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Tom Zé nasceu em Irará, no interior da Bahia. Lá aprendeu a tocar violão e começou a fazer suas primeiras canções, que eram sobre pessoas e acontecimentos locais. Apesar de não considerar sua voz propícia para o canto, Tom Zé mudou-se para Salvador e conseguiu uma bolsa para cursar a Faculdade de Música da Bahia. Em 1968 foi a São Paulo, levado por Gilberto Gil, para integrar-se ao movimento tropicalista. Porém, pouco após ganhar o festival de música da TV Record com a canção "São Paulo, Meu Amor", Tom Zé caiu no esquecimento, por manter-se fiel aos seus ideais. Foi apenas nos anos 80 que Tom Zé foi redescoberto, quando o artista David Byrne lançou alguns de seus discos fora do país. A partir de então Tom Zé passou a ter uma carreira sólida no exterior, onde tornou-se mais popular do que dentro de seu próprio país.
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Sempre bom homenagear em vida ,grandes nomes da Nossa Cultura.
Viva Tom Zé !!
Ele não é tão popular quanto Gil e Caetano, mas teve muita importância quando foi um dos principais nomes envolvidos num importante movimento musical dos anos 60, a Tropicália. Ele mesmo deixou claro em depoimento que foi o “patinho feio” do grupo, mas não há como negar que ele é uma figura muito ímpar, um cantor e compositor diferenciado, eclético, um autêntico “Show Man”. Naquela época da ditadura, o exílio separou vários integrantes do grupo e cada um seguiu seu próprio caminho, Tom Zé se sentiu excluído da “turma”, mas continuou firme e fez sua própria trajetória. Nesse documentário ele está com sua banda numa turnê pela Europa e a narrativa fica concentrada em seus shows mesclados com as histórias de sua vida. E é muito agradável acompanhar os momentos dessa pessoa tão divertida e carismática. Só não deu pra entender muito bem o surto que ele teve com o pessoal da produção do festival de Montreaux, achei que ficou descabido e fora do tom.
Tom Zé é um personagem perfeito pra dar material pra um bom documentário: artista genial, engraçado pra caramba, boa praça, e, além de tudo, um ser humano que admite imperfeições, mas trabalha para melhorá-las. Vê-lo falando da relação com a esposa, Neusa, da mesma forma e com a mesma paixão com a qual ele fala sobre a arte é um sinal de que ali existe muito amor.
Terminou o doc. e eu fiquei com vontade de sentar pra tomar uma cerveja com o Tom Zé.
Em 1967, a recém fundada MPB - Música Popular Brasileira, tida ainda como um movimento artístico bem mais do que como um gênero musical, saiu às ruas numa manifestação explícita bradando, dentre outras coisas, contra a guitarra elétrica. Artistas como Elis Regina, Jair Rodrigues, Geraldo Vandré, Edu Lobo e até Gilberto Gil levantavam a bandeira do "Defender o que é nosso", transformando a guitarra em um símbolo da invasão estrangeira na cultura nacional.
Em que pese o idealismo de valorizar o patrimônio artístico e cultural brasileiro, Tom Zé nunca teve a pretensão de achar que sabe o que é a essência da música nacional e o que é estrangeira. O que é instrumento gringo e o que é instrumento tupiniquim. Pelo contrário, sempre acreditou que o valor não deve ser dado aos meios, mas sim ao conteúdo que reflui - esse sim, portador da identidade cultural. O artista não deve colocar seu ego (e muito menos um instrumento musical) à frente de sua obra. Essa e outras opiniões estão semeadas pelo filme "Fabricando Tom Zé", obra de Décio Matos Jr.,que acompanha momentos interessantíssimos com o artista - ora camuflado em sua equipe, no decorrer de uma turnê europeia que passa, dentre outros lugares, por Veneza, Turim e Paris; ora explicitamente, com entrevistas bem humoradas e reveladoras.
Não há possibilidade de se fabricar um Tom Zé. Porque "fabricar" - um processo industrial e dependente de planejamentos, projetos, moldes e intenções objetivamente elaborados - pressupõe a replicabilidade. E Tom Zé é único. Daí a ironia do título da obra de Décio que, a pretexto de tentar explicar o artista, faz uma desconstrução de seu modo de vida e, principalmente de criação musical na tentativa bem sucedida de valorizar sua vida e sua obra.
Nesse contexto, Tom explica a uma câmera sempre presente, mas muito mais voyeurista do que instigante (ao contrário dos filmes de Eduardo Coutinho, por exemplo), que as suas deficiências enquanto artista padrão o levaram a desenvolver outras formas de expressão musical. Sua deficiência enquanto instrumentista ou cantor o forçaram a procurar novos instrumentos e novas vozes capazes de expressar de forma fiel sua ânsia em ser escutado. Em suas palavras, se existiam tocadores de guitarra e de enceradeira, e se já havia muitos bons guitarristas, seria ele o primeiro tocador de enceradeira. Às favas a guitarra elétrica. Ou o piano, ou o trombone, ou qualquer forma de limitação do artista em si.
Como um dos expoentes do movimento Tropicalista na década de 60 e 70, Tom Zé acabou esbarrando no ostracismo com a ditadura e o fim do movimento. "Nunca tive problemas com a ditadura. Mas que ela me fodeu, fodeu", declara a certo ponto, contando sobre seus embates com a censura. Desvalorizado por seus próprios pares, Tom Zé nunca esteve no centro das atenções. Até hoje, seu nome é muito mais exaltado no exterior do que dentro do próprio país. Entrevistas com o artista em sua terra natal, que lhe traz, até o hoje, os bons ares e a calma da vida interiorana, se contrastam na tela com grandes públicos em festivais europeus. Mas isso nunca foi problema para ele.
Uma sequência em especial - uma das melhores do filme - retrata uma briga entre ele, sua banda e um técnico de som do Montreux Jazz Festival, colocando para fora todo o inconformismo de Tom com a arrogância dos países desenvolvidos em relação à cultura brasileira. Afinal, talvez sua própria vida e obra reflitam, de maneira direta, os empecilhos que o estereótipo do subdesenvolvido carrega nas costas para se afirmar no exterior e no próprio país. Mas não é preciso atear fogo às guitarras elétricas. "Eles só não podem nos tratar de forma vil", declara, inconformado.
Com variações entre arrogância ("o rock nacional é um rock traduzido, essa é a verdade") e humildade, principalmente nos relacionamentos pessoais ("eu to tentando, na minha vida, ter a felicidade de trabalhar sem arrebentar meu estômago, nem tratar a Neusa [sua esposa] mal"), Décio mostra que Tom Zé é um ser humano comum, mas um artista único, com uma obra vasta e ainda bastante inexplorada.
Não é possível fabricar Tom Zé. Ironicamente, no final da década de 80, David Byrne, um produtor norte-americano, sem saber que era exceção, conseguiu dimensionar para o próprio Brasil o artista que não depende de instrumento algum para criar música, e que já existia como gênio, "made in brazil", em países que sabem valorizá-lo. O cara que veio explicar para confundir.
Para mim, esse cara é o limite da maestria artística.
Como a um Tarkovsky no cinema, o Tom Zé é o compositor baiano mais fodido, mais desrespeitado de que se tem notícia e certamente o mais injustiçado, uma vez que caiu num puta ostracismo por conta da forma de suas músicas, do timbre de sua voz e da própria experiência de sua composição. Manteve-se fiel ao Tropicalismo, às teorias modernas, às destruições artísticas e ao caos geral, refletindo metanarrativas semióticas, revisitando e distorcendo melodias, e muitas vezes estudando e destroçando a própria Música.
Poucos tiveram a coragem de seguir uma carreira defendendo política e ideologicamente um movimento tão indefensável quanto a Tropicália. Nunca perdeu a lucidez, e vai de encontro, a cada dia que passa, mais e mais ao sublime da genialidade, se distanciando em linguagem e forma de todos nós, meros espectadores, mantendo-nos ligados às suas palavras desconexas e aos seus instrumentos não-convencionais no palco. Ele é o limite da maestria artística - o ápice a que um artista chega quando morre; transcende o tempo, as pessoas, as coisas, e se torna parte do Todo, senão o próprio. A mente intranquila de Tom Zé, condenada a arrebentar melodias, descentralizar tônicas e destruir ritmos compostos, manda "pra porra" qualquer autoritarismo sobre o seu trabalho. Testemunha ocular da morte de Deus, o filho tropical bastardo reinventou a abordagem urbano-industrial na música brasileira e destituiu o próprio tempo de seus componentes estruturais básicos - as pessoas e o mundo.
Um dos poucos que chegou lá, onde o tempo é estático e a arte é. Como disse Dalí, em sua frase célebre, "Eu não uso drogas. Eu SOU a droga".
Tom Zé é a arte inteira.