade, entre aqueles que foram esmagados pelo sistema e, por isso, vivem numa proximidade brutal e autêntica com o sagrado e o profano.
Ao ver Accattone, como não lembrar, então, dos diálogos entre Raskólnikov, o protagonista atormentado de Crime e Castigo, e Sônia, a jovem devota que, para livrar a família da penúria, se prostitui pelas ruas de São Petersburgo? Na obra dostoievskiana, é a manifestação do amor ágape – essencialmente Cristão –, aquele que se sacrifica incondicionalmente num mundo de miséria e desolação, o grande triunfo moral. No filme, ao assistir à cena em que Stella, após uma tentativa humilhante e desesperada de vender o próprio corpo, cai aos prantos no colo de Accattone, igualmente derrotado e humilhado, sentado às margens da Via Appia Antica; ou quando ela se oferece a voltar para as ruas para que Accattone não se mate de tanto trabalhar, não pude deixar de lembrar do momento em que Raskólnikov ajoelha-se diante de Sônia, beijando-lhe os pés perante o “sofrimento de todo o mundo”.
Ao ver o filho de Accattone brincar com garrafas no quintal de uma das paupérrimas borgate (favelas) de Roma, ou quando Accattone e seus amigos disputam um prato de macarrão, inevitavelmente lembrei da pobreza mortificante dos vizinhos doentes de Makar Diévúchkin e Varvara Alieksiêievna, confinados em um pequeno apartamento de São Petersburgo em Gente Pobre. Momentos de ternura e riso, mesmo em meio à opressão, como quando Accattone está sentado na calçada com dois ladrões e todos riem do chulé de um deles, remetem às cenas de camaradagem e candura em Recordação da Casa dos Mortos, onde Dostoiévski romanceia os anos que passou preso na Sibéria. Os paralelos são inúmeros, e a convergência temática entre a pena do gigante russo e as lentes do cineasta italiano é notável, certamente não fruto do acaso.
Um dos momentos mais gloriosos e representativos da filmografia de Pasolini, em termos de composição, simbolismo, tema e atuação, é a cena em que Accattone, após uma briga com o irmão de sua ex-mulher, caminha imundo e rasgado, diante de seu filho e de uma horda de observadores, ao som de "A Paixão Segundo São Mateus," de Bach. Essa cena é a confirmação de que Pasolini vê naquela vida desperdiçada uma dimensão de tragédia e sacrifício que merece um requiém. Poucas vezes vi cena tão desoladora e comovente.
Que Pasolini, em sua irrefreável paixão pela vida e compromisso com sua arte e visão de mundo, tenha alcançado tamanha grandeza em sua primeira empreitada cinematográfica é um testamento inequívoco de sua genialidade.
Ótima fotografia e trilha sonora.
Em Accattone, Pasolini decide explorar a vida de um cafetão, que não daria o sangue para conseguir dinheiro por alguém, não querendo participar da exploração que é um trabalho. Porém, a única forma que conhece para se sustentar, é a exploração de mulheres. A vida de um grupo de pessoas que não conseguem trabalhar duro, e preferem uma vida fácil. Considerando aqueles que trabalham honestamente como fracassados. Uma critica forte ao sistema que trata pessoas como maquinas, sem analisar o comportamento das relações humanas no trabalho, e como isso afeta negativamente aquela pessoa.
Confesso que achei a trama um pouco longa, e a partir de um certo momento, só estava acompanhando para a ver a fotografia do filme, que novamente, é belíssima.
Pasolini demonstra o poder do cinema nesta obra-prima de sua cinematografia. Na esteira do neorrealismo italiano, Accattone não se deixa restringir por qualquer traço de moralidade e mostra até que ponto a humanidade pode chegar pela pobreza e cobiça.
O personagem principal não se abstém de usar os outros para próprio ganho, partindo da ideia de que o trabalho é para "acabados", pessoas que vendem seu esforço por um mero soldo. Essa concepção de trabalho é uma crítica que subverte a glorificação deste feita pela burguesia, retomando a concepção de trabalho assalariado da antiguidade: é vulgar, inaceitável e praticamente uma escravidão em que as remunerações são como grilhões. Assim, os personagens contra o trabalho não são figuras marxistas, mas querem uma vida confortável, com luxos e sem labor, algo similar a valoração do ócio em relação ao [neg]ócio feita pelos antigos.
As mulheres do filme acabam sendo exploradas pela miséria econômica, o machismo e a cobiça dos homens. O mesmo destino é reservado às crianças e Pasolini faz questão de mostrá-las aos bandos brincando em meio aos destroços de construções, uma imagem bem explícita da Itália na época do longa.