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SONHO É DESTINO.
Algumas vezes eu fiquei sem acreditar no texto desse filme. Sem acreditar que alguém - mesmo um roteirista como o Linklater - poderia ter escrito algumas dessas linhas. "Waking Life" é um mosaico de diálogos filosóficos que vão desde o livre-arbítrio à morte, do estado de sonho ao estado desperto. "Acordar para a vida" é estar presente, viver em criatividade, é não estar com sono ao existir - e esse filme passeia por essas ideias como uma pluma ao vento, dando espaços para respirarmos no meio de seus cenários vibrantes e caóticos; existe um problema com as múltiplas técnicas de animação utilizadas aqui, e com a tontura advinda delas, até porque tem cenas em que as coisas flutuam, tudo parece lisérgico e nada está no "chão" - porque nada efetivamente está, não é? "A ideia é permanecer num estado de partida, enquanto se está sempre chegando". Metafísica, sofismas e metáforas: "Waking Life" é recheado dessas reflexões sobre a condição humana, ainda que por vezes nos canse em seus diálogos um pouco longos. Não se trata de um filme para ser visto uma única vez, é um material para ser revisitado a partir da sua curiosidade em acordar com ele. Apesar dessas questões com a animação e a duração de alguns trechos, é certamente um filme que brilha pelo seu texto e extrapola para fora de si, como uma mão animada que se ergue da tela e nos toca na realidade - como toda peça de arte que realmente vale a pena. Eu já imaginava que viveria um amor assim, mas a gente nunca sabe quão fundo vai o sonho enquanto a gente está dormindo - e a gente nunca está, realmente, dormindo.
A gente está sempre sonhando.
"Alguns dizem que você não consegue entender a vida e viver simultaneamente. Eu não concordo inteiramente com isso. O que quer dizer, eu não discordo exatamente. Eu diria que a vida entendida é vida vivida."
uau. não sei se são os exageros tecnológicos, o humor refinado ou a produção dúbia, ora apresentando uma clara maquete de papelão, ora trazendo tomadas impressionantes com carros em alta velocidade - o fato é que 'Brazil' é um filme difícil de esquecer. ele parece uma mistura de '1984', do Orwell, com 'O Processo', do Kafka, trazendo um futuro distópico e burocrático em que a tecnologia existe menos para facilitar o progresso humano e mais como uma parafernália inútil no meio do caminho - apesar de estar em todo lugar. a ineficácia dos aparatos do Estado, a hiper-vigilância, o terrorismo, a tortura: 'Brazil' é uma distopia tecnocrática sem um ditador, e se ela tem um vilão, ele só pode ser o conformismo com o regime. este filme não parece fazer uma crítica às ditaduras que, inclusive, estavam ainda em vigência à época de seu lançamento, limitando-se a contar uma história de amor um pouco confusa e também interpelada por todo este universo de papelada e perseguição. não me entenda mal; é um filme excelente nos seus primeiros atos, mas acho que ali pelo último terço ele acaba ficando longo demais para o seu próprio bem - essa história não precisava de duas horas e meia para ser contada, mas entendo a importância de firmar bem o universo em que ela se passa e os personagens excêntricos e desconcertantes que nele habitam. no mais, é criativo a ponto de nos instigar, o que eu sempre acho maravilhoso num filme, e para quem gosta do gênero, é um prato cheio - ainda que eu ache os livros do Orwell e do Kafka obras mais completas sobre os temas da ditadura e da burocracia, respectivamente. ainda assim, vale a conferida, com certeza!
assistido em 30/07/2025!
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nota pouco animadora
pra 18 horas investidas eu nao esperava menos de 10
você falou em gaspar noé, e ocorreu-me uma das letras mais lindas do makalister, a terça parte da noite não dormi.
não me relaciono bem com os filmes dele, mas me relaciono muito bem com essa letra.
o resto a gente fala quando eu voltar.
tô sem whats aqui no além, mas isso há de ser remediado em breve.
dá um beijo no seu cachorro por mim, diz que eu tô saudade da voz dele e dos áudios intermináveis.
ei! preciso te dizer que tenho visto muito fellini, mesmo. penso nesses filmes quase o tempo inteiro. a verdade é que todos os outros diretores ficaram desinteressantes (menos o nosso, você sabe quem). quero te trazer pra esse mundo, e vou! me guarde.
caetano disse que a primeira vez que assistiu la strada, lá nos interior da bahia, chorou um dia inteiro. eu só não chorei tudo isso porque não tenho um dia inteiro livre há muito tempo.
xêro, um atrás do outro.
o rei está nu! mas eu desperto, porque tudo cala frente ao fato de que o rei é mais bonito nu.
e aí, já me esqueceu ou ainda não? eu, mesmo daqui do além-túmulo, não resisto a tentação de te indicar os tesouros cinematográficos que me humanizam um pouco e sempre. esse aqui conversa muito com sonata de outono.
https://filmow.com/lavoura-arcaica-t8099/
beijo nos olhos verdes mais verdes deste site.
"A todos aqueles cujo cérebro se decomporá antes do coração".
inspirado na história real de sua mãe, VORTEX, de gaspar noé, é talvez o filme mais verdadeiro e humano do diretor. uma parte do casal de idosos está, gradativamente, perdendo sua memória, sua identidade, sua vida, e ambos precisam lidar com isso da forma como puderem. entre diálogos curtos, cenas "tediosas" da terceira idade e excelentes atuações por parte de todos, o filme se firma como um desamparo silencioso e, infelizmente, inevitável. a tela dividida em dois separa o casal entre a doença e o desespero, entre o medo e a falta, entre a memória e a saudade. é impressionante que noé tenha pedido ao argento que inventasse o personagem na hora, tendo todas as suas falas improvisadas ao longo do filme. VORTEX é muito mais assustador que outras produções do diretor porque é sincero - e parte de uma realidade palpável, gerando identificação com a gente. aqui, não há o intuito de chocar e fazer as pessoas falarem o seu nome; há, em seu lugar, honestidade. foi a primeira vez que saí de um filme dele e tive vontade de chorar, e acho que isso diz muito. um dos melhores do gaspar noé, e certamente um que a gente não vai revisitar tão cedo.