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Data de lançamento
14 Maio 2025Duração
Um jovem poeta deixa a namorada na casa dos pais dela e fica impressionado com o tamanho da casa. Ele encontra o pai dela, conhece a mãe e a irmã dela, e todos acabam passando um longo dia juntos, revigorados por conversas, comida e bebidas.
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Hong Sang-soo vai direto ao nervo da tensão entre a fachada social polida e o desejo cru. Ao assistir, é impossível não traçar um paralelo com a lógica do tatemae japonês ou do chemyon coreano (aquela exigência sufocante de manter a "face" e a reputação públicas intactas). Mas o grande trunfo do filme é evidenciar que essa pressão esmagadora não é um fardo universal, e sim um fenômeno com forte recorte de classe, profundamente enraizado nas dinâmicas da classe média e da elite intelectual. Sustentar esse teatro social custa caro: exige tempo, capital cultural e, acima de tudo, um rigoroso controle sobre o espaço material. Se olharmos para a formação dessas sociedades, percebemos que a apropriação dessa moralidade foi um projeto de status. Códigos de conduta que nasceram em elites históricas (como a aristocracia Yangban na Coreia ou a classe samurai no Japão) foram adaptados pela burguesia ascendente durante os processos de modernização urbana.
É exatamente essa dinâmica que explica a hipocrisia e a inércia que vemos no filme, brilhantemente sintetizadas na figura da irmã reclusa. A sua reclusão escancara o que podemos chamar de "privilégio do colapso". O próprio ato de se isolar do mundo diante de uma crise existencial exige infraestrutura. Trancar-se em um quarto para se tornar a grande juíza da moralidade alheia requer uma família com renda suficiente para sustentar um adulto improdutivo. O pobre, quando entra em colapso, não tem esse tempo; ele precisa estar no trem lotado no dia seguinte. A ansiedade pelo status aprisiona esses personagens. A classe média intelectualizada vive no meio-termo: tem uma reputação a perder, mas não possui a segurança financeira inabalável dos super-ricos. Por isso, o controle milimétrico do comportamento e da etiqueta à mesa vira a sua principal moeda de troca.
A genialidade de Hong Sang-soo é apontar seu microscópio e suas longas conversas regadas a soju justamente para esses poetas, diretores e professores. Eles formam essa elite cultural que passa a vida inteira polindo a própria vitrine e organizando seus espaços domésticos para parecerem impecáveis, mas que, nos bastidores e no cansaço da convivência, invariavelmente desmoronam sob o peso da própria invenção.
Bom filme sobre o natural e inevitável conflito de gerações, envolvendo os Millennials, na moderna e rica Coreia do Sul... 🙄🙄🙄
A cópia do filme a que tive acesso estava com um problema de legendas, que invertia os pronomes utilizados pelos personagens, o que aumentava a impressão de comunicação truncada entre eles, em termos geracionais. Aquilo que, em outros filmes, era uma condição de classe quase involuntária (indisfarçada, mas não tematizada), aqui, surge como ponto nodal, travestida da típica preocupação paterna quanto às pessoas com quem suas filhas se relacionam. Mais que beber e comer, como sempre fazem os personagens sangsoonianos, aqui eles fumam bastante -e se exaltam, numa seqüência climática de bebedeira. As adoções tangenciais da miopia do protagonista, convertida em "subjetiva indireta livre" via câmera, são magistrais e, se as conversas parecem leves, em seus arrodeios verbais de sociabilização, são também violentíssimos no caráter hipócrita da (in)aceitação familiar/profissional. Muito bom de ser conferido para quem já passou por aquilo (quem nunca?). Elenco muitíssimo bem entrosado, como de praxe, e aproveitamento sagaz da trilha musical, em instantes mui estudados de estranhamento ou imersão. Belezura de filme, mais simples que outros trabalhos do diretor, mas igualmente sedutor. (WPC>)
Um curioso filme para se fazer no ano em que irá se tornar pai novamente
Indicado ao Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2025, o novo filme do constante diretor sul-coreano Hong Sang-soo acaba de estrear nas salas brasileiras pela Pandora Filmes. Houve a primeira exibição do longa no Festival do Rio, em outubro passado, e agora a comédia dramática chega ao circuito. Mas recomendo apenas para quem curte fitas de arte e que esteja acostumado ao cinema minimalista do veterano cineasta – ele também é roteirista e produtor - que costuma rodar de dois a três filmes por ano, muitos deles curtinhos, que não ultrapassam 70 minutos de duração. Sang-soo optou aqui por uma metragem maior, de 108 minutos, onde celebra uma história de encontros e desencontros, como faz com maestria em seu estilo particular – ele roda tudo em poucos ambientes, sem close no rosto dos personagens, que costumam aparecer de lado, com longas conversas na mesa e pequenos conflitos humanos. Um jovem poeta passa alguns dias na companhia da namorada e dos pais dela – o pai, fissurado por carros antigos, e a mãe, uma poetisa que deixou a carreira. Ele está hospedado na charmosa residência dos futuros sogros, onde lá também estão as irmãs da namorada. Aquele grupo familiar conversará por longas tardes e noites assuntos diversos, ao lado de bebidas e fartas comidas. Sang-soo já demonstrou ser um hábil contador de histórias rotineiras que se passam em núcleos familiares e relações entre amigos, e aqui não faz diferente, retornando com um de seus atores preferidos, o veterano Kwon Hae-hyo – eles fizeram juntos cerca de 10 obras, dentre elas ‘A mulher que fugiu’ (2020) e ‘As aventuras de uma francesa na Coreia’ (2024), ambos lançados pela Pandora. É, novamente, uma obra cíclica, em torno de um pequeno grupo de pessoas do nascer ao pôr do sol que se encontram, comem juntas, andam de lá para cá, resolvem conflitos, e no outro dia tudo se repete. Sang-soo é um diretor que aprendi a gostar, aplaudido em festivais, premiadíssimo, que encontrou no Brasil um seleto número de seguidores – muitos dos filmes dele são exibidos na Mostra Internacional de Cinema de SP, onde passei a vê-lo. Agora o filme disponível para ver na tela grande pela Pandora - aliás, a Pandora, em parceria com o ‘Belas Artes a la Carte’, streaming do cinema Belas Artes, acaba de lançar no catálogo outro de Sang-soo, este exibido em Cannes, ‘De frente para você’ (2021 – também com o ator Kwon Hae-hyo). Está disponível para os assinantes da plataforma, e lá no ‘Belas Artes a la Carte’ há disponível vários títulos de Sang-soo, como ‘O dia depois’, ‘A câmera de Claire’, ‘A mulher que fugiu’ e ‘Encontros’.
POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom