A Suprema Corte da Justiça tem sua própria vida. Uma mulher é encontrada morta - vítima de um terrível assassinato. Um mendigo veterano do Vietnã é acusado. Kathleen Riley (Cher) é uma atarefada advogada pública de Washington que precisa de férias, mas foi designada para mais um caso, e não apenas de um crime ou criminoso comum. O lobista Eddie Sanger (Dennis Quaid) foi selecionado como jurado logo no momento em que este grande caso iria à júri. Durante o processo, Eddie descobre uma prova que pode ajudar a defesa de Kathleen e a contacta fora do tribunal... uma clara violação da lei. Uma prova bizarra leva Kathleen a uma perigosa procura em Washington, nas entranhas do próprio governo. E quanto mais perto ela se aproxima das respostas, mais perigo ela corre. Cher e Dennis Quaid tomam a lei com as próprias mãos, neste suspense espetacular em que tudo é revelado na corte... menos a verdade.
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Marília Mendonça: Sentimento Louco
Achei monótono.
Uma boa atuação da Cher, que estava no auge. Um filme de tribunal que tem suas falhas, mas o suspense e a revelação final compensam. 25/07/2025
Tem filmes que se esforçam para parecer complexos, se embolam em reviravoltas, e no fim você sai com a cabeça doendo como se tivesse feito uma prova. Suspect não é um desses. Ele escolhe outro caminho: o da tensão quieta, do flerte perigoso, do romance ilegal que ameaça desmoronar um tribunal inteiro — e que, mesmo assim, exerce um magnetismo clandestino — e quanto mais errado parece, mais difícil é desviar o olhar.
Há um assassinato de um juiz federal, seguido pela morte de uma mulher que talvez soubesse demais. Um homem surdo é acusado. Uma advogada fatigada (Cher) é designada para defendê-lo. E um jurado — veja bem, um jurado — resolve que vai ajudar. Eddie Sanger, interpretado por Dennis Quaid, é lobista nas horas pagas e detetive nas horas vagas. Ele ultrapassa protocolos com a precisão de quem conhece as regras só pra saber exatamente onde ignorá-las. Sua curiosidade começa ética, mas logo atravessa a linha do desejo. O roteiro não perde tempo tentando justificar por que ele se arrisca tanto. E ainda bem. O que importa é que é bom vê-los juntos, se aproximando quando tudo grita que deveriam se afastar. A química entre Cher e Quaid é incômoda no melhor sentido. A relação deles tem algo de perigoso e deliciosamente errado — como folhear um dossiê confidencial com os dedos sujos de manteiga. A cena na biblioteca, silenciosa e aflitiva, é o ápice desse jogo de riscos éticos e olhares criminosamente cúmplices. O juiz ronda como uma sombra, o livro certo está ao alcance dos olhos, e a tensão se espalha como cheiro de pólvora num tribunal sem saída de emergência.
Há também uma trama paralela envolvendo uma congressista, uma votação decisiva e um projeto de lei sobre leite (sim, leite). Parece algo deixado no roteiro e esquecido na montagem final. Talvez sirva para ambientar o universo político do personagem do Quaid ou indicar que a teia de poder vai além do tribunal — mas sua presença é frágil, quase um acidente narrativo. E mesmo com esse fio solto, o filme não se perde. Pelo contrário: ganha fôlego nos momentos em que abandona o jogo institucional e mergulha na tensão pura. Quando Kathleen corre sozinha pelos corredores vazios do tribunal, com a vida e a verdade na ponta dos dedos, tudo o que parecia disperso encontra uma direção. A ameaça é real, o perigo é palpável, e o silêncio tem peso de sentença.
A revelação final talvez soe previsível para quem assiste com papel e caneta, anotando pistas. Mas esse não foi meu caso. Eu estava investido demais nos riscos morais, nos olhares entre estantes, nas perguntas sussurradas com medo de serem ouvidas. E quando a verdade aparece, não causa espanto — causa alívio. A satisfação não vem da surpresa, mas da coerência: de perceber que tudo que estava no ar finalmente encontra pouso.
Suspect pode até ter tropeçado em algumas ideias secundárias, mas entregou o essencial com precisão e charme torto. A narrativa prende sem algemas, seduz sem exagero e resolve sem pressa. É um suspense de arestas suaves, onde a tensão vem menos da pergunta “quem foi?” e mais do “como é que eles vão sair dessa?”. O veredito? Culpado de charme e tensão. Sentenciado a permanecer na memória.
19.11.1991
25.05.1991