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Dona Beija é uma telenovela brasileira baseada em fatos históricos, exibida pela Rede Manchete, de 31 de março a 11 de julho de 1986.
A trajetória da corajosa Ana Jacinta de São José, a Dona Beja, na cidade mineira de Araxá, no século XVIII. Na telenovela da Rede Manchete foi adotado o nome de Dona Beija.
Amando Antônio Sampaio, homem de família conservadora e tradicional, Beija é vítima do desejo de Mota, o ouvidor do Rei em visita a Araxá. Depois de presenciar a morte do seu avô, Beija é raptada e levada para a vila de Paracatu, onde o ouvidor mora em um belo casarão. Para vingar-se do seu algoz, quando ele está fora de casa, Beija serve aos homens que a desejam em troca de joias e ouro. Chamado pelo imperador a instalar-se na Corte, Mota deixa Beija, que a essa altura já juntara uma grande fortuna. Ela parte de volta para Araxá para encontrar sua grande paixão, Antônio.
Mas Antônio já não esperava mais por Beija. Desiludido e não compreendendo mais as atitudes da sua amada, ele casa-se com a doce Aninha, moça frágil e delicada que sempre o amou. Com a recusa de Antônio, Beija promete não amar a nenhum outro homem e funda a Chácara do Jatobá, um bordel refinado onde ela se transforma num mito como cortesã, escandalizando todas as famílias conservadoras de Araxá. Seu intuito maior era ferir Antônio.
A chácara prospera, Beija se torna poderosa, envolve-se com João Carneiro de Mendonça, mas não consegue se desligar de Antônio, o homem de sua vida. Até que uma tragédia acontece, Beija manda um escravo chamado Ramos matar Antônio, ela se arrepende de mandar matá-lo, mas o crime acontece. Ela vai a julgamento mas é absolvida devido a mudança no depoimento de Ramos. Desiludida, Beija deixa Araxá e recomeça uma vida honesta.
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DONA BEJA - A História Real que a Novela Escondeu de Você
Dona Beja foi sequestrada aos quinze anos por um homem do rei. O avô dela morreu tentando impedir. E essa nem é a parte que a novela escondeu.
A Ana Jacinta de São José que existiu de verdade — bem diferente da feiticeira de Araxá que virou romance e novela — foi uma das mulheres mais incomuns do Brasil Império. Uma figura que, segundo as evidências documentais, pode ter influenciado até o redesenho do mapa de Minas Gerais no início do século dezenove. Os arquivos contam uma história mais difícil — e infinitamente mais impressionante — do que a versão que o Brasil aprendeu na televisão.
Uma história de Minas Gerais que atravessa o Brasil joanino, o Primeiro Reinado e quase todo o Segundo Reinado.
Você cresceu vendo Dona Beja na novela A Feiticeira de Araxá. A cortesã que enfeitiçava homens com poções, banhos sagrados e olhares. Esquece tudo isso. Porque a Ana Jacinta de São José que existiu de verdade, no Brasil de 1800, é uma história muito mais incômoda. E muito mais impressionante. Uma menina sequestrada aos quinze anos por um homem do rei. Um avô morto a tiros tentando impedir. E uma mulher que, sozinha, num arraial de Minas Gerais, conseguiu uma coisa que praticamente nenhuma outra brasileira do século dezenove conseguiu: dinheiro próprio, casa própria, terras próprias, e o direito de cuspir na cara de uma sociedade que tentou destruí-la. E pra entender como isso aconteceu, a gente precisa começar bem longe da novela. A gente precisa começar num lugarzinho chamado Formiga, no sertão de Minas, no primeiro dia útil do ano de 1800.
Imagina o Brasil de 1800. A capital ainda é Salvador. O rei português ainda mora em Lisboa — vai mudar pro Rio só em oito anos. E o que hoje a gente chama de Triângulo Mineiro nem é mineiro: é Goiás. Mato fechado, com pequenos arraiais perdidos, igreja de taipa, lama nas ruas e tudo girando em torno de uma coisa: gado, e o que sobrou do ciclo do ouro. Guarda essa informação. O Triângulo, em 1800, ainda é Goiás. Ela vai voltar pra essa história. É nesse Brasil que nasce, no dia dois de janeiro de 1800, em Formiga, uma menina chamada Anna Jacintha de São José. Filha de Maria Bernarda dos Santos. Do pai, ninguém sabe. Nem nos registros aparece. Cinco anos depois, a família muda para o arraial de São Domingos do Araxá — que hoje é Araxá. Ela cresce ali, junto com a mãe e o avô. E aqui já tem uma coisa que a novela faz parecer detalhe e que na verdade é a chave da história: ela é loira. Cabelo claro, olhos claros, pele clara. Numa região onde a maioria da população é parda, mestiça, africana ou indígena, uma menina assim chama atenção. Muita atenção. Inclusive a atenção errada.
E o apelido pelo qual o Brasil inteiro conhece ela hoje, "Beja", vem de antes disso tudo. Vem da infância, em Araxá. Foi o avô dela, segundo a tradição registrada por Pedro Popó, que começou a chamar a menina de Beja — comparando ela à doçura e à beleza da flor que no sertão mineiro chamavam de "beijo", o hibisco silvestre. A Fundação Calmon Barreto, que cuida da memória dela em Araxá, registra outras possibilidades: Beja é também o nome de uma cidade em Portugal, e há quem associe o apelido ao beija-flor. Mas a versão que mais sobreviveu, transmitida pelas descendentes diretas, é a do avô. A flor de beijo. A neta linda do sertão. Guarda esse detalhe, porque ele vai pesar daqui a pouco.
E aqui é onde a história vira de vez. Em 1815 — algumas fontes dizem 1814 — ela tem quinze anos, ou está prestes a fazer. E aí entra na história dela um homem chamado Joaquim Inácio Silveira da Motta. Português. Ouvidor do rei Dom João VI — ou seja, o representante direto da Coroa pra resolver questões judiciais e fiscais na comarca de Paracatu. Um cara poderoso. Não era nobre, mas falava em nome do rei. E quando esse tipo de homem queria alguma coisa naquele Brasil, ele simplesmente pegava. E o que ele quis foi a menina.
Os relatos da época, recolhidos depois pelo pesquisador Pedro Divino Rosa em entrevistas com descendentes e em documentos preservados no Museu de Araxá, contam o que aconteceu. Os homens do ouvidor — os dragões, a tropa que andava com ele — chegaram pra levar Ana Jacinta. O avô dela tentou impedir. Foi morto ali, na frente da neta. Quinze anos. Sem pai. Avô assassinado. E ela foi levada à força para uma cidade que ela nunca tinha visto, a quase quatrocentos quilômetros de distância: Vila do Paracatu do Príncipe. Hoje, só Paracatu. E é aqui que a história começa a ficar diferente da novela. Porque o que aconteceu nesses dois anos em Paracatu não foi uma novela. Foi cativeiro. Ela vivia numa casa do ouvidor. Era apresentada como "a moça do ouvidor". Não era esposa, não era livre. Era, na linguagem da época, concubina forçada. E ela tinha quinze, dezesseis, dezessete anos. Mas — e aqui começa o que faz dela uma figura única — ela aprendeu. Ela tava na casa de um homem do rei. Recebia visitas de gente importante. Ouvia conversas sobre política, dinheiro, a Coroa, as articulações do Brasil colônia que estava prestes a virar reino unido. Tudo isso entrava nos ouvidos dela todo dia, durante dois anos. Ana Jacinta era analfabeta — e morreria analfabeta. Mas saiu de Paracatu sabendo como o poder funcionava no Brasil de Dom João VI. E isso, daqui a pouco, vai fazer toda a diferença.
E enquanto ela aprendia, alguém em Araxá não tava parada: a mãe dela, Maria Bernarda. Os relatos dizem que Maria Bernarda procurou os inimigos políticos do ouvidor — porque um homem com aquele poder sempre tem inimigos — e entregou a história. O sequestro, o assassinato do avô, os abusos. E essa denúncia foi subindo. Foi parar no Rio. Em 1817, Dom João VI chamou o ouvidor de volta. Por decreto, pra prestar contas. As fontes dizem, em poucas palavras, o que aconteceu: ele teve que ir embora. Não pôde levar Ana Jacinta com ele. Mas antes de partir, deixou pra ela uma coisa: dinheiro, joias, bens. Não era arrependimento. Era pra livrar-se do problema. A consequência, ele não previu. Aos dezessete, dezoito anos, Ana Jacinta voltou pra Araxá com mais dinheiro do que muitos homens do arraial inteiro.
E antes de continuar a história dela, a gente precisa parar um minuto. Porque tem uma coisa que aconteceu nesse mesmo período, e que praticamente nenhum livro de história menciona, mas que muda completamente o tamanho dessa figura. No dia quatro de abril de 1816, Dom João VI assinou um alvará que tirou uma região enorme da Província de Goiás, chamada Sertão da Farinha Podre, e anexou ela à Província de Minas Gerais. Essa região é o que a gente chama hoje de Triângulo Mineiro. Sessenta e seis cidades. Cinco milhões de brasileiros vivendo ali agora. Uberlândia, Uberaba, Araxá, Patos de Minas, Araguari. Tudo isso podia ser goiano.
Por que mudou? A versão oficial diz: por causa de fazendeiros e comerciantes de Araxá que alegaram que Ouro Preto, capital de Minas, ficava mais perto do que Goiânia. Verdade. Mas há uma camada que o pesquisador Pedro Popó passou anos tentando reconstruir nos arquivos. E ele chegou à conclusão: essa decisão também passou pelo ouvidor Joaquim Inácio Silveira da Motta. Ele tinha jurisdição sobre exatamente essa terra. E quem tinha influência sobre ele? Uma adolescente chamada Ana Jacinta de São José, que ele mantinha em cativeiro em Paracatu.
Não dá pra cravar com certeza, pois os documentos não dizem isso com todas as letras. Mas o conjunto de evidências aponta: políticos mineiros sabiam da influência dela sobre o ouvidor, e usaram essa influência. Pedro Popó, depois de anos resistindo, acabou aceitando essa hipótese. Em 1816, uma menina sequestrada de dezesseis anos pode ter sido uma das peças no tabuleiro que redesenhou o mapa de Minas Gerais. Guarda essa informação enquanto a gente continua.
Porque quando ela voltou pra Araxá em 1817, ainda jovem, com dinheiro próprio, veio o segundo pesadelo de sua vida. A mesma sociedade que assistiu calada ao sequestro decidiu, na volta, que o problema era ela. Não o ouvidor que matou o avô dela, nem o homem que a manteve presa por dois anos. Ela. As famílias respeitáveis fecharam as portas. As mulheres atravessaram a rua. Ela, que foi vítima, virou a vergonha.
Imagina só. Dezessete anos, o trauma do sequestro, o luto do avô, dois anos arrancada de tudo, e quando ela volta pra casa, todo mundo trata ela como se ela tivesse feito algo errado. Como se a culpa fosse dela. A maioria das mulheres na situação dela desapareceria: casada com qualquer um, virada costureira, indo pra um convento. Mas Ana Jacinta fez outra coisa. Por volta de 1830, quando ela já tinha trinta anos, ela usou o dinheiro acumulado pra construir, ali em Araxá, um sobrado. Não um sobrado qualquer. O maior, mais imponente da Praça da Matriz — bem ao lado da igreja, da Câmara, das casas das famílias mais ricas. Ela colocou a casa exatamente no centro daquela sociedade que tentava empurrá-la pra margem. E construiu também, fora do arraial, um sítio: a Chácara do Jatobá.
Aqui precisamos fazer uma pausa. Porque a versão que virou novela conta que a Chácara do Jatobá era um bordel onde Dona Beja fazia poções, recebia homens em rituais, banhava-se em águas milagrosas e, à noite, dançava sob o luar. Isso vem direto dos romances de Agripa Vasconcelos, "A Vida em Flor de Dona Beja", e de Thomas Leonardos, "A Feiticeira do Araxá" — dois livros publicados quase um século depois da morte dela, que misturam pesquisa com muita imaginação. A Chácara do Jatobá existiu, os documentos confirmam. E ela provavelmente foi, sim, um lugar onde havia prostituição. Mas o que os pesquisadores descobriram é mais interessante do que a novela. A Chácara funcionava como um centro de sociabilidade masculina. Homens importantes da região iam lá pra conversar, fazer negócios, articular política, beber, jantar. Dona Beja não era uma feiticeira. Ela era a anfitriã. E, mais do que isso: ela controlava quem entrava, quem saía, e que informação circulava.
Nos documentos da época, ela aparece como cabeça da operação. Não como esposa de alguém, não como filha de alguém. Como Ana Jacinta de São José, proprietária. Comprava, vendia, contratava, processava. Em todos os papéis registrados em Araxá, é o nome dela que assina — ou que manda assinar, pois ela mesma era analfabeta. Ela teve duas filhas. A primeira, Thereza Thomázia de Jesus, batizada em 1819. Por décadas, os romances disseram que o pai foi um tal de Antônio Sampaio, um amor de infância. Mas o registro de batismo encontrado nos arquivos paroquiais revela uma história diferente: a paternidade da menina foi reconhecida pelo padre Francisco José da Silva. Aqui vale uma nota importante: pode soar escandaloso ao ouvido contemporâneo, mas pais no sertão mineiro do início do século XIX eram, com frequência, fazendeiros, políticos locais, donos de escravos e pais de filhos reconhecidos. Era a regra, não a exceção. A reforma que viria a tornar o celibato uma prática rígida no Brasil só viria décadas depois. O padre Francisco José da Silva era um homem influente em Araxá, e o reconhecimento da filha em registro paroquial era comum naquele mundo.
A segunda filha, Joana de Deus, nasceu em 1838. Aqui, de novo, a documentação é mais reveladora do que o romance. O registro de batismo de Joana mostra como padrinho o coronel João Carneiro de Mendonça, da poderosa família Mendonça — uma das mais influentes de Minas Gerais imperial. A tradição local, que Pedro Popó também aceita, identifica o coronel como o pai biológico. Essa família tinha conexões diretas com Antônio Paulino Limpo de Abreu, deputado geral, ministro interino da Justiça do Império, que também foi ouvidor de Paracatu. Em outras palavras: a segunda filha de Dona Beja a vinculou a uma das redes políticas mais importantes do país.
Essa, talvez, seja a maior diferença entre a Dona Beja real e a Dona Beja da televisão. A da novela é movida pela paixão e pela vingança. A Ana Jacinta dos arquivos é uma mulher movida pela sobrevivência e pelo cálculo. Em 1842, estoura em Minas Gerais a Revolta Liberal — uma guerra civil contra as reformas centralizadoras do governo do Império, que reuniu o Partido Liberal mineiro sob a liderança de figuras como Teófilo Otoni. A região do Triângulo, incluindo Araxá, aderiu à revolta. A revolta foi sufocada pelo então general Caxias na batalha de Santa Luzia, mas durou meses e mobilizou recursos enormes. Pedro Popó identificou nos arquivos que Ana Jacinta colaborou financeiramente com os rebeldes liberais. Uma mulher solteira, filha de mãe solteira, financiando um levante político armado contra o governo central. Não é o tipo de coisa que entrou na novela porque não cabe na narrativa de feiticeira. Mas é o tipo de coisa que mostra quem ela era de verdade: uma figura política. Por anos, a Chácara dela foi um dos centros informais de poder do Triângulo. Por volta de 1850, com cinquenta anos, ela faz mais uma virada. Araxá estava em estagnação econômica. E a notícia que circulava no sertão era a descoberta de diamantes em Bagagem — cidade que hoje se chama Estrela do Sul.
O nome não foi à toa: em 1853, nesses garimpos, foi encontrado um diamante de mais de duzentos e cinquenta quilates, batizado de Estrela do Sul, um dos maiores diamantes brasileiros já encontrados. Ana Jacinta vende parte do que tinha em Araxá, fecha a Chácara, e parte numa viagem de cento e cinquenta quilômetros de mula até uma cidade de garimpo, mais bruta do que Araxá, atrás de uma nova chance de fazer dinheiro. Aos cinquenta anos, ela investe em terras, se associa a um garimpo de diamantes chamado Califórnia — que desviou o leito do rio Bagagem em busca das pedras — e entra numa briga jurídica que merece ser contada com calma. A neta mais velha de Beja, Theodora Jacinta Fortunata, em 1855, com vinte e poucos anos, casou-se com o próprio tio — o coronel Fortunato José da Silva Botelho, irmão do pai dela. Casamento entre tio e sobrinha, prática comum na época entre famílias que queriam concentrar patrimônio. Um ano depois, em 1856, Theodora morreu durante o parto. O bebê também não sobreviveu. E aí veio a questão da herança. Como Theodora não deixou descendentes diretos e os pais dela já tinham morrido, Dona Beja, a avó materna, processou o viúvo Fortunato — que era coronel e líder político de Araxá. Uma mulher idosa, analfabeta, em Bagagem, processando o homem mais poderoso de Araxá. E ela ganhou. A herança veio pra ela. A relação com a família Botelho ficou destruída pelo resto da vida.
Aqui, uma das curiosidades mais bonitas dos arquivos: em Bagagem, ela financiou, com dinheiro próprio, a construção de uma ponte sobre o rio Bagagem. E fez isso pra poder acompanhar, da janela de sua casa, a procissão de Nossa Senhora Mãe dos Homens, padroeira da cidade, sem precisar atravessar o rio. Em 1873, no ano em que morreu, ela ainda enviou um pedido formal à Câmara Municipal pedindo reembolso do dinheiro que tinha investido na obra. Idosa, doente, religiosa e ainda judicialmente combativa até o fim. Em 1864, vende o sobrado de Araxá, vende também uma escrava chamada Paulina — e a gente fala isso sem rodeios, pois os documentos mostram. Dona Beja foi vítima do sistema escravista que sequestrava meninas para homens poderosos, e também foi uma mulher que possuía pessoas escravizadas. Não dá pra contar essa história sem essa parte.
Em 1869, com sessenta e nove anos, ela faz o testamento. E quem lê esse documento descobre uma terceira Dona Beja. Não a feiticeira da novela, nem a mulher de negócios dos arquivos: uma mulher religiosa, católica, que deixa quase tudo pra obras de igreja. O testamento, segundo os pesquisadores, é o documento mais íntimo que sobrou dela, e mostra alguém preocupada em terminar a vida em paz com Deus. Ela morreu em vinte de dezembro de 1873, em Bagagem, de nefrite — um problema renal. Tinha setenta e três anos. Foi enterrada num caixão revestido de zinco, o que era luxo pra época. Em 2011, durante uma escavação no antigo cemitério de Estrela do Sul, encontraram um caixão de zinco que pode ser o dela.
Pra dar dimensão de quando ela morre: 1873 é dois anos depois da Lei do Ventre Livre, e quinze anos antes da Abolição. Ela morre num Brasil que ainda escravizava gente, mas onde o Império já sentia que o sistema ia desabar. Ela viu o Brasil colônia, o Brasil reino unido, o Primeiro Reinado, o Segundo Reinado, e morreu antes da República. E aí vem a parte mais interessante de toda a história, porque ela não termina em 1873. Termina em 1920.
Em 1920, quando o Barreiro de Araxá começou a ser explorado como estância hidromineral, um cidadão chamado Sebastião de Affonseca e Silva decidiu transformar a memória de Ana Jacinta numa atração turística. Pegou tudo que sabia, tudo que tinha de boato, tudo que era oralidade, e começou a divulgar uma versão ampliada da história — a Beja da fonte radioativa, a Beja sedutora, a feiticeira. O personagem do amante Antônio Sampaio, segundo Pedro Popó, foi criação dele. Existiu um Manoel Fernandes de Sampaio, histórico, sim, que morreu assassinado em Araxá em 1836, mas não há prova documental de que tenha sido amante de Beja, nem pai da filha dela, nem que ela tenha mandado matá-lo. Tudo isso é literatura.
Décadas depois, em 1957, Agripa Vasconcelos publicou "A Vida em Flor de Dona Beja". Em 1971, Thomas Leonardos lançou "A Feiticeira do Araxá". Em 1965, o jornalista Assis Chateaubriand transformou o sobrado da Praça da Matriz no Museu Dona Beja — o primeiro de uma série de museus regionais que ele criou pelo Brasil. E em 1986, a Rede Manchete pegou esses livros e criou a novela com Maitê Proença, que cristalizou de vez a Dona Beja que o Brasil inteiro conhece. A novela de 2026, com Grazi Massafera, segue a mesma linha.
E é por isso que, pra entender Ana Jacinta de São José, a gente precisa fazer um exercício difícil: tirar de cima dela mais de um século de romance, samba-enredo, novela, turismo e mito. E olhar pros documentos. Quando fazemos isso, o que vemos não é uma feiticeira. É uma menina sequestrada que se recusou a ser apagada. Uma mulher analfabeta que comprou o sobrado mais visível da praça mais importante de Araxá e colocou o nome dela em todos os papéis. Uma mãe que reconheceu as duas filhas e garantiu que elas tivessem casamento, herança, filhos, posição social. Uma figura que, segundo as evidências, pode ter influenciado o redesenho do mapa de Minas Gerais. Uma anfitriã política que financiou rebelião liberal. Uma dona religiosa que construiu uma ponte só pra ver a procissão da padroeira. A historiografia republicana, que trata o Brasil pré-1889 como um bloco escuro do qual só vale lembrar o que deu errado, deixou Ana Jacinta nas mãos dos romancistas. E eles, claro, fizeram o que romancistas fazem: simplificaram. Transformaram uma mulher complexa numa arquétipo simples. Cortiã. Feiticeira. Lenda. A Dona Beja real é mais difícil de digerir. Ela não cabe no papel de vítima total, porque também foi escravista. Ela viveu o tempo dela. Não cabe no papel de feiticeira, porque os documentos mostram uma mulher de cabeça fria, de cálculo, de fé religiosa no fim. Ela é, simplesmente, uma das mulheres mais incomuns do Brasil imperial. E quase ninguém conhece a versão dela que está nos arquivos. A próxima vez que você passar por Araxá e ver o Museu Dona Beja, ou ouvir uma referência a ela na televisão, lembre: a mulher que ganhou aquele apelido não era uma feiticeira. Era uma menina de quinze anos que viu o avô morrer tentando salvá-la, e que passou os cinquenta e oito anos seguintes construindo, tijolo por tijolo, um mundo onde ela mesma decidisse o que ia acontecer com ela.
A novela conta uma fantasia. Os arquivos contam uma história mais difícil — e infinitamente mais impressionante.
Comenta aqui: você conhecia essa versão da Dona Beja, ou só conhecia a da novela?
melhor novela que vi até hoje
tem que fazer o filme
tem materia feita em 2013 sobre o filme mas não gravaram??
Ah, os banhos de Dona Beija na cachoeira... E a cavalgada nua... E o adolescente na época ligado na novela... Brincadeira, era história paidégua mesmo de acompanhar.
Clássico da Manchete, com Maitê no auge da beleza e talento!