Duração
1- "Um favelado"(Marcos Farias): Um favelado, desempregado e sem dinheiro, arquiteta um plano para ganhar dinheiro, mas é descoberto e preso pela polícia.
2- "Zé da cachorra" (Miguel Se): Um latifundiário quer de volta suas terras, onde está instalada uma favela. Um favelado luta contra a passividade de uma comissão de moradores, que estão aceitando a situação desfavorável que lhes foi imposta.
3- "Escola de Samba Alegria de Viver" (Carlos Diegues): Um favelado, presidente do grêmio recreativo, divide-se entre lutar pela sua categoria ou aceitar as imposições comerciais do carnaval.
4- "Couro de gato" (Joaquim Pedro de Andrade): Moradores favelados caçam gatos a fim de usar seu couro para fabricar tamborins, que serão usados no carnaval.
5- "Pedreira de São Diogo" (Leon Hirszman): No Rio de Janeiro, sobre uma pedreira há uma favela. Ao perceberem o risco de desabamento dos barracos, em consequência das explosões de dinamite, os operários incitam os moradores a iniciar movimento de resistência para impedir um acidente fatal.
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“Couro de gato”, de Joaquim Pedro de Andrade, filmado independentemente em 1960 e incorporado posteriormente à produção do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC da UNE), já havia conquistado prêmios internacionais - Festival de Oberhausen (Alemanha) e Festival de Sestri Levante (Itália) - e é, com razão, o curta mais celebrado desse filme antológico.
“Um favelado”, de Marcos Farias, e “Zé da cachorra”, de Miguel Borges, são, em contraposição, os episódios menos interessantes, com uma proposta que oscila entre o realismo socialista zdhanovista e o realismo crítico. A lei dos tipos é empregada de maneira já bastante antiquada para a época (a mulher como símbolo da alienação e da corrupção dos homens, o homem gordo como emblema do burguês avarento etc.), mas sem recorrer à figura do herói positivo.
“Escola de samba Alegria de Viver”, de Cacá Diegues, constitui um caso particularmente interessante. O curta foi roteirizado pelo então diretor do CPC, Carlos Estevam Martins, obedecendo aos dogmas que o sociólogo defenderia em seu “Anteprojeto de Manifesto do CPC”, mas alcança um resultado desigual em razão da direção de Cacá Diegues, que recusava aquela leitura da sociedade brasileira (divergência que, inclusive, contribuiria para a saída de Carlos Estevam do CPC). O roteiro reproduz velhos preconceitos da classe média: um jovem carnavalesco acompanha os desentendimentos entre o diretor de uma escola de samba e sua esposa, uma sindicalista séria. Ao presenciar a violência de agiotas contra o diretor da escola, conscientiza-se da importância da luta política. Tudo é muito caricato e esquemático, mas o curta deixa entrever o olhar atento de Cacá Diegues para a cultura popular afro-brasileira, interesse que resultaria em algumas das grandes obras do diretor nas décadas seguintes. É, sem dúvida, esse interesse apaixonado que tira leite de pedra de um dos roteiros mais fracos de “Cinco vezes favela”.
“Pedreira de São Diogo”, de Leon Hirszman, é, depois do curta de Joaquim Pedro, o trabalho mais amadurecido do filme. Trata-se de um episódio marcadamente dialético, de notória influência eisensteiniana. Diga-se de passagem, Joaquim Pedro e Hirszman eram, segundo Nelson Pereira dos Santos, dois militantes do PCB e as figuras mais politizadas do Cinema Novo. O fato de terem realizado justamente os episódios mais críticos e criativos de uma das primeiras grandes obras do movimento ajuda a relativizar muitas das críticas unilaterais e desistoricizadas dirigidas ao Partidão.
Por fim, ao revisitar o filme, não pude deixar de notar a quantidade de figuras ligadas ao Teatro de Arena (como Flávio Migliaccio, Oduvaldo Vianna Filho e Milton Gonçalves) que se tornariam nomes recorrentes do Cinema Novo. Sem contar grandes expoentes do Teatro Experimental do Negro (TEN), como Abdias do Nascimento, e do departamento de teatro do próprio CPC, como Cecil Thiré e Joel Barcellos.
Enfim, uma obra incontornável na história do cinema brasileiro.
Cinco vezes ótimo.
O filme "Cinco Vezes Favela", lançado em 1962, é uma obra emblemática que revela as cruas realidades dos habitantes das favelas cariocas durante o período do Cinema Novo. Cada segmento do filme aborda aspectos distintos da vida na favela, oferecendo um mosaico de situações que, embora datadas, continuam a ressoar em nosso presente.
"Um favelado" nos confronta com a desesperança e a marginalização de um homem que, diante do desemprego, enreda-se em um plano malfadado, simbolizando a eterna luta contra um sistema que oprime e criminaliza a pobreza. Em "Zé da cachorra", a passividade de uma comunidade contrasta com a resistência de um indivíduo, questionando a eficácia das lutas coletivas e a resignação diante da opressão.
"Escola de Samba Alegria de Viver" explora a dualidade entre tradição e mercantilização, onde um líder comunitário se vê dividido entre manter a autenticidade cultural e ceder às pressões comerciais. "Couro de Gato", com sua narrativa simples e tocante, destaca a exploração econômica e a criatividade na sobrevivência, ao mesmo tempo que nos faz refletir sobre a ética e a dignidade humana.
Por fim, "Pedreira de São Diogo" expõe o perigo iminente e a luta pela vida em meio à negligência estrutural, evidenciando a precariedade habitacional e a força da união comunitária frente ao risco.
Através de suas lentes, "Cinco Vezes Favela" nos impele a questionar as estruturas sociais e a refletir sobre a persistente desigualdade. O filme nos desafia a olhar além da superfície e a compreender as complexas camadas de uma realidade que, mesmo com o passar dos anos, continua a demandar nossa atenção e ação. É um convite à empatia, à crítica e à transformação social.
Um mergulho na estética do Cinema Novo. O grande destaque é “Couro de Gato” assinado pelo Joaquim Pedro.
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