Baseado no romance autobiográfico homônimo de Massimo Gramellini, o vicediretor do jornal italiano "La Stampa". A história de um menino que se torna um homem e precisa superar a perda da mãe para viver a vida normal e serenamente.
Uma drama bastante razoável sobre o luto que acompanhou o escritor e jornalista italiano Massimo Gramellini por toda a sua vida, da infância até a maturidade.
Drama italiano com uma história tocante e que é bem mais interessante retratando a infância e pré-adolescência do Massimo do que na vida do personagem já adulto.
[/spoiler] O Massimo tinha apenas 9 anos quando a mãe morreu, e isso mexe com a vida dele, causa um sofrimento que ele leva até a idade adulta. Seu pai havia dito que ela morreu de ataque cardíaco fulminante, e só quando adulto é que Massimo descobre a verdade, que a mãe se suicidou, que ela estava doente, depressiva, e que não aguentava mais viver assim. As lembranças dele quando garoto são sensíveis e tocantes, mostrando ele com a mãe, e também após a morte dela. Fiquei pensando em quantas crianças já passaram por isso, no quanto isso é triste. As mães são tão especiais, não deveriam morrer nunca... Esse filme me deixou com um aperto no peito. Felizmente eu ainda tenho a minha mãe, mas sei que um dia ela partirá... No fundo todos nós somos crianças querendo manter o laço materno para sempre... [spoiler]
Numa Sarajevo ainda envolta nos tormentos do conflito civil-militar mais violento em território europeu desde a Segunda Guerra Mundial, em 1992, acompanhamos dois jornalistas italianos em uma cena que se desenrola no ritmo frenético da ação. A bordo de um carro com o "Press" estampado nas laterais, os repórteres do "La Stampa" de Turim, em que pesem compartilhar do mesmo empregador, parecem estar sob emoções diferentes nesta manhã: aquele que acompanha o motorista à frente, o fotógrafo, parece animado com o provável furo de reportagem que irá cobrir, e inclusive pressiona o coitado responsável pelo volante a correr mais que de costume pelas ruas esburacadas por projéteis de artilharia; o outro jornalista,pego incauto pelo anúncio recebido logo cedo, cobra calma, arrisca um inglês macarrônico dentro do carro e pede uma menor velocidade, mas pouco é ouvido pelos outros dois. O que vemos, na sequência, é uma cena que daria orgulho aos estudiosos da fotografia. Nela, acompanhamos os dois jornalistas entrarem numa casa, e se depararem com um
corpo de uma mulher idosa, deitado sob uma poça de sangue, nos fundos da residência.
O primeiro repórter, o animadinho da corrida, como bom fotógrafo já se prepara para bater as imagens que, com certeza, serão de destaque nas páginas internas do Stampa. Enquanto acompanhamos o preparo dos equipamentos, um barulhinho eletrônico ecoa no pequeno imóvel: próximo à porta onde estão, uma criança joga um Game-Boy, sentado, a anos-luz de distância dos estranhos que estão ali. Nosso fotógrafo não hesita:
apanha o menino, focado com o video-game portátil (e provavelmente traumatizado com os eventos), e o põe, com cadeirinha e tudo, próximo ao corpo morto da senhora.
A panorâmica está pronta, e o cenário é impactante: o risonho fotógrafo bate as fotos, enquanto seu ainda aparentemente aturdido companheiro acompanha com o olhar toda a situação. Mesmo na guerra, vemos a oportunidade de crescimento, o cavalo com sela que passa inesperadamente na frente do vaqueiro perdido no sertão. A fotografia tirada, deste jeito, não aparenta mais ir às distantes páginas do meio. Pela felicidade do amigo da câmera, ela será a foto de capa de um dos mais vendidos jornais da Europa. Nesta situação, podíamos até evocar Susan Sontag: ainda nos causa incômodo a "dor dos outros"?
A cena, bastante reveladora, é na verdade quase um spin-off dentro do "Belos Sonhos". Ao contrário de sua composição, acompanhamos como personagem principal não o sujeito cabeludo da câmera fotográfica, mas seu camarada "distante", Massimo. "Belos" não é sobre a guerra, mas funciona na verdade como um filme de formação: é como se pegássemos alguns clássicos desta vertente na literatura europeia do século XIX e XX, como o "Werther" de Goethe e os "Bruddenbook" de Thomas Mann, e os transpuséssemos pro cinema. E o resultado, pra mim, é tão lindo como. É uma narrativa de crescimento, conflitos, amadurecimento, traumas, memórias e silêncios que acompanhamos por pouquinho mais de duas horas. Do surgimento do primeiro grande amor da vida, a mãe, mas principalmente da difícil situação de lidar com a perda abrupta desta.
Se nos primeiros minutos de filme vemos uma mãe e seu filho se divertindo, ouvindo um rockabilly americano, pouco menos de uma hora depois somos jogados para as confusões de uma criança que não aprendeu a lidar com a situação desta perda.
: da procura, ainda na pré-adolescência, pelo aconchego materno nas mais diferentes situações, como no se ceder às carícias da mãe do amigo, até aos primeiros sinais de que o mundo ao seu redor, agora, não será mais o mesmo. Por exemplo, observamos um carente Massimo observar uma mulher contratada pelo seu pai para ajudar em casa, e que em certos pontos lembra mesmo sua mãe assistindo aos filmes de horror da tevê; se aproximando da mulher, devagarinho, Massimo aprende - da forma mais dura possível - que
Pra não alongar tanto, não posso deixar de citar mais três cenas espetaculares: a do jovem Massimo nos bancos escolares de uma escola católica aprendendo o verdadeiro significado de "luz" e de como algumas ideias religiosas não podem ser transpostas ipsis litteris ao mundo secular; a "resposta dos editores", no episódio de uma carta de um filho raivoso enviada ao Stampa, em que sou surpreendido pela leveza de um humor inesperado pelo tema e pela situação; e a descoberta de um escape, da criança Massimo, das agruras da vida pelos ombros de seu pai: a alegria de ir ao estádio e de assistir (e imaginar, quando não o há!) o futebol. Sem esquecer, claro, da belíssima cena derradeira: afinal, se alguns privilegiados ainda podem se dar ao luxo
de chamar pela mãe,seja ao chegar em casa, como aludido exemplarmente por Massimo na resposta à correspondência enviado ao Stampa, ou pelo simples medo de uma brincadeira de esconde-esconde, como acompanhamos agora,
como lidar com isso quando chegar à nossa vez?
"Belos Sonhos" é provocativo, forte, sensível e, principalmente, real nas medidas certas. É a forma de encarar uma dor que nunca chegará ao fim, do aprender a lidar com ela e, como nos ensina o padre/professor, de como "apesar de que" temos de seguir em frente. Nessa quarentena maldita, só tenho a agradecer ao Arte1 pela surpresa de transmitir isso numa tarde que, agora, parece sempre igual às outras.
Trabalho autoral mais recente do cineasta italiano Marco Bellocchio (1939-), que abriu a 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2016. O diretor e roteirista foi o grande homenageado da edição, que teve uma retrospectiva com seus principais filmes, dentre eles sua obra-prima, “De punhos cerrados” (1965). Naquele ano assisti ao filme na noite de abertura e em seguida entrevistei Bellocchio, um homem calmo, inteligente e carismático. “Belos sonhos” é baseado no romance de Massimo Gramellini e inspirado em fatos verídicos. Um filme simples na forma, que carrega uma história singela em torno do olhar da criança sobre a perda, fazendo um paralelo com a vida adulta do mesmo personagem, um jornalista cheio de conflitos internos por causa do passado. Como de costume, Bellocchio faz um novelão, tristonho, com toques biográficos e uma infinidade de situações cotidianas. Por isto é bem longo, tem 131 minutos. Indicado a prêmios menores, como o David di Donatello, tem uma fotografia de época bem escura, um ritmo lento e participação da atriz argentina indicada ao Oscar Bérénice Bejo. Interessou? Eu gostei e indico àqueles que apreciam cinema de arte europeu. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema na Web
Uma drama bastante razoável sobre o luto que acompanhou o escritor e jornalista italiano Massimo Gramellini por toda a sua vida, da infância até a maturidade.
gostei muito da cena final... muito bonita!
Drama italiano com uma história tocante e que é bem mais interessante retratando a infância e pré-adolescência do Massimo do que na vida do personagem já adulto.
[/spoiler]
O Massimo tinha apenas 9 anos quando a mãe morreu, e isso mexe com a vida dele, causa um sofrimento que ele leva até a idade adulta. Seu pai havia dito que ela morreu de ataque cardíaco fulminante, e só quando adulto é que Massimo descobre a verdade, que a mãe se suicidou, que ela estava doente, depressiva, e que não aguentava mais viver assim.
As lembranças dele quando garoto são sensíveis e tocantes, mostrando ele com a mãe, e também após a morte dela.
Fiquei pensando em quantas crianças já passaram por isso, no quanto isso é triste. As mães são tão especiais, não deveriam morrer nunca...
Esse filme me deixou com um aperto no peito. Felizmente eu ainda tenho a minha mãe, mas sei que um dia ela partirá...
No fundo todos nós somos crianças querendo manter o laço materno para sempre...
[spoiler]
Numa Sarajevo ainda envolta nos tormentos do conflito civil-militar mais violento em território europeu desde a Segunda Guerra Mundial, em 1992, acompanhamos dois jornalistas italianos em uma cena que se desenrola no ritmo frenético da ação. A bordo de um carro com o "Press" estampado nas laterais, os repórteres do "La Stampa" de Turim, em que pesem compartilhar do mesmo empregador, parecem estar sob emoções diferentes nesta manhã: aquele que acompanha o motorista à frente, o fotógrafo, parece animado com o provável furo de reportagem que irá cobrir, e inclusive pressiona o coitado responsável pelo volante a correr mais que de costume pelas ruas esburacadas por projéteis de artilharia; o outro jornalista,pego incauto pelo anúncio recebido logo cedo, cobra calma, arrisca um inglês macarrônico dentro do carro e pede uma menor velocidade, mas pouco é ouvido pelos outros dois.
O que vemos, na sequência, é uma cena que daria orgulho aos estudiosos da fotografia. Nela, acompanhamos os dois jornalistas entrarem numa casa, e se depararem com um
corpo de uma mulher idosa, deitado sob uma poça de sangue, nos fundos da residência.
apanha o menino, focado com o video-game portátil (e provavelmente traumatizado com os eventos), e o põe, com cadeirinha e tudo, próximo ao corpo morto da senhora.
A panorâmica está pronta, e o cenário é impactante: o risonho fotógrafo bate as fotos, enquanto seu ainda aparentemente aturdido companheiro acompanha com o olhar toda a situação. Mesmo na guerra, vemos a oportunidade de crescimento, o cavalo com sela que passa inesperadamente na frente do vaqueiro perdido no sertão. A fotografia tirada, deste jeito, não aparenta mais ir às distantes páginas do meio. Pela felicidade do amigo da câmera, ela será a foto de capa de um dos mais vendidos jornais da Europa. Nesta situação, podíamos até evocar Susan Sontag: ainda nos causa incômodo a "dor dos outros"?
A cena, bastante reveladora, é na verdade quase um spin-off dentro do "Belos Sonhos". Ao contrário de sua composição, acompanhamos como personagem principal não o sujeito cabeludo da câmera fotográfica, mas seu camarada "distante", Massimo.
"Belos" não é sobre a guerra, mas funciona na verdade como um filme de formação: é como se pegássemos alguns clássicos desta vertente na literatura europeia do século XIX e XX, como o "Werther" de Goethe e os "Bruddenbook" de Thomas Mann, e os transpuséssemos pro cinema.
E o resultado, pra mim, é tão lindo como. É uma narrativa de crescimento, conflitos, amadurecimento, traumas, memórias e silêncios que acompanhamos por pouquinho mais de duas horas. Do surgimento do primeiro grande amor da vida, a mãe, mas principalmente da difícil situação de lidar com a perda abrupta desta.
Se nos primeiros minutos de filme vemos uma mãe e seu filho se divertindo, ouvindo um rockabilly americano, pouco menos de uma hora depois somos jogados para as confusões de uma criança que não aprendeu a lidar com a situação desta perda.
E que nem irá
"não, eu não posso ser sua mãe.
Pra não alongar tanto, não posso deixar de citar mais três cenas espetaculares: a do jovem Massimo nos bancos escolares de uma escola católica aprendendo o verdadeiro significado de "luz" e de como algumas ideias religiosas não podem ser transpostas ipsis litteris ao mundo secular; a "resposta dos editores", no episódio de uma carta de um filho raivoso enviada ao Stampa, em que sou surpreendido pela leveza de um humor inesperado pelo tema e pela situação; e a descoberta de um escape, da criança Massimo, das agruras da vida pelos ombros de seu pai: a alegria de ir ao estádio e de assistir (e imaginar, quando não o há!) o futebol.
Sem esquecer, claro, da belíssima cena derradeira: afinal, se alguns privilegiados ainda podem se dar ao luxo
de chamar pela mãe,seja ao chegar em casa, como aludido exemplarmente por Massimo na resposta à correspondência enviado ao Stampa, ou pelo simples medo de uma brincadeira de esconde-esconde, como acompanhamos agora,
"Belos Sonhos" é provocativo, forte, sensível e, principalmente, real nas medidas certas.
É a forma de encarar uma dor que nunca chegará ao fim, do aprender a lidar com ela e, como nos ensina o padre/professor, de como "apesar de que" temos de seguir em frente. Nessa quarentena maldita, só tenho a agradecer ao Arte1 pela surpresa de transmitir isso numa tarde que, agora, parece sempre igual às outras.
Trabalho autoral mais recente do cineasta italiano Marco Bellocchio (1939-), que abriu a 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2016. O diretor e roteirista foi o grande homenageado da edição, que teve uma retrospectiva com seus principais filmes, dentre eles sua obra-prima, “De punhos cerrados” (1965). Naquele ano assisti ao filme na noite de abertura e em seguida entrevistei Bellocchio, um homem calmo, inteligente e carismático.
“Belos sonhos” é baseado no romance de Massimo Gramellini e inspirado em fatos verídicos. Um filme simples na forma, que carrega uma história singela em torno do olhar da criança sobre a perda, fazendo um paralelo com a vida adulta do mesmo personagem, um jornalista cheio de conflitos internos por causa do passado. Como de costume, Bellocchio faz um novelão, tristonho, com toques biográficos e uma infinidade de situações cotidianas. Por isto é bem longo, tem 131 minutos.
Indicado a prêmios menores, como o David di Donatello, tem uma fotografia de época bem escura, um ritmo lento e participação da atriz argentina indicada ao Oscar Bérénice Bejo. Interessou? Eu gostei e indico àqueles que apreciam cinema de arte europeu.
POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema na Web