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Duração
Um homem casado, respeitável e trabalhador, ao beijar na boca um outro homem que agoniza vítima de atropelamento, vê sua vida desmoronar quando a imprensa sensacionalista passa a explorar o caso e ele é pressionado por seu sogro, e tem seu casamento ameaçado.
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Um bom filme, mas é impossível não enxergar com decepção as omissões do texto do Nelson Rodrigues e a tentativa de imitar — quase como paródia, pela monotonia — o estilo existencialista inconfundível do cinema europeu da época. Isso, sozinho, não seria exclusividade do filme, nem demérito por si só, já que o estilo foi muito influente e não só no Brasil. Ocorre que o que se perde não é só o perfil tipicamente carioca da peça, mas também a riqueza dramatúrgica da condução narrativa e das palavras do seu autor.
Há mudanças que se pode questionar se não foram limitações moralistas e políticas impostas ao cinema nacional do período, como ter suavizado a brutalidade policial, ou certamente as alterações severas na última cena; mas há outras, como a nova trama do repórter, que ficam completamente perdidas e subtraem muito do tempo que poderia ter sido dedicado às relações de Arandir com cada membro da família, e que nem por isso é uma adição que dialoga muito bem com os temas da obra.
É uma adaptação curiosa, até pensando na proximidade ao ano de lançamento da peça, e que tem seus méritos particulares — a inspiração expressionista, ainda que novamente indicativa da busca pela sensibilidade europeia, estabelece bem o estado de paranoia e vigilância social —, mas que carece do calor carioca e que nunca chega aos pés do filme de Bruno Barreto e do roteiro de Doc Comparato, para não dizer do texto original de Rodrigues.
Mundo rodrigueano sem concessões.
E que elenco, hein ?
Após ler a peça original, revi o filme e fui mais indulgente em relação ao mesmo, apesar de abominar os exageros intervencionistas de caráter machista (vide a dança demorada da Betty Faria). Na verdade, o diretor até que tenta ser fiel ao texto rodriguesiano, mas era audacioso demais trasladar aquilo em diálogos audiovisuais. Não foi o caso deste diretor. O elenco é esforçado mas está aquém da entrega requerida pelos personagens. O expressionismo das imagens iniciais e da continuidade narrativa do jornalista em crise de consciência possui seus méritos enquanto adendos próprios à trama adaptada. Mas... A meia-hora final decai muito em relação ao início quase fiel. Muitas aparições breves - denotam a falta de confiança do diretor em seu próprio tino condutivo! :(- WPC>
Nelson Rodrigues, despido de qualquer pudor ou hipocrisia, expõe o lado perverso e irresponsável da natureza humana. Interessante como temos um filme atual e que expõe a atualidade com seus preconceitos mais cruéis. A mídia cada vez mais sensacionalista e que adora criar factoides, a polícia corrupta, a sociedade que não sabe criar uma opinião própria e vomita tudo que aparece nos jornais na Tv e a facilidade de transformar algo duvidoso em verdade absoluta. A plena homofobia e os jogos de máscaras humanas. Entretanto, a direção formal e o tom carregado de "teatralismo" impede maiores provocações numa trama que ainda rende ecos sociais. A versão de 1980 de Bruno Barreto tem leitura mais contundente, com Tarcísio Meira e Ney Latorraca mais sensível e roteiro bastante superior.
Imagino a polêmica que esse filme causou na época. Adaptado de uma peça de Nelson Rodrigues, não teria como ser diferente!