Após Sokichi não conseguir mais dar dinheiro o suficiente para que sua amante, Kikuyo, cuide dos três filhos que tiveram juntos, ela deixa as três crianças sob a guarda de Sokichi e sua esposa ciumenta - e desaparece.
Poucas obras conseguiram me provocar um desconforto tão visceral quanto "O Demônio" (1978), de Yoshitarō Nomura. Há uma crueza brutal que permeia cada cena, um desamparo que se infiltra no espectador, tornando a experiência quase sufocante. Mas entre todas as passagens marcantes, há um instante que transcende o simples desconforto: o abandono da menina na torre. É nesse momento que a fragilidade humana atinge seu ápice e o filme revela sua verdadeira face — um retrato cruel da negligência e da falência moral.
Dos maiores traumas cinematográficos que já experienciei, KICHIKU (O Demônio, 1978) de Yoshitaro Nomura é uma obra cruel e fascinante, pois aborda um dos grandes tabus de representação explícita no cinema - a violência infantil.
E, visto o impacto emocional deixado pelo abuso e o sofrimento das três crianças durante a sessão, surpreendo-me ao ver a falta de reações de outros cinéfilos para com este filme e o fato de não ser tão lembrado como deveria. É um verdadeiro questionamento dos limites da violência na ficção em um contexto histórico particular. A industrialização e o progresso econômico da época ainda estavam marcados pela memória do pós-guerra e dos sacrifícios para reconstruir a nação, mas também, no que diz respeito ao "demônio" em questão, pelas histórias reais de crianças abandonadas por famílias em precariedade.
Yoshitaro Nomura nos propõe uma experiência tão emocionante quanto às outras obras que ele adaptou de narrativas de investigação policial do célebre escritor Seicho Matsumoto. A parceria Nomura/Matsumoto é genial. Em "O Demônio", também temos o brilhante Ken Ogata que à princípio não pretendia aceitar o papel, mas acabou mudando de ideia, trazendo uma interpretação psicologicamente multifacetada para o seu personagem e recebendo vários prêmios de melhor ator. Graças a este papel, Ogata pôde interpretar em seguida diversos personagens complexos no cinema autoral dos anos 80 e 90.
Assim como em The Shadow Within (1970) do mesmo diretor, percebemos títulos misteriosos e indecifráveis. Como em japonês, não temos acordo de substantivo no plural, o "demônio" poderia ser um ou vários. No entanto, Kichiku (鬼畜) quer dizer selvagem, bruto, etc, mas quem? A tentação é grande de querer qualificar o protagonista masculino, porém Nomura relata que partiu do intuito de mostrar a interferência da maldade no cotidiano de pessoas em precariedade. O título internacional sugere um filme de horror, apesar de que o sobrenatural em si é quase ausente da história. Pelo contrário, é do olhar do cotidiano e das banalidades de uma famÍlia disfuncional que surge o macabro.
Poucas obras conseguiram me provocar um desconforto tão visceral quanto "O Demônio" (1978), de Yoshitarō Nomura. Há uma crueza brutal que permeia cada cena, um desamparo que se infiltra no espectador, tornando a experiência quase sufocante. Mas entre todas as passagens marcantes, há um instante que transcende o simples desconforto: o abandono da menina na torre. É nesse momento que a fragilidade humana atinge seu ápice e o filme revela sua verdadeira face — um retrato cruel da negligência e da falência moral.
Dos maiores traumas cinematográficos que já experienciei, KICHIKU (O Demônio, 1978) de Yoshitaro Nomura é uma obra cruel e fascinante, pois aborda um dos grandes tabus de representação explícita no cinema - a violência infantil.
E, visto o impacto emocional deixado pelo abuso e o sofrimento das três crianças durante a sessão, surpreendo-me ao ver a falta de reações de outros cinéfilos para com este filme e o fato de não ser tão lembrado como deveria. É um verdadeiro questionamento dos limites da violência na ficção em um contexto histórico particular. A industrialização e o progresso econômico da época ainda estavam marcados pela memória do pós-guerra e dos sacrifícios para reconstruir a nação, mas também, no que diz respeito ao "demônio" em questão, pelas histórias reais de crianças abandonadas por famílias em precariedade.
Yoshitaro Nomura nos propõe uma experiência tão emocionante quanto às outras obras que ele adaptou de narrativas de investigação policial do célebre escritor Seicho Matsumoto. A parceria Nomura/Matsumoto é genial. Em "O Demônio", também temos o brilhante Ken Ogata que à princípio não pretendia aceitar o papel, mas acabou mudando de ideia, trazendo uma interpretação psicologicamente multifacetada para o seu personagem e recebendo vários prêmios de melhor ator. Graças a este papel, Ogata pôde interpretar em seguida diversos personagens complexos no cinema autoral dos anos 80 e 90.
Assim como em The Shadow Within (1970) do mesmo diretor, percebemos títulos misteriosos e indecifráveis. Como em japonês, não temos acordo de substantivo no plural, o "demônio" poderia ser um ou vários. No entanto, Kichiku (鬼畜) quer dizer selvagem, bruto, etc, mas quem? A tentação é grande de querer qualificar o protagonista masculino, porém Nomura relata que partiu do intuito de mostrar a interferência da maldade no cotidiano de pessoas em precariedade. O título internacional sugere um filme de horror, apesar de que o sobrenatural em si é quase ausente da história. Pelo contrário, é do olhar do cotidiano e das banalidades de uma famÍlia disfuncional que surge o macabro.